There…

"Eu não posso simplesmente largar tudo?", disse Harry, depois de longos minutos em silêncio, a voz abafada e rouca pelo choro, dando alguns passos para trás de maneira desajeitada, secando as lágrimas que banhavam seu rosto, evitando os olhos de Draco.

"Você quer parar com tudo? Quer largar tudo?", a voz de Draco era um tanto fria. Estava incerto. Aquele não era Shadow, mas certamente não era o garoto que frequentara a escola com ele, tampouco. Harry, este Harry, parecia estranhamente... menor, mais jovem, mais... inseguro. Estava incerto sobre como agir ou o que fazer. Repentinamente, toda a sua confiança, toda a postura que havia adotado parecia ter ruído por terra, ter se desfeito ao olhar nos olhos de Harry. Como um... garoto como esse que lhe encarava agora ia liderar alguma batalha? Eles tinham um encontro com os Lestrange em menos de doze horas. Era uma questão de olhar e ver que aquele não era o mesmo homem que estava planejando uma Nova Ordem. Não era.

Não tinha a mesma postura, o mesmo olhar, o mesmo tipo de decisão no comportamento. Não era a mesma pessoa.

Pela primeira vez desde que Granger havia lhe explicado o conceito da doença que Potter tinha, Draco pôde apreciar todo o efeito dela.

Outra pessoa.

Harry e Shadow eram duas pessoas diferentes.

E simplesmente olhar para o garoto à sua frente confirmava isso para Draco. E durante um segundo inteiro, ele sentiu vontade de desistir. Guerra e Nova Ordem e poder que se fodessem, ele não queria ter de lidar com tudo aquilo.

Mas então ele ouviu uma voz baixa, quebrada, a imagem sonora exata do garoto que encarava o sol alto que refletia no mármore polido das lápides em volta deles. Um garoto que voltara a se sentar escorado no túmulo dos pais, como se buscasse conforto na pedra gelada, ele teve de reconsiderar.

"Como você se sente a cada vez que olha para seu braço esquerdo, Malfoy? O que você sente a cada vez que se lembra da Marca Negra que sempre vai estar na sua pele, mesmo que você não consiga enxergá-la?", ele fez uma pausa e encarou os olhos cinza que, de repente, tinham um ar de ultraje, "Nojo? Raiva? De você? Dos outros? Medo? Medo de Voldemort, medo do que ele fez você fazer, da maneira como o fim da sua adolescência foi destruído? Tudo isso junto e muito, muito mais, que você mal consegue descrever?"

Draco assentiu levemente com a cabeça, já que Harry lhe encarava como se esperasse algum tipo de reposta para continuar falando.

"Some tudo isso, Malfoy. Some todos os seus medos e os multiplique. Some a marca do seu braço com uma cicatriz, com dor insuportável, some tudo isso com o fato de que uma parte dele vivia em mim. Some tudo isso com o fato de que eu tive de morrer para salvar os outros e eu fiz isso de livre arbítrio. E depois disso, eu não me lembro de mais nada, a não ser uma vaga lembrança de Grimmauld Place, e então agora. Um caderno negro com a parte da minha vida e da minha alma escritas. Por Shadow. Que sou eu. E ele me lembra tudo que eu nunca quis. Todas as batalhas que eu nunca quis lutar. Todo o tempo e o nojo que eu ainda sinto de mim sabendo que não só eu fui marcado pelo homem que destruiu minha vida, como eu o ajudei a ficar vivo, mesmo que involuntariamente. E você me pergunta se eu quero largar tudo?", Harry riu uma risada despida de humor, seca, com uma espécie de desespero que fez os olhos de Draco arderem por razão nenhuma, "Quero. Mas parece que eu não posso.", ele fez uma pausa e voltou o rosto para o céu, os olhos fechados, as mãos caídas ao seu lado, uma imagem da desolação, "Eu nunca posso."

Draco ficou em silêncio observando o garoto por alguns instantes antes de falar e, quando o fez, foi tentando realmente ajudar. Era uma sensação estranha ver o homem que ele aprendera a confiar e admirar ao longo das últimas semanas parecendo frágil e vulnerável como Harry estava parecendo agora.

"Não, não pode. Mas eu pensei que, lendo o diário, você tivesse entendido, Harry, que Shadow não quer matar ou destruir por diversão. Ele não é o Lorde das Trevas. Ele é você, você e a sua mania de salvar as pessoas, de não acreditar que nada é impossível, você e a sua crença de que um garoto de dezessete anos conseguiria acabar com o mais terrível Lorde das Trevas que já existiu – e conseguir. Você conseguiu antes porque acreditava. Nós precisamos que você acredite agora. Porque sem você nada vai mudar. Tudo vai continuar igual. Shadow tomou decisões difíceis que vieram com um preço alto e eu acredito que você pode sustentá-las, tanto quanto ele pôde. Mas você precisa acreditar que ele está fazendo tudo isso pelo melhor. Os aliados podem não ser os mais corretos e talvez você realmente desaprove as pessoas em quem ele confia agora – principalmente eu – mas houve uma razão para tudo."

Harry olhou novamente para Draco, um ar levemente surpreso no rosto.

"Eu não desaprovo você, Draco.", ele respondeu, baixinho. Draco sorriu meio de lado.

"Então confie em mim. Vamos voltar para Grimmauld Place, e falar com Granger. E então vamos revisar o que tem que ser feito no encontro de hoje à noite e tudo vai ficar bem. E talvez você possa entender melhor o Shadow e aí vocês poderão ser um só, mais uma vez."

Draco estendeu a mão para o garoto que ainda estava no chão.

"E então? Você vem?"

Harry levantou o olhar e a sombra de um sorriso passou pelo seu rosto, antes de pegar a mão oferecida e levantar do chão. Juntos desaparataram para a praça em frente à casa que Harry aprendera a associar com más lembranças. Vendo a hesitação no outro garoto, Draco apertou a mão de Harry, tentando passar uma segurança que ele mesmo não estava certo se sentia ou não antes de entrar no lugar. Harry mais uma vez sorriu em resposta e seguiu o outro para dentro.

-x-

Rodolphus Lestrange poderia ser muitas coisas, mas não era um homem tolo. Nunca assumira a liderança de nada na sua vida, pelo simples fato de que o ato de liderar atrai atenção e ele sempre preferiu os bastidores à luz do palco. Sua esposa fora, em seus dias, uma líder. Seu antigo mestre, em cuja causa um dia ele acreditara, fora um bom líder. Harry Potter, por mais que ele relutasse em admitir, era um bom líder. Ele era um bom seguidor. Seguiria as pessoas certas até o inferno – mas saberia exatamente quem e porquê estava seguindo. Seguiria Rabastan até o fim dos tempos, porque costumava confiar cegamente no irmão.

Porque Rabastan era diferente dele. Rabastan não era líder, mas tampouco era liderado. Rabastan tinha uma visão clara e simples da vida, mesmo que falasse pouco sobre ela. Rabastan costumava perceber que tudo um dia acaba. Rabastan não se deixava liderar, ele apenas seguia o fluxo menos complicado de sua vida, vivia pelo prazer de viver. Mas Rabastan, naquelas poucas semanas, havia mudado, como se uma nova pessoa florescesse dentro dele. Rabastan, mesmo frio e isolado e avesso a toque ou contato era a pessoa a quem Rodolphus protegia, porque Rabastan aceitava sua proteção. Rabastan não havia nascido para a guerra – ele já havia quase perdido o irmão para a primeira guerra – e então a segunda, e agora uma terceira e Rodolphus temia que, desta vez, já não havia mais volta.

Rabastan, que agora fumava um cigarro trouxa, um meio sorriso nos lábios, encarando o sol pela janela de sua antiga casa, havia mudado mais profundamente do que Rodolphus conseguia atingir. Era como se algo entre eles dois houvesse se quebrado desde que Shadow havia surgido com suas promessas de Nova Ordem e poder ilimitado, numa sociedade que eles construiriam.

Rabastan, pela primeira vez desde que Rodolphus conseguia se lembrar, desejava o poder. O poder e a pessoa que trazia o poder até ele. E Rodolphus não gostava disso.

"Você parece o gato que comeu o canário, meu irmão.", Rabastan virou-se na cadeira para encarar o irmão, ainda sorrido.

"Por que diz isso, Rodolphus?"

Rodolphus não respondeu dessa vez, apenas encarando o irmão com uma expressão pensativa, o que intrigou Rabastan. Normalmente era ele quem utilizava o silêncio como resposta.

"Eu preciso sair.", anunciou o mais velho, depois de alguns minutos em silêncio, "Nos vemos em Grimmauld Place, mais tarde." Rabastan apenas assentiu e voltou a contemplar a janela. Rodolphus estava agindo de maneira estranha, nos últimos dias, mas ele mesmo também estava, refletiu.

Era a guerra. Era a diferença entre lutar por dever lutar e lutar por saber que poderia vencer e teria poder.

E todos sabem o quanto o poder muda as pessoas – mesmo que, por enquanto, fosse apenas a perspectiva dele.

-x-

Entraram na casa com o máximo de silêncio que conseguiram e, automaticamente, seguiram para a cozinha. Draco andava na frente, Harry seguia hesitante, como se a qualquer momento pudesse sair correndo e desaparatar novamente, e era por isso que Draco ainda não havia soltado a mão dele.

E esse era, realmente, o único motivo pelo qual ele continuava segurando a mão de Harry.

Mesmo.

Quando entrou na cozinha, encontrou Granger e Weasley sentados à mesa, tomando café, com um Kreacher visivelmente nervoso os observando.

"Malfoy!", exclamou a garota, se levantando, "Nós não o encontramos, eu não faço idéia de onde ele possa estar e..."

"Eu estou aqui, Mione.", disse Harry, em voz baixa, atrás de Draco.

A garota soltou uma exclamação abafada e correu até o amigo, apertando-o em um abraço firme e aliviado.

"Nós ficamos tão preocupados. Por que você sumiu daquele jeito?", ela finalmente o soltou e olhou em seus olhos, enquanto ele dava de ombros, um tanto sem jeito.

"Eu precisava pensar. Depois de tudo que eu li eu... Eu acho que eu meio que... Surtei.", ele terminou com a insinuação de um sorriso, e Hermione, mais uma vez, tinha lágrimas nos olhos.

"Ah, Harry, deve ser tão difícil. Eu sinto tanto que sempre tudo tenha que acontecer com você."

Ele suspirou e andou até a mesa, inconscientemente pegando a cadeira exatamente ao lado de Draco, como se o garoto mais alto fosse capaz de lhe passar a segurança que ele não tinha.

"Eu acho que, nesse caso, é mais porque tudo aconteceu comigo que isso está acontecendo.", ele respondeu. Kreacher colocou uma xícara de chá na frente dele e uma de café na frente de Draco, e Harry sorriu para o elfo, em agradecimento. Draco notou que Weasley tinha um ar de desaprovação no rosto, como se não quisesse estar ali.

"Decidiu voltar, Weasley? Apoiar o nosso lado da batalha?"

Granger fez um som de irritação, enquanto Harry tinha um ar de incompreensão no rosto.

"Eu só vim ver se essa bobagem de doença era mesmo verdade. Eu nunca ouvi falar nisso... E o Harry parece perfeitamente normal pra mim. E mesmo que não seja maluquice de vocês, agora o Harry está normal, não está? Vai poder parar de mexer com o que não deve e continuar com a vida dele, não vai?"

"Eu já expliquei que é uma doença trouxa, Ron, por isso você nunca ouviu falar. E o que você chama de 'mexer com o que não deve' é algo em que nós acreditamos. Eu não entendo porquê você não consegue aceitar isso."

"Porque não é CERTO, Mione!", ele deu um soco na mesa, no mesmo momento que Draco pensou ter ouvido um som na porta da cozinha, mas não prestou atenção nisso, já que Weasley estava deixando Granger muito irritada, uma cena sempre engraçada, "Nós não temos que nos meter nisso! Nós temos 18 anos, nós temos que voltar a Hogwarts e terminar nossos estudos e nos divertir! Não começar outra guerra!"

"Mesmo que seja o certo a fazer, Ron?", perguntou Harry, em voz baixa, e, por um segundo, Draco pensou que Shadow estivesse de volta, mas, olhando para Harry, viu que não era esse o caso. A expressão de Harry não tinha a frieza que a de Shadow sempre tinha. Era uma expressão desarmada, simples, calma, contida.

"Certo, Harry? Não interessa se é certo, interessa que nós não precisamos estar ali! Acabou a guerra que nós precisávamos estar. Acabou!", Harry balançava a cabeça em negação, com um ar triste.

"Acabou, Ron, mas não é porque Voldemort se foi que o mundo vai nos deixar viver em paz. Acabou aquela guerra, mas há mais pelo que lutar. Eu acredito no que Shadow começou, Ron. Eu realmente acredito. E não interessa se ele sou eu, ou se eu nunca vou conseguir aceitar isso, eu só sei que, enquanto eu estiver aqui, enquanto ele não voltar para liderar a guerra que é dele, eu vou tornar essa guerra nossa. Porque eu acredito na causa e eu quero lutar por ela, assim como Hermione e Draco."

"Eu pensei que agora que você estava de volta, tudo ia voltar ao normal.", Ron respondeu, as palavras soando como uma acusação aos ouvidos de Harry e Draco, e o loiro sentiu sua raiva pelo outro crescer. Por Merlin e Salazar, como detestava Weasleys.

"Quantas vezes eu vou precisar te explicar, Ronald, Shadow é o Harry. Ele apenas precisa... se adaptar com esse lado dele. Nós convivemos muito mais com Shadow ano passado do que com Harry. Só que lá, os dois estavam... juntos."

Ron balançava a cabeça, em negação, levantando da mesa.

"Olha, eu não consigo entender tudo isso. Doença ou não doença, Harry... Shadow, não sei mais, essa guerra está acontecendo por sua causa agora. Eu nunca pensei que você fosse querer isso. Ginny está em casa com o coração quebrado por sua causa e eu não sei se você é a pessoa que eu conhecia ou não. Eu só não quero mais nenhuma parte nessa maluquice. Boa sorte."

E com isso ele saiu, batendo a porta em seu caminho.

Harry tinha uma expressão desolada no rosto, enquanto Hermione parecia tentar esconder as lágrimas. Draco permaneceu em silêncio.

"Shadow sabia que isso ia acontecer.", disse Harry, depois de alguns momentos de silencio, "Ele escreveu que eu deveria confiar em vocês, mas não em Ron. Ele sabia."

Hermione levantou e sentou-se ao lado de Harry, pegando uma de suas mãos e apertando-a de maneira reconfortante.

"Nós estamos aqui, Harry. Nós sempre vamos estar, ok?"

Harry concordou com a cabeça, fechando os olhos por alguns instantes, suspirando antes de abri-los novamente.

"Eu... eu queria ficar sozinho um pouco. Eu juro que não vou fugir.", ele acrescentou, quase sorrindo.

Ambos concordaram e deixaram a cozinha, onde Harry apoiou a cabeça na mesa e suspirou mais uma vez.

"Bem, isso certamente esclarece porque eu nunca consegui visualizar Shadow como o Eleito, não é mesmo, Harry?", disse uma voz do canto da cozinha. Harry levantou o olhar e sua respiração ficou presa na garganta.

Escorado na pia, os braços cruzados e uma expressão interessada no rosto, estava Rodolphus Lestrange.

"Como vai, Harry?"


R E V I E W !


Revisado em: 16/04/2011