A Different Flaw in the Plan

Ele estava deitado no chão, que agora era duro, e ele podia sentir o cheiro de poeira. Permaneceu imóvel. Quanto mais tempo eles estivessem convencidos de que ele estava morto, melhor.

Ouviu uma movimentação, não muito longe dali, e percebeu que Voldemort também deveria ter ficado desacordado. Os segundos se arrastavam e tudo que importava era que acreditassem que ele já não estava ali, que havia perdido.

Prendeu a respiração quando Narcissa Malfoy se aproximou e verificou sua pulsação.

"Draco ainda está no castelo?"

A voz dela era apenas um sussurro, e por um segundo temeu o que aconteceria a ela se Voldemort descobrisse que ela cogitava traí-lo. Pela sua família.

"Sim."

Mais segundos que duraram eras, até que a voz fria se fizesse ouvir mais uma vez.

"Ele está morto."

Os rugidos da comemoração e o grito de dor de Hagrid abafaram as batidas altas de seu coração.

E a partir daquele instante, tudo aconteceu como se fosse com outra pessoa, tudo era difuso, mal lembrava como agir e não conseguia lembrar onde estava. Mas, de alguma maneira, estava lutando e era isso que importava.

Os centauros unindo-se à batalha, Neville matando Nagini, o susto de todos quando ele desapareceu, sua luta com Voldemort, com a outra parte de sua alma.

Todas as palavras que disse, cada ação que tomou - sabia que funcionariam, por ter certeza do que atingiria Voldemort, sabia o que atingiria ele assim como atingiriam sua própria alma. Era tão simples lutar contra si mesmo, sendo que sabia que sua outra parte era mais fraca por ser suja.

Quando seus feitiços cruzaram no ar, sabia que o de Voldemort não funcionaria, uma varinha nunca funcionava bem contra seu próprio dono.

Quando Voldemort caiu, Shadow sorriu - não de alegria, mas friamente.

Agora o mundo era seu para conquistar.

Harry abriu os olhos e viu a batalha terminada. Quando ouviu o rugido de festa das pessoas à sua volta, sentiu raiva por ver os corpos ainda lado a lado, não longe dali.

Quando consertou sua própria varinha, e devolveu à de Dumbledore ao túmulo e a de Draco a uma Narcissa Malfoy descomposta de alegria por ter conseguido achar seu filho, o fez com uma sensação de quase conforto, pois agora não devia mais nada a ninguém.

Quando decidiu tomar a frente dos aurores, enquanto eles prendiam pessoas, e dizer que daria depoimentos de fatos que somente ele conhecia no dia seguinte, Harry decidiu que seria justo, mesmo que fosse condenado por isso.

Shadow tomaria novos aliados, baseados em lealdade e jogos de poder, pois havia percebido que, no fim, era a isso que tudo se resumia.

Quando Harry subiu para a torre de Gryffindor, o fez sozinho.

Entrou em seu antigo dormitório sem mal olhar para nada, apenas apanhando algumas roupas em um baú qualquer. Abriu a porta do banheiro e a trancou com um feitiço, em seguida.

Tirou as roupas sujas e abriu o chuveiro, apoiando as duas mãos na parede, deixando a água atingir sua cabeça, antes de percorrem suas costas e braços, lavando a poeira e o sangue dos últimos meses.

Com a cabeça baixa, os cabelos ficando a cada segundo mais ensopados, respirava pela boca, tentando acalmar sua respiração. Tentava se enganar, fingindo que tudo que corria pelo seu rosto era apenas água.

Homens não derramam lágrimas. Assassinos não choram. Líderes não são fracos. E ele era todos os três agora.

O banheiro de seu dormitório parecia um palácio naquele momento, mas ele começava a ouvir as vozes das outras pessoas ali perto. Gente demais, vozes demais, barulho demais... Felicidade demais.

Afinal de contas, comemoravam o quê? As centenas de pessoas mortas? Seus amigos, e filhos, e pais, e namorados, e aliados que haviam morrido? Havia sido tão absurdo, tantas vidas haviam se perdido, e eles comemoravam? Tolos, fracos, burros, eles todos. Não viam que estavam apenas iniciando a verdadeira batalha?

Duvidava que vissem. Ele mesmo não via até algumas horas atrás. Não era apenas acabe com o Lorde e a guerra se vai. As sombras, as perdas, a destruição, tudo isso ficaria. Não havia motivos para alegria e riso. Não ainda. Não tão cedo. Não para ele.

Era quase engraçado sentir sua respiração acelerar e sentir dificuldade para encontrar o ar ao perceber que nunca mais seria como era antes. Nunca havia sido como era antes, vivera uma farsa, um engodo, pensando que poderia ser como todos os outros, quando jamais pôde.

Quando havia chegado a hora de realmente fazer o que devia ser feito, fora apenas ele a enfrentar a morte. Somente ele lutara com Voldemort, somente ele havia descoberto que uma parte daquele homem sempre estaria dentro dele e que, por mais que tivesse desejado negar, ele sabia que já era parte dele. Não havia mais divisões. Um homem com parte da alma de Voldemort. Isso é o que ele era.

Deixou que as lágrimas caíssem por seu rosto, sem mais tentar contê-las. Reconhecia uma batalha perdida quando encontrava uma. Deixar que outras pessoas comandassem o que deveria fazer causava isso: dor e arrependimento. Seus pais mortos vindo a seu encontro, e Lupin ao lado de Sirius, tentando lhe convencer que a morte não doía.

Não dói. Não dói para quem vai. Mas quem fica sente na pele a falta e a saudade. Sente a dor e o vazio, a solidão e o escuro. Sente a perda, mesmo que jamais tenha visto em pessoa, ou que só relembre da voz por ouvir os ecos dos gritos. Ele já não tinha mais ninguém.

Ele nunca tivera ninguém.

Mais uma vez era demais, e Harry sabia que, desta vez, não conseguiria aguentar. Não conseguiria viver consigo mesmo depois de tudo, não podia encarar ninguém de frente, sabendo que sua alma estava poluída por Voldemort. Não aguentava, era demais e ele estava sozinho... Sozinho...

Shadow decidiu que era apenas hora de aceitar isso, e não se deixar levar pelos conselhos tolos de um homem velho demais. O próprio Dumbledore havia admitido que cometera erros e um dos maiores deles era ter permitido que Harry acreditasse que poderia ser como os outros.

Ele jamais seria.

E o sentimento de quase poder ter o que jamais deveria ser seu havia quebrado a própria alma dele, transformando-o num poço de dor e ilusões desfeitas... Shadow não deixaria que Harry fosse quebrado. Ele iria proteger a mente de Harry, até que ele pudesse, finalmente, aceitar quem era.

Quem eles eram. E então poderiam ser um só novamente.

Alguém batia na porta do banheiro e ele ouviu a voz de Ron chamar por Harry. Desligou o chuveiro e secou o rosto com as mãos, encarando-se no espelho, enquanto colocava a roupa.

Um homem marcado. Um homem com a alma dividida. Um homem que havia matado algo que era parte dele mesmo.

O que seria de sua vida agora?

Abriu a porta e foi recebido com gritos de alegria por parte de seus amigos. Amigos. Quanta ironia. Amizade era um luxo que ele jamais deveria ter tido. Colocara cada uma daquelas pessoas ali em risco por simplesmente ter se associado com elas. Se tivesse se mantido afastado teria se saído melhor e posto menos vidas em risco.

Pensou em Sirius, e Lupin, e Tonks e se sentiu ainda pior.

Falavam com ele, mas ele não conseguia estar ali. Era tudo tão estranho, mesmo que lhe fosse familiar. Quando saiu do quarto, com uma desculpa qualquer, Ron veio atrás dele.

"Harry? Está tudo bem?"

Shadow lhe fitou com um sorriso um tanto irônico e um olhar beirando a descrença.

"Você acha que está tudo bem?", os olhos azuis de seu amigo se arregalaram, e ele olhou para Harry quase em choque.

"Cara, você está estranho... Quer procurar alguém para pedir ajuda, Harry?"

"Não tem ninguém que vá me ajudar, Ron. Ajudar é a minha função."

Ron lhe encarou em silêncio, obviamente incerto sobre o que poderia responder.

"Eu só preciso sair daqui e ficar sozinho. Tenho que ir ao Ministério amanhã."

"Tudo bem, eu vou avisar a Mione e nós vamos com..."

"Eu disse sozinho.", o tom de voz era incrivelmente frio, e ele viu confusão estampada nos olhos de Ron., "Nos vemos amanhã."

Saiu caminhando até Hogsmeade, o vento da noite fazendo seus cabelos enrolarem a sua frente, mas ele andava com a cabeça erguida.

Chegando lá, aparatou para Grimmauld Place, onde chamou por Kreacher, que apareceu com um estalo.

Um quarto não demorou a ser preparado e Shadow adormeceu.

Um sono sem sonhos e vazio.

Exatamente como ele.

-x-

Quando entrou no Ministério àquela manhã, usava vestes negras, exatamente como as da escola. Apenas mais adultas e sem símbolo algum. Seu rosto era impassível e ver todos aqueles homens e mulheres o olhando com admiração causava um efeito estranho.

Quanto mais admiração via nos rostos deles, mais desprezo surgia por eles, por terem deixado que Harry fizesse tudo sozinho, imaginando que lisonjas posteriores fossem lhe bastar. Ao mesmo tempo, não havia nada que ele fizesse agora que seria criticado.

Ele poderia exigir o cargo de Ministro e seria apoiado.

Mas a sutileza era uma arte que ele teria que aprender.

A ordem dos depoimentos estava sendo arranjada quando Shadow entrou na sala dos Tribunais, onde o próprio Harry já havia sido julgado. Não foi difícil que suas sugestões fossem ouvidas, e durante toda a manhã comensais como Yaxley e os Carrows foram enviados para Azkaban sem maior demora. Por volta das onze horas da manhã, Ron e Hermione apareceram na corte, recebendo um sorriso do Ministro e de tantos outros, e um aceno de cabeça de Shadow.

Às três horas da tarde, começaram os julgamentos dos Malfoy. E foi ali que a confusão começou. Quando o caso havia sido quase encerrado, Shadow pediu para dar seu depoimento. Narcissa Malfoy foi inocentada por ter ajudado O Eleito a escapar da morte e derrotar o Lorde das Trevas. Lucius Malfoy foi posto em condicional, por ter servido sob coação na maior parte do último ano e não ter lutado na batalha final. Draco Malfoy foi inocentado de todas as acusações, já que seu único crime comprovado fora cometido enquanto ele ainda era menor de idade.

Crabbe e Goyle foram enviados para a prisão, mas os irmãos Lestrange foram curiosamente inocentados por um depoimento de Harry Potter, que afirmava que eles mal haviam lutado na última batalha e que não pareciam querer cooperar com os planos de Voldemort. ¹

O Ministro não parecia contente com os rumos que aqueles julgamentos estavam tomando, parecendo pensar que as sugestões de Potter estavam sendo aceitas com facilidade absurda pelo resto da Corte Suprema de Bruxos.

No fim da tarde, cinco supostos Comensais estavam ou livres, ou sob pena de condicional, podendo perder esta regalia caso fizessem atos suspeitos. Harry Potter em pessoa havia se responsabilizado pelo comportamento deles. Uma moção proposta pelo Eleito também havia sido aprovada para que Severus Snape tivesse sua ficha limpa e seu quadro posto em Hogwarts, como todo diretor falecido tinha o direito de ter.

Quando Shadow, cansado de tantos depoimentos e argumentação, conseguiu sair do tribunal, foi abordado por Hermione, Ron e Ginny, os três parecendo incrédulos, enquanto o encaravam.

"Harry, o que você fez?", indagou uma Hermione parte chocada, parte raivosa, enquanto Shadow continuava a andar.

"O que eu tinha que fazer. Fiz o que era certo."

"Você inocentou Comensais!", ela gritou, atraindo a atenção de algumas pessoas que passavam nos corredores, e Shadow parou para fitá-la.

"Inocentei pessoas.", ele declarou, a voz baixa.

"Pessoas que cometeram crimes!"

"Você mataria todos os Alemães por causa do Nazismo, Hermione?"

"Isso é completamente diferente, Harry!"

"Por que, Hermione?"

"Harry, eles mataram pessoas! Sem piedade! Nossos amigos, nossas famílias!"

"E nós não, Hermione? Nenhum corpo caído era Comensal? Nenhuma gota de sangue derramado veio do outro lado? Nenhuma criança órfã teve um pai que escolheu um caminho errado?"

"Foi o caminho que eles escolheram, Harry!"

"E que só é "errado" porque nós vencemos, Granger! A história é contada pelos vencedores. Isso era uma Guerra e guerras são sobre escolher lados e vencer. Quase como num jogo. Só que aqui, vidas se perdem e isso é burrice. Agora que toda essa estupidez acabou, nossa missão, nosso dever, é unir esse mundo. Sem lados, sem discriminações, sem discussões. Um único lado: o de todos nós. Todos os que sobreviveram, Comensais, ou Membros da Ordem, ou Neutros. Um só."

"Belas palavras, Sr. Potter.", disse um jornalista, enquanto tirava uma foto do herói do mundo bruxo.

"Eu apenas digo o que é verdadeiro.", replicou Shadow, sorrindo.

Com essa declaração, Shadow virou-se e saiu do corredor, mas não sairia do Ministério tão cedo.

"Senhor Potter."

Shadow virou-se ao ouvir o nome e deparou-se com os Malfoy e os Lestrange esperando por ele, próximos aos elevadores.

"Sim?", respondeu, em seu melhor tom polido.

"Nós gostaríamos de agradecer. Por ter nos inocentado."

"Apenas declarei a verdade. A maneira como as pessoas a encaram é uma questão pessoal.", ele sorriu e viu que Rabastan Lestrange abria um sorriso desconfiado também.

"E podemos saber o quanto a sua verdade custa, senhor Potter?", Draco Malfoy levantou o olhar nessa hora, certamente esperando que Shadow dissesse que não custaria nada, como nobre Gryffindor que era.

"Apenas lembrem-se de que eu os ajudei.", fez uma pausa deliberada, encarando cada um deles antes de prosseguir, "Caso um dia eu necessite de aliados."

"Nós lembraremos, senhor Potter.", declarou Rodolphus Lestrange, "Nós lembraremos."

Shadow saiu, e os Malfoy não se demoraram. Rabastan encarou Rodolphus do outro lado do corredor e sorriu, lenta e preguiçosamente, saboreando cada milímetro do sorriso que era espelhado em seu irmão.

Finalmente o julgamento havia acabado e Potter havia conseguido com que ficassem fora da cadeia. Vendo o garoto, Rabastan quase sentiu remorso por ter demorado tanto tempo a perceber qual era o verdadeiro lado que venceria aquela guerra.

Atravessou o corredor e colocou-se em frente a Rodolphus, que não desviava os olhos dos seus. As mãos dele subiram para seu cabelo e Rabastan se inclinou para o toque que tanto havia lhe feito falta. Aos poucos, deixou seu corpo tocar o dele, sentindo as roupas como obstáculos entre eles, algo que deveria ser removido em um futuro próximo.

Fitou os olhos castanhos do irmão e lhe sorriu.

"Vamos para casa."


¹ O fundo para esta história encontra-se na fic "silêncio" que pode ser encontrada no meu profile. Ali está explicado o exato tipo de relacionamento que os irmãos Lestrange têm.


Revisado em: 31/10/2010

Sejam amores e

R E V I E W !