Capítulo XXX

Passou suavemente a mão pelo rosto de Luna, tudo o que importava naquele momento era que ela conseguisse abrir os olhos, e assim, ele pudesse sentir azuis intensos nos seus. Suas feições estavam serenas, mas Snape sabia o quanto ela ainda lutava internamente contra a maldição que lhe fora lançada. Não era só a vida dela que estava em jogo, havia a criança, e tudo o que ele podia fazer para salvá-las tinha sido feito. A impaciência não era decididamente uma boa conselheira. Snape andava pelo quarto aturdido, seus pensamentos iam e vinham confusos, ao menos Harry estava fora de perigo. Foi até a janela, fitando a lua que preenchia o céu e finalmente deixou seu corpo recostar sobre a poltrona ao seu lado. Quando abriu os olhos assustado por haver cochilado, ouviu alguns resmungos, e desesperado foi até a cama. Foi com um alívio imenso que percebeu que a febre cedera, e que estavam fora de perigo. Não podia deixar tudo o que Luna representava para ele se tornar uma lembrança, mais uma dolorida lembrança. Prometera para si mesmo que não deixaria nada de mal acontecer a ela, mas quase falhara, assim como fizera com Lílian. Pegou a mão dela entre a sua, afagando-a carinhosamente com as pontas dos dedos. Aquela realidade, ao contrário da que Lílian fora um dia, mexia tanto com seus sentimentos, que não conseguiria viver sem ela. Inexplicavelmente para Snape, Luna tornara-se a razão de sua existência, até ela entrar em sua vida tanto faria morrer ou viver, desde que Harry estivesse a salvo. Agora, entretanto, precisava estar com ela o maior tempo possível, era estranho admitir para si mesmo que realmente a amava; que poderia lhe sussurrar um a um todos os sonetos de Shakespeare sem se sentir um terrível idiota, ou um deplorável canastrão.

Patético – pensou consigo mesmo enquanto esses pensamentos passavam por sua mente. – Desde quando, Snape, começou a se interessar por Shakespeare? – sorriu. As pálpebras dela se moveram lentamente, e entre os longos cílios loiros, azuis o fitaram brilhantes, tinha o pego num flagrante de sorriso. Pretos desanuviaram, e ainda com a mão dela entre a sua, levou-a até os lábios, depositando-lhe um beijo terno. Luna sorriu jovialmente de volta.

― Achei que fosse me esquecer na torre, meu bondoso cavaleiro – disse maliciosa, num tom ainda sonolento e cansado, e apertou a mão dele entre a sua. Acrescentou com um sorriso delicado: - Obrigada.

― Eu disse que a salvaria, princesa - respondeu sério, fitando-a com carinho –, mesmo tendo que escalar a torre mais alta do castelo e ir de encontro a tudo que acreditava.

― Devo encarar isso como sendo uma coisa boa? – encarou-o ainda sorridente.

― Creio que sim – rebateu Snape. - Acho que foi a melhor coisa que fiz que nos últimos 20 anos...

― Demorou muito tempo, não? – perguntou mordaz.

― Não tanto quanto seria se não a tivesse encontrado, srta. Lovegood – crispou os lábios, levando um objeto delicado ao dedo dela, e completou: - Ou deveria dizer, Sra. Snape?

― Quer mesmo que eu repita que o amo e o aceito? – disse irônica. – Vai acabar mal acostumado...

― Não corre esse risco, minha cara – retrucou seco. – Só estou lhe restituindo uma coisa que nunca deveria ter saído do seu dedo.

― Entendo – abriu-lhe um novo sorriso. – Então está só tomando de volta aquilo que acha que lhe pertence...

― Você está querendo que eu lhe adule – criticou-a. – Isso é positivamente um golpe sonserino...

― Devo discordar... – sentou-se na cama se aproximando dele. – Estou apenas tomando precauções para que seu filho não cresça fora de um lar onde não haja amor... Estou pensando exclusivamente nele – completou sonsa, os olhos azuis cravados em pretos.

― Você é uma peste... – sorriu afastando os fios de cabelos loiros do rosto e colocando sua boca próxima a dela.

― Você é um chato – protestou Luna, desviando os olhos dos dele.

― Eu a amo – sussurrou ao ouvido dela.

― Eu posso conviver com isso... – rebateu sorridente, encarando-o em azuis intensos e capturando os lábios dele com os seus. Snape a abraçou, aprofundando seu beijo, tornando-o intenso e desesperado, enquanto a deitava sobre os lençóis, sufocando-a de carinhos.

Verdes e azuis estavam intensos sobre pretos, já havia duas horas que o conselho deliberava sobre a situação de Severo. Apesar de esconder sua preocupação dos olhos alheios, tanto Harry quanto Luna sabiam o que aquilo significava para Snape, era finalmente a sua reconciliação com o mundo bruxo. Por mais que o Ministério já tivesse aceitado sua inocência e a proclamado isso aos sete ventos, por mais que a Ordem tivesse lhe aceito de volta, por mais que as três pessoas que mais amava no mundo acreditassem nele cegamente, mesmo assim, faltava Hogwarts. Hogwarts era sua casa, sempre fora seu abrigo, e apesar de não ser o mais querido dos professores, era o que gostava de fazer... Ensinar um bando de cabeças-ocas, ainda que eles nunca conseguissem assimilar a sutil arte de se preparar uma poção ou, o equilíbrio perfeito que deve haver entre seus elementos. Era assim que pretendia passar os longos anos que ainda lhe restavam pela frente, já que todas as acusações contra ele haviam cessado. Fechou os olhos lembrando-se de seu julgamento.

Todos os fatos que depunham contra a gestão de Rufo Scrimgeour como Ministro estamparam a primeira página do "Profeta Diário", fazendo com o nome dele fosse praticamente riscado do Ministério da Magia. Então, o julgamento de Snape passou, e com isso, praticamente a ser um pró-forme. Ficou provado que havia um plano arquitetado por Rufo para culpar o réu, mesmo assim, Anne prestou seu depoimento e as cartas de Dumbledore e Lílian foram apresentadas como evidências, e não restou ao Ministério, outro veredicto senão o de inocente. Dois meses depois, Hogwarts foi reaberta, e o conselho pediu uma audiência com Minerva, a diretora da escola, para analisar a situação do ex-professor, ou seja, a sua permanência no corpo docente da escola. Foi assim que os três vieram parar naquela manhã ensolarada dentro do antigo escritório de Dumbledore.

Snape continuava de pé perto da janela, abrira os olhos, fitando atentamente os gramados, enquanto Harry parecia mais impaciente que o pai e estalava os dedos. Luna ostentava uma linda barriga arredonda de sete meses e se sentia entediada de estar confortavelmente sentada na cadeira da diretora havia horas. Levantou-se com certa dificuldade, e foi na direção do marido, não era fácil acalmar Severo quando ele ficava calado e com o olhar distante, mas também, não era fácil ficar vendo aquela tempestade se erguer sobre ele e não lhe trazer carinho. Com os passos leves, ela se aproximou, encaixando sua silhueta extravagante a dele, acariciou-lhe os cabelos pretos, mas ele não se moveu. Luna escorregou os braços por sobre os dele, abraçando-o pelas costas, e então ele segurou as mãos dela entre as dele, fechando os olhos.

A porta do escritório se abriu vagarosamente dando passagem à diretora com ar severo. Harry pôs-se de pé, enquanto Snape se afastava de Luna, indo até ela.

― E então, Minerva? – pretos estavam apreensivos. – O que eles decidiram?

― Diga, professora – exigiu Harry ao mesmo tempo. – Meu pai vai voltar a dar aulas?

O olhar de McGonagall vagou de um para outro através dos óculos quadrados, antes de se fixar em Snape.

― Eu gostaria que soubesse, professor – começou a falar com calma -, que de minha parte eu não tenho nada contra a sua permanência em Hogwarts, muito pelo contrário, sempre foi um excelente membro do nosso corpo docente.

― Obrigado, diretora – respondeu polidamente.

― Não há nada pelo que deva me agradecer, Alvo teria feito a mesma coisa – sorriu. – Eu fui sua professora e ainda me lembro o dia em que entrou para essa escola, e todas as expectativas que Alvo tinha sobre você... – fez uma pausa encarando-o -, e muitas delas se confirmaram.

― Não creio que possa me vangloriar da maioria – retrucou seco.

― Acho que deve se alegrar do que construiu nos últimos meses, Severo – ponderou a diretora. – Honestamente, eu nunca achei que o veria casado e pai de dois filhos... – sorriu.

― Não foi só você quem se surpreendeu com isso, Minerva – rebateu mordaz -, mas não estamos discutindo minha vida pessoal, ou estamos?

― Não, é claro que não – disse com cuidado -, apenas queira que soubesse que isso lhe fez muito bem.

― Tenha certeza de que sei exatamente como isso me afetou – disse ríspido -, mas no que, raios, isso afetou o conselho?

Luna se aproximou colocando-se ao lado dele e deixando seus olhos azuis caírem sobre a diretora. Harry por sua vez evitava emitir qualquer som, tinha vontade xingar baixinho a diretora por aqueles momentos de tensão.

― Bom, Severo, sua recente posição como chefe de família impressionou, em muito, o conselho - explicou Minerva -, e eles aceitaram mantê-lo na escola.

Pretos brilharam, enquanto sentia Luna depositar um beijo terno em seu rosto e depois, Harry abraçá-lo. Os olhos dele estavam presos na figura da diretora e crispou os lábios num esboço de sorriso, na única reação sentimental que se permitia fazer em público.

― Obrigada pela sua intervenção, diretora – disse-lhe Snape.

― Não agradeça a mim, Severo – sorriu-lhe maternalmente Minerva. – O conselho teve ontem uma reunião preliminar com a Sra. Snape, e eu ouso crer que o sorriso de Luna é o grande responsável pela sua volta a Hogwarts.

Pretos desviaram para azuis, enquanto Minerva fazia um sinal com a cabeça para que Harry a seguisse. O rapaz assentiu em resposta, estava doido para rever Hagrid, e saíram sorrateiramente do escritório.

― Então foi você? – perguntou com calma, observando-a, vendo-lhe as feições marotas brincarem em seu rosto.

― Sim – sorriu, e depois se sentiu corar. Fazia algum tempo que isso acontecia quando o via olhá-la atentamente, era como se fosse sempre a primeira vez.

― E o que fez para convencê-los? – Snape agora a fitava atentamente vendo as bochechas dela avermelharem e quase se permitiu um grande sorriso ao percebê-lo.

― Sinceridade e... – ela parou encarando-o, azuis estavam brilhantes em pretos.

― Um feitiço – completou ele tomando-a nos braços -, não duvido... Você é boa em feitiços, até hoje não me livrei do último que jogou em mim.

― Espero que não se livre nunca – ela murmurou.

― Então admite o uso de magia? – disse irônico.

― E como não? – ponderou no mesmo tom. – Não é fácil lhe convencer de nada, Sr. Snape.

― Desleal – sussurrou ele, roçando seus lábios nos dela.

― Não – rebateu beijando-o suavemente –, apenas uma aprendiz de sonserina...

Snape sorriu deixando que seus lábios tocassem o dela gentilmente, que toda sua alma se impregnasse de Luna.

As pequenas mãos se moviam agitadas a procura de alguma coisa, quando enfim agarrou algo quente e macio, e levou-os aos lábios, sugando-os. Os olhos intensamente azuis fitaram os verdes, enquanto os lábios soltavam o objeto de cobiça e se abriam num sorriso encantador. Elizabeth tinha o mesmo poder de sedução da mãe, o sorriso, e Harry, como um bom irmão, se rendia facilmente a eles.

Intimamente, Luna gostara de saber que seria uma menina, dessa forma, seu amigo se sentiria menos preterido em relação aos sentimentos de Severo pelo bebê, ou mesmo, em atenção. A relação de pai e filho corria às mil maravilhas dentro do que a distância, e todos os lamentáveis desencontros, pudessem permitir. Evidentemente, a chegada de Elizabeth conturbava isso um pouco, não que Snape fizesse qualquer distinção entre um e outro, mas porque a menina teria coisas que Harry nunca teve, principalmente uma família. Luna fizera questão que o amigo fosse morar com eles, apesar de Severo passar a maior parte de seu tempo em Hogwarts. Ela também insistiu que ele e Gina fossem padrinhos de Lizzie, e talvez, graças a todos os seus ardis, estava desfrutando daquela cena maravilhosa. Harry realmente adorava Lizzie, e era com ele que a menina gostava de passar a maior parte do tempo.

Numa tarde, quando chegara do trabalho no Ministério, a menina se levantara do tapete e dera os primeiros passos, e foi difícil precisar o quanto isso alegrou todos. Elizabeth tornou-se a segunda mulher mais importante na vida de Harry, só perdia em atenção para Gina.

Quando Lizzie completou seis anos, Harry casou-se com Gina. Luna ainda se lembrava do sorriso da filha no dia do casamento, os cabelos pretos caindo sobre o rosto e os olhos intensamente azuis fitando Harry. Felizmente, eles sempre foram bons amigos...

Snape mudara um pouco, apesar de raramente demonstrar suas emoções em público. Quando o fazia era apenas entre amigos ou a família. No entanto, Harry e Lizzie eram amados igualmente, não se podia negar que ele havia se tornado um bom pai, um bom amigo, ao seu modo. Luna, entretanto, era a única a quem ele permitia burlar suas defesas, que sempre o fazia perder a razão...

Os cabelos pretos suavemente prateados pelo tempo caíam como o véu sobre seu rosto, enquanto a mão escrevia avidamente no pergaminho. Ele sentiu quando azuis pararam sobre a sua figura, e sem levantar os olhos disse:

― Como estão Sirius e Lílian? – a mão continuou a trabalhar a letra sobre o manuscrito.

― Bem... – respondeu suavemente. – Nossos netos dormem tranqüilamente.

― O que está admirando daí, Sra. Snape? – perguntou sério, rompendo o silêncio que durava alguns minutos.

― Você – disse firme, fitando-o carinhosamente.

― A visão ainda lhe atrai? – disse sem se virar para ela.

― Muito... – Luna se aproximou dele colocando as mãos sobre seu ombro.

― O que ainda pretende roubar de mim? – a mão dele parara de escrever, aguardando.

― Vejamos – disse irônica – sua alma...

Luna podia sentir os lábios dele crisparem num sorriso, mas as mãos dele foram mais rápidas que seus pensamentos, e a puxaram segura até seu colo. Pretos a fitavam intensamente, as mãos fortes enlaçando-a carinhosamente pela cintura. Luna colocou seus braços gentilmente ao redor do pescoço dele, mantendo-o preso a ela.

― Diga-me – sorriu Snape –, não está satisfeita?

― Sim... – beijou-lhe os lábios –, muito, mas o trabalho no jornal me toma tanto tempo, e agora, você como diretor... Sabia que está mais charmoso do que nunca?

― Luna... – protestou arqueando a sobrancelha –, aonde está querendo chegar?

― Eu andei pensando... – disse enrolando o cabelo dele ao dedo –, quem sabe alguma aluna nova...

― Sua filha está em Hogwarts – disse mordaz. – Pergunte a ela sobre o poder de sedução do professor de Poções...

― As adolescentes não mudaram tanto – rebateu Luna – , e eu me lembro que o achava atraente...

― Que Merlin me ajude! – sorriu para ela. – Esqueceu do seu feitiço?

― Não... – fitou-o marota. – Ainda está forte o suficiente?

― Mais do que nunca... – beijou-a ardorosamente antes de completar: – Acha mesmo que trocaria seu sorriso, sua boca, seus olhos, você toda por qualquer uma?

― Isso é um elogio bem grifinório, Sr. Snape – rebateu Luna.

― É por isso que não posso viver sem você, sua bruxinha – crispou os lábios. – Olhe no que me transformou...

― Num homem maravilhoso!

― Me lembre de não deixá-la jogar esse feitiço em mais ninguém... – segurou-a nos braços e ergueu-se da cadeira junto com ela.

― O que pretende fazer? – disse capciosa.

― Mostrar-lhe o que esses anos fez com o que sinto por você...

A porta do quarto fechou atrás deles enquanto a lua ia alta, derramando o luar sobre os jardins de Hellys.

Meu amor, saia do frio e tire esse casaco.

Entre aqui, respire fundo e faça o que você faz melhor.

Tire os sapatos e deixe as ruas da cidade.

Eu acho que, o amor apareceu no nosso caminho

e que o destino fez com que nos encontrássemos.

Adoro quando você faz aquela magia comigo.

Seu modo de tocar, você tem o poder da cura.

Você me olha de um jeito que é quase irreal.

É quase irreal.

Não podemos parar a chuva, vamos achar um lugar,

perto do fogo. Às vezes sinto.

Por mais estranho que pareça que você esteve

nos meus sonhos por toda a minha vida.

É um mundo muito louco lá fora,

tomara que nossas preces estejam em boas mãos esta noite.

( Almost Unreal - Roxette )

Fim