Renascimento
O dia seguinte amanheceu ensolarado, como há muito não se via. Enfim o Ministério parecia ter encontrado uma forma de parar a reprodução dos dementadores e o sol voltava a brilhar, como seria natural para uma semana de Julho. O aniversário de Harry seria em dois dias, pensava Shadow, enquanto levantava naquela manhã.
Estranho não estar na Rua dos Alfeneiros. Estranho não esperar nenhum cartão de Ron ou Hermione. Estranho que, pela primeira vez desde os onze anos de idade, ele não tivesse que se preocupar se realmente veria o seu próximo aniversário. Estranho que jamais tivesse se sentido tão sozinho.
Estranho que não se importasse com isso.
Chegou à cozinha e encontrou Kreacher preparando seu café da manhã animadamente, enquanto Rabastan Lestrange segurava uma xícara cheia de café recém passado em uma das mãos.
Cumprimentou o homem com um aceno de cabeça e sentou-se ereto à mesa. Havia se habituado à presença constante de Rabastan e, por vezes, Rodolphus em sua casa. Chegava, em certos momentos, a compará-los com Sirius, ou Remus. Não que eles se preocupassem com o seu bem estar, pelo estado puro da palavra, mas pareciam querer saber que o homem que os havia tirado da cadeia poderia garantir essa regalia por tempo indeterminado, até que pudessem ter certeza de que ficariam livres, mesmo que Harry Potter se tornasse um aclamado assassino de trouxas.
O que, na verdade, não era exatamente uma impossibilidade, dada a corrente situação.
"Conseguimos contatar o jornalista ainda ontem à noite. Ele pareceu muito animado em nos ajudar. O nome 'Harry Potter' faz maravilhas."
Shadow deu um meio sorriso, enquanto baixava a xícara.
"Sempre fez.", seu rosto assumiu uma expressão vaga, "Onde está Rodolphus?"
"Com Lucius. Eles estão preparando nossa visita aos seus tios.", Rabastan o encarou, "Tem certeza de que quer fazer isso?"
"Tenho. É a única maneira de colocarmos o Ministério em ação. E eles estarão despreparados, nós não. Ganharemos a confiança da população. Precisamos de um estopim nessa guerra. O que será melhor do que uma agressão feita pelo tio trouxa do salvador do mundo bruxo, não é mesmo?", tinha um sorriso cínico nos lábios que ele mesmo jamais pensara ser capaz de formar até algumas semanas atrás. Rabastan lhe encarava com curiosidade.
"É uma visão bastante prática. Já pensou no que fazer, quando encontrar seu tio, para que resulte em uma notícia no jornal?"
Shadow deu uma risada seca.
"Acredite em mim, Rabastan, quando eu aparecer na frente do meu tio, ele vai fazer tudo o que eu pensar que ele pode fazer. Notícia de primeira página, em qualquer lugar."
"E você sobreviveu tanto tempo com eles, como?"
Shadow deu de ombros.
"Nem eu mesmo sei."
A campainha soou naquele momento e Shadow continuou seu café, enquanto Rabastan lia o jornal, despreocupadamente. Provavelmente era Lucius, ou Rodolphus, com planos para a noite. Quando ouviu Kreacher de volta à cozinha e levantou o olhar, Shadow encontrou a última pessoa que esperava, ou desejava, ver: Ginevra Weasley.
A garota ruiva estava parada atrás do elfo, que se curvava em direção a Shadow.
"A garota exigiu ver mestre Harry. Kreacher não queria, mas a garota disse que ia gritar.", ele lançou um olhar venenoso à menina, "Se mestre Harry quiser, Kreacher bota menina para fora."
"Não, Kreacher, está tudo bem.", ele tinha os olhos fixos na menina à sua frente, enquanto o aroma floral invadiu seus sentidos. Shadow se sentiu enjoado. "Bom dia, Ginny."
A garota não respondeu, no entanto. Tinha os olhos castanhos pregados em Rabastan, que não havia desviado os olhos do jornal. Olhava-o como se ele fosse alguém diferente dela, um ser monstruoso e não mais um sobrevivente. Qual era a grande diferença entre eles dois, afinal? Que Rabastan havia assumido os riscos de tomar os caminhos errados? Ao menos ele havia feito algo e não apenas se escondido, obedientemente.
Shadow decidiu não dizer nada, apenas para ver como a ex-namorada de Harry Potter reagiria. Tão jovem, tão nova, tão infantil, tão imatura, ainda acreditando na definição de "bons" e "maus", como nos contos de fadas. A guerra não havia atingido Ginny da mesma maneira que o havia atingido. Ela era uma mera vítima. Ele era o centro dela.
Percebendo o silêncio ao seu redor, Rabastan olhou para a menina.
"Bom dia, Srta Weasley.", Ginny não respondeu, mas assumiu um ar raivoso, que fez Shadow se sentir impaciente. Ela voltou a olhar para ele e seus olhos estavam brilhantes. Harry sempre admirara a capacidade de Ginny de não chorar, de conter suas emoções. Não era o fato de que havia se afastado dela que faria Shadow apreciar menos essa capacidade. Preferia que ela não fosse se desmanchar em lágrimas, nem nada assim.
"Posso falar com você, Harry?", Shadow deu de ombros e fez um gesto indicando uma cadeira ao lado da de Rabastan.
"Claro. Sente-se, Ginny."
"Eu preferia falar a sós."
Rabastan sorriu friamente e inclinou a cabeça na direção de Shadow.
"Estarei na sala da Tapeçaria, Shadow."
Shadow concordou com um aceno e os jovens observaram o homem deixar a cozinha. Shadow continuou tomando seu café, enquanto Ginny se acomodava na cadeira que ele havia indicado.
"Shadow?", ela indagou, a voz um tanto estrangulada, como se estivesse segurando as lágrimas.
O rapaz a encarou com um olhar frio.
"Você queria falar comigo?"
A garota pareceu ficar sem jeito diante da frieza dele, mas tomou coragem e o encarou. Ele sustentou seu olhar por alguns segundos e então desviou o rosto, olhando a esmo pela cozinha.
"Papai contou sobre a reunião que vocês tiveram aqui. Com o Ministro. Eu não quis acreditar. Quer dizer, me soava tão absurdo. Eu sei que você havia nos avisado, mas... Você, Harry, justo você, junto com um bando de Comensais da Morte?", ela fez um momento de silêncio, tentando fazer com que ele olhasse para ela, mas o rapaz continuava encarando algum ponto à sua frente, com uma expressão entediada no rosto, "Mas depois do que eu vi... Aquele homem, Harry, que estava tão calmamente tomando café na sua cozinha, enlouqueceu os pais de Neville."
"E eu, Ginny, matei um homem. Você não acha que eu deveria ir para Azkaban?", indagou ele, a voz baixa e clara, encarando-a pela primeira vez desde que ela começara a falar.
"Claro que não! Era Você-Sabe-Quem! Ele era o inimigo!"
Tão ridículo que ela dissesse isso. Por um momento, Shadow imaginou que ele poderia matar Ron na frente da garota e ela não lhe recriminaria. A primeira prova que ele teve do que teria que enfrentar naquele mundo, o grito fininho de "Mamãe, posso vê-lo" que ela mesma havia dado, em King's Cross. Ela não havia superado, ainda, a sua idolatria ingênua por Harry Potter? Não via que o herói que a salvara de basiliscos e memórias era apenas mais um homem? Ele jamais quisera deixar de ser comum, apenas tinha um nome conhecido e influência. Isso não mudaria, pessoas ainda o apontariam na rua, ele ainda teria seu rosto escaneado em busca de sua cicatriz, mas, honestamente, como pudera ter pensado em ter um relacionamento com alguém tão deslumbrada quanto aquela menina? Ele precisava de alguém forte, alguém que jamais tivesse se rendido a ele apenas por ser Harry Potter ou um símbolo de bondade.
Ele já estava quebrado. Precisava de alguém que pudesse o ajudar a juntar seus próprios pedaços.
A questão era: ainda havia alguém assim?
"E os pais de Neville eram inimigos de Rabastan naquela época. Tudo, Ginny, absolutamente tudo, é uma mera questão de pontos de vista. Se eles tivessem vencido a guerra, nós seríamos os inimigos. E toda essa divisão é cansativa. Eu cansei de lutar por todos e ninguém lutar por mim."
"Nós lutamos por você, Harry! Nós éramos seus amigos!"
"Não. Eu os coloquei em perigo com a minha suposta amizade, mas vocês não podiam lutar por mim. Eu tive que lutar sozinho, no fim, de uma maneira ou outra. Você tem noção da quantidade de vezes que seu irmão e Hermione quase morreram por estarem ao meu lado? Porque eu era despreparado e inexperiente? Porque eu não sabia o que fazer antes e só decidia como agir no momento em que o perigo se apresentava? Eu não vou mais passar por isso."
"Harry, a guerra acabou.", o tom dela tinha um apelo enorme, como se implorasse para que ele visse algo muito simples.
"E outra vai começar logo."
"E você pretende enfrentá-la sem amigos?"
"Eu pretendo enfrentá-la para vencer."
Os olhos da garota marejaram quando ela ouviu a última declaração dele e ela se levantou, indo lentamente até o rapaz. Chegou perto o bastante para tocá-lo e o beijou, tomando o rosto dele entre suas mãos, como se tentasse recuperar o antigo Harry através daquele beijo.
Shadow não se moveu, mas quase sentiu pena de Ginny.
O antigo Harry simplesmente não existia mais.
-x-
Rabastan chegou ao corredor no momento em que Kreacher abria a porta para Lucius, Rodolphus e Draco. Seguiram até a sala da tapeçaria e trocaram algumas informações, mas Lucius insistia que não havia sentido em repassarem qualquer plano sem a presença de Potter. Afinal, a ideia era dele.
Rabastan olhou para todos na sala, sério.
"Parece que uma antiga amiga de Shadow veio vê-lo. Pela cor dos cabelos, é uma Weasley."
"É a antiga namorada de Potter.", disse Draco, com um que de nojo na voz.
"Bem, não acho que Weasleys tenham sido feitos para a guerra.", declarou Lucius, e Rodolphus sorriu. Rabastan era incrivelmente astuto.
"Draco, por favor, vá até a cozinha e chame Shadow. Nem mesmo ele deve estar contente com a presença daquela garota.", disse Rodolphus.
Draco sorriu, cínico. Era sempre um prazer irritar um Weasley.
Quando ouviu a porta da cozinha bater, Ginny virou-se, assustada, e viu Draco Malfoy entrar no aposento com um olhar de profundo desprezo.
"Shadow, estamos prontos para a reunião."
"Estou indo, Malfoy."
Levantou-se e saiu. Sem um único olhar para trás, lado a lado com Draco Malfoy.
Era triste, mas era a maneira mais fácil para entender. Harry já não podia mais existir para ela.
R E V I E W !
Revisado em: 04/04/2011
