Capítulo XXVIII

Aquela foi a primeira noite em que Harry dormiu sob o mesmo teto que Snape, e a primeira manhã a descer para tomar seu café ao lado do pai, o que foi uma experiência única. Evidentemente, não esperava excesso de zelo e carinhos por parte do homem sentado ao seu lado, mas o brilho que cruzou o olhar escuro dele era positivamente bom. Harry agora tinha certeza de que quem estava ao seu lado ali, não era o Mestre de Poções, era o pai, e isso o confortou imensamente. Podia até jurar que a comida adquirira outro gosto, era doce e especial. Ele estava realmente se esforçando para fazer tudo parecer satisfatoriamente o cotidiano de uma família. Harry gostou disso. Gostou de naquela manhã trocar palavras simples e corriqueiras com Snape, e descobrir inúmeras afinidades e coisas que podiam fazer juntos. Não era a mesma sensação que tivera quando Sirius se revelara para ele, esta era bem mais forte. Os olhos verdes posaram sobre a figura de preto, adoraria ter passado mais tempo ao seu lado. Foi tirado de seus pensamentos com a voz dele a chamá-lo.

― Harry – disse calmo –, temos que nos apressar. Deve mandar a mensagem à Rufo e depois, trazer Lupin aqui, entendeu?

― Perfeitamente – respondeu se levantando e tomando a direção da sala, virou-se um breve momento antes de partir e acrescentou. – Foi bom que a chuva caísse tão pesadamente ontem, eu gostei de ficar aqui... Pai. - Harry saiu da saleta sem dar chance de reação ou resposta à Snape. Os olhos pretos brilharam intensamente.

Rufo a colocou sobre a cama, ajeitando-a calmamente sobre os lençóis. Poderia se aproveitar daquele momento de fraqueza, beijá-la, tocá-la, mas ele rejeitou isso em sua mente. Fitou-a atentamente, os cabelos loiros caíam sobre o rosto impedindo parcialmente a visão do rosto dela, afastou-os um a um, expondo as feições delicadas ao seu olhar. Deu um longo suspiro e se retirou do aposento. Enquanto percorria o corredor até o andar de cima, analisava as possibilidades para o encontro daquela noite. Harry tinha dado as cartas até ali, mas será que ele não poderia reverter essa situação? Tinha que haver um modo, uma maneira de ficar com os dois, as cartas e Luna. Poderia usar a poção polissuco, mas não possuía uma gota dela ali, e demoraria muito para prepará-la. Um sorriso aflorou em seus lábios enquanto colocava a capa sobre os ombros, talvez no Ministério encontrasse o que precisava. Sumiu nas chamas esverdeadas da lareira... Tinha que agir rápido antes que Luna recuperasse a consciência.

Lupin esperou que Harry escrevesse a carta e a prendesse na perna da grande coruja marrom ao seu lado. Ela se empertigou toda, emplumando as penas e alçou vôo. O rapaz se levantou e, junto com Lupin, saiu para o jardim, onde aparataram.

Severo estreitou seu olhar sobre a lareira quando ouviu o estalido seco as suas costas e viu Harry surgir seguido por Remo. Lupin cumprimentou Snape com um leve meneio de cabeça enquanto Harry dava-lhe um sorriso estreito.

― Devo presumir que está tudo acertado, não? – perguntou firme.

― Sim, despachei a coruja há uma meia hora – respondeu Harry. – Scrimgeour já deve estar ciente do horário e local da entrega: 19:00 horas, Estação de King's Cross, Plataforma 4.

― Tem certeza do que está fazendo? – interrompeu Lupin. – Isso é bem arriscado.

― Tenho, Lupin – rebateu Snape friamente. – Ou resgatamos Luna, ou eu mato aquele desgraçado.

― Você nunca agiria assim, Severo – retrucou Remo. – Atos emotivos não caem bem a sua pessoa, sejamos racionais.

Snape crispou os lábios antes de responder.

― Se você analisar o momento, admitiria que cai muito bem, contudo, serei técnico – disse mordaz. – Eu o amaldiçoarei uma dezena de vezes e irei esperar ansiosamente que a morte lhe sobrevenha.

― Eu não gostaria de estar na pele do Ministro essa noite – sorriu Lupin.

― Já pensou que ele pode estar nos preparando uma armadilha? – perguntou Harry mudando de assunto.

― Eu o julgaria um tolo se simplesmente aceitasse as coisas tal qual se apresentam – rebateu Snape frio -, e isso positivamente nosso Ministro não é.

― Vamos lhe dar cobertura, Harry, e caso se faça necessário, ajuda – acrescentou Remo.

― Não saímos de lá sem Luna – afirmou Severo. – Mesmo que Scrimgeour tente qualquer coisa, eu ainda tenho anos como espião na frente dele...

Os três se entreolharam e assentiram levemente com a cabeça.

A moça o fitou, curiosa, os cabelos loiros longos caíam sobre o avantajado decote que ostentava e os lábios rubros estalaram ao ouvir as moedas de ouro tilintar sobre a mesa. Os olhos profundamente cinzas o encaravam enquanto analisava a proposta feita. Duas horas fingindo ser que não era, e tomar o líquido leitoso do pequeno frasco parado a sua frente, não lhe parecia um trabalho perigoso. Sua recompensa: dez galeões, isso sim era o ponto principal da barganha – pensava. - Não era toda noite que um cavalheiro distinto lhe oferecia tal quantia em troca de seus favores na cama, ainda mais para algo tão simples. Levou os dedos finos até o frasco e destampou-o, trazendo-o próximos lábios. Fixou a atenção no homem ao seu lado, ele estava ansioso, aquilo devia ser muito importante para ele pagar uma quantia tão alta. Isso também não a interessava, precisava comer e dormir, não se daria ao luxo de negar uma proposta tão rendosa. Entreabriu de leve a boca e virou o frasco, deixando o líquido escorrer pela garganta. Engasgou, o conteúdo era amargo e espesso. Ela se sentiu meio estranha, tentou focar a figura do homem loiro, mas as coisas fugiram ao seu controle e desmaiou.

Certificando-se que ninguém os observava do salão, ele colocou uma capa sobre os ombros da mulher e, habilmente, a fez deixar o bar em sua companhia.

Minutos depois, David Trump encarava Rufo com um farnel de roupas sobre os braços. Um sorriso frio se delineou nos lábios do Ministro, enquanto se levantava da poltrona em seu escritório e caminhava em direção a ele. Trump era um dos homens de sua confiança, escolhido a dedo, com, deve-se acrescentar aqui, pouco senso de discernimento para trabalhos como aquele. Um homem grande e loiro, uma postura de oficial inglês, e que obviamente falava pouco, ou seja, o homem certo. A um meneio de cabeça de Rufo, ele colocou as roupas sobre o sofá, postando-se ao seu lado, silenciosamente. Scrimgeour se aproximou, levantando a ponta da capa e sorriu satisfeito. Era perfeito, se Harry queria Luna, ele a teria... Ah, sim... ele a teria.

Quando Anne abriu seus grandes olhos, tentou inutilmente reconhecer o lugar a sua volta. O quarto possuía proporções bem maiores do que as do bordel; talvez fosse a casa do estranho. Ela levantou, sua cabeça doía imensamente, os olhos se estreitaram com a claridade vinda da peça contígua, e caminhou até a porta entreaberta. Empurrou-a, entrando no toillet, foi até a pia e banhou o rosto. Depois de secá-lo, fitou-se no espelho, e seus olhos piscaram algumas vezes até descobrir que a figura do reflexo era ela. Tocou lentamente a bochecha, sentindo o contato dos dedos sobre a pele, arregalou os olhos, agora azuis, também sentiu os músculos contraírem ao fazer aquilo. Levou as mãos aos lábios sufocando um grito de horror e recuou até a porta, mas ao virar-se deparou com a figura do Ministro. Uma ruga se fez em sua testa enquanto pensava – O que o Ministro tinha ver com aquilo? Talvez, ela tivesse sido salva de um facínora. Sorriu.

― Pronta, minha cara? – disse Rufo friamente.

― Como assim pronta? – perguntou Anne, desfazendo seu sorriso. Havia alguma coisa errada em tudo aquilo. – Afinal o faço aqui?

― Eu creio que foi muito bem paga para desempenhar um papel, não é mesmo? – olhou-a cinicamente.

― É isso que significa essa minha aparência? – indagou angustiada.

― Acalme-se minha jovem, em breve voltará a ter sua aparência deplorável de sempre, e voltará para aquele pulgueiro onde vivia – rebateu mordaz –, entretanto, hoje, você fará o que foi paga para fazer, sem perguntas.

― E se eu não quiser mais o trabalho? – perguntou recuando até a parede, intimamente sabendo que não teria com voltar atrás.

― Tarde demais para isso – respondeu seco. – Você vai fazer o que quero, nem que para isso eu seja obrigado a usar outros métodos menos ortodoxos.

Anne o olhou, assustada, seu corpo tremia de encontro à parede fria de cerâmica, e viu o sorriso perverso se delinear nos lábios do Ministro enquanto ele atirava um vestido em sua direção, ordenando: - Vista-se! - Saiu batendo a porta atrás de si. Anne ficou sozinha, imersa em dor e tristeza, as lágrimas escorrerem por seu rosto... Como pudera ser tão estúpida...

Olhos pretos fitavam os tons alaranjados do céu, a hora do encontro se aproximava. A hora em que ele a teria de volta. Snape estalou todos dedos das mãos, não dormira praticamente nada na noite anterior, só conseguia ter pesadelos nos quais a via sofrer. Esses pensamentos não o deixaram por um momento durante o dia todo, estava inquieto, sentia que Luna corria perigo. Afastou-os a qualquer custo de sua mente, esvaziando-a, enquanto colocava a capa preta sobre os ombros, ao dirigiu-se para a lareira. O pó de Flu foi ao chão e só restou a fumaça verde no seu lugar.

O Sr. Lovegood o recebeu em seu escritório ao lado de Lupin e Harry. Snape fez um breve gesto com a cabeça em sinal de cumprimento, sua mente voltara a borbulhar com aqueles pensamentos. O sinal de perigo cada vez mais nítido em seus sentidos de espião. Sem dizer nada, ele passou à frente dos três, tomando a direção da sala, e saiu enfurnando a capa pelo corredor escuro. Harry e Lupin o seguiram, deixando o pobre Sr. Lovegood entregue aos próprios receios de pai.

Anne se olhou no espelho constatando que o vestido lhe servira perfeitamente e que era, em definitivo, outra pessoa. Suspirou ao deixar o toillet em direção ao quarto. Não estava gostando nada daquilo, não gostava do brilho nos olhos do Ministro, aquele homem era mau. Viu um vidro sobre a mesinha ao lado da cama e um bilhete escrito: Beba. Provavelmente era mais um dose do que a transformara em outra pessoa, não faria muita diferença agora se o bebesse novamente, deixou o líquido amargo escorrer pela garganta. Fez uma careta ao final, e depois andou de um lado para o outro do aposento, tudo estava incrivelmente calmo. Foi até a porta, e girando a maçaneta, abriu-a. Verificou o corredor, vazio, talvez pudesse fugir dali. Esgueirou-se silenciosamente, cruzou uns dois salões onde também não havia sinal de vida e descobriu uma passagem por trás de uma tapeçaria medieval. O corredor que se estendia a sua frente era escuro e aparecia descer para o centro da terra; com o coração aos pulos, Anne seguiu sua curiosidade, apesar de sua mente lhe dizer para sair dali o mais rápido possível enquanto ainda havia tempo. Desceu pelo corredor que dobrava sempre para a direita e chegou a um cubículo onde um archote iluminava uma porta de madeira trabalhada. Seu olhar pousou sobre a chave na fechadura ao mesmo tempo em que pensava: Que tipo de idiota presunçoso tranca uma porta e deixa a chave nela? – sorriu ao lembrar de David. Chegou mais próximo e colou o ouvido à madeira, um leve ruído chegou aos seus ouvidos, parecia que alguém andava de um lado para o outro do quarto. Com sua curiosidade ainda latejando em suas veias, girou a chave, abrindo a porta. O escuro que vinha lá de dentro era intenso, e Anne então perguntou:

― Há alguém aí?

― Quem é você? – perguntou uma voz feminina.

― Meu nome é Anne – disse com calma -, acho que ambas somos prisioneiras da mesma pessoa.

Ouviu o farfalhar de vestes se aproximar dela e pôde ver o contorno de uma figura quase da mesma altura que a sua. Luna se aproximou de Anne, olhando-a intrigada, mas quando se depararam, ambas levaram as mãos aos lábios. Não eram somente prisioneiras do mesmo paria, eram a mesma pessoa. Depois de alguns minutos de surpresa, Luna rompeu o silêncio:

― Então esse é plano de Rufo – disse para Anne -, ele vai trocá-la em meu lugar.

― Trocar-me? – perguntou incrédula. – O que afinal está acontecendo?

― Eu vou lhe explicar, mas se você pretende me ajudar, temos que agir rápido – respondeu Luna, fitando-a encorajadoramente com seus olhos azuis. Sem saber exatamente porque fazia isso, Anne assentiu com a cabeça. Luna passou então, a explicação, sem entrar em alguns detalhes, do que acontecera até ali. Anne prestava atenção a cada palavra dela, e sentia-se dentro de um sonho.

Quando Luna chegou ao final de sua narrativa, Anne falou:

― Então, eu serei Luna, ou seja, você – e fitando-a curiosa. – O quer que eu faça?

― Continue com a farsa – explicou Luna com calma. – Volte ao seu quarto e faça o que Rufo pediu. – retirou um anel do dedo. – Tome – disse fechando a mão de Anne em volta dele. – Guarde-o bem e entregue-o para Severo, você saberá quem é, já deve tê-lo visto em fotos... Ele saberá que estou viva e que pode confiar em você, assim eu espero. – Sorriu, um sorriso meio sem jeito. - Conte-lhe o que aconteceu e onde estou.

― Mas eu estava desacordada ao ser trazida para cá... – murmurou Anne.

― Por Merlin, tente descobrir – implorou Luna. – Tem que tentar, é minha única esperança, Anne.

― Vou tentar, prometo – disse segurando as mãos da jovem entre as suas. – Preciso voltar antes que dêem por minha falta. Adeus.

― Adeus, Anne – disse Luna, a voz embargada. – Obrigada.

Anne sorriu ao abraçá-la carinhosamente, e depois girou novamente a chave, fechando a porta. Percorreu o caminho de volta rapidamente e entrou em seu quarto em silêncio. Minutos depois a porta se abriu e David surgiu no aposento. Anne lhe sorriu diabolicamente e foi até ele.

― Foi você que me colocou nessa fria, não foi? – disse passando languidamente a mão sobre o rosto do rapaz. – Você foi desleal... – sussurrou ao seu ouvido, deixando os lábios roçarem de leve sobre ele. – É uma pena que não nos conhecemos melhor... Eu adoraria isso.

Os olhos do rapaz se intensificaram enquanto as mãos dele a puxaram pela cintura para mais próximo. Os lábios estavam quase colados, e num gesto rápido, Anne o beijou. Pouco tempo depois desarrumavam os lençóis da cama. David abotoava suas vestes quando Anne perguntou:

― Aonde estamos, David? – sua voz era suavemente encantadora.

― Southampton – respondeu automaticamente o rapaz.

― Ah... acho Hampshire muito bonito – disse sem mostrar muito interesse. - É grande aqui...

― Sim, o Ministro gosta de ostentar seu poder – concluiu. – Bell's Place é uma propriedade muito encantadora. Agora é melhor irmos.

Dando-lhe seu melhor sorriso, o seguiu pelo corredor.