Despertando
A rua dos Alfeneiros continuava exatamente igual ao que sempre fora. As grandes casas identicamente quadradas, com seus jardins bem cuidados e seus caminhos de pedra não haviam sofrido uma única mudança por causa da guerra.
Era até engraçado como algumas coisas simplesmente não mudavam.
Ao menos até agora.
Parando em frente ao número quatro, a casa de dezesseis dos dezoito anos de vida de Harry, Shadow constatou, sem surpresas, que não sentia saudade alguma do lugar. E sentia menos falta ainda das pessoas que a habitavam. Até mesmo Grimmauld Place lhe parecia mais agradável.
"Ainda há tempo para desistir. Nós podemos providenciar um estopim diferente para iniciarmos a nossa batalha.", disse Rabastan, em voz baixa, de modo que apenas Shadow ouvisse.
O rapaz percebeu que ele havia tomado sua hesitação por medo ou arrependimento, e sorriu.
"E perder uma das partes mais divertidas de todo o plano?", ele respondeu, olhando em volta brevemente, enquanto esticava o braço e tocava a campainha.
Lucius Malfoy estava à sua esquerda, uma das mãos no bolso da capa, certamente segurando a varinha. Rabastan, à sua direita, estava com a varinha na mão, abertamente, e apesar do comportamento aparentemente relaxado, sua postura emanava cautela.
Daniel Everlast estava parado alguns passos atrás de Shadow, com mais um jornalista e um fotógrafo, que tinha a máquina escondida dentro da capa. Everlast estava com um pergaminho na mão, e sua pena de repetição rápida estava a postos.
Harry olhara com desconfiança para a tal pena quando Daniel havia chegado a Grimmauld Place e pedira para que o jornalista a testasse. Dizendo algumas frases simples, o homem fez com que a pena cinza-chumbo deslizasse pelo papel, sua ponta afiada arranhando o pergaminho, registrando precisamente as palavras ditas, nem uma única vírgula a mais. Shadow se deu por satisfeito. Afinal, nada além da verdade seria necessário para causar o caos.
Os outros bruxos lançaram feitiços de desilusão em si mesmos e esperaram.
Não demorou a que alguém abrisse a porta, e Shadow viu-se em frente ao tormento de toda a sua infância: Vernon Dursley. O rosto do homem foi adquirindo uma cor púrpura mal distribuída ao ver o sobrinho parado em sua porta.
"Podemos conversar, tio Vernon?", Shadow indagou, seu sorriso mais inocente no rosto, o tom de voz mais educado na pergunta.
"Suma daqui, moleque.", Vernon sibilou por entre dentes, aproximando-se ameaçadoramente do rosto de Shadow, "Saia de perto da nossa casa! Agora que essa gente da sualaia começou a aparecer, eu não quero que ninguém suspeite que nós algum dia tivemos algo a ver com a sua... sua... esquisitice."
"Tio Vernon, eu só preciso conversar com vocês! Pode ser que entre os trouxas não seja o lugar mais seguro para que meus familiares estejam durante a guerra que vai acontecer!", Shadow protestou em voz alta, dando um passo em direção ao seu tio, ouvindo o barulho quase surdo dos flashes da máquina fotográfica e a pena do jornalista registrando cada palavra que ele falava, "Eu me preocupo com vocês.", ele declarou, o olhar verde transmitindo uma quase inocência, enquanto seu rosto se aproximava ainda mais do tio, "Afinal,", ele sussurrou, de maneira que apenas Vernon pudesse ouvi-lo, "Se um trouxa matar algum de vocês, eu nunca vou ter o prazer de fazer isso com as minhas próprias mãos."
Vernon encarou o homem que agora tinha um sorriso malicioso nos lábios e um brilho gelado no olhar e involuntariamente deu um passo para trás.
"SUMA DA MINHA CASA, SEU ANORMAL!", gritou ele, fazendo com que Shadow desse mais um passo em direção a Vernon. Para os bruxos vendo a cena a alguns passos, era apenas um garoto franzino, tentando fazer com que seu tio preconceituoso e violento entendesse que ele estava ali para salvar a sua vida.
Para Vernon, era ver refletido no brilho verde dos olhos daquele homem que lhe encarava que seu fim estava próximo.
"Tio Vernon...", Shadow disse, mais uma vez, mal contendo um sorriso quando Vernon enfim perdeu a paciência e fez o que sempre fazia quando se sentia acuado: atacou.
O homem enorme tinha as mãos em torno do pescoço de Shadow antes que o rapaz pudesse esboçar alguma reação. O garoto lutava contra o tio obviamente mais forte que ele, mas, estranhamente, não recorreu à magia. O homem o atirou ao chão, gritando ofensas ao rapaz e aos seus pais o tempo todo.
Shadow recebeu chutes e xingamentos, imóvel no chão, e foi quando Vernon tentou, efetivamente, pisar no rapaz que os demais decidiram que aquilo já havia ido longe demais.
Sem hesitar, Lucius e Rabastan lançaram um feitiço estuporante no homem, talvez com um tanto de força demais, que caiu para trás com um baque surdo, uma das mãos segurando o lado esquerdo do peito entre arquejos de ar.
Shadow levantou o olhar e viu sua tia e primo o encarando, entre horrorizados e confusos, até que Daniel foi até o lado do rapaz caído.
"Por que você não usou magia para se defender?", ele indagou em uma voz preocupada, olhando de relance para um dos fotógrafos que checava Vernon Dursley, procurando por pulso.
"Eu não queria machucá-lo.", foi a resposta de Shadow, numa voz baixa e encarando o chão. O jornalista apenas assentiu e encarou o fotógrafo, que balançou a cabeça em pesar.
"Ataque cardíaco."
Shadow levantou do chão e foi até sua tia e primo, garantindo-lhes que nada iria faltar para eles dois. Petúnia estava aturdida demais para prestar atenção em qualquer coisa, e quando, algumas horas mais tarde, ela e Duddley tiveram as memórias alteradas e foram postos em um avião para a Colômbia, pensando que tinham toda uma vida lá, Shadow conseguiu respirar aliviado por ter se lembrado de usar a mesma tática que Hermione havia usado em seus pais.
A guerra havia começado. E ele iria vencer.
-x-
O Salvador Atacado!
Ataque de trouxa ao Salvador do Mundo Bruxo revolta Comunidade Mágica
Ao cair da noite de 3 de Agosto, uma equipe do Profeta Diário presenciou uma das cenas mais revoltantes dos últimos anos.
Harry Potter, reconhecido desde a infância pela alcunha de "O-Garoto-que-Sobrevieu", salvador profetizado da Comunidade Mágica, foi atacado, três dias após seu aniversário, pelo seu próprio tio trouxa, Vernon Dursley.
Durante anos houve rumores do tratamento duvidoso que o jovem senhor Potter receberia de seus parentes, mas nenhuma medida nunca foi tomada para a proteção do jovem, na época, alvo principal de Lorde Voldemort. Em vista da guerra iminente, o senhor Potter parece ter decidido que, apesar do tratamento menos do que desejoso que recebia dos tios em sua infância, era seu dever protegê-los.
Este repórter presenciou então alguns dos momentos mais chocantes de sua carreira.
No instante em que viu seu sobrinho, Vernon Dursley lançou-se em um ataque verbal ao jovem, mesmo quando este explicou estar ali apenas para a proteção de sua própria família. Após alguns minutos, não contente em abusar verbalmente do rapaz, Vernon Dursley atacou fisicamente o senhor Potter que, para a grande surpresa e admiração dos presentes, não recorreu à magia para a defesa. Recebendo socos, pontapés e xingamentos, o senhor Potter tentava explicar a seu tio a gravidade da situação em que comunidades mágica e não-mágica se encontram.
Presenciando o rapaz indefeso, alguns dos acompanhantes do senhor Potter lançaram-se em defesa do jovem, com feitiços simples, que não deveriam causar nenhum dano permanente. Infelizmente, uma vez combinados entre si e com a péssima saúde física de Vernon Dursley, causaram uma parada cardíaca no homem, que faleceu instantaneamente.
Indagado sobre porque não havia usado magia para se defender, o senhor Potter, parecendo ainda muito abalado pela morte do tio, respondeu, "Eu não queria machucá-lo."
Um dos defensores do senhor Potter, que não quis ser identificado, justifica as ações do rapaz, "Todos nós sabemos como Harry lutou por toda a comunidade mágica quando foi necessário, levando, literalmente, o peso da liberdade do nosso mundo em seus ombros. Para ele, nada seria mais natural do que tentar ajudar seus parentes, mesmo que eles nunca tentassem ajudá-lo.", argumentou o Sr R.
Uma vez perguntado ao outro presente no ataque por que atacou Vernon Dursley, o Sr L. respondeu "Eu tenho um filho com a idade de Harry. Jamais conseguiria deixá-lo a mercê de um homem com quatro vezes o seu tamanho. Foi um ataque violento e desnecessário. Prejudicial aos próprios trouxas muito mais do que a nós."
Apesar do desfecho triste, parte da família do Sr Potter está, agora, em um local seguro e a salvo, pois O Eleito recusou-se a abandonar sua vontade de ajudá-los apenas pela agressão.
Harry Potter não quis fazer nenhum comentário sobre o ataque ou sua repercussão no mundo bruxo. O rapaz, ainda com alguns ferimentos, hematomas e arranhões, declarou simplesmente: "Eles apenas não compreendem."
Resta-nos decidir se nós os compreendemos.
O Ministro da Magia, Kingsley Shacklebolt, não fez declarações sobre o ataque ou a onda de pânico que a Comunidade Mágica sofre. Ainda sem declarar quais medidas serão tomadas para a proteção da nossa comunidade, o Ministro confia que o sigilo da identidade dos bruxos nos manterá seguros, até que medidas cabíveis sejam tomadas.
A Comunidade Bruxa, no entanto, começa a se perguntar: por quenósdevemos nos esconder?
(continua pgs 4, 5 e 6)
Draco encarou o jornal e sorriu. Manipulado e distorcido. Exatamente como eles esperavam que fosse. Saiu de casa pretendendo ir a Grimmauld Place, parabenizar Potter pelo golpe de mestre na Comunidade bruxa em geral e também para tentar integrar-se mais à "Nova Ordem" que parecia estar sendo formada dentro daquela antiga casa.
O 'novo' Harry Potter, ou melhor, Shadow, conseguia ser fascinante sem ser irritante como o garoto que frequentava a escola com Draco era.
Chegando à Mansão, Kreacher abriu a porta para ele e anunciou, muito contente, que Mestre Shadow ainda estava dormindo. Draco anunciou que esperaria na sala de visitas e foi até o aposento, relendo o artigo do jornal mais uma vez.
Sua paz de espírito foi arruinada, no entanto, quando uma Granger com lágrimas nos olhos e um Weasley fumegando apareceram em sua frente, guiados por um Kreacher um tanto contrafeito.
"Que DIABOS você está fazendo aqui, Malfoy?"
-x-
A cama era tão boa e pela primeira vez em meses ele havia dormido bem. Harry abriu os olhos com má vontade, sem disposição alguma de sair da cama, mas seu estômago fez a escolha por ele, porque anunciou, com um grunhido muito alto, que ele precisava comer.
Levantou-se e olhou em volta um tanto confuso. Estava em Grimmauld Place, isto era certo, mas... Não lembrava ao certo porquê estava ali.
Saindo da cama de vez, foi até o banheiro admirando seu rosto no espelho. Seu cabelo estava comprido demais, precisava apará-lo e logo. Talvez a Sra Weasley o cortasse para ele. Pensou no que Ginny falaria sobre seu cabelo enorme e sentiu uma onda de irritação com ela. Não se lembrava de ter brigado com ela, mas mesmo assim, apenas o pensamento de vê-la fez com que franzisse o cenho.
Pouco antes de sair do banheiro ouviu um estalido em seu quarto e quando abriu a porta deu-se de frente com Kreacher, que exibia um sorriso... estranho.
"Mestre Harry! Seu café da manhã está pronto para ser servido na sala de visitas e seus amigos estão esperando lá. E aqui está o seu jornal.", a criaturinha avisou e desapareceu.
Harry riu sozinho com a atitude do elfo e colocou uma roupa simples que achou no armário. Era sua, disso tinha certeza, porque lhe servia perfeitamente, mas não se lembrava de ter comprado roupas nos últimos dias. As lembranças pareciam tão vagas. Todas elas.
Com uma camiseta simples e preta e uma calça jeans escura, pegou o jornal e começou a descer as escadas, dando uma rápida olhada na manchete do jornal.
"O Salvador Atacado"
Harry sentiu-se gelar.
Atacado?
Parado no meio das escadas, leu a matéria toda sentindo como se o mundo tivesse sido tirado de sob seus pés. Era por isso que não se lembrava de nada? Havia tentando ajudar os Dursley e fora atacado? Raiva pura começou a correr por suas veias. Tentava ajudar aquela família ingrata e a recompensa fora uma agressão? Não conseguia pensar claramente, sentia tanta raiva que nem parecia só sua. Com um grito de pura raiva jogou o jornal no chão, sentindo sua pele se arrepiar pela intensidade do que sentia.
Atraídos pelo grito, os três ocupantes da sala saíram e depararam-se com Harry no meio das escadas. Draco percebeu que ele parecia... atormentado.
"Harry!" disse uma angustiada Hermione, que parecia, como em todos os momentos de crise emocional, à beira das lágrimas. Harry a encarou durante um longo momento, parecendo tentar ganhar controle sobre suas emoções, antes de sorrir um pouco e descer os últimos degraus até eles, onde a garota não perdeu tempo em abraçá-lo.
Draco cruzou os braços, escorando-se à porta, distante dos outros três, notando que aquele ali parecia, sim, o mesmo garoto que havia saído de Hogwarts. Aquele era Harry Potter. Definitivamente, aquele não era Shadow. A garota soltou o amigo que então se virou para cumprimentar Ron, que pareceu desconfortável na presença do amigo.
"Então, Harry, por que é que Malfoy está aqui?"
Harry ficou mudo durante alguns segundos, encarando Malfoy com uma expressão curiosa, parecendo tão intrigado pela pergunta quanto Ron, e Hermione lhe encarou, preocupada.
"Isso não importa, Ron! Como você está, Harry? Ficamos tão preocupados quando vimos! Aqueles trouxas horríveis!"
Ela parecia ter um enorme discurso a dizer, mas se interrompeu, porque naquele instante, o rosto de Harry adquiriu uma expressão nula, branca, como se ele tivesse sumido, para então ser substituído pela expressão madura que Draco aprendera a identificar nas últimas semanas, mas que a antiga parte do trio não parecia conhecer.
"Eu estou bem, Hermione. Não se preocupe comigo.", ele sorriu um sorriso de lado e olhou na direção de Draco, que acabou respondendo o sorriso.
"Golpe de mestre, Potter.", disse ele, afastando-se da porta e seguindo até onde os outros três estavam parados, postando-se ao lado de Shadow, "Quando eu mencionei a imprensa pensei em algo menos... dramático, mas parece ter funcionado à perfeição."
"Foi bem planejado.", respondeu Shadow, com um dar de ombros, "Boas idéias tendem a funcionar bem.", Draco assentiu, aceitando o elogio velado, tendo de segurar o riso diante das expressões estarrecidas dos outros ex-Gryffindors.
Weasley estava com os olhos do tamanho de pires, literal e completamente pasmo diante da conversa que se dava à sua frente. Granger tinha um ar entre ofendido e calculista, encarando Potter como se nunca o tivesse visto antes.
Provavelmente nunca havia visto aquele lado de Potter antes, considerou Draco.
"Planejado, Harry?", indagou Hermione, com um ar cada vez mais traído, "Você planejou o ataque?"
Shadow a encarou com um ar levemente irritado.
"Você está perguntando se eu planejei levar socos e pontapés, e ouvir tudo que aquele homem falou sobre mim e a minha família de propósito? Se eu provoquei essa reação propositadamente? Se eu queria que isso acontecesse assim? Não. Eu não provoquei. Mas foi o desfecho que aconteceu, era o que nos precisávamos para começar a fazer o Ministério abrir os olhos para o perigo que eles representam."
A palavra eles foi dita com tamanha repugnância que Granger chegou a dar um passo para trás, como se fisicamente atacada.
"Eles são tão pessoas quanto nós, Harry."
"Eu nunca disse que não eram. É exatamente pela igualdade que eu estou fazendo o que eu estou fazendo, Hermione.", de um instante para o outro sua expressão se suavizou e Granger pareceu ficar a beira das lágrimas, "É outra guerra, Mione. Eu só consegui vencer a última com vocês aqui. Eu preciso de você e Ron ao meu lado."
"Nós sempre vamos estar aqui, Harry. Mas nós precisamos entender o que está acontecendo antes.", ela respondeu, um brilho angustiado no olhar.
"E vocês vão deixar com que eu explique?"
Como se para confirmar a dúvida que havia na voz de Shadow, Rabastan apareceu no corredor que vinha do hall de entrada, um sorriso estampado no rosto e uma cópia do Profeta Diário em uma das mãos. Era impossível não admitir que o homem era incrivelmente atraente, agora que estava livre de Voldemort e Azkaban, capaz de tomar seus próprios passos mais uma vez. O sorriso do homem pareceu aumentar ainda mais quando percebeu a posição dos quatro jovens na beira da escada. Draco e Shadow estavam lado a lado, enquanto Weasley e Granger estavam a alguns passos deles, o ruivo ainda mais distante dos dois do que a garota.
Hermione lançou um olhar de desaprovação diante do ar casual que a ação de Rabastan Lestrange entrando na casa de seu melhor amigo parecia ter. A garota respirou fundo antes de falar.
"Você tem certeza de que ainda precisa de nós, Harry?"
Pela segunda vez naquela manhã, o rosto do rapaz tornou-se aquela máscara branca, substituída por um certo ar de agonia e um brilho nos olhos verdes que pareciam lágrimas.
"Sempre, Mione.", ele disse com uma voz fraca.
Mas o momento passou tão rápido quanto apareceu e Ron já puxava Hermione para a saída da casa, com uma desculpa de que quando estivessem prontos eles apareceriam novamente. Draco percebeu que Hermione tinha um ar de realização no rosto, como se tivesse acabado de descobrir a resposta para algo.
Naquele instante, Draco decidiu que tinha que fazer algo que realmente não queria fazer: ele precisava falar com Granger.
R E V I E W !
Revisado em 04/04/2011
