O Peso da Guerra

Os dias seguintes foram de planejamento sobre a abordagem que necessitavam sobre o assunto.

Passou longas horas em reunião com Rabastan Lestrange e Lucius Malfoy, que eram ótimos estrategistas. Notou que Rodolphus era incrivelmente observador e capaz de perceber todas as intenções das pessoas com pouco mais que um olhar. Percebeu que Narcissa Malfoy era incrivelmente franca, mas ainda assim, preocupada com as pessoas que a cercavam. Entendeu que Rabastan era um homem em quem poderia confiar, quando o assunto fosse a guerra iminente.

E viu que Draco Malfoy era um homem destruído.

O olhar do rapaz jamais era dirigido a ele, e Shadow atribuía isso ao fato de ter salvado a vida dele, no mínimo três vezes, apenas durante a última batalha. É difícil encarar as pessoas de frente quando devemos algo a elas. Draco continuava pálido e magro, os cabelos mais longos e parecendo, ainda, um tanto descuidados. Shadow notava o quanto Narcissa pareça tentar integrá-lo às conversas e planejamentos, mas Draco devotava apenas meia atenção a tudo.

Ele estava ausente. Ele era ausente. Exatamente como as pessoas destruídas ficam - como o próprio Harry sentia-se por dentro, mas Harry tinha Shadow para protegê-lo. Ele tinha todo um mundo a liderar.

Draco não tinha nada pelo que viver.

Ainda assim, seu instinto de tentar salvar as pessoas existia nele, e Shadow se viu tentando formular maneiras de conseguir com que Draco Malfoy voltasse a interagir com o mundo. Era apenas triste ver um garoto tão claramente desistir de viver.

Ele mesmo não era mais um garoto, mas, de uma maneira controversa, sentia-se mais próximo de Draco que de todos os outros que agora o cercavam.

Em pouco mais de dois dias, Lucius e Rodolphus haviam trazido mais pessoas, supostamente de confiança para dentro do seu círculo de aliados. Pessoas influentes no mundo bruxo, algumas com o nome um tanto manchado pela guerra, outras ainda com sua pose intacta, mas todos gananciosos pelo que uma aliança com o Garoto-Que-Sobreviveu significava nos tempos que corriam: poder.

Era o que movia o mundo, afinal.

Os trouxas estavam, a cada dia mais, em pânico. Não demoraria a que alguma ação ofensiva acontecesse, e tudo que impedia temporariamente tal ação de acontecer eram os constantes avisos do Ministério para que os bruxos mantivessem a discrição, punindo com mais rigor do que nunca as pessoas que desrespeitavam o regulamento de Sigilo e, assim, ninguém saberia quando eram bruxos passando ao lado, garantindo uma relativa paz.

Era isso que discutiam àquela noite, na sala de jantar de Grimmauld Place.

"Simplesmente não é certo.", dizia o Sr. Parkinson, do canto esquerdo da mesa, "Que nós tenhamos que nos esconder deles. É um absurdo."

"Por acaso o senhor está insinuando que nós somos superiores a eles, Sr. Parkinson?", indagou Shadow, com um olhar gelado, que fez o homem calvo e um tanto obeso estremecer.

"Não, senhor Potter, de maneira alguma. É apenas que nós tenhamos que esconder a nossa magia, nossas vidas, nossa maneira de ver a vida em detrimento deles. Não é justo. Nós deveríamos ter o direito de ir e vir, exatamente como eles. Talvez, realmente, não sejamos em nada superiores. Mas também não somos inferiores para termos que nos esconder."

Um sorriso lento surgiu nos lábios de Shadow, enquanto ele tomava um gole de vinho e concordava com um aceno de cabeça.

"Sim, realmente, igualdade era o mínimo que deveríamos ter. Isso é uma boa idéia a ser difundida."

"Nós precisamos de algum meio de comunicação.", disse Draco, surpreendendo a maioria das pessoas à mesa. Silêncio havia sido a única comunicação do rapaz até então, "Quando ele estava no poder, foi controlando a imprensa que ele calou muita gente. Deve funcionar agora. Influenciando as pessoas para que elas pensem o que nós precisamos que elas pensem. E nem estaremos fazendo nada errado.", ele acrescentou, após um momento, "É realmente absurdo que nós tenhamos que nos esconder."

"A ideia é muito boa. Temos que verificar algum jornalista que esteja disposto a trabalhar ao nosso lado, talvez alguma rádio... Mas antes, precisamos que as pessoas vejam que os trouxas, se não forem controlados até certo ponto, oferecem risco. Apesar de querer apenas a convivência pacífica, eu tenho consciência de que sem ao menos um pouco de luta, eles não se convencerão a nos aceitar.", Shadow encarou Draco, que devolveu o olhar pela primeira vez desde que tinham passado a conviver quase que diariamente. O loiro desviou os olhos logo em seguida, erguendo a taça e tomando seu vinho, enquanto Shadow parecia considerar o que fazer.

"E qual é o próximo passo que pretende tomar, Shadow? Já está na hora de agirmos.", disse Rabastan, o único a ter realmente aderido ao apelido que o rapaz havia se dado.

"Precisamos falar com o Ministro. Não podemos forçar a nossa entrada nesse jogo, temos que ser chamados para ele. Tentaremos um contato amigável, que sabemos que ele não vai responder. E então... agiremos."

"Como?", quis saber o Sr. Parkinson.

O sorriso estranho estava mais uma vez presente nos lábios do rapaz.

"Na hora certa, todos saberão, Sr. Parkinson. Todos saberão."

-x-

Draco encarava as cortinas de seu quarto sem realmente vê-las. Na verdade, fazia muito tempo que não via nada realmente. O mundo nada mais era que uma repetição de dias em que o medo, o tédio, a agonia e um crescente sentimento de inadequação alternavam-se à sua volta, sem que ele pudesse decidir o que sentia.

Fora realmente tolo ao achar que com o fim da guerra tudo poderia voltar ao normal, e chegou a sorrir, ao pensar em sua ingenuidade. Não havia mais espaço para ingenuidade no mundo. A inadequação surgia a cada vez que encarava Potter e um estranho sentimento de preocupação o assolava. Havia sido a guerra que havia transformado aquele imbecil sorridente da escola naquele homem frio? O poder de destruição daquela batalha havia realmente sido tão grande?

Talvez fosse. Talvez fossem os últimos dois anos os culpados pela sua própria destruição, pela sua inadequação, pelo seu medo das sombras. Estava destruído e, pelo menos agora, havia percebido que não era uma fraqueza só sua: era apenas a consequência natural.

Ver Potter tornar-se frio, além de lhe preocupar, conseguiu fazê-lo ver que todos haviam sido afetados, não apenas ele. Não apenas ele teria que mudar e se adaptar.

Estava na hora de mudar.

Vira o brilho de interesse surpreso nos olhos de Potter quando deu sua opinião àquela noite. A aprovação de sua mãe, mesclada ao alívio por vê-lo envolver-se em algo, o orgulho de seu pai, por ele estar tomando atitudes certas.

Havia um mundo novo lá fora, aguardando pelos seus novos líderes, e ele tinha a chance de estar entre eles, sem ser ameaçado. Para comandar, e não ser comandado.

Estava na hora de crescer. O novo mundo não tinha mais espaço para meninos.

E o poder era para os homens.

-x-

"O garoto é um líder natural, mas o isolamento dele é preocupante.", disse Rodolphus, assim que estavam em casa, sozinhos, mais uma vez.

"Eu concordo.", respondeu Rabastan, "Fechado demais, frio demais."

"Ele me lembra de você.", os olhos de Rodolphus percorram cada centímetro do rosto do irmão, e viu o sorriso frio tão característico dele pairar ali.

"Mas eu tenho você, para não deixar que eu escape deste mundo.", Rodolphus deu um meio sorriso.

"Talvez ele também precise de um espelho, exatamente como eu sou o seu, e você é o meu."

"É... Talvez ele precise.", afirmou Rabastan.

E ele já sabia exatamente quem era a pessoa mais indicada para isso.

-x-

Destrua os fracos, ou os fracos te destroem.

O medo é o combustível da coragem, assim como a ignorância é a origem do medo. Ter força para se impor ou se deixar ser dominado é o que faz diferença na hora das grandes decisões.

Você pode esperar que o mundo desabe sobre você, ou você pode decidir como o mundo se move.

E foi pela última opção que Shadow se decidiu.

Correu os olhos pela sala de Grimmauld Place e percorreu com o olhar verde cada uma das personas non gratas da comunidade bruxa que ele trazia, agora, como seus aliados.

Os tempos eram outros, e, assim como eles, as pessoas também eram outras, mesmo que apenas internamente.

Lucius Malfoy ainda parecia desconfortável ao fitá-lo, mas Narcissa tinha um ar calmo. Draco o analisava de uma maneira mais aberta que durante as últimas semanas, e Shadow sustentou o olhar dele durante alguns segundos, antes de virar-se novamente. Narcissa era, com certeza, mais esperta do que o marido. Shadow podia não ser Harry Potter, mas jamais faria algo contra alguém que havia salvado a sua vida, não importavam os motivos.

Não estava iniciando aquela luta pela sede de sangue, estava começando sua própria guerra pela sede de não mais sentir medo, de poder proteger a si mesmo.

Do outro lado da sala, como se se sentissem ofendidos pela presença de tantos ex-Comensais juntos, estavam os antigos membros da Ordem e alguns aurores do Ministério, incluindo o novo ministro da Magia, Kingsley Shacklebolt, tornando o ambiente tão desconfortável que o próprio ar parecia denso.

"Vocês devem saber porque estamos todos aqui.", a voz de Shadow era mais firme, mais segura e sensivelmente mais fria, quando se dirigiu a todos os outros como se fossem soldados de suas tropas, e não ex-Comensais e membros do Ministério, "Os trouxas descobriram sobre a nossa existência e nós, como membros da sociedade bruxa, pessoas em quem o povo confia, devemos tomar providências."

King mexeu-se, desconfortável, em sua cadeira.

"Bem, Harry, nós já conversamos sobre isso e já deixei claro que estamos tomando providências. Eu mesmo trabalhei com o Ministro dos trouxas durante quase um ano, em sua proteção, e estou tentando entrar em contato com ele para..."

"Tentando?", indagou Shadow, um tom levemente irônico em sua voz, "Tentar, Kingsley, não impede perseguições de acontecerem, nem pessoas de morrerem. Achei que depois de mais de um ano em guerra essas noções estivessem mais do que claras. É estranho que quando eram eles a precisarem de nós era incrivelmente fácil para você falar com o Ministro deles, e agora ele esteja permanentemente inacessível."

"Não entendo onde você está querendo chegar, Potter.", declarou um auror alto, que estava no canto da sala, em pé.

Shadow olhou diretamente para ele, e o homem sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

"Eu quero chegar ao fato de que eles estão com medo. Os trouxas estão acuados. A notícia sobre a nossa guerra vazou, e eles nos temem agora mais do que nunca. Pessoas acima deles, com capacidades que eles não têm. Eles estão acuados pela perspectiva de que nós tentaremos dominá-los ou exterminá-los e, por favor, marquem as minhas palavras, eles irão tentar acabar conosco antes. Eles são, com certeza, muito mais numerosos do que nós. E isso é um risco. A ignorância é a mãe da violência.", a voz do rapaz era baixa, sem elevar-se um único tom durante seu discurso, mas os presentes o ouviam com clareza. Era uma força natural para liderança que parecia surgir em frente aos seus olhos.

"Não é como se nos tivéssemos o que fazer, Harry.", tentou racionalizar o Sr. Weasley, "A situação é, talvez, alarmante de fato, mas com diálogo e calma nós vamos conseguir contorná-la."

"Você conseguiria argumentar com uma cobra enfurecida, Weasley?", quem fez a pergunta foi Rabastan Lestrange, sentado ao lado de seu irmão, à direita de Shadow. O homem magro encarava Arthur com uma expressão neutra e fria, o tom da voz realmente interessado e polido, e Arthur não soube como agir, a não ser responder impulsivamente.

"Não.", ele parecia não ter entendido onde o argumento do homem o levaria.

"Pois bem, também não haverá diálogos com os trouxas depois que eles decidirem nos declarar guerra. Eles beiram a irracionalidade quando acuados, qualquer um que tenha estado na escola sabe disso.", declarou Rodolphus, complementando o pensamento do irmão.

"Não há nada que indique que eles serão assim agora, Lestrange. E eu tomaria mais cuidado com o que dizer se estivesse em condicional. Propagar que os trouxas são um risco não é a melhor maneira de se manter fora de Azkaban.", declarou Kingsley, encarando o homem com raiva.

"Eles são um risco, King. Eu vivi com eles mais da metade da minha vida e eu sei na pele o que um trouxa acuado pode fazer por medo de magia."

"Nós não podemos assumir como padrão o comportamento dos seus... familiares, Harry. Foi uma exceção."

"Assim como a maneira como a mãe de Voldemort foi tratada foi uma exceção? E a maneira como ele foi tratado no orfanato em que ele foi criado? Foi uma exceção também o que aconteceu durante a Inquisição? Tudo são exceções. Exceções não nos isentam do perigo. Um bruxo se tornar tão poderoso quanto Voldemort se tornou foi uma exceção. E meu afilhado não tem pais, exatamente por essa exceção, a Sra. Weasley perdeu um filho por essa exceção. Eu perdi a minha família por essa exceção. Eu perdi minha juventude por essa exceção. Ainda vai defender a tese de que eles não são perigosos?"

"Você não pode comparar o que está acontecendo agora com a Inquisição, Harry!", declarou o Sr. Weasley, parecendo um tanto exasperado, "Eles com certeza não chegarão a esses extremos!"

"É claro que não, Sr. Weasley.", declarou Narcissa Malfoy, com a voz fria, "Nós não permitiremos que chegue."

"E quem seriam esse 'nós', Sra. Malfoy? Ex-Comensais, por acaso?", a voz de Kingsley era baixa e cheia de raiva.

"Não. Por nós, ela fala do povo bruxo, Kingsley, que deve se manter unido. O medo deles, o medo que os trouxas têm fez eles trancarem uma criança em um armário por dez anos. Fizeram eles temer esta criança, quando ela chegou aos onze, e ganhar barras de ferro no quarto, aos doze. Tudo que permitiu que eu sobrevivesse aos verões foram os bolos que a Sra. Weasley mandava para mim. Voldemort poderia ter feito um acordo com os Dursley e eu não teria sobrevivido. Eles oprimem o que temem e destroem o que não entendem. Eles irão nos destruir-", ele encarou cada uma das pessoas da sala, com um olhar penetrante, "-a menos que façamos algo para impedir."

"Harry, por Merlin, eu espero que você não esteja insinuando o que eu acho que está."

"E o que você acha que eu estou insinuando, Kingsley?", Shadow devolveu, olhando para o Ministro com um olhar claramente cínico e falsamente interessado, como se o desafiasse a dizer que O Eleito estava insinuando que matassem todos os trouxas. O homem pareceu em dúvida sobre como responder e manteve-se em silêncio alguns segundos.

"Eu espero, Harry, que você não esteja insinuando que nós devamos exterminar a Comunidade não mágica, ou talvez, dominá-los."

"Você está me acusando de agir como Voldemort, Kingsley? Está me acusando de ser igual ao homem que matou meus pais e meus amigos? Que fez dessas pessoas todas que estão aqui seus escravos? Eu não quero escravos, Kingsley, quero aliados. Eu não quero exterminar povo algum, mas também não quero que sejamos nós a sermos exterminados."

"Eles ainda não fizeram nada!", declarou o Ministro, finalmente perdendo a paciência.

"Não?", contrapôs Shadow, calmamente, "Nós temos de nos esconder, esconder nossas famílias e nossos hábitos, para que eles não saibam de nós. Nossas crianças são oprimidas, nossos adultos discriminados, nossas forças temidas e nossos caráteres julgados como ruins, apenas por sermos o que somos. Eles realmente não fazem nada.", a voz fria estava encharcada de cinismo e Kingsley sentiu como se estivesse lutando uma batalha perdida.

"Se eles fizerem algo realmente contra nossa comunidade, então nós decidiremos como agir."

"Quando eles fizerem, vai ser tarde demais para começar a decidir."

"Veremos isso quando a hora chegar.", disse Kingsley, levantando-se e acenando brevemente com a cabeça para Shadow, deixando o lugar com os outros membros do Ministério. O Sr. Weasley foi o último a deixar a sala e deu um sorriso triste para Harry antes de sair, e Harry sentiu seu coração se contrair. Estava perdendo tanta coisa...

Mas tinha tanto a ganhar.

"Então, Shadow," iniciou Rabastan, "qual o nosso próximo passo?"

"Tente contatar o primeiro jornalista a falar sobre os trouxas, Rabastan. Acho que o nome é Daniel Everlast. Diga que é em meu nome que faz o convite para um... passeio, amanhã à noite. Eu acho que meus tios merecem uma visita."


Revisado em 06/11/2010


R E V I E W !