Could be, should be… Is
You could have been number one
If you'd only had the chance
And you could have ruled the whole world
If you'd had the time
Uno, Muse
O poder corrompe.
É um fato, não é apenas uma filosofia, ou sabedoria popular. Saber que você pode fazer - e sair ileso - de qualquer coisa porque você controla o mundo à sua volta corromperia até o mais nobre dos homens, e Rabastan Lestrange estava longe de ser o mais nobre dos homens. E, de certa forma, se orgulhava disso.
Por anos, vivera nas sombras. Na sombra de seu pai, na sombra de seu irmão, na sombra de Bellatrix, na sombra do Lorde das Trevas, na sua própria sombra, correspondendo à imagem exata que Rodolphus esperava que ele tivesse.
Por anos, fora fraco – sabia disso. Não se orgulhava de ter sido um seguidor cego, de ter obedecido a ordens por uma causa na qual não acreditava apenas para agradar o irmão, mesmo que escondesse suas verdadeiras intenções.
Rodolphus era – sempre fora – a única constante, a única pessoa que sempre se importaria com ele, seu único companheiro, a única pessoa graças a quem Rabastan conseguiria ter alguma noção do significado da palavra afeição, até mesmo amor. Mas esse sentimento, pelo qual Rabastan havia vivido toda a sua vida, começava a tomar as formas dos grilhões dos quais ele sonhara tantos anos se livrar.
Ele vislumbrava agora uma vida sem nada. Sem regras, vazia, uma tela em branco para ser pintada, uma sinfonia a ser composta – poder a ser conquistado e utilizado: por ele. E ele sabia que poderia. Que seria grande. Que teria poder. Que seria dono de si e, então, não precisaria da segurança que só sentia quando tinha Rodolphus perto dele. Seria seguro porque seria dono da segurança. Poder significava não ter mais limites, ser como... ser como Shadow.
Livre.
Poderoso.
O mundo a seus pés e ao alcance de sua mão.
E não havia nada que lhe prendesse, que lhe desse hesitação – a não ser Rodolphus.
Porque mesmo sendo apenas seu irmão, Rodolphus, de certa forma, era o dono da sua consciência. A primeira vez que matara sentira dor, não por si mesmo, mas por saber que, tivesse ele tido uma escolha, Rodolphus jamais teria permitido que ele fizesse algo que não queria. Mas jamais havia parado para pensar se Rabastan desejava tornar-se um assassino ou não.
Porque Rodolphus presumia que Rabastan era uma pessoa melhor do que ele. Mais nobre, mais altruísta, mais sábio. E essa pressão de ter sempre de corresponder àquela imagem começava a deixar sua marca e cobrar seu preço. Por passar tantos anos sendo – e estando feliz em ser – a pessoa a quem Rodolphus amava e protegia, havia, de certa maneira, perdido a si mesmo. Já não sabia quem realmente era por ter sido quem Rodolphus amava durante tanto tempo – sua vida toda.
E agora, vendo suas oportunidades crescerem e tendo um mundo se abrindo à sua frente, Rabastan via que, mesmo não sabendo quem era, percebia que essa pessoa que ele atuava não era quem desejava ser – não para sempre, não mais.
Sua consciência decidira retornar à vida, fazendo-o ver que se tornar quem era – quem quer que esta pessoa fosse – seria perder Rodolphus. E saber disso doía. Porque Rodolphus... Rodolphus era. Sua vida. Seu porto seguro, seu irmão, seu... amor. A pessoa que sempre estaria ali – para ele. Para Rabastan. Para o irmão perfeito que Rodolphus havia ajudado a criar e cujas expectativas ele jamais corresponderia, não mais, não sabendo que poderia ter o mundo.
E a escolha entre o mundo e Rodolphus não deveria ser difícil de ser feita, porque o poder corrompe. E Rabastan acreditava nesta máxima com todas as forças que ainda possuía, porque desejava ser corrompido, e já não ter mais a consciência implantada por Rodolphus em si. E então estaria livre, e não se importaria, e seria outra pessoa e teria poder.
E perderia Rodolphus.
E olhando para o irmão que sorvia um copo de firewhisky na poltrona ao seu lado, encarando a lareira, ponderava se já não o havia perdido.
Teria Rodolphus notado que seus olhos já não tinham mais calor, que pensava em tudo e em nada, e que a imagem de Shadow estava gravada na sua mente como que a fogo, sua forma representando o poder e a liberdade que ele tanto desejava? E que doía pensar que perderia Rodolphus, e que estava se sentindo um tanto covarde por querer perdê-lo, de certa forma, antes que fosse tarde demais e acabasse sendo Rodolphus a já não querê-lo mais?
Rodolphus escolheu aquele momento para olhar em seus olhos e Rabastan pôde ver dor neles. Seu irmão sempre soubera de tudo, muito antes que ele pudesse saber, porque Rodolphus o conhecia – o havia feito. E ver dor nos olhos de Rodolphus doía em sua alma por saber que a única pessoa capaz de ferir Rodolphus era ele. E sentia raiva de Rodolphus por fazê-lo sofrer apenas por que elesofria. E sentia raiva por saber que se Rodolphus não o amasse, ele seria uma outra pessoa – talvez a pessoa certa para compartilhar o poder com Shadow. E sentia raiva de si mesmo por pensar tais coisas, e tinha raiva do amor de Rodolphus por ele, e raiva de si por amá-lo de volta. E tudo parecia tão intenso e tão... maior que ele mesmo naquele instante que não sabia se desejava apenas morrer ou matar. Bater em Rodolphus ou afundar-se em seu abraço e esquecer poder e lutas e guerras.
E se sentia fraco. Por querer tanto e uma pessoa – uma única pessoa – conseguir ser um obstáculo maior do que a possibilidade da realização do que queria. E se sentia irreal, porque no limbo em que estava – sem saber quem era, a que universo pertencia – já não tinha forma nem mais para si. E desejou por alguns segundos poder voltar a ser o Rabastan a quem Rodolphus amava incondicionalmente.
E estendeu a mão, pegando a de Rodolphus, beijando a sua palma e a trazendo até seu cabelo, tendo um momento de paz e contentamento ao ver que Rodolphus ainda atendia a seus pedidos mudos por carinho, ainda compreendia sua linguagem sem sons.
E sabia que ninguém, jamais, o entenderia assim, como Rodolphus entendia. E não conseguia se livrar da sensação de necessidade quando sentiu as mãos de Rodolphus – sempre tão mais quentes que as suas – tomarem seu rosto, e traçarem seus lábios.
E tentou não sentir mais nada que não fosse toque ou instinto. Porque pensar, naquele instante, doía, e ele decidiu que, àquela noite, não queria mais dor. E trouxe suas mãos para o rosto do irmão, espelhando seus gestos como quando conseguiam ser os espelhos da alma um do outro. E sorriu. Porque, naquele exato instante, conseguiu acreditar que Rodolphus sempre estaria ali.
E seus lábios buscaram os dele, um toque, breve, rápido, roçar leve como uma brisa, como fumaça, como brumas. E os olhos de Rodolphus refletiam a vontade que ele também tinha. E sentiu o irmão trazê-lo para mais perto e não impôs resistência. As mãos dele tinham o calor que faltava a Rabastan, a falta de pudor que ele tinha em excesso.
Mãos que o deitavam sobre o sofá e descobriam cada parte dele que, durante tanto tempo, haviam ficado ocultas. E a boca de Rodolphus tinha gosto de whisky e fumaça e perda. E Rabastan precisava de contato, de saber que o irmão estava – sempre estaria – ali. E o puxava para mais perto, e precisava senti-lo. E não protestou quando Rodolphus tirou sua camisa, e suas mãos eram ágeis quando tiraram a de Rodolphus, e sentir o irmão todo contra ele o fazia real. Tornava ambos reais naquele mundo onde já não sabia mais nem se realmente existia.
E sentir Rodolphus contra ele sem obstáculos – sem roupas, sem guerras, sem batalhas – o completava, ao menos naquele instante, e sabia que precisava de mais, precisava de Rodolphus, sem limites, sem imposições, sem pensamentos. Precisava do toque quente contra sua pele fria e precisava da segurança que Rodolphus sempre tinha. E o sentia suspirar contra seu pescoço, e puxava seus cabelos com força, apenas para senti-lo real. E pressionava seu quadril contra ele, para que Rodolphus compreendesse em sua linguagem muda que necessitava dele por todo, completamente, ao menos uma vez - mesmo que fosse a última. E seu gemido era apenas metade de dor quando Rodolphus – como sempre – atendeu seu pedido. E o mundo à sua volta se desfez ao sentir Rodolphus dentro dele, porque até a dor era superável se Rodolphus estivesse com ele. E nada mais importava que não Rodolphus, o som da sua voz, o toque de seus dedos.
E quando ouviu seu irmão gemer não pôde deixar de fazer o mesmo, porque sentia que – naquele ínfimo espaço de tempo que seu clímax duraria – ele estava completo.
E ao beijar Rodolphus nos lábios mais uma vez, abrindo os olhos e o encarando, percebeu o gosto oculto que Rodolphus tinha: Rodolphus tinha gosto de despedida.
-x-
Draco acordou cedo. Acordou cedo e não sentiu vontade de permanecer na cama, porque, pela primeira vez na vida, sentia a necessidade de alguém antes da sua. Não queria deixar Harry sozinho porque Harry – o Harry que ele havia conhecido no dia anterior – era só um garoto. E ele precisava de ajuda.
Desceu para a cozinha, e a encontrou já ocupada pelo rapaz moreno, a quem Kreacher acabava de entregar uma xícara de café. Sentando-se na mesa em frente ao outro, que mantinha a cabeça baixa, encarando a xícara de café, Draco aceitou a outra xícara que Kreacher lhe oferecia, enquanto o elfo terminava de preparar o café da manhã.
"Bom dia, Harry.", disse ele, tomando um gole da bebida quente.
Ouvindo sua voz, o outro levantou o olhar e Draco soube, sem precisar que ele falasse, que aquele não era Harry, era Shadow. Era o olhar. O frio do verde que o encarava, a pose contida, o sorriso gelado e a confiança que o envolvia como uma capa.
"Oh...", exclamou Draco, um tanto perdido sobre como agir porque, de repente, as poucas horas que passara com Harry pareciam tão mais íntimas, tão mais próximas que todo o tempo que havia ficado ao lado de Shadow, "Eu pensei que Harry não sumiria tão cedo.", ele completou, sem saber o que dizer.
Shadow sorriu mais amplamente em resposta.
"Vejo que já estão se chamando pelo primeiro nome. É bom que ele já confie em você, Draco. Eu sempre soube que você não ia me desapontar."
Draco inclinou a cabeça, aceitando o elogio em silêncio, ocupando-se com o café da manhã. Se Shadow estava incomodado pelo dia que havia perdido, se estava temeroso pela reação dos demais à aparição de Harry, ele simplesmente não comentava. E as diferenças cresciam e se pronunciavam, porque Harry usava seu coração na manga e seus sentimentos no rosto; e lê-lo era como ler um livro aberto, era fácil, doloroso, mas simples.
Shadow não era assim. Draco sentiu uma falta repentina da outra versão dessa pessoa que agora lia o jornal com atenção e um ar de aprovação no rosto.
"Uma ótima idéia utilizarem o passado de Dumbledore a nosso favor. De quem foi a idéia?"
"Sua.", respondeu Draco, buscando nos olhos de Shadow alguma reação à sua resposta.
"De Harry, você quer dizer.", respondeu Shadow, com um meio sorriso no rosto.
"Uma outra parte sua.", devolveu Draco, no mesmo tom de voz.
Encararam-se por um minuto inteiro, Draco se sentia ser avaliado, ao mesmo tempo em que avaliava. Não era a mesma pessoa. E, naquele instante, com os olhos gelados sobre si, não conseguia pensar como alguém poderia confundir um com o outro. E via que aquilo não estava certo – precisava falar com Granger. Precisavam pôr um fim nisso.
Harry – a parte que eles haviam visto ontem – fazia falta a essa pessoa que agora encarava e examinava, calculando e avaliando cada reação. Comparando os dois, percebia que havia sido um tanto bobo ao admirar tão prontamente alguém como Shadow, porque sabia – melhor do que ninguém, ele sabia – o que visar apenas o objetivo, e desconsiderar o preço para alcançá-lo, custava.
Mas, mesmo assim, não podia deixar de admirar esse rapaz à sua frente. E se sentiu um tanto confuso, porque eram o mesmo e eram diferentes. Tão diferentes que até mesmo características físicas pareciam ressaltadas ou amenizadas. Terminando seu café, apoiou-se no encosto da cadeira.
"Quais os planos para hoje?"
Shadow suspirou e Draco sentiu-se aliviado por ver que o outro havia perdido um pouco do ar guardado que estava usando até então – e só naquele momento lhe ocorreu que talvez o próprio Shadow estivesse com medo de rejeição, agora que eles todos haviam conhecido Harry.
"Tenho que falar com Rabastan e Rodolphus. Eu gostei da matéria de Everlast no Profeta, mas ela ainda é vaga e muito subjetiva. Nós precisávamos de material novo, mas eu me recuso a trabalhar com Rita Skeeter.", ele fez uma pausa, um ar pensativo no rosto, "Nós precisamos de um exército, Draco. Você já havia percebido esse fato? Nós não podemos lutar com meia dúzia de bruxos. Os trouxas não são burros, eles têm armas com as quais nós só sonhamos."
"Eu sei.", respondeu Draco, com um ar grave, "Nós vamos precisar de números, com toda a certeza, mas acho que Granger vai nos ajudar muito nesse sentido – ela é nascida trouxa, ela tem pais trouxas, ela pode funcionar como nosso contato entre os dois mundos. Porque nós precisamos de contato, Shadow.", acrescentou o loiro, seriamente, sem desviar o olhar de Shadow, "Porque não podemos iniciar uma guerra sem planos exatos sobre como nós vamos terminá-la."
Shadow concordou com um aceno de cabeça.
"Eu sei. Eu estive lá também, Draco. Eu também não quero uma guerra permanente. Eu sei que precisamos de planos concertos antes de nos lançarmos na batalha, e precisamos do apoio público para podermos ter planos concretos – mais ainda assim, me preocupa que nós não consigamos o apoio necessário. Me preocupa ainda mais que nós consigamos o apoio errado. E é por isso que eu quero falar com os Lestrange. Eles podem me ajudar a... selecionar as pessoas que poderão ficar ao nosso lado, pelas causas certas."
"Eu entendo. Você vai fazer isso hoje?"
"Pretendo. E você? Algum plano? Você poderia ficar e ajudar."
Draco teve uma vontade imensa de ficar e ajudar Shadow e, principalmente, de avisá-lo que Rodolphus sabia de tudo. Mas decidiu por não comentar. Sem razão aparente, não falou, porque sentia como se ontem, todo aquele dia, fosse um grande segredo entre ele e Harry, e não queria compartilhar aqueles momentos e tudo que sentiu com mais ninguém, mesmo que isso soasse um tanto infantil até para ele mesmo.
"Eu posso voltar mais tarde. Preciso ir até em casa trocar de roupa, tomar um banho... Eu aviso Granger quando estiver voltando para cá, ela pode ajudar também."
Shadow concordou com a cabeça e Draco levantou-se para sair. Quando passou ao lado da cadeira do outro rapaz, Shadow segurou seu braço. Draco o encarou, surpreso, e ouviu a voz baixa de Shadow, com um sorriso quase invisível, aparente mais no olhar do que em seus lábios.
"Obrigado."
Draco não sabia se era por ter ajudado Harry, ou por apoiá-lo na guerra, ou simplesmente por ter ficado ali, mas sentiu-se feliz, de qualquer forma, e apenas sorriu e saiu da casa.
Iria encontrar Granger, e iria fazer com que ela falasse sobre os tais médicos trouxas que iriam curar Harry.
Ele ajudaria Harry a vencer todas as batalhas. E só depois que já tivesse concretizado isso é que se importaria em saber por que Harry parecia, de repente, muito mais importante do que Shadow.
-x-
Rodolphus ficou um tanto surpreso ao perceber que, apenas de estar na presença desse rapaz que agora fumava um cigarro trouxa – oferecido pelo seu irmão – era claro que o rapaz com quem ele havia falado ontem era outra pessoa. Era intrigante, para dizer o mínimo, a maneira como toda a linguagem corporal, a atitude, até mesmo certos traços do resto dele parecia diferentes. Entreteve durante alguns minutos a possibilidade de tudo ser apenas um ato do rapaz, uma encenação para enganá-los, mas não poderia ser porque ninguém era tão bom ator assim.
Shadow, concluiu Rodolphus, era mais velho que Harry. Shadow também era mais frio e calculista, e muito mais inteligente. E Shadow era quase menos... humano.
Via com clareza agora a maneira como Rabastan parecia atraído pelo outro rapaz, no sentido literal da palavra, como um satélite que encontra um corpo maior para centrar sua órbita. E percebia, com mais clareza ainda, o quão despercebido desse aspecto Shadow era.
Enquanto conversavam sobre o artigo do jornal, e pequenas coisas sem importância, já que Shadow queria esperar pelo retorno de Malfoy e da nascida trouxa para começarem qualquer discussão séria, ele percebia que Rabastan não era o seu Rabastan ali. Era alguém tão diferente, tão mundano que sentia quase que repúdio ao observá-lo. E então sentia culpa. E sentia dor. Porque seu irmão estava sendo atraído por uma ilusão. Um truque de 'mágica' trouxa, um reflexo falso de um espelho quebrado, porque ele percebia que Shadow, na verdade, não existia, mesmo que ele fosse alguma parte dominante da personalidade de Potter. Porque a pessoa que Rabastan estava sendo naquele exato instante era o complemento perfeito para Shadow e, por isso, uma ilusão tanto quanto ele.
Pobre Rabastan que tentava se livrar da ilusão criada por Rodolphus, e encontrava uma ainda maior em seu caminho.
E Rodolphus concluiu que queria que Potter se curasse dessa doença, porque não queria que o irmão se decepcionasse com Shadow da mesma maneira como havia se decepcionado com ele.
E salvaria Rabastan dessa casa de espelhos porque sempre o amaria.
E apenas esperava que já não fosse tarde demais.
R E V I E W !
Revisado em 25/09/2011
