Capítulo XXVII

Harry olhava atentamente o relógio a sua frente, já passavam das oito da noite. O bar a sua volta começava a encher e ele se endireitou na cadeira. Não havia nenhum sinal do Ministro, levou o copo aos lábios e sorveu um longo gole da bebida doce. Não fora fácil conseguir que Scrimgeour viesse ao encontro, mas a fixação dele por Snape era forte, e Harry acabou por persuadi-lo. O brilho que vira no olhar de Rufo dava-lhe a certeza que o Ministro jamais tentaria faltar aquele encontro e perder a única chance de reaver as provar que inocentariam Snape. Um sorriso aflorou em seus lábios depois de engolir a última gota do líquido escuro e voltou o copo à mesa, rodando-o entre os dedos. A porta do bar se abriu dando passagem a um casal de namorados. Desviou sua atenção para o balcão e pôde ver quando um besouro levantou vôo, planando levemente sobre sua mesa. Mais uma vez a porta do bar se abriu e um vulto escuro entrou no recinto. Os olhos de Harry acompanharam a figura que atravessava o salão em sua direção. Num gesto rápido, Rufo Scrimgeour se sentou na cadeira diante de Potter.

― Boa noite, senhor Potter – disse-lhe baixo. – Seu convite me surpreendeu, principalmente, pelo lugar que escolheu para esse encontro.

― Boa noite, Ministro – respondeu Harry. – Eu achei que gostaríamos de anonimato.

― Ainda colhendo a fama pela morte de Voldemort, suponho? – deu-lhe um sorriso cínico.

― Não mais do que o senhor – rebateu o rapaz. – O que vem fazendo é realmente admirável, depois de toda a omissão que o Ministério adotou quando Voldemort voltou.

― Um erro inaceitável, Harry – disse Scrimgeour -, mas que está sendo reparado aos poucos.

― Confio no senhor para isso – afirmou Harry -, e é por isso que o procurei.

― Entendo – disse com cuidado –, você falou algo a respeito de cartas...

― Exato – confirmou Harry –, aquelas mesmas cartas que o senhor andou procurando recentemente em Beauxbatons, Ministro. - O homem empalideceu e suas feições se contraíram como se tivesse levado um soco no estômago. Harry não deu importância a isso, e continuou: – Talvez fique feliz em saber que eu os recuperei – sorriu levemente, enquanto o besouro pousava na mesa ao seu lado.

― Como conseguiu isso? – os olhos dele cintilaram.

― No momento basta que saiba que estão comigo, num local seguro – rebateu Harry frio.

― E o quer em troca? – perguntou ríspido.

― Acalme-se, Ministro – manteve o mesmo tom suave –, ainda nem começamos a negociar.

O barman trouxe a bebida que Rufo pedira, e ele a tomou em um gole só, encarando os olhos verdes de Harry Potter, que continuou: – Diga-me – começou a falar num tom mais baixo –, você quer destruí-las não é? Quer impedir que essas provas venham a público e inocente aquele que foi muito mais do que um simples Comensal...

― Sim – murmurou Scrimgeour –, eu quero Snape em Azkaban, junto com toda sua escória de assassinos, custe o que custar.

― Não o culpo – disse Harry. Por mais que sentisse vontade de agarrar o colarinho do Ministro, não colocaria tudo a perder, e continuou com seu papel. – Mas não quero saber o que fará com Snape depois que tiver as cartas em seu poder. Eu quero lhe propor uma troca.

― Uma troca? – perguntou surpreso.

― Correto – afirmou Harry. – As cartas que tanto quer pela senhorita Lovegood.

― Como... – Rufo ia protestar, mas foi interrompido.

― Eu sei que está com ela e a mantém em cativeiro – os olhos verdes brilharam ao verem Rufo recuar. – Isso não foi positivamente inteligente da sua parte, Ministro. – Scrimgeour parecia analisar sua situação, mas Harry exigiu: – Vamos, confesse que a moça está com você e fazemos a troca.

― A senhorita Lovegood está sendo muito bem tratada – respondeu secamente o homem.

― Então, você quer me convencer de que tinha boas intenções ao seqüestrá-la de sua própria casa? – indagou o rapaz.

― Não – disse curto. – Eu queria obter o paradeiro das malditas cartas!

― E quase colocou seu cargo em risco – retrucou maliciosamente Harry, mais do que nunca se sentia parecido com seu pai. - Não me parece uma atitude sensata, contudo você está prestes a remediá-la. Eu lhe dou as cartas e meu silêncio a respeito do assunto, e você me dá Luna. Uma troca mais do que justa, não concorda?

― Sim – bufou o Ministro.

― Fechado – sorriu Harry. – Amanhã lhe envio uma coruja com o local da entrega. Tenha uma ótima noite, Ministro.

― Você também, Sr. Potter – rangeu entre os dentes.

Harry se levantou, jogando à mesa algumas moedas de bronze e se retirou. Rufo, por sua vez, continuou fitando a janela encardida ao seu lado.

Uma voz impregnada de desprezo falou, sem se virar para a porta que acabara de se abrir.

― Você por aqui?

― Vim lhe trazer boas notícias – respondeu maliciosamente a voz masculina. – Achei que gostaria de saber que enfim consegui ter acesso às cartas que tanto queira proteger... Uma pena não acha?

O silêncio dela foi sua resposta. Os olhos azuis vidraram, sem que o homem os visse, enquanto seus lábios entreabriram, fazendo com que seu rosto refletisse todo o receio que lhe veio à alma. Fechou os olhos, seus pensamentos rodavam em um turbilhão. Gina não chegara a tempo de impedi-los e Severo corria perigo. O ar lhe faltou, fazendo-a sentir uma fraqueza imensa, e Luna se agarrou à cabeceira da cama. Tentou se controlar o suficiente para encarar Scrimgeour. Virou-se calmamente para porta, vendo a silhueta dele parada no beiral, e com toda a força que reuniu em si, disse firme:

― Se era só isso, Ministro – fez uma pausa sorvendo o ar rapidamente e continuou -, obrigada. Foi muito gentil de sua parte vir me contar sobre sua vitória, mas se não se importa, eu gostaria que saísse.

― Encantadora até o fim – disse Scrimgeour suavemente, enquanto se aproximava dela -, infelizmente me sinto triste em ter que vê-la partir...

― Partir? – repetiu Luna atônita.

― Fui forçado a abrir mão de sua companhia em troca das cartas, não que eu tivesse essa intenção, mas foi o preço a pagar – disse Rufo ao chegar bem próximo do corpo dela e deslizar os dedos ásperos por seu rosto. Luna recuou até a parede atrás de si, mas não teve como fugir de seus toques, e ele, então, completou: - É realmente uma pena que terminemos assim, mas eu gostaria de guardar uma lembrança, para o futuro sabe? – disse comprimindo o corpo dela com o seu de encontro à parede fria. Luna virou o rosto para não ter que encará-lo, mas ele segurou-o entre os dedos, forçando-a a olhá-lo: - Diga-me, srta. Lovegood, ele era tão bom assim para querer protegê-lo dessa forma?

― Me largue! – gritou se debatendo, suas forças se esvaindo.

― Como pôde se entregar a um Comensal e ter nojo de mim? – rosnou, prendendo as mãos de Luna para trás com as suas, enquanto os dedos da outra passeavam pelo decote dela. Luna desviou seu olhar, as lágrimas prontas para escorrerem, sentiu a língua dele deslizar sobre seu pescoço e as mãos ávidas desatarem o laço da sua veste, expondo a pele alva do colo. Mesmo sem fitá-lo podia ver seu sorriso de triunfo, e depois o ouviu sussurrar ao seu ouvido: – Quem sabe não muda de idéia?

Luna sentiu seu estômago revirar, a cabeça rodopiou e o chão lhe sumiu sob os pés. Quando o Ministro tocou seus lábios, ela caiu inconsciente.

Longe dali, olhos pretos encaravam os verdes a sua frente, satisfeitos. O plano fora colocado em prática, e parecia correr as mil maravilhas.

― Já decidiu onde se dará essa troca? – perguntou Harry.

― Um lugar público, Harry – respondeu Snape. – Não podemos arriscar, não sabemos se ele mordeu a isca completamente.

― Você vai estar lá, não é mesmo? – os olhos verdes escureceram.

― Sim, e eu espero que Lupin também esteja – disse firme. – Fez o que lhe pedi, não fez?

― Tudo como o combinado – confirmou Harry. – Ele virá. Respondeu hoje, antes que eu me encontrasse com o Ministro.

― Ótimo – crispou os lábios numa linha fina de sorriso. – Amanhã à noite, Rufo saberá com quem se meteu, e eu espero que ele cumpra sua parte no acordo. Ou vou caçá-lo e matá-lo.

― Você gosta muito de Luna, não é mesmo? – Harry o fitou. – Não se importa realmente se ele teria ou não acesso as cartas, e tampouco se importa que possa morrer ao se arriscar assim...

― Não, não me importo. Mesmo que as cartas apresentadas por você a ele fossem as verdadeiras – rebateu frio. – Fiz isso durante dezessete anos para mantê-lo a salvo, por que recuaria quando preciso salvá-los? – crispou os lábios. – Tenho certeza de que também não é essa a postura que esperaria de mim.

― Não acho que deva recuar – disse Harry com cuidado -, eu só estou percebendo o quanto o conheço pouco...

― Sentimentalismo, Potter? – perguntou cínico, arqueando a sobrancelha ao encará-lo.

― Talvez... – balbuciou -, é estranho descobrir que sei tão pouco sobre meu pai.

― Creio que eu seja um pai um tanto quanto inusitado – respondeu - e distante.

― Devíamos mudar isso, não acha? – os olhos verdes brilharam. – Seria bom ir treinando parar quando o outro chegar...

― Vou me esforçar – respirou fundo contendo um sorriso. Era engraçado vê-lo mais uma vez se referir a criança de Luna com ciúme mal disfarçado, apesar de que compreendia aquele sentimento do rapaz. A criança teria uma família, uma coisa que foi usurpada dele em todos os sentidos. Nisso, Harry se parecia muitocom ele, pensou antes de concluir: - Mas será uma tarefa árdua. Conto com a sua ajuda, é claro?

― Será um desafio – afirmou, sorrindo em resposta.

Pai e filho se entreolharam com um brilho peculiar nos olhos, enquanto uma chuva fina molhava os jardins lá fora.