E você? Faria?
Não era comum à Hermione Granger ter um certo ar de confusão no rosto. Também não era comum que ela não tivesse pensado em correr a uma biblioteca e ver em livros dúzias de referências que pudessem ajudá-la a esclarecer qualquer dúvida que tivesse. Hermione Granger era uma mulher prática. Hermione Granger era uma bruxa inteligente. Não havia feitiço que ela não pudesse aprender, não havia raciocínio que ela não pudesse entender, não havia mistério que, com o tempo suficiente, ela não pudesse desvendar.
A menos que tal mistério fosse seu melhor amigo, seu irmão, seu companheiro: Harry Potter.
A garota estava na cozinha da casa de seus pais, onde ela ainda morava até que pudesse ser decidido como faria o resto de sua educação. Sua família estava de volta, mas, repentinamente, esse já não parecia mais o melhor curso de ação para Hermione. Porque por tudo que lia, via, sentia, era guerra mais uma vez. Só que desta vez ela não estava no centro de tudo, ela não precisava se envolver, ela não tinha razões para estar lá, no perigo, tomando atitudes impensadas, fazendo o possível para sobreviver. Essa guerra não era dela.
Mas podia ser dos seus pais.
Podia ser dos seus raros amigos de infância.
Podia ser de cada bruxo que havia nascido em uma família de trouxas, que sofreria as consequências das ações dos que estavam lutando agora. O que fariam os pais trouxas dos novos bruxos? O que faria a sociedade bruxa em frente aos novos bruxos, vindos da cultura diferente à sua?
Pensando agora ela via falhas. Tantas e tantas e tantas no sistema vigente que, por alguns segundos, foi rendida muda pela sua própria cegueira ao aceitar o que lhe fora oferecido antes. Como pudera tão facilmente aceitar tudo que haviam lhe dado sem explicações? Os nascidos trouxas eram simplesmente jogados no mundo mágico, sem prévias explicações além da carta que recebiam.
Quantas crianças, jovens, adultos havia lá fora que haviam simplesmente descartado a carta? A quantas crianças teriam sido negados os direitos de estudar a sua magia por pais preconceituosos ou radicais? O que acontecia com essas crianças? O que acontecia aos recusados, aos que não eram encontrados?
Como pudera ter pensado que essa guerra não era dela? Era dela. E de seus pais, e de tantos e tantos outros que haviam nascido na mesma posição que ela!
E quando percebeu isso, percebeu que Harry, mais uma vez, estava certo. Impulsivo, líder nato, que havia escolhido, desta vez, uma causa para lutar. Harry estava lutando esta guerra porque havia escolhido. E, na primeira chance que ele lhe dera, era lhe virara as costas, como uma adolescente. Não tinha mais tempo para ser adolescente. Harry nunca fora um. Ela iria lutar ao lado de seu melhor amigo, porque escolhera lutar com ele, ao lado dele.
E aí estava mais um problema: precisava, antes de lutar com ele, ajudá-lo. E agora que já tinha um objetivo, um curso de ação e decisões feitas, Hermione era uma pessoa muito mais feliz.
Precisava de livros sobre psiquiatria, precisava de livros sobre as leis bruxas.
E precisava contar ao seu namorado que havia optado por se juntar aos 'aliados' de Harry e que seu melhor amigo estava dividido em dois. E algo lhe dizia que Ronald Weasley não iria reagir bem a nenhuma destas notícias.
-x-
Quando uma decisão é tomada, é quase como se um peso fosse tirado das costas da pessoa que a tomou. Você visualiza seu futuro, o planeja cuidadosamente e então age, executando a ação que foi considerada a melhor. Isso, no entanto, não significa que tomar a atitude decidida seja fácil.
Mais uma noite em Grimmauld Place. Mais uma reunião onde planejamento futuro estava sendo feito. Mais um dia tranquilo. Mais um dia sem inquietações, surpresas ou aquela sensação de medo e perigo iminente a que Shadow estava tão acostumado. Mais um dia em que ele sentira Harry querendo voltar, porque ele não conseguia sentir ameaças.
Mais um dia em que ele percebera o quão precária sua situação era e mais uma vez percebeu que precisava, urgentemente, de alguém próximo, em quem pudesse confiar para que quando Harry decidisse mais uma vez surgir, alguém estivesse por perto e pudesse guiá-lo.
Ele precisava falar com Draco e precisava fazê-lo logo.
A reunião havia acabado há alguns minutos e Malfoy ficara na sala, supostamente encarando a árvore genealógica dos Black, traçando o seu nome que também estava ali.
"Sabe, Potter, a sua família também está aqui. Bem lá em cima. Já havia notado isso?"
Shadow, que nunca havia dispensado mais do que um olhar rápido à tapeçaria, caminhou até o lado do loiro e viu o lugar onde ele apontava.
"Somos parentes, Draco. Quem diria?", ele perguntou, a voz levemente desinteressada. Estavam sozinhos. Rabastan, sempre o último a sair, havia deixado a casa há cinco minutos. Draco debatia internamente como abordar o assunto com Potter, enquanto Shadow se perguntava como fazer para se aproximar de alguém. Confiar a ponto de abrir sua maior fraqueza para ele. Percebendo o olhar especulativo que Draco lhe lançava, Shadow ficou intrigado.
"Aconteceu alguma coisa, Draco?"
Draco ficou em silêncio mais alguns segundos. Era agora ou nunca.
"Conversei com Granger hoje.", Shadow arqueou uma sobrancelha, surpreso.
"É mesmo? Posso saber o motivo da conversa?"
"Você.", respondeu Draco, tentando ir direto ao ponto. "Ela notou, assim como eu notei, que havia algo errado aqui. Meus pais, os Lestrange, os Parkinson, todos eles podem não ter percebido nada, tenho certeza de que não perceberam, mas eu e Granger convivemos com você por seis anos, Potter. Você não pode sinceramente achar que ninguém ia perceber as... mudanças que você sofreu."
"Eu não mudei.", respondeu Shadow, a voz fria, baixa, quase perigosa.
"Não? E desde quando Harry Potter ameaça, mente, planeja, mata?"
"Harry Potter não fez nada disso. Eu fiz.", Draco engoliu em seco. Bem, era o que ele queria, não era? Respostas?
"E quem, exatamente, é você?"
"Shadow.", o outro respondeu calmamente, sentando no sofá. Repentinamente não estava mais nervoso. Draco era mais esperto do que parecia e estava, mesmo que sem saber, lhe ajudando, tendo descoberto tudo sozinho.
O rapaz loiro encarava Shadow diretamente nos olhos. Uma coisa era ouvir a explicação de Granger. Outra era ver e entender as mudanças ocorridas em Potter... ou Harry... ou Shadow.
"Granger disse que isso é uma doença que os trouxas estudam.", Draco disse, visivelmente nervoso, mas sem desviar o olhar do outro rapaz, que continuava sentado e naquele momento tinha um ar pensativo no rosto.
"Talvez.", ele respondeu, como quem considera a possibilidade, "É uma defesa. Foi a única defesa que eu encontrei. Foi a única coisa que me permitiu continuar existindo. Que fez Harry ainda ter paz de espírito. Aconteceu."
Draco ficou em silêncio.
"Você não se importa que eu saiba?"
"Não.", respondeu Shadow, balançando a cabeça em negação, "Eu estava planejando te contar.", o rosto de Draco assumiu uma expressão de surpresa.
"Por quê?"
"Porque nem sempre eu posso estar aqui. Harry quer voltar e ele pode. Ele vai. Mas sozinho é perigoso. Eu preciso que alguém explique para ele o que está acontecendo. Explique minhas razões, meus motivos, o que e porquê eu fiz tudo o que fiz. E ele pode confiar em Granger e Weasley, mas eu não confio. E ele não pode simplesmente sair daqui correndo, porque isso vai resultar em algum deles, os aliados, o matando. E eu não quero morrer."
"Foi o que eu e Granger pensamos. Nós conversamos sobre isso e... Harry não vai gostar do que está acontecendo."
"É aí que você entra. Explique para ele, Draco. Faça com que ele entenda. Vocês têm muito em comum. Você tem muito em comum comigo. É a guerra que nós temos que sobreviver e todos nós aqui entendemos de sobrevivência."
"Harry não confia em mim."
"Faça com que ele confie. Você pode, porque você não é mais um garotinho esnobe, Draco. Eu sei disso. Você sabe disso também."
Os dois ficaram em silêncio, se encarando por alguns minutos.
"Granger pode me ajudar. Ela é inteligente e Harry confia nela. Posso chamá-la aqui?"
"Chame-a para jantar amanhã à noite. Weasley também, mas apenas se ele quiser vir."
"Certo, Potter.", respondeu Draco, arrancando um sorriso de Shadow.
"Por que você insiste em me chamar de Potter?", Shadow tinha um ar intrigado, quase divertido, e Draco o encarou de volta e deu de ombros.
"Porque eu tenho te chamado assim nos últimos sete anos."
"Você não acha que é tempo demais convivendo juntos para continuarmos nos tratando pelo sobrenome?"
"Velhos hábitos do passado.", comentou Draco, em tom neutro e casual. E então aconteceu novamente. O rosto em branco, a máscara de dor e angústia e Draco aproximou-se um passo do sofá onde o outro estava sentado, chegando a ajoelhar-se ao lado dele no instante em que Shadow parecia ter retomado o controle.
"Você é a única ligação que temos com o passado agora.", disse Shadow, depois de alguns instantes, um sorriso triste no rosto.
"E isso é ruim?", o tom dele era interessado, mas neutro.
"Não.", o rapaz moreno pareceu refletir sobre a questão durante alguns momentos, "Me faz ter certeza de que eu nem sempre fui assim."
Draco olhou para o rapaz mais uma vez conseguindo entrever o Potter, o antigo Potter. Quebrado, perdido, doído,mas ali. E como Harry parecia sofrer por ver-se assim.
"Você está melhor agora, Shadow.", respondeu o loiro, com um sorriso de lado.
"É o que espero, Draco.", complementou Shadow, com um sorriso idêntico. "É o que eu espero."
R E V I E W !
Revisado em: 13/04/2011
