Capítulo 3: A Vida
Parte 9 – A Mais Elegante
Tinha-se passado um mês desde o incidente com a cozinheira Guilhermina, que acabara por ser levada para o hospital, mas ficara bem. Quando questionada sobre o que estava a fazer no lar, Guilhermina fingiu que não se lembrava e acabou por escapar a qualquer punição judicial.
No presente dia, o lar estava em rebuliço. O jardim do lar tinha sido enchido de cadeiras e vários velhotes já estavam sentados. Um palco tinha sido erguido a um canto do jardim. Nesse dia era celebrado o evento Miss Lar Fralda Prateada.
Alcino e Nicolau estavam sentados lado a lado. Ali perto, outros velhotes como Macário, Terêncio ou Zé também estavam sentados. Sílvia estava presente e o médico Virgílio também, já que era ele que iria apresentar o evento.
"Boa tarde a todos!" exclamou Virgílio, para um microfone, ligado a duas colunas de som. "Aqui estamos reunidos para a terceira edição do concurso Miss Lar Fralda Prateada. A vencedora das duas edições anteriores foi a Leonilde Matias, que está a participar novamente. Será que ganha outra vez? Veremos."
Os velhotes aplaudiram ruidosamente. Alcino abanou a cabeça.
"Espero que alguma escorregue e caía, como no ano passado. Essa parte foi a única que achei divertida." disse ele.
"Pois eu quero é ver a minha Judite a desfilar. De certeza que é um arraso, mesmo que seja com qualquer trapinho." disse Nicolau,.
"Ena homem, tu estás mesmo embeiçado pela Judite." disse Alcino. "Nunca pensei. Quer dizer, achei bem que ficassem juntos, vá lá, mas pensei que te acabarias por fartar dela."
"Não, não. Com a Judite, sinto que agora é para sempre, até que a morte nos separe." disse Nicolau. "Nunca me tinha sentido assim antes."
Nicolau respirou fundo, contente. De seguida, Virgílio começou a anunciar as concorrentes, que começaram a desfilar pelo palco. Primeiro foi Marcolina, com um vestido justo que a fazia parecer ainda mais gorda do que era. Depois foi a vez de Judite, que usava um saia casaco azul que lhe assentava bem.
"Estás linda! Vais ganhar!" exclamou Nicolau.
Judite sorriu-lhe. Depois de Judite, outras velhotas se seguiram. Bertolina, que tinha má memória, Olívia, que era bastante baixinha, entre outras. A última a desfilar foi Leonilde, que trajava um vestido vermelho.
"Ena pá. Ela este ano ainda está mais arrojada que o ano passado." disse Alcino. "Parece uma maçã, grande, gorda e vermelha."
"Ora, a Leonilde até nem é muito gorda. Mas claro, a Judite é melhor." disse Nicolau.
"E as nossas concorrentes já desfilaram." anunciou Virgílio, com o microfone na mão. "Agora, o júri vai deliberar e dentro de alguns minutos, os resultados serão anunciados."
Nesse ano, o júri era constituído pelo médico, por Sílvia e as suas duas colegas e pela directora do lar, Amanda Pilim, uma mulher de cerca de quarenta anos e cabelo loiro.
Enquanto o júri deliberava, as concorrentes aguardavam por detrás do palco.
"Eu de certeza que vou ganhar." disse Leonilde, vaidosa. "Tenho o vestido mais bonito e sei desfilar numa passerelle ou num palco, tanto faz."
"Eu já fico feliz de ter participado. Só o fiz porque o Nicolau insistiu." disse Judite.
"Eu nem sei porque é que me inscrevi." disse a desmemoriada Bertolina, que trazia um vestido amarelo, que a fazia parecer uma banana. "Mas gostei."
Pouco depois, Virgílio pegou novamente no microfone.
"A decisão já foi tomada. Chamo ao palco todas as concorrentes." disse ele.
Todas as concorrentes subiram ao palco e acenaram aos velhotes na plateia, que aplaudiram.
"Espero que a Judite ganhe." disse Nicolau.
"E eu espero que alguém caia hoje." disse Alcino.
"Depois de muito pensarmos, chegámos a uma conclusão final. Portanto, começando pelo terceiro lugar. O terceiro lugar vai para Olívia Beiradas."
Olívia acenou com a mão.
"O segundo lugar vai para... Judite Bezerro!"
"Eu? Ai, estou tão contente." disse Judite, sorrindo.
Nicolau acenou-lhe, contente também, mesmo que Judite não tivesse ficado com o primeiro lugar.
"E em primeiro lugar... Bertolina Anilha!"
"Eu ganhei?" perguntou Bertolina, surpreendida. "Ganhei! Boa!"
Enquanto Bertolina festejava, Leonilde ficou super aborrecida e aproximou-se de Virgílio.
"Como é que eu não ganhei e nem sequer fiquei nos três primeiros lugares?" perguntou ela.
"Este ano resolvemos dar oportunidade a outras pessoas, Leonilde. Além de que o seu vestido era demasiado exagerado. Lamento."
Leonilde afastou-se, aborrecida e foi beber alguma coisa para esquecer a derrota. Judite e Nicolau afastaram-se dos outros e foram passear os dois, enquanto Alcino pregou uma rasteira a Sílvia e ficou feliz por ver alguém cair. Quanto a Bertolina, devido ao seu problema de falta de memória, no dia seguinte já não se lembrava de ter ganhado o concurso.
Parte 10 – Excursão do Amor
"Deviam ter-nos deixado logo no parque, mas não, tinham de nos fazer andar e gastar a sola dos sapatos." resmungou Alcino.
Nessa tarde, alguns velhotes do Lar Fralda Prateada estavam numa excursão. De manhã tinham visitado um museu e a velha Marcolina acabara por se encostar a uma parede e adormecer, fazendo com que o grupo acabasse por a ir procurar por todo o museu, quando deram pela sua falta.
Agora à tarde, uma camioneta tinha-os deixado perto de um parque natural que iam visitar. Mas na opinião de Alcino, deviam ter sido mesmo deixados dentro do parque, em vez de terem de andar.
"E se parasses de resmungar, Alcino? Vieste para andar, homem." disse Leonilde, que ia ao seu lado. "Vais passear num parque natural, portanto, aguenta-te."
Alcino resmungou, enquanto o grupo passava por baixo de uma placa a indicar que estavam a entrar num parque natural. Logo à entrada, havia um velhote sentado num banco e ao seu lado estava um cão. Havia um pedaço de papelão ao pé deles que dizia "Dê uma esmola ao ceguinho".
Judite e Nicolau entreolharam-se e aproximaram-se do velhote e do cão. Judite tirou uma moeda da carteira e colocou-a num chapéu que estava à frente deles.
"Quê? Só vinte cêntimos? Ó minha senhora, isso não dá para nada." disse o velhote.
"Então mas você não é cego?" perguntou Judite. "Como é que sabe qual é que foi o dinheiro que pus no chapéu."
"Eu? Cego? Não. Ó minha senhora, eu vejo muito bem. Eu cego não sou eu, é o meu cão!" exclamou o velhote.
"Anda Judite, vamos embora. Este homem é doido." disse Nicolau, revirando os olhos.
Judite e Nicolau voltaram a juntar-se ao grupo, que começou a percorrer o parque natural. Um guia estava a explicar-lhes algumas coisas, enquanto Sílvia e as suas duas colegas animadoras iam prestando atenção aos velhotes e se estava tudo bem com eles.
"Já me doem os pés. Quem é que me mandou a mim vir nesta excursão? Devia era ter ficado no lar, a dormir a sesta." reclamou Alcino.
O grupo passou perto de um lago e o guia explicou-lhes a história do lago. Entretanto, o velho Terêncio deixou cair a dentadura no chão e quando se baixou para a apanhar, escorregou, foi a rebolar, caiu dentro do lago e começou a esbracejar.
"Ai credo! Salvem-no!" exclamou Leonilde.
O guia atirou-se de imediato à água e tirou de lá o velho Terêncio. Alcino torceu o nariz.
"Salvaram-no muito depressa. Tinha mais piada se ficasse para ali a esbracejar mais um bocadinho." disse ele.
Com o guia todo molhado, o grupo decidiu que iriam parar ali e fazer um piquenique. Já tinham tudo com eles, mas pensavam apenas fazer o piquenique mais para dentro do parque natural. Enquanto as duas colegas de Sílvia estendiam toalhas no chão, Sílvia estava a ajudar o guia a secar-se.
"Obrigado por ter salvado o senhor Terêncio." disse Sílvia, passando uma pequena toalha ao guia.
"O meu trabalho também se estende a manter a segurança das pessoas que guio." disse o guia, de nome Tomé Escamas.
Enquanto via Tomé a secar-se, Sílvia reparou que ele era bastante musculado e corou imenso. Tomé reparou e sorriu-lhe.
"Por acaso não quer tomar um café, qualquer dia, não?" perguntou ele.
"Eu nem bebo café, mas digo já que sim." disse Sílvia, abanando a cabeça.
Entretanto, os velhotes já estavam sentados nas toalhas, a comer algumas sandes. Alcino começou a refilar.
"A minha sandes tem formigas!" exclamou ele.
"Olhe, não se preocupe que não paga mais por isso." disse uma das colegas de Sílvia.
"Que engraçadinha. Veja lá se não lhe caem os dentes todos."
Depois de comer a sua sandes, Nicolau fez sinal a Judite e os dois afastaram-se do grupo.
"O que foi, Nicolau?" perguntou Judite. "Espero que não estejas a ter pensamentos indecentes, que eu sou uma mulher séria e já não tenho idade para estas coisas..."
"Não é nada disso, querida Judite." disse Nicolau, tirando uma pequena caixa de veludo do bolso. "Judite, eu até me ajoelhava, mas com o reumático não dá muito jeito, portanto faço o pedido de pé."
Nicolau abriu a pequena caixa, revelando um anel de noivado.
"Sei que pode parecer um pouco precipitado, mas na verdade também não sabemos quanto tempo nos resta, portanto é melhor aproveitar e dar já este passo, antes que batamos a bota. Judite Bezerro, aceitas casar comigo?"
"Eu? Casar?" perguntou Judite, surpreendida. "Ai meu Deus! Estou tão contente! Aceito! Eu aceito!"
Nicolau colocou o anel no dedo de Judite e de seguida deram um pequeno beijo. Leonilde, que os tinha seguido, já que era muito cusca e esperava ouvir algo que lhe interessasse, apressou-se a ir ter com os outros velhotes e contou-lhes tudo.
Quando Nicolau e Judite se juntaram aos outros, todos bateram palmas.
"Que sejam muito felizes." disse Sílvia.
"E agora esperamos pela festa de casamento." disse Alcino. "E ai de vocês se não me convidarem para padrinho!"
"E eu quero ser aquela que apanha o bouquet, para ser a próxima a casar." disse Leonilde.
Parte 11 – Aniversário Bombástico
O ambiente de festa enchia o lar, devido ao aniversário da directora do lar, Amanda Pilim. O pessoal do lar tinha-lhe preparado uma surpresa e fizera uma festa. Agora uma das salas de convívio enchia-se de música ambiente, bolos e muitas pessoas, na sua maioria os velhotes do lar.
"Então, já há data marcada para o casamento ou não?" perguntou Leonilde, que estava sentada numa cadeira, ao lado de Judite.
"Sim, vai ser no primeiro dia do mês que vem." disse Judite, sorrindo. "A directora foi muito simpática por deixar que façamos o casamento aqui. Queremos uma coisa íntima."
"Acho bem. Ainda me lembro do meu casamento. Também foi uma coisa íntima. Afinal, eram só duzentos convidados. Eu queria quinhentos, mas o meu marido não quis." disse Leonilde, torcendo o nariz. "Era muito mesquinho, por isso é que depois me separei dele."
Alcino estava ali perto, sentado ao lado do velho Macário, que sofria de insónias.
"Eu sempre fui muito pessimista." disse Alcino, abanando a cabeça. "Esperava sempre o pior das pessoas e das coisas, excepto da minha querida Florinda, que Deus a tenha. Ela era uma santa mulher."
"Acredito que sim. Deve ter sido mesmo uma santa, se conseguiu aturar o seu mau humor." murmurou Macário, mas Alcino não o ouviu.
"Já o meu irmão era um optimista do pior. Até enjoava. Nada abalava o seu optimismo. Aliás, os meus pais até fizeram uma experiência um dia. Encheram o meu quarto de brinquedos e o quarto do meu irmão de estrume."
"Estrume?" perguntou Macário, surpreendido.
"Sim. Então no final do dia, vieram ao meu quarto. Eu estava de braços cruzados. Não tinha tocado nos brinquedos. A minha mãe perguntou-me porquê e eu respondi que não lhes ia mexer, porque sabia que senão ia estragá-los." explicou Alcino. "Já o meu irmão, quando o foram ver ao seu quarto, andava todo contente a mexer no estrume."
"Não compreendo..."
"O meu irmão era um grande burro! E como eu disse, muito optimista. Disse aos meus pais que não o conseguiam enganar. Se estava ali aquele estrume todo, é porque havia algum pónei por ali escondido e ele andava à procura dele. Era mesmo burro o meu irmão..."
Pouco depois, a directora do lar fez um discurso, agradecendo a todos por aquela festa.
"E agora, vamos tirar as cadeiras para o lado, para se poder dançar um pouco." disse a directora. "Tentámos ter cá este ano a cantar Agathona, mas ela estava indisponível, portanto vai ter de ser mesmo uma música de algum cd. Vamos lá!"
Sílvia pôs uma música mais animada a tocar e com as cadeiras de lado, a sala encheu-se de pessoas a dançar. Nicolau e Judite começaram a dançar de imediato.
"Tu danças muito bem, querida." disse Nicolau. "Temos de praticar, para dançarmos no dia do nosso casamento."
"Sim, é verdade." disse Judite acenando afirmativamente.
Sílvia conseguiu convencer Alcino a dançar com ela e apesar dele reclamar imenso, dançava decentemente. A directora Amanda pôs-se a dançar com o velho Terêncio, mas ele deixou cair a dentadura no chão, a directora tropeçou nela e caiu. O médico Virgílio, também presente, aproximou-se rapidamente para ver se ela estava bem.
Enquanto isso, Leonilde e a velha Olívia estavam a falar de medicamentos.
"Eu agora estou a tomar um muito bom para as dores de cabeça." disse Leonilde. "Depois tenho de te dar um nome. É uma maravilha."
Entretanto, sem ninguém ver, a cozinheira Guilhermina infiltrou-se na festa, para se vingar de Leonilde e do lar em geral, já que tinha sido despedida. Trazia na mão uma bomba que tinha feito em casa.
"Atenção! Vocês vão todos pelos ares!" gritou ela.
Sílvia baixou rapidamente o volume da música, enquanto todos olhavam para Guilhermina.
"O que é aquilo na mão dela?" perguntou Nicolau.
"Ai, acho que é uma bomba!" exclamou Judite.
"Fui despedida, mas agora vou lançar este lar pelos ares! Vão todos desta para melhor, seus velhos de um raio!" exclamou Guilhermina.
Nesse momento, um sapato veio a voar e embateu na cabeça de Guilhermina, que caiu ao chão. A bomba saltou pelo ar. Sílvia agarrou-a antes de ela bater no chão e de seguida saiu da sala de convívio, a gritar, com a bomba na mão e com medo que ela explodisse.
Guilhermina estava a tentar levantar-se quando Leonilde lhe mandou com o outro sapato.
"Toma lá, malvada!" exclamou ela. "Pessoal, vamos a ela!"
Pouco depois, vários velhotes tinham saltado para cima de Guilhermina, imobilizando-a. O velho Macário deu-lhe um murro e o velho Terêncio mordeu o braço de Guilhermina, usando a sua dentadura.
"Isto não fica assim!" exclamou Guilhermina, minutos mais tarde, sendo levada pela polícia.
E assim, Guilhermina foi presa, a bomba foi desarmada e os velhotes continuaram com a sua festa.
Parte 12 – Marido e Mulher
Tinha chegado o grande dia, o dia do casamento entre Judite e Nicolau. Tal como acontecera no concurso Miss Lar Fralda Prateada, o jardim do lar estava cheio de cadeiras, desta vez para o casamento. Um pequeno altar estava posicionado para os noivos e o padre.
O padre Ramiro Lopes estava já pronto para começar a cerimónia. Nicolau, vestido a rigor, estava perto do padre e estava bastante nervoso. Alcino e a velha Bertolina eram os padrinhos do noivo e Leonilde e o médico Virgílio eram os padrinhos da noiva. Estavam todos já perto do altar.
Sentados em cadeiras encontravam-se outros velhotes, familiares e funcionários do lar. O velho Terêncio perdera a dentadura novamente, mas não a estava a procurar. O casal Marcolina e Zé estavam presentes, bem como Olívia, a directora Amanda e também a animadora do lar Sílvia, com o seu agora namorado Tomé Escamas. A irmã de Judite, Jurema, acompanhada pelo seu marido Manuel, estava a queixar-se da sua vida falando com a filha de Nicolau, Sandrina.
"Estou muito nervoso." disse Nicolau. "Nunca casei na minha vida."
"Isso não custa nada. Tem lá calma, senão dá-te uma coisa má e depois não podemos comer os bolos que estão feitos para o casamento." disse Alcino.
"Olhem, aí vem a noiva!" exclamou Leonilde.
Judite, trajando um fato de cor creme, vinha acompanhada do velho Macário. Todos os presentes se levantaram para os verem passar e chegados ao altar, Macário entregou Judite a Nicolau e afastou-se. Todos se sentaram novamente, excepto os noivos, o padre e os padrinhos.
"Se eu soubesse que tinha de estar tanto tempo em pé, não tinha querido ser padrinho." resmungou Alcino.
"Estamos aqui reunidos para casar estas duas almas de Deus, que só agora já velhos como o tempo é que resolveram dar o nó." disse o padre Ramiro. "Bom, visto que eu estou um bocadinho atrasado e tenho marcado um chá com o Bispo da Biscalambida, vamos apressar as coisas. Nicolau qualquer coisa, aceita a Judite qualquer coisa como sua esposa?"
"A Judite qualquer coisa não, mas se for a Judite Bezerro, aceito." respondeu Nicolau.
"Eu também aceito casar com o Nicolau!" exclamou Judite, muito nervosa.
"Pronto, então em nome de Deus declaro-vos marido e mulher. Podem... fazer qualquer coisa, dar um beijo, um aperto de mão ou assim e está feito."
Judite e Nicolau deram um pequeno beijo e todos os presentes aplaudiram. De seguida, os noivos passaram pelos convidados. Sandrina atirou pétalas de rosa pelo ar. Logo depois, Judite levou com um saco de cinco quilos de arroz e caiu ao chão.
"Mas quem é que mandou um saco de arroz?" perguntou Nicolau, ajudando a esposa a levantar-se.
"Desculpem lá. Fui eu." disse Jurema. "É que fica mais barato comprar logo cinco quilos. E não abri o saco porque o arroz suja imenso e depois era preciso perder imenso tempo a limpar. Eu já não posso limpar nada. As minhas costas estão uma miséria. E já agora, levo o saco de arroz para casa, porque me dá jeito. Às vezes nem tenho o que comer e..."
Jurema continuou a queixar-se, mas ninguém lhe ligou e começaram todos a seguir os noivos, para serem tiradas fotografias. Depois das fotografias, todos foram comer. Alcino começou a comer uma sopa e encontrou lá uma moeda de um euro.
"É pá, ainda não foi desta que encontrei um relógio na sopa." disse Alcino, a Leonilde, que estava sentada ao seu lado. "Mas pronto, vou começar a amealhar o que encontrar."
Pouco depois, começou a ouvir-se música e algumas pessoas levantaram-se para dançar. Os noivos dançaram um pouco, até estarem cansados. Sílvia e o seu namorado também dançaram e o médico Virgílio convidou a directora para dar um pé de dança com ele.
"Estou muito feliz, Nicolau." disse Judite, sorrindo. "Já não contava casar-me e ser amada, mas tu mudaste tudo."
"Tu é que me mudaste a mim, minha querida." disse Nicolau. "Agora no final do dia, vamos partir para a nossa lua-de-mel na Madeira."
"Adoro a Madeira, menos o presidente de lá, que parece um macaco."
Alguns minutos mais tarde, Judite estava preparada para lançar o bouquet de flores. Todas as mulheres casadoiras se puseram em posição.
"Eu é que o vou apanhar." disse Leonilde.
"Nem pensar, eu é que vou." disse Sílvia.
Entretanto, Judite lançou o bouquet. O bouquet bateu na cabeça de Leonilde, de Sílvia e também na cabeça da velha Bertolina, até que foi cair nas mãos de Alcino.
"Olha que esta!" exclamou ele. "Então calha-me a mim o bouquet?"
"Parece que és o próximo a casar." disse Nicolau.
"Eu? Já fui casado e muito bem casado. Não quero isto."
Alcino lançou o bouquet pelos ares e foi parar às mãos do médico Virgílio, que sorriu e o ofereceu à directora do lar. E assim, o resto do dia foi preenchido por alegrias no Lar Fralda Prateada, onde apesar dos habitantes serem na sua maioria velhos, a vida não parava.
Fim
E assim termina a história. Espero que tenham gostado e até uma próxima!
