Óbvio que fiquei tempo demais escolhendo uma gravata. Óbvio que demorei na frente do espelho arrumando meu cabelo. Óbvio que cheguei atrasado na palestra.
Corria pela rua, coberta de neve. Era tarde demais quando parei em frente ao auditório. Só porque vestira minha melhor roupa e ainda ficara me questionando.
Estava lá, parado entre pessoas entusiasmadas que saíam de sua palestra terminada. Minha cabeça baixa, a consciência pesada em meus ombros.
- Não perdeu muita coisa.
Ele estava olhando o nada a nossa frente enquanto parava sozinho ao meu lado. Essa seria apenas a primeira vez que ele me deixaria. Eu fui bobo mais uma vez, perguntei, gaguejando, se ele não queria beber uma xícara de café.
- Não me parece uma boa hora, estou exausto.
- Claro.
Fingi não me importar.
Se eu não tivesse alimentado, se eu não tivesse começado esse vício por ele não estaria lembrando dele vestindo um avental azul em nossa cozinha enquanto preparava sopa. Sempre com a colher de madeira preferida. Aquela que chegou a me causar ciúmes em uma noite, me fazendo jogá-la dentro do aquário. Queria que ele parasse de cozinhar, queria que ele cuidasse de mim.
