Despair

Encarando o couro negro que cobria as páginas escritas a próprio punho – porque ele havia escrito tudo aquilo, não havia como negar – Harry sentia um novo sentimento começar a surgir dentro de si.

Não tinha um nome para ele ainda, porque não conseguia identificá-lo corretamente. Respirou fundo. Contou até dez e tentou pensar em qualquer coisa exceto o caderno, o que havia escrito, ou o sentimento que surgia em seu peito e parecia estar crescendo, porque, de repente, tinha dificuldade para respirar. Não ia pensar. Precisava limpar sua mente.

E, naquele instante, teve uma crise de riso alto, agitado, doente, que sobressaltou o pequeno elfo que retorcia as mãos de preocupação com a cena e o comportamento de seu mestre.

Harry riu. Riu até que seus lados doessem e seu fôlego faltasse e seus olhos se enchessem de lágrimas. Riu, porque Snape tentara por um ano lhe ensinar como limpar a sua mente e ele não sabia. Ele não queria limpar a mente, queria sair dela. Evaporar. Sumir de seu próprio corpo, porque nem mais consigo mesmo ele podia contar.

Riu até escorregar da cama para o chão, até que os ofegos do riso transformaram-se em soluços e riu até perceber que já não ria, mas chorava. Desesperado e sem medida, porque se sentia impotente.

Não conseguia nem ao menos negar o que havia lido. Era ele.

Por Merlin, era ELE.

E então se entregou e chorou. Só chorou. Porque enquanto chorava não pensava. Concentrou-se em cada soluço que sacudia seus ombros e em cada lágrima que descia pelo seu rosto. Concentrou-se em chorar e sentir o choro e em não pensar.

E concluiu que o que sentia era desespero. Porque não sabia nem ao menos o que sentir. Não conseguia levantar a cabeça e olhar para o elfo que chamava seu nome cada vez em voz mais alta, num tom mais frenético e preocupado. Não conseguia nem ao menos se mover e tinha medo. Medo dele mesmo. Porque se lembrava de cada uma das vezes em que havia se sentido ameaçado, ou dos perigos que havia corrido e sabia que sempre pudera contar consigo mesmo. Com seus instintos, suas intuições, com ele. E agora não podia mais.

Não podia mais.

Ouviu o pop da desaparatação de Kreacher e por alguns segundos pensou sobre o que o pequeno elfo fora fazer, mas não se concentrou nisso.

Quem Kreacher iria chamar?

Lestrange?

Malfoy?

Tentou ficar calmo. Respirou fundo uma, duas, três vezes e fechou os olhos e mais uma vez a frase 'limpe sua mente' veio à sua cabeça e tudo recomeçou, o riso, o medo, o desespero. Estava enlouquecendo.

Enlouquecendo.

Distúrbio de Personalidade Múltipla.

Distúrbio de Personalidade Múltipla.

As palavras ecoavam e se repetiam em sua cabeça como numa dança e não conseguia mais pensar, porque não fazia sentido, não fazia ideia do que aquilo era. Precisava sair dali, porque Grimmauld Place nunca fora sua casa. Nunca. Precisava de paz e precisava tentar se encontrar.

Ou fugir de si definitivamente.

O que fosse mais fácil, ou o que garantisse a sua sanidade por mais tempo.

Agora tinha um propósito e algo a pensar. Não precisava mais esvaziar a mente, só precisava não deixar que ela fosse para onde não deveria ir. E agora para onde ele iria?

Levantou do chão no momento em que Kreacher voltava ao quarto.

"Mestre Harry... O convidado do mestre está acordado. Está na cozinha esperando o senhor para tomar café da manhã."

O elfo continuava olhando para Harry como se esperasse que ele fosse explodir a qualquer segundo e, na verdade, era assim que Harry se sentia. Não se lembrava de um convidado.

Uma nova vontade de rir se apoderou dele.

Não se lembrava de uma maldita guerra, como, exatamente, iria se lembrar de algo como um convidado?

Respirou fundo e secou algumas lágrimas que ainda caíam pelo seu rosto. Caminhou até o guarda-roupa e pegou a primeira coisa que apareceu na sua frente. Uma camisa escura e uma calça jeans. Um sapato qualquer. O caderno negro. Sua varinha.

Estava pronto. Para onde iria, ele não sabia.

Encarou o elfo que a cada segundo ficava mais nervoso e sentiu pena dele.

"Kreacher, eu preciso sair. Eu... eu não sei quando volto, mas eu volto, ok? Cuide bem do nosso... hóspede, até eu voltar."

Kreacher assentiu seriamente, as grandes orelhas abanando, e Harry saiu do quarto. Agora, só precisava sair de Grimmauld Place rápida e silenciosamente.

E teria conseguido não fosse o retrato da mãe de Sirius decidir ser aquele o melhor momento para gritar desesperadamente e atrair a atenção dos homens que tomavam café na cozinha.

Draco Malfoy e os Lestrange apareceram no início do corredor, no pé da escada, e Harry se sentiu como uma criança pega no meio de uma travessura. Os três o encaravam, Draco com um leve traço de pânico no olhar quando viu o caderno que ele carregava, os Lestrange confusos, e Harry simplesmente correu escada abaixo e saiu pela porta, desaparatando para o primeiro lugar que lhe ocorreu na mente, sem olhar para trás nenhuma única vez.

-x-

Draco acordou se sentindo confiante. Era um sabor diferente saber que uma batalha, uma guerra, iria começar quando você estava por trás dos planos de ação, quando você acreditava no que estava lutando, quando você era líder e não lacaio. Shadow havia conseguido converter Granger à sua causa, e com ela, muitos outros viriam. E eles estariam preparados quando as batalhas começassem, e eles teriam um objetivo pelo qual lutar, e todos teriam um mundo melhor graças a eles e esse pensamento sozinho conseguia fazer com que Draco sorrisse como uma criança na manhã de Natal.

Levantou e foi para a cozinha, depois de se vestir, esperar por Shadow para tomarem café e decidirem os planos do dia. Granger voltaria àquela noite e, juntos, ele, Shadow, Rabastan, Lucius e Granger traçariam o primeiro plano de ação: a imprensa.

Estava contente. Tinha quase certeza de que nada conseguiria acabar com seu bom humor.

Rabastan e Rodolphus não demoraram a chegar depois que Draco já estava na cozinha e pareciam conformados com o fato de que iriam trabalhar lado a lado com uma nascida trouxa dali para frente. Rabastan ainda mais que Rodolphus e, não pela primeira, vez Draco ponderou o que havia levado Rabastan a ser um Comensal há tanto tempo. Ele nem ao menos realmente acreditava na causa pela qual os Comensais e o Lorde das Trevas lutavam.

Kreacher apareceu repentinamente, parecendo nervoso, retorcendo a pequena fronha imaculada que usava e servindo o café de maneira quase distraída. E foi ali que o bom humor de Draco acabou.

Algo havia acontecido. Algo com Shadow.

'Por Salazar, que não seja Potter de volta. Não agora, não com os Lestrange aqui.', pensou ele quando o elfo deixou a cozinha com um estalido. Não conseguiu mais se concentrar no seu café ou no que Rodolphus estava falando. Seus pensamentos estavam no quarto lá em cima, no que estaria acontecendo. Os olhos iam para o relógio de parede a cada poucos segundos, contando os instantes até que Shadow aparecesse ali na cozinha e que tudo estaria bem.

Alguns minutos depois, um grito terrível se fez ouvir, fazendo os três dispararem para fora da cozinha, varinhas em punho, pois parecia que alguém estava sendo atacado. Chegando ao patamar da escadaria, viram um quadro berrando e, na frente dele, Harry Potter, rosto marcado de lágrimas, olhos brilhando de uma maneira um tanto desequilibrada, o caderno negro em que Shadow estivera rabiscando por dias em uma das mãos e um ar de quase medo ao vê-los parados à sua frente.

Sem nenhuma explicação o garoto saiu da casa e desaparatou. Para onde, Draco não fazia ideia. Depois que o elfo pediu desculpas à sua senhora e fechou suas cortinas o silêncio pareceu retumbar no corredor.

"O que aconteceu aqui?", indagou Rodolphus e Draco o encarou por um instante até seus olhos desviarem-se para Rabastan. Ele sabia. Cinza encontrou o castanho frio e Draco sentiu-se arrepiar. Precisava encontrar Potter, precisava falar com Granger, precisava tirar os Lestrange daquela casa, estabilizar Potter e rezar, rezar para que Shadow voltasse logo.

"Eu acho que sei o que é.", ele respondeu, soando muito mais confiante do que estava, "Eu preciso contatar Granger. E depois vou atrás de Shadow."

"Devíamos nos preocupar?", perguntou Rabastan, sorrindo de maneira quase cínica. Ele sabia.

"Não. Estejam aqui hoje à noite no horário que nos combinamos previamente e nós explicaremos tudo."

Ainda sorrindo, Rabastan inclinou a cabeça em despedida e, assim que eles haviam sumido, Draco correu para a lareira mais próxima. Gritando o endereço de floo que Granger havia lhes passado na noite anterior, ele fechou os olhos e rezou para que ela pudesse ter alguma idéia de onde Potter estaria.

"Malfoy?", indagou a garota, o rosto ainda um tanto sonolento, "Oh, não.", ela disse num sussurro tapando a boca com uma das mãos. Draco apenas assentiu com a cabeça.

"Hoje pela manhã. Ele sumiu. Levou um caderno que Shadow estava escrevendo e sumiu. Alguma idéia para onde ele possa ter ido?"

Granger negou em silêncio, a testa franzida em concentração.

"A Toca, talvez... Ou... Não sei. Eu vou até A Toca, ver se ele apareceu por lá. Eu chamo quando tiver notícias."

Draco assentiu em silêncio mais uma vez, mas sabia, exatamente como Granger sabia, que ele não estaria lá.

E, pensando em como ele estaria se sentindo se tivesse descoberto que estava dividido em dois, Draco se lembrou de algo que Shadow havia lhe dito.

E então soube exatamente onde Potter estava.

-x-

"E agora, caro irmão, nós acabamos de ver Harry Potter."

Rodolphus encarava o irmão em um misto de curiosidade e divertimento. O sorriso de Rabastan era imenso, ele parecia feliz e Rodolphus não fazia idéia do porquê.

"Nós temos trabalhado com Harry Potter há semanas, Rabastan. Do que é que você está falando?"

O sorriso de Rabastan só fez crescer.

"Enigmas, Rodolphus. Eu sempre gostei de enigmas."

E aquele foi o fim do assunto, mesmo que Rodolphus soubesse que havia muito mais por trás daquelas palavras do que Rabastan estava deixando transparecer. E pela primeira vez em anos se sentiu ameaçado. Porque Rabastan estava sempre a sua volta, sempre com ele, no centro de seu mundo, fazendo seu mundo girar. Ele era o que era alheio aos outros, o que não se deixava afetar pelo exterior, o que não seguia regras não por rebeldia, mas por não ligar para elas, o que era blasé com a vida num geral, não apenas com ele. E os poucos momentos em que Rabastan mostrara que se importava com algo, era sempre com ele.

E agora chegava Shadow, ou Harry Potter, ou O Eleito, e isso mudava.

E Rodolphus nunca gostara de mudanças.

Encarando o irmão que ainda sorria, mesmo enquanto acendia seu cigarro, Rodolphus percebeu que precisava conversar com o garoto que havia afetado tão profundamente seu irmão. Porque Rabastan estava mostrando um novo lado, e Rodolphus não tinha certeza se gostava dele.

-x-

O último inimigo a ser derrotado é a morte.¹

"É um bonito epitáfio."

A voz de Draco soou diferente do que havia soado em toda a sua vida. Não era cheia de segurança, ou desdenhosa. Não era cheia de medo ou fraca. Não era a voz do garoto de escola, era a voz do homem que aos poucos ele estava se tornando.

Meça a situação antes de agir, pense antes de falar, calcule antes der tomar decisões... sinta antes de julgar.

E sentindo ele via que o garoto sentado no chão em frente à sepultura dos pais era alguém destruído, naquele exato instante. E que cabia a ele – pelo futuro que tinha à frente, pela guerra que já havia começado, e pela confiança que Shadow tinha nele – manter os pedaços unidos, mesmo que o preço fosse alto e, até aquele momento, desconhecido.

Potter não se moveu. Não levantou, não gritou, não reagiu como costumava fazer na escola de gritar e bater. Ele apenas colocou a cabeça nas mãos, assumindo uma pose ainda mais derrotada, se é que aquilo era possível, e suspirou alta e pesadamente.

"Por favor, Malfoy. Por – favor. Só vá embora. Só isso.", a voz dele era um sussurro quase inaudível, quebrada, exatamente como ele.

"Eu não posso. Eu prometi que não deixaria você fazer exatamente o que está fazendo."

"Prometeu a quem?", indagou Harry, ainda sem levantar o olhar.

"A você."

Finalmente o olhar verde encontrou o seu e Draco viu raiva ali, muito mais do que gostaria de ter visto, mas ainda assim, muito menos do que seria normal – ou saudável – naquela situação.

"Não foi a mim, Malfoy.", ele disse, a voz cheia de veneno, a respiração se tornando mais rápida, como que dificultada pelo peso da realidade que caía à sua volta, "Foi a... ele. E eu não sou ele."

Draco correu a mão pelos cabelos e escorou-se no túmulo em frente ao dos pais de Potter, suspirando.

"Eu suponho que você tenha lido o que estava no caderno? Tudo o que estava no caderno?"

Potter apenas assentiu com a cabeça e Draco encarou seu olhar sem medo, de frente. Você precisa passar confiança para ser confiado. Potter precisava de alguém absolutamente seguro na sua frente para que pudesse confiar e voltar e se acalmar o suficiente para permitir que Shadow voltasse – ou aceitar definitivamente que também era Shadow e ficar normal novamente. Mas Draco sabia que aquela era uma ocorrência com chances muito pequenas de acontecer tão cedo.

"Então você sabe que ele é você? E não sou apenas eu quem está dizendo isso," ele se adiantou, vendo a raiva crescer nos olhos de Harry, "Granger foi quem descobriu o nome da doença. Disse que apenas os trouxas a estudam. Poucos casos no mundo bruxo, ou algo sobre os bruxos tratarem a doença como uma superstição. Você cresceu com os trouxas. Nunca ouviu falar nela?", perguntou, tentando desviar a atenção do assunto principal, trivialidades para que o outro se acalmasse.

Harry ficou em silêncio longos minutos antes de falar. Avaliava Draco em silêncio, sem entender por que deveria confiar nele, ou as razões do loiro para ter ido atrás dele.

"Como me achou aqui?", ele acabou perguntando, fugindo da pergunta de Draco, que não se prendeu nesse detalhe e apenas seguiu com o que Harry perguntava.

"Shadow me contou sobre a sua vontade de vir até aqui. Do quanto isso significava para você e do quanto é difícil querer algo tão simples e ver alguém não deixar que você tenha.", ficou em silêncio, pensando sobre o que dizer a seguir, e que se danasse se havia acabado de falar mal de Granger indiretamente, ele nele que Shadow confiava, era nele que Potter aprenderia a confiar, "E então, quando você sumiu hoje de manhã, eu chamei Granger e ela disse que iria procurar por você na casa dos Weasley.", olhou nos olhos de Harry, de maneira que o outro não pudesse desviar o olhar, precisava que ele visse que tudo o que diria dali para frente era verdade, "E eu sabia que você não estaria lá. Mas eu também não fazia idéia de onde pudesse estar. E eu pensei que se eu estivesse na sua situação, eu procuraria a minha família, conforto, algum lugar que fosse... meu. E eu sabia que você não tinha esse lugar. E que a única vez que você teve contato com algo próximo de um lar, da sua família de verdade, foi aqui. E eu soube para onde vir."

Harry tinha lágrimas nos olhos, que secou num gesto impaciente quando Draco terminou de falar. Confiar em Malfoy. Confiar nele? Não confiava nem em si mesmo, naquele exato momento, podia confiar em Malfoy?

Em Malfoy que acreditava em supremacia pelo sangue, mas que chorava? Em Draco que se vestia de dementador para trapacear num jogo de Quidditch, mas que não sabia matar? Em Draco que o havia encontrado, quando seus melhores amigos não conseguiam? Em Draco que dizia que queria que ele pagasse pela prisão de seu pai, mas mentia para que ele não morresse? Em Draco que, segundo o diário negro que segurava, havia ficado ao seu lado, jurado lhe ajudar, quando nem ao menos Ron havia ficado?

E Harry descobriu que confiava mais em Draco do que em si mesmo naquele momento. E que, honestamente, já estava no fim das suas forças e sentia que não aguentaria o peso de mais um único pensamento, mesmo que ele fosse seu.

E reconheceu que, desta vez, ele precisava de ajuda. E que a única pessoa capaz de lhe ajudar era Draco Malfoy.

Engoliu em seco e respirou fundo, desviando o olhar para a sepultura dos pais, traçando os nomes deles encravados no mármore.

"Eu passei dez anos no mundo dos trouxas, mas eu nunca vivi lá. Eu pensei que eu havia encontrado meu lugar no mundo quando eu soube que era um bruxo, mas eu só conheci a escola e a guerra. E isso não é o mundo. Ao menos eu espero que não seja.", completou, com uma risada amarga, "Eu nunca vivi lá, Draco, assim como eu nunca vivi aqui. Eu sou fruto do vácuo. É assim que eu me sinto, às vezes, no meio do nada, lutando por um mundo que eu não conheço, dando meu sangue por um estilo de vida que eu nunca experimentei e fugindo da vida que eu nunca levei. Eu não conheço as doenças deles. Eu não conheço os nossos costumes. E, nesse exato instante, eu sinto como se não pertencesse a lugar algum exceto aqui.", concluiu, as lágrimas embargando sua voz, enquanto acariciava com quase reverência o túmulo dos pais.

E Draco agiu sem pensar, sentando-se no chão ao lado de Harry, que apoiou a cabeça contra a lápide branca, os joelhos erguidos, as mãos apoiadas neles, o olhar doído que não desviava dos de Draco.

"E eu sei que isso é covardia, mas... Eu acho que eu não aguento mais.", ele concluiu, como se a confissão houvesse tirado um peso de seus ombros. Draco respirou fundo, se acalmando, e quando falou sua voz estava firme e segura e clara e calma. Não mais porque queria agradar a Shadow, mas porque queria ajudar Harry. Porque não era justo que a única pessoa que havia salvado a todos eles fosse a única a ainda estar sofrendo daquela maneira.

"Você acha que Shadow não é você porque ele começou uma guerra. Eu entendo isso. Eu o odiei por vários dias quando ele procurou minha família, porque eu queria paz. Eu queria voltar à escola, e retomar minha vida, tentar encontrar um sentido para conseguir continuar vivendo, e então ele chegou com seus planos de ação e sua pose fria, e seus ideais que não faziam sentido algum para mim, porque eu não me importava. Mas agora, Harry, eu sei pelo que nós lutamos, e é exatamente pelo que você estava falando até agora. Para não termos porque nos esconder. Para não precisarmos mais fugir. Para não termos mais crianças como você e Granger, que chegam nosso mundo sem saber nada, perdidas e deslumbradas e que jamais realmente nos compreendem. Um mundo, Harry, em que crenças como as que eu tinha nunca teriam frutificado, porque todos saberiam o que nos éramos e porquê nós éramos assim. Ele luta, Harry, pelo que você acredita, pelo que eu quero, pelo que Granger precisa. Ele luta por nós, exatamente como você lutou. E é por isso que ele é você. É por isso que ele precisa de você, exatamente como você precisa dele, até conseguir compreender e aceitar tudo o que você passou. E eu estou aqui porque eu confio nele.", Draco fez uma pausa e colocou uma de suas mãos no ombro de Harry, sem desviar o olhar, "E eu confio em você.", ele mudou sua posição ficando de frente para o outro garoto, de joelhos, sua mão ainda no ombro dele, os olhos fixos um no outro, "Porque nós, Harry, nós já estivemos no inferno e de volta e sobrevivemos. E juntos nós vamos sobreviver mais uma vez. E até você aceitar quem realmente é, não importa quando ou como isso vai acontecer, eu vou estar ali. Porque eu confio. E eu acredito."

Sem pensar antes de agir, Harry abraçou o outro garoto, chorando todas as lágrimas que ainda tinha.

Chorava por ele, e por Draco, e por tudo que sabia que teriam que destruir para poderem reconstruir. E quando Draco devolveu o abraço, Harry conseguiu se sentir seguro, pela primeira vez depois de ter acordado.

E talvez, apenas talvez, pensou ele, com os braços de Draco Malfoy ao seu redor, as coisas dessem certo no fim.


¹Tradução livre feita por mim, de um trecho de "Harry Potter and the Deathly Hallows", adult version, pág 268.


R E V I E W !


Revisado em: 16/04/2011