Seeing Through

"Perdoe seus inimigos, porém nunca esqueça seus nomes."
J. F. Kennedy.

Um único ponto de luz, vindo de brasa fraca, que iluminava mais a cada poucos segundos era a única coisa visível dentro da sala da tapeçaria, em Grimmauld Place, naquela noite.

Shadow refletia que poderia ter sido pior. Poderia ter sido muito pior. A incompreensão de Ronald era certamente justificável e esperada, exatamente como a constância de Hermione. Ela era um bom ponto de apoio, o exemplo exato de como uma nascida trouxa poderia ser beneficial dentro do mundo bruxo. Inteligente, poderosa, articulada. Uma ótima aliada.

Ronald, o exato oposto em quase tudo à sua namorada, também seria alguém importante, a longo prazo, porque os 'bonzinhos' da última guerra não poderiam ficar separados.

Draco era o melhor dos três, porque Shadow tinha certeza absoluta de que, chegado o momento, ele conseguiria ser a ponte necessária entre ele e... Harry.

Harry. Seu maior inimigo, neste exato instante, era, oh, doce ironia, ele mesmo. Frase clichê e de sentido literal. Não sabia nem como começar a explicar para Harry o que ele havia feito, não por achar que estava errado, mas por saber que era exatamente por considerar suas ações certas que ele estava ali. Se ele tivesse coragem e atitude para tomá-las normalmente, Harry não teria que ficar separado dele.

Era confuso saber que você não se aceita a um nível tão profundo que nem mesmo você se compreende ou sabe como fazer 'as pazes' consigo mesmo.

A brasa continuava a subir e descer, e Shadow se perguntava vagamente se alguém, algum dia, já havia fumado um cigarro trouxa naquela casa.

Ouviu o leve ruído de aparatação vindo do hall de entrada e considerou quem estaria vindo lhe visitar tão tarde. Draco havia ido embora alguns minutos antes, logo depois de Ron e Hermione. Estava sozinho e pretendia começar a escrever o diário para Harry, mas decidira pensar antes. Precisava ter certeza, ser convincente, não provocar medo ou angústia.

Precisava preservar Harry ao mesmo tempo em que lhe mostrava a realidade da qual estava tentando protegê-lo.

"Dizem que isso mata.", falou uma voz próxima da porta, e Shadow se permitiu um meio sorriso ao reconhecer o tom sereno e firme de Rabastan.

"O que não mata?", replicou ele, acenando com a varinha levemente e iluminando um pouco mais a sala, o que Rabastan tomou como um sinal para entrar no local.

"Boa pergunta.", respondeu o homem mais velho, rindo levemente. "Como foi o jantar com os antigos amigos?"

"Bem. Melhor do que o esperado. Muito melhor do que o esperado. Hermione já havia entendido sobre o que a nossa guerra é antes mesmo de vir até aqui. Eles serão importantes no futuro."

Rabastan ficou em silêncio. Por mais que não gostasse de sangue ruins e considerasse os Weasley tão ruins ou ainda piores do que eles, não podia negar que, na situação em que se encontravam, ambos eram indispensáveis.

"Bem... E qual é o nosso próximo passo agora?"

"Estou considerando isso ainda... O que você acha?"

Rabastan ficou em silêncio antes de responder, pegando o cigarro que estava no cinzeiro e tragando uma vez, vendo o olhar verde de Shadow brilhar, divertido.

"Pensei que isso matasse.", Rabastan deu de ombros, sorrindo meio de lado.

"Eu já tinha esse hábito antes de você nascer.", ele replicou, tragando mais uma vez, expelindo a fumaça calmamente, a luz já fraca ainda mais nublada pela fumaça, deixando o rosto dele mais velho, mais cansado: o rosto de alguém que passara catorze anos em Azkaban, por uma causa que, Shadow agora via, ele nunca realmente acreditara. Ele lhe lembrava Sirius, de uma maneira um tanto sinistra.

"Você vai se encontrar com o ministro?"

"Estava pensando sobre isso... Desde o dia da notícia da morte de Vernon ele tem tentando falar comigo. Qual a sua opinião?"

"Que é uma boa hora para tentar acertar o apoio dele nessa guerra que ainda está por começar.", ele fez uma pausa e encarou Shadow com uma expressão séria, por entre a fumaça, "Se é que você quer o apoio deles. O que é que você quer, Shadow?"

Shadow ficou em silêncio longos momentos, acedendo um novo cigarro para si mesmo, enquanto considerava a resposta.

O que ele queria? Não sentir mais medo, não ver mais injustiça, não ter mais o controle de sua vida na mão das outras pessoas.

Não ter mais medo de ser quem ele realmente era, a ponto de se despedaçar e fazer quase uma Horcrux às avessas, apenas por não aceitar seu verdadeiro eu, duas almas em um corpo, dividir e multiplicar quem era por não saber quem era de verdade.

"Justiça."

Rabastan encarou o garoto tão mais novo na sua frente, identificando-se com ele de uma maneira estranha. Via tanto mais por trás daquela resposta simples, via talvez, o que ninguém mais via.

"E você quer o apoio do ministério?"

Shadow não respondeu e Rabastan percebeu, depois de alguns minutos em silêncio, que ele não responderia. Conseguia entender Shadow até certo ponto, mas depois daquele exato ponto era tudo negro para ele. Não sabia, Shadow era imprevisível, fechado e avesso às pessoas num geral.

Não condizia com quem Rabastan havia imaginado que Harry Potter seria.

A não ser pelo fato de que nem uma única vez ele havia se referido a si mesmo como Harry Potter. Apenas Shadow.

E pela primeira vez desde que aquele novo jogo começara, Rabastan se perguntava o que estava por trás da máscara de gelo de Shadow?

-x-

Rabastan chegou à sua antiga casa e não conseguiu conter um sorriso ao ver Rodolphus na sala, na exata posição em que havia deixado Shadow alguns minutos antes. As pernas esticadas sobre a mesa de centro, um cigarro entre os dedos, um dos braços apoiado no sofá, o outro no seu encosto. Os olhos fechados e um sorriso quase imperceptível se formando nos lábios ao ouvir o barulho leve dos passos do irmão.

"Voltou rápido."

Rabastan sentou-se ao lado do irmão, que tirou o braço do encosto do sofá e correu os dedos pelo cabelo liso do outro, esperando que falasse.

"Shadow diz que correu tudo bem."

Algo na voz do irmão fez com que Rodolphus abrisse os olhos e o encarasse, uma pergunta muda entre eles. Rabastan, por sua vez, desviou o olhar e descansou a cabeça no ombro do irmão, fechando os olhos e respirando fundo o cheiro de tabaco já tão conhecido.

"Tem algo mais lhe incomodando... O que é, Rabastan?"

"Quem é Shadow, Rodolphus?"

Rodolphus franziu o cenho diante da pergunta inesperada.

"Harry Potter. Quem mais?", respondeu ele, intrigado com o que o irmão estaria pensando.

"É... Quem mais?", respondeu o mais novo deles, com um ar ainda vago.

O silêncio dominou a sala por mais alguns instantes, até que Rabastan se aconchegou mais ao irmão, tomando uma das mãos dele entre as suas e beijando a palma de maneira distraída. Rodolphus sabia que se o irmão quisesse falar, ele falaria quando tivesse vontade ou necessidade.

Eles não precisavam de muito mais de qualquer forma.

-x-

Draco acordou cedo naquela manhã. Sentou-se na cama com os olhos ainda pesados de sono, mas havia prometido a Shadow que iria até Grimmauld Place até a hora do almoço. Tinham que conversar a sós, sem mais nenhum dos outros por perto, e isso não era tarefa fácil, já que todos pareciam considerar o lugar seu quartel-general.

Levantando sem um único resquício de vontade, Draco passou pela sua rotina matutina, tomando apenas uma xícara de café. Já estava saindo quando seu pai entrou na sala de jantar e arqueou uma sobrancelha em vista de seu filho acordado a tal hora.

"Aonde vai tão cedo, Draco?"

"Grimmauld Place. Eu e Shadow combinamos algumas coisas para hoje de manhã.", respondeu o garoto rápida e distraidamente, já saindo da Mansão, até onde seria possível aparatar.

Lucius sentou-se à mesa e colocou a cabeça entre as mãos, repentinamente perdido. Quisera, sim, que Draco se interessasse pelo que estava acontecendo à sua volta, não gostava quando o filho ficara perdido como estivera no início de sua aliança com Potter, mas vê-lo simplesmente tomar as suas próprias decisões, sem consultá-lo, sem se importar em agir sozinho e ficar quase que o tempo todo na Mansão Black, passar em casa para dormir e tomar banho fazia com que Lucius sentisse que havia perdido o filho de vez. Para sempre.

Draco havia crescido, e ele não havia estado ali para ver. Sempre mimara o filho e deixara claro que suas expectativas eram altas, mas agora sentia que havia certas coisas que ele nunca poderia mostrar ao filho, que ele nunca mais poderia ouvir Draco rir porque ele estava ali, ou saber que Draco lhe procuraria se estivesse com dúvidas ou com medo, porque nos exatos instantes em que Draco estivera com suas maiores dúvidas e maiores medos ele não estivera lá.

E mesmo sabendo que a culpa não era diretamente sua, nem mesmo de Potter, a quem ele havia culpado toda a sua desgraça anteriormente, não fazia o tempo voltar atrás, não fazia Draco retomar a confiança no próprio pai, não faria o filho voltar a ser o garoto adolescente mimado e meio infantil que ele era.

Draco era um adulto que de repente já não tinha espaço para os próprios pais na sua rotina, planejando uma guerra.

Por Merlin, Salazar e Rowena, ele tinha dezoito anos!

"Potter tinha onze.", respondeu uma voz baixa ao seu lado e Lucius percebeu que havia falado a última frase em voz alta. Levantando a cabeça e encarando a esposa que se sentava ao seu lado, Lucius apenas fez um sinal negativo com a cabeça.

Sim, Potter tinha onze anos, mas Potter havia sido o maldito Escolhido, seu filho era apenas isso: seu filho, seu garotinho, uma criança.

"Não é saudável, Cissy. Não é. Você sabe que não é. Eu... eu quis que ele tomasse parte nas negociações e nas reuniões, ele estava tão... ausente, mas não era isso que eu queria! Eu não queria ver meu filho no centro de outra guerra! Era para ele estar ao meu lado, não ao lado de Potter, não no centro dessa confusão toda!"

Narcissa o encarava com um sorriso triste nos lábios, como se soubesse o que ele estava passando, o compreendesse, mas, mais do que isso, soubesse que não havia nada que eles pudessem era para mudar a situação.

"Eu... O que você acha de Draco terminar os estudos em Beauxbatons? Não é possível que ele tenha aprendido alguma coisa em Hogwarts e a reconstrução da escola ainda levará alguns meses..."

"Pare! Lucius, pare!", a mulher interrompeu, vendo o tom quase que incoerente do marido, "Não faça isso. Não tente tratar Draco como se ele fosse a criança que ele uma dia foi, porque aquela criança já se perdeu há anos. Eu sei disso. Você sabe disso. E Draco acaba de perceber isso. Ele não vai voltar atrás, Lucius. Ele NÃO VAI!", ela levantou a voz, percebendo que Lucius iria tentar argumentar, "Você sabe, Lucius! Ele já não é mais uma criança, ele não tem sido uma criança desde os dezesseis anos de idade! Não há nada que nós possamos fazer além de apoiá-lo no que quer que ele deseje fazer, e se ficar no centro da guerra é o que ele quer, é isso que nós vamos ajudá-lo a conseguir!"

"Mas ele é nosso filho, Narcissa! Você quer deixá-lo correr riscos desnecessários e não parar para tentar ajudá-lo? Ele é NOSSO FILHO!"

"E ELE VAI CONTINUAR SENDO NOSSO FILHO, LUCIUS! Ele não precisa ser uma criança ou ser fraco para ser nossa família! Não faça isso, não tente ir contra ele agora que ele encontrou um caminho, por mais perigoso que ele seja! Eu vi nosso filho despedaçado! Eu o vi chorar quando ele pensava que ninguém ia ver! Eu vi o quanto ele sofreu enquanto você estava em Azkaban, o que ele passou quando ele não conseguiu matar Dumbledore, o que essa maldita guerra com aquele maldito mestiço fez a ele! Foi por ele que eu menti, e faria tudo outra vez! Por ele! Pelo filho maduro e responsável que nós temos! E nos resta agora, Lucius, apoiá-lo. Porque por protegê-lo demais nós já causamos sofrimento suficiente. Ao lado de Potter, casado com uma sangue ruim, como um maldito aborto ele continuaria sendo nosso filho. Nosso filho adulto que toma as próprias decisões. Aceite, Lucius. Aceite, ou então aí, sim, você vai perdê-lo."

Com um suspiro derrotado, Lucius voltou a pôr a cabeça entre as mãos, absorvendo o que a esposa havia dito.

Ela não lhe culpava, mas também não o isentava de culpa. E ela estava certa.

Draco era um adulto e tudo que ele poderia fazer, desta vez, era dar o apoio que ele não estivera presente antes para dar.

-x-

"Como você consegue passar tanto tempo sozinho nessa casa é um mistério para mim.", disse Draco assim que entrou na biblioteca, onde Shadow se encontrava, ainda de pijamas, lendo um livro e tomando café. Chamando Kreacher enquanto ria, Shadow providenciou uma xícara de café para o outro rapaz e alguma coisa para comerem.

"Eu passei o último ano inteiro morando em uma barraca com outras duas pessoas. Espaço e privacidade são coisas que eu nunca mais quero viver sem."

Draco ficou alguns instantes em silêncio, enquanto tomava o café, tomando coragem para falar.

"Mas não era... você, era? Quer dizer, era o Potter, mas não só você. Eu não consigo imaginar você morando com a Granger e o Weasley em tempo integral e não matando os dois, ou ao menos o Weasley."

Shadow riu mais uma vez e Draco se deu conta de que nunca havia visto o outro rapaz tão à vontade com mais ninguém.

"Não, éramos eu e o Harry. O que tornava tudo muito mais complicado, porque Harry tem uma certa... necessidade de aceitação. Ele quer que as pessoas gostem dele, quer que os outros vejam o que há de bom nele. Então ele tolera muito mais do que toleraria. Essa parte dele normalmente leva a melhor, a não ser quando a situação realmente fica complicada, aí o temperamento dele, que eu suponho que tenha sobrado para mim, leva a melhor."

"Deve ser confuso... Analisar você mesmo como outra pessoa.", ponderou Draco.

"Você não faz ideia.", respondeu Shadow. Eles ficaram em silêncio alguns minutos, enquanto Draco analisava o outro rapaz. Ele não havia cortado os cabelos, ainda usando-os longos, os pijamas escuros estavam largos nele, mostrando que certamente ele não fora o dono original das peças. Era incrível como os olhos dele brilhavam mesmo por trás dos óculos. Tinham tanta força, uma força quase sólida, tão diferente da inconstância que brilhava antigamente. Draco não conseguia nem imaginar como ele deveria se sentir, sabendo que a qualquer momento uma outra parte de si mesmo poderia assumir o controle, por sabe-se lá quanto tempo, e que essa parte poderia levá-lo à morte. Draco suprimiu um arrepio quando pensou nisso. Melhor nem considerar essa possibilidade.

"Eu não sei se Ron fica do nosso lado.", disse Shadow repentinamente.

"Por que não? Não que eu goste dele, mas ele sempre pareceu fiel."

"Ele nos deixou, ano passado. Eu e Hermione. Foi uma briga tão idiota, se não me engano foi por causa do que nós comíamos, e ele foi embora. Nos achou depois, é claro, pediu desculpas, salvou minha vida, mas o fato de que ele voltou não apaga o fato de ele ter ido.", ele ficou em silêncio mais alguns minutos, enquanto Draco absorvia a informação, "Harry o perdoou. Eu não consigo. Eu não gosto de confiar. A minha confiança não é fácil de ser conquistada e quando eu realmente confio em alguém, eu faria qualquer coisa por aquela pessoa. Mas depois de perdida não há como reconquistá-la."

Shadow olhou nos olhos de Draco enquanto falava as últimas frases e Draco assentiu, sabendo que aquilo era um privilégio e um aviso. Shadow confiava nele. Mas não voltaria a confiar se ele fizesse algo de errado.

Draco sorriu, mostrando que havia entendido e Shadow sorriu de volta.

"O que você tem planejado para hoje?"

"Nada.", disse o rapaz moreno, com um sorriso meio travesso, que fez Draco finalmente perceber que, sim, Shadow ainda tinha dezoito anos. "Eu pretendo não fazer nada o dia todo.", ele olhou novamente para rapaz loiro, repentinamente sério, "Fica comigo?"

Draco sorriu de leve.

"Fico."


R E V I E W !


Revisado em: 16/04/2011