Capítulo XXVI
O lugar era escuro e frio. Luna passou as mãos pelas paredes úmidas; a escuridão a sua volta não lhe permitia ver nada ao redor. Tateou pela parede de pedra até esbarrar com alguma coisa estática e grande, escorregou os dedos sobre sua superfície, notando que era lisa e macia, diferente da parede. Seguiu um pouco mais com os dedos por sobre o objeto, e descobriu se tratar de uma cama. Havia lençóis sobre ela, pôde sentir o tecido sob seus dedos, sentou-se.
Seu corpo doía imensamente, abraçou-se tentando trazer algum conforto a si mesma. A umidade do lugar penetrava em seus ossos, começou a recear sobre seu futuro. Havia sido retirada de dentro do Ministério e ninguém sabia seu paradeiro, nem ela mesma. Seus olhos haviam sido vendados ao ser trazida para aquele lugar, fosse aonde quer ele fosse e por mais que lutasse contra seu medo aumentava. Não sabia como Snape estava; não sabia se Gina conseguira pegar as cartas, tudo parecia distante e envolto em sombras. O cansaço pesou sobre suas pálpebras e ela rapidamente cedeu ao sono. No que Luna julgara algumas horas depois, a porta foi aberta. A escuridão ainda a rodeava - parecendo ser sua companheira durante o tempo que ali ficasse -, e envolveu o vulto a sua frente. Seus olhos se acostumaram a pouca claridade vinda de fora do aposento, mas ela pôde ver que era o ministro que a fitava da porta agora entreaberta. Infelizmente, não teria como ignorá-lo por muito tempo, e esperou que ele falasse.
― Srta. Lovegood – disse suave –, como se sente? Passou bem a noite?
Luna não disse nada, era evidente que ele não queria uma resposta, apenas deixou-se encará-lo em azuis escuros.
― Vou aceitar seu silêncio como um sim – continuou com voz de seda. – Eu espero que aproveite minha hospitalidade, apesar de não ter o costume de receber hóspedes, principalmente moças.
― Imagino que não – rebateu Luna –, sua civilidade para com as damas está bem aquém das que tem como Ministro. Não que seja um exemplar, não creio que o definiria dessa forma... mas assim mesmo, acho que todos esperamos certas posturas de alguém tão proeminente, não acha? – Percebeu que Scrimgeour se empertigara na porta como se atingido por um raio, e acrescentou: – O que foi Ministro? Sente-se mal?
― Espirituosa – disse controlando-se. – Diga-me, aprendeu a ter uma língua ferina assim desde quando? – ele deu um passo para dentro do aposento, e sua voz ganhou um tom ameaçador. – Talvez tenha sido tempo demais convivendo com seu ex-professor...
― Eu não veria por esse lado – respondeu com malícia -, a verdade é uma só, sempre. Imutável.
― E qual seria a verdade sobre o professor Snape? – riu. – Ele é um homem acima do bem e do mal, eu presumo...
― Não – disse firme -, mas é um homem que possui qualidades infinitamente melhores que as suas, e possui algo que você nunca terá: caráter.
― Ouça bem, senhorita, se ele continuar insistindo em fugir de mim – rosnou -, eu é que terei uma coisa que ele jamais possuirá novamente. – Scrimgeour se aproximou de Luna, depositou um beijo suave em sua bochecha e sussurrou-lhe: - Acho até que começo a preferir vê-lo fugindo, pulando de toca em toca, como uma lebre assustada. – Passou a mão pelo rosto dela. - É um bom preço a pagar por uma peça tão mimosa – crispou seus lábios.
― Tire suas mãos de mim! – esbravejou Luna. – Ele não virá, Ministro. Severo não virá atrás de mim.
― Para seu bem, eu espero que ele venha – rebateu mordaz, puxando-a pelos cabelos compridos até seus lábios. Luna o encarou e ele murmurou: – Sabe, eu costumo ser um amante muito mal – deixou a língua escorregar pelo rosto dela parando a centímetros dos lábios e sorriu. Um sorriso perverso e insano. Em passos largos ele foi até a porta e a fechou num estrondo. Luna fechou os olhos deixando que as lágrimas escorressem por seu rosto. Seus pensamentos rodopiaram em sua mente: Severo, me ajude...
Os olhos de Harry encararam os de Gina, a namorada o fitava aturdida, assim como Rony e Hermione.
― Deixa ver ser entendi... – disse Rony. – Você vai ajudar o Snape?
― Vou – respondeu curto.
― Harry, desculpe-me, mas há algo que está omitindo de nós – retrucou Hermione.
― Eu acho melhor você esclarecer tudo, de uma vez por todas – disse Gina. Harry lançou-lhe um olhar compreensivo e assentiu com a cabeça.
― O fato é que tenho motivos fortes para me colocar nessa posição – disse com cuidado. Não sabia como os amigos receberiam aquela notícia, ele mesmo demorara a aceitá-la. Prosseguiu no mesmo tom: - Snape é meu pai.
O rosto de Rony se contorceu numa careta de repulsão, enquanto os olhos de Hermione se abriram surpresos, piscando várias vezes.
― Bom – Hermione retomou o diálogo -, isso explica muitas coisas.
― Isso não muda o fato de que ele foi um Comensal – protestou Rony –, e que matou Dumbledore.
― Ele teve seus motivos, Ron – rebateu Harry. Era engraçado defender Snape na frente de seus amigos, mas se sentiu bem ao fazer isso.
― Eu acho isso incrivelmente interessante – ponderou Hermione -, seu pai está vivo, Harry.
― Quem iria querer Snape como pai? – perguntou Rony incrédulo.
― Rony! – esbravejou Gina.
― O que foi? – disse ainda aturdido – É sério! A lula gigante seria um pai melhor.
― Obrigado, Ron, pelo seu apoio – falou Harry -, mas eu estou feliz com o fato dele ser meu pai.
― Isso sim é positivamente estranho – rebateu Rony. – Ele te enfeitiçou?
― Rony, você quer se calar? – ordenou Hermione. – Deixe Harry explicar a história, por favor.
Rony se encolheu ante as palavras de Hermione e Gina sorriu. Harry, então passou para um breve relato dos fatos ocorridos na noite em que Voldemort morreu e na anterior. Os olhos dos amigos o acompanhavam atentamente, e ao final do relato, Hermione disse:
― Por que fez isso Harry? – olhou-o preocupada. – Por que escondeu o que Snape fez naquela noite?
― Tive medo – disse sinceramente -, não queria acreditar que era verdade o que Luna havia revelado.
― Eu também não iria querer acreditar nisso – anuiu Rony.
― Entretanto, Harry, está disposto a mudar isso – ponderou Gina –, e há Luna, precisamos ajudá-la. Não sabemos o que aquele louco do Scrimgeour pode estar aprontando.
― Papai disse que ele anda cada vez mais estranho – disse Rony.
― Qual é o plano, Harry? – perguntou Hermione.
― A Skeeter voltou a trabalhar para o Profeta, e sabemos o quanto é obstinada por uma matéria sensacionalista – explicou Harry. – Snape quer que eu ofereça as cartas à Scrimgeour em troca de Luna...
― E quando você o fizer, Rita deve estar presente, correto? – completou Hermione com os olhos brilhantes de satisfação.
― Sim, vou arrancar dele a confissão de que está deliberadamente tentando destruir provas que inocentariam Snape – confirmou Harry -, e que está mantendo Luna presa.
― Vocês acham que isso vai funcionar? – inquiriu Rony.
― Do jeito que Skeeter é doida por um furo de reportagem – ponderou Gina -, tenho certeza que sim.
― O plano é bom – concordou Hermione -, mas arriscado, se Scrimgeour suspeitar que é uma armadilha, Luna estará em grandes apuros.
― Eu sei – disse Harry -, mas é nossa única chance.
― Pode contar comigo, Harry – disse Hermione. – Vou procurar a Skeeter hoje mesmo e persuadi-la.
― Comigo você já conta – disse Gina abraçando-o carinhosamente.
Os três olharam para Rony, que engoliu em seco e revirou os olhos, dizendo:
― Está bem – bufou contrariado -, estou com vocês.
Rony e Hermione deixaram a Toca depois de alguns minutos discutindo o plano de ação e foram ao encontro de Skeeter. Harry ficou a sós com Gina.
― Harry – disse cuidadoso –, como está a memória de Snape? O Sr. Lovegood disse que ele havia esquecido o que acontecera entre ele e Luna.
― Aparentemente, Ginny, ele recuperou-a totalmente – disse sorrindo e a abraçou-a com carinho.
O crepúsculo tornou o céu alaranjado sobre a casa dos Weasleys.
Hermione e Rony se entreolhavam enquanto Rita Skeeter levava a piteira aos lábios, e algum tempo depois soltava uma longa baforada descrevendo elipses sobrepostas. Os olhos dela se estreitaram sobre os dois e os cachinhos loiros de seus cabelos se mexeram levemente, ao mesmo tempo em que sua mente analisava a proposta feita por eles.
― Quer dizer, então, que vocês tem uma grande matéria para mim – disse perigosamente suave. – E por que eu deveria confiar em vocês?
― Bom, eu acredito que não vai querer ver seu segredinho, que lhe rende muitos galeões, ser descoberto pelo Ministério... – Hermione a encarou desafiadora antes de completar –, não é mesmo?
― Você sabe que não! – rosnou. – Entretanto, eu posso estar arriscando minha carreira com esse joguinho.
― É um risco a se correr – rebateu Hermione. – Só que você deve levar em conta as vantagens que terá em cima disso. Eu lhe asseguro que será um grande furo jornalístico, uma história sem precedentes... Não vai querer perder isso, vai?
O olhar de Skeeter brilhou insistentemente, só mais um empurrãozinho e Hermione conseguiria a ajuda da jornalista.
― Contudo – acrescentou se levantando da mesa e puxando Rony pelo braço, que a fitou aturdido -, se acha que não vale a pena, sua vida terá acabado da mesma forma.
Rita os encarou novamente soltando uma longa baforada, e concluiu:
― Está bem, eu concordo – disse contrafeita -, mas eu exijo uma coisa.
― Não está em posição de exigir nada – rebateu Hermione, fitando-a do alto.
― Quero exclusividade - exigiu arrogantemente.
― Vou tentar conseguir isso – disse a menina -, só que isso vai exigir de você uma cobertura extra.
― Como assim uma cobertura extra? – indagou a loira preocupada.
― Depois que tiver seu furo, quero que faça uma entrevista com alguém envolvido diretamente nele – sorriu. – Temos um acordo?
― Sim – respondeu sorrindo de volta. – Como saberei quando e onde agir?
― Eu a aviso – disse Hermione colocando seu braço em volta do de Rony, e concluiu: – Não se esqueça: discrição, Rita. Se isso vazar, não haverá mais nada.
― Negócios, são negócios, querida – sorriu abertamente. - E não quero ninguém se metendo nos meus.
― Que bom que pensamos da mesma forma em relação a isso – assentiu Hermione. – Nos falamos em breve. Adeus, srta. Skeeter.
― Foi um prazer, srta. Skeeter – disse Rony confuso. – Adeus.
― Adeus, queridos – respondeu com um leve escárnio. Rita apenas os viu se afastando até a porta do bar, ganhando a rua, enquanto ela soltava mais uma longa baforada.
