Fidelity

Ronald Weasley era um amigo fiel.

Acima de qualquer coisa, ele era um amigo fiel.

Em poucos momentos durante sua vida se sentira tão mal quanto quando abandonara Harry e Hermione durante a caçada às Horcruxes. O sentimento de puro desespero quando não conseguira encontrá-los. Saber que os perdera por alguns segundos, ou minutos. A frustração, a raiva, o sentimento de impotência e inadequação... Jurara para si mesmo que nunca mais passaria por aquilo novamente.

E ele realmente não pretendia passar.

Por isso, quando a sua namorada, a sua melhor amiga desde os onze anos de idade, chegou à sua casa, falando sobre uma doença trouxa, uma guerra, uma pessoa que era o Harry, mas que nem mesmo Harry conseguia aceitar que ele eraaquela pessoa, Ronald Weasley precisou ficar em silêncio.

E se conter.

Porque agir, até mesmo falar, durante aqueles cruciais minutos resultaria em dizer coisas que ele não deveria dizer, fazer outras coisas das quais ele se arrependeria e ele tinha certeza que dessa vez não haveria volta. Porque, aparentemente, esse novo Harry não tinha a capacidade de perdoar, ou esquecer, ou mesmo confiar.

Ao menos era isso que ele estava conseguindo concluir diante do longo discurso de Hermione.

"E então, Ron, você vai comigo, hoje à noite?"

Encarando a namorada, Ron descobriu que não conseguia, não podia, confiar na própria voz.

Porque era oHarry. Não um desconhecido, o Harry. Seu melhor amigo, Harry. E, não importa o que, ele nunca mais deixaria Harry sem ajuda. Ele nunca mais deixaria Harry para trás.

Por isso, assentiu com um aceno de cabeça, um nó na garganta que Hermione pareceu compreender e não o forçou a falar.

E foi assim que Ronald Weasley conseguiu, pela primeira vez, apreciar o valor do silêncio.

-x-

Mione não conseguiu conter um arrepio ao olhar o sorriso um tanto de lado, malicioso, divertido, beirando ao sarcasmo que Shadow lançava ao garoto ao seu lado. Porque aquele, Hermione via com clareza, não era o Harry. Aquele era o Harry, se Harry fosse... Slytherin. Criado numa família de sangue-puros, talvez? Mais seguro, mais fechado, mais frio. Menos Harry. Mais Shadow.

"Aprecio que vocês tenham conseguido vir.", ele disse, a voz mais baixa do que o tom que Harry normalmente usava. Mais maduro e confiante. Eram tantos detalhes, pensava ela, enquanto as amenidades de início de jantar eram trocadas, que era espantoso que ninguém mais tenha notado que havia algo errado.

Draco Malfoy havia.

Eles, não.

'Ele só ficou minutos com vocês.', dizia uma vozinha na sua cabeça, 'Não havia como vocês perceberem.' E Hermione sabia que a vozinha tinha razão, mas isso não diminuía a culpa que ela sentia.

"Nós nunca deixaríamos Harry para trás.", ela respondeu. Shadow a analisou durante um minuto inteiro antes de falar novamente.

"Então você sabe que eu não sou o Harry."

"Você é.", Shadow a encarou levemente surpreso com a veemência na voz dela, "Uma parte dele que ele ainda precisa... se acostumar. Mas você é."

Shadow sorriu de verdade, pela primeira vez, e até mesmo Draco foi capaz de notar a diferença.

"Sempre esperta, Mione. Suponho que você já tenha adivinhado a razão do nosso jantar também, então?"

"Não exatamente.", respondeu Hermione, "Eu imagino que tenha a ver com a inconstância da sua... permanência aqui. Mas não sei exatamente para que você precisa de nós."

Shadow ficou em silêncio por alguns minutos, como se ponderando sua resposta. Por duas vezes, Ron abriu a boca para falar, mas Hermione lhe lançou olhares de censura, rezando para que ele ficasse quieto. Era apenas um sinal do quão desconfortável ele estava com toda a situação que ele realmente permaneceu em silêncio.

"Eu preciso de pessoas... de confiança aqui, quando Harry... aparecer."

"Seus aliados não são de confiança?" Hermione perguntou, sem conseguir impedir que um pouco de sarcasmo transparecesse em sua voz. Shadow sorriu em resposta.

"Sob alguns aspectos, são. Muito. Rabastan Lestrange, por exemplo, é alguém que eu confiaria em batalha, exatamente como Draco é alguém em quem eu confio com um assunto tão delicado quanto esse. Exatamente como eu estou tentando confiar em vocês a respeito disso. Confiança é algo relativo, Hermione, eu posso confiar em alguém para cuidar da minha casa, mas não para salvar minha vida."

"Harry não pensa assim.", disse Ron, as orelhas vermelhas e o rosto contendo uma expressão de certa raiva misturada a choque.

"Eu sei. E é exatamente por isso que eu preciso de vocês. Quando Harry aparecer, e ele vai aparecer, alguém vai ter que estar aqui para ele. Alguém em quem ele confia e em quem eu possa confiar. Alguém para explicar o que está acontecendo e os motivos que me levaram a começar uma nova guerra."

"Mas nós não sabemos por que você começou isso!", gritou Ron, "Nós passamos um ano todo passando só Merlin sabe o que, num verdadeiro inferno, morando numa barraca e passando temporadas em masmorras, lutando e assaltando bancos e voando em dragões! Tudo isso para ter paz depois! Para acabar com essa droga de guerra! E agora você começou outra, sem consultar o Harry! Você não tinha direito de meter ele nisso! Você fica aí, com essa pose, como se você fosse ele, mas você não é! Harry nunca começaria outra batalha se ele pudesse evitar!" Ron estava vermelho e de pé, as mãos apoiadas na mesa, enquanto encarava Shadow que parecia ter ficado mais pálido, os lábios comprimidos de raiva silenciosa.

"É aí que você se engana, Weasley. Eu sou uma parte do Harry, tanto quanto ele é uma parte minha. E se vocês não fossem hipócritas, se não idealizassem quem ele é, não tivessem esse conceito idiota de bem e mau e nada entre eles, eu não estaria aqui, porque quando Harry percebeu que eu também existia, ele teria me aceitado e não negado o fato de que eu faço parte dele! Eu comecei outra guerra, sim. Porque eu cansei de viver com medo. Porque eu cansei de ser mandado para a batalha sem saber de nada! Porque eu morri, Weasley, eu morri e por um segundo inteiro eu achei que estar morto era bom porque eu estava cansado. E nem assim eu pude descansar, nem depois de morrer e voltar eu consegui ter paz! Porque Voldemort não era o centro do mau no mundo, depois dele vai haver outro e outro, porque sempre vai ter alguém para fazer algo errado! E dessa vez eles não estão atacando uma pessoa, eles estão tentando atacar o nosso mundo! Todo ele! E eles vão nos destruir se nós não estivermos unidos, porque eles são muito mais do que nós, eles têm armas que nós não temos e uma crueldade com a qual Voldemort só podia sonhar! Eu não estou na guerra porque eu quero ser o vilão da vez, Weasley. Eu não tomei o lugar do Harry porque eu queria ter poder sobre ele! Eu estou aqui porque ele precisa de tempo, porque é um desastre em cima do outro, sempre sobre ele! Eu estou aqui porque ele precisa de tempo para entender que nem tudo é simplesmente branco ou preto. E eu comecei uma batalha porque eu cansei de viver com medo e eu cansei de ver injustiças! Eu acho que nós podemos fazer algo de bom. Eu acho que nós podemos acabar com metade dos preconceitos idiotas que existem entre nossos mundos. Eu acho que o que eu estou fazendo é certo. Mas isso é uma guerra e chegar para os trouxas com um buquê de flores não vai adiantar muito. Pessoas vão morrer, vão se ferir e vão sofrer, mas é a guerra. E é melhor que elas sofram agora do que passarem a vida toda sofrendo por nunca terem tido a oportunidade de ser quem elas realmente são!"

"É sobre isso a sua guerra, então? Salvar os trouxas deles mesmos?" Ron perguntou, com um tom irônico que Hermione quase não reconheceu como dele.

"Ron, você não sabe do que está falando e eu entendo o que Har... Shadow está tentando dizer. Ele tem razão. Talvez ele não esteja agindo da maneira mais... politicamente correta, mas o fundamento está certo."

"Você está do lado dele, Mione?" Ron perguntou, incrédulo.

"Eu estou do nosso, Ron, como sempre. Harry precisa de nós. Mais do que nunca, ele precisa de nós, porque talvez ele mesmo não entenda o que você também não está entendendo, mas ele não pode levantar e sair dessa casa como você está prestes a fazer, porque esta guerra - quer Harry queira ou não - é dele.", a garota encarou o namorado e sorriu, um tanto tristemente, "E é minha também."

"Eu não ia sair daqui. Eu só... Droga, Mione, eu não entendo o que está acontecendo e eu achei que nossos dias de fugir e esconder tinham terminado!", o ruivo correu as mãos pelo cabelo, dando um suspiro frustrado enquanto o fazia, "Mas é claro, você tem razão como sempre. Para que você precisa de nós, então?"

"Porque eu não sei qual será a reação de alguns dos outros quando eles descobrirem que eu não sou exatamente quem eles pensam que eu sou. Se eles descobrirem, na verdade. Que é exatamente o que nós temos que evitar. Draco concordou em me ajudar, mas eu sei que Harry não confia em Draco como eu confio. Exatamente como eu não confio em vocês da maneira como ele confia. Se vocês realmente quiserem me ajudar, vai ser necessário um esforço conjunto de vocês três. Draco tem acesso à casa. Se vocês quiserem, vocês também podem ter, só não tragam Ginny até aqui. Eu não gosto dela."

Draco teve que esconder o riso da cara indignada que Ron fez, enquanto Hermione parecia um tanto perturbada com a noção de que Harry não gostava de Ginny. Na verdade, perturbada com a ideia de que Shadow não gostava de Ginny que era a namorada, ou ex-namorada, de Harry. Era muito confuso pensar no seu melhor amigo como duas pessoas tão diferentes. Mas, pensou Hermione, se eles fossem parecidos não haveria motivo para Shadow estar ali, em primeiro lugar.

"Ok.", ela respondeu, vendo que se Ron fosse falar aquela discussão não ia acabar nunca, "Talvez nós possamos vir aqui, às vezes... E eu... Eu realmente quero ajudar. Não só pelo Harry, mas por mim. Eu andei pensando e eu vi que... Que tem muita coisa que precisa mudar." A voz dela havia ganhado aquele tom certo e grave que ela sempre tomava quando estava pensando sobre atitudes que ela julgava serem certas, seja destruir Horcruxes ou salvar elfos domésticos, "Basta ler o jornal para ver o quanto vai ser difícil, mas continuar nos escondendo como nós temos feito até agora não é a solução mais inteligente, ou a melhor. Eu não sei o que o King está pensando..."

"Ele só não quer outra guerra.", disse Draco, inesperadamente, fazendo Ron ficar duas vezes mais vermelho, "Lidar com algo tão... maior do que... ele. Porque ele era um homem, lá fora é toda uma população maior e perigosa. Se ele conseguisse nos manter em segredo seria muito bom, mas não há como fazer isso agora. E já está na hora de nós não termos mais que nos esconder - não é justo."

"E o que você sugere que façam com os nascidos trouxa, Malfoy? Matem? Exterminem?"

Draco olhou para Ron com uma condescendência que fez o ruivo sentir um pouco de vergonha do que havia falado.

"Sua amiga me surpreende pela inteligência, mas pelo jeito, o dom não é compartilhável. Eu pensei que você tivesse entendido o que a sua namorada quis dizer com 'essa guerra é minha também'. O que você acha que os trouxas vão fazer com os bruxos que nascem entre eles, com o medo que eles sentem agora? É exatamente essa situação que nós queremos mudar. Você acha justo que Potter e Granger e tantos outros tenham sido jogados no nosso mundo sem conhecimento algum sobre o que esperava por eles? Você já pensou, Weasel, sobre o que acontece com aqueles que recebem a carta de Hogwarts e não têm permissão dos pais para frequentarem a escola? Aqueles que nunca viram a sua carta? Você acha isso justo?"

"Eu... eu nunca tinha pensado desta maneira."

"Nem eu.", respondeu Draco, de maneira seca, "Mas agora eu penso. E já que ninguém aqui teve tempo de ser os adolescentes que deveríamos ter sido, pelo menos vamos usar o que resta da nossa vida por algo que valha a pena. E não, Weasel, eu não virei outra pessoa," ele retrucou vendo o olhar pasmo de Ron, "É uma questão de raciocínio lógico. Vai haver grandes mudanças e nós vamos estar no centro. Se algo der errado, a culpa será nossa, mas o mérito será nosso também se tudo der certo, e é exatamente por isso que tudo vai dar certo."

Hermione notou a maneira como Shadow sorria vendo Draco falar e percebeu que, sim, os dois haviam chegado a alguma espécie de amizade, por mais perturbadora que fosse a noção de Harry Potter, ou sua outra personalidade, e Draco Malfoy sendo amigos.

"Muito bem. Então por onde nós começamos?", perguntou ela, sempre prática.

"Vai haver uma reunião amanhã, apenas para alguns dos nossos aliados. Vocês são bem vindos, mas apenas se realmente quiserem tomar parte na guerra em si. Nós vamos ter que ambientar vocês entre os outros, porque eu não quero que nada pareça fora do comum quando Harry aparecer. Eu comecei um diário, explicando tudo o que eu fiz e porquê eu fiz, mas ainda assim ele vai precisar de ajuda... Hermione, você sabe mais alguma coisa sobre... por que isso aconteceu?"

"Eu vou pesquisar mais sobre a doença. Amanhã, depois da reunião, nós conversamos. Está bem assim?"

"Ótimo.", respondeu Shadow. E então sua expressão pareceu suavizar. "Muito obrigada por... estarem aqui."

"Nós sempre vamos estar.", respondeu Ron.

"Sempre.", confirmou Hermione.


R E V I E W !


Revisado em 16/04/2011