Título: A Soma de Todos os Medos
Capa: NOVA! http : / / i161 . photobucket . com / albums / t233 / DarkAngelSly / nsom (underline) capa . jpg (tirem os espaços)
Sinopse: Quando o inferno é a sua alma, seu inimigo é a sua salvação.
Ship: Harry Potter/Draco Malfoy
Orientação: Slash
Classificação: M
Gênero: Angst/Horror/Romance/Drama
Spoilers: 7 – mas SEM o Epílogo.
Formato: Longfic
Status: Incompleta
Idioma: Português
Disclaimer: nada me pertence e eu não ganho dinheiro com isso.
Este capítulo é da JU!!
Porque tu tem um capítulo teu agora, não há mais razões para ficar brava.
XD
Beijos, mon fleur!
E da TWIN!! Por escrever uma das fics mais fodásticas ever e eu ser VIP e estar lendo antes de ir pro ar. HOHOHO, morram de inveja.
(mrgreen)
Para o pessoal que leu e deixou review logada, gente, MUITO OBRIGADA!
Para os deslogados:
...Makie...: Eu DETESTO a Mione desta fic. Assim, muito. Eu não queria detestar ela, mas detesto. O.õ E eu tbm sou Sly to the core. XD Valeu pela review!
Dark Wolf 03: Sim, a Mione merece ser escalpelada, não só um puxão de cabelo, mas enfim (roll eyes) Obrigada pela review, viu? Bjs!
Leo-Shaka: LU-FAY! E não sobe pra cabeça não. Pode deixar. Espero mesmo que tu continue gostando da fic. Bjs!
Vcs que fazem esta fic o que ela é e eu nunca vou agradecer o suficiente.
E todo meu amour para o pessoal do 6V, que postam lá no tópico da fic. Amoooooo vcs. XD
Para quem tem o fanmix, eu recomendaria Farewell e Until It Sleeps. (Para quem não tem, o link para os dois zips, com todas as músicas da fic estão disponíveis no meu profile \o)
Só para deixar bem claro! EU NÃO SOU PSIQUIATRA, então não me venham com os 'mas segundo diz Freud' ali embaixo, porque eu não faço idéia de que uma consulta consistiria, ok?
x)
E agora, vamos ao capítulo.
Not what it seems
Shadow entrou no quarto em silêncio, aparentemente calmo, mas por dentro ele estava gritando.
Não conseguia – não tinha como – não sabia como agir naquela situação.
Sabia lidar com emoções imediatas, sabia sentir raiva e sabia sentir ódio, e sabia ser frio e controlar as ações à sua volta e sabia liderar, mas não sabia administrar o que sentira quando Rabastan o beijara, e também não sabia como agir, agora que se achava sozinho no quarto com Draco, porque o outro rapaz lhe passava uma sensação absoluta de conforto e paz e ele não sabia lidar com aquilo tudo.
Eram sentimentos demais, e Shadow era um homem prático. Praticidade não garante a habilidade de administrar a convivência e a carga emocional que lidar com pessoas traz. Ele mantinha pessoas à distância, ele só precisava de uma única pessoa próxima para poder manter a sanidade e o equilíbrio, e fora exatamente quem o aconselhara a buscar alguém quem havia desfeito seu equilíbrio perfeito e o colocado no estado frenético em que se encontrava agora – Rabastan havia estragado tudo, o balanço exato de sentir e não-sentir, a proximidade afastada e a confiança velada e a leitura dos sentimentos à distância: o que ele tinha com Draco.
Seu escudo, sua ponte com Harry, a proximidade necessária para garantir a sanidade e a distância exata para garantir a sua paz de espírito e segurança.
Tudo, tudo jogado fora porque Rabastan Lestrange decidira agir como uma criança.
E conseguiu encontrar um certo equilíbrio naquele momento, fixando-se apenas no ódio, porque odiar era fácil e indolor, e não exigia proximidade. Apenas sentir.
E tudo ficou confuso novamente quando, um segundo depois, Draco o olhava preocupado, e Shadow conseguia ler preocupação verdadeira no cinza e não soube o que fazer.
E se sentiu cansado e não sabia como agir.
E ele não sabia lidar com aquilo tudo.
E fechou os olhos, enquanto Draco transfigurava suas roupas em um pijama, e deixou-se cair sobre a cama.
E então, já não soube mais.
X.X
"Eu não entendo você."
E aquela frase doeu.
Doeu como ler a rejeição e uma certa dose de ódio nos olhos de Shadow jamais doeriam. Porque Rodolphus sempre o entendia, independente do que ele não dissesse.
Levantou o olhar e encarou o irmão, pela primeira vez desde que conseguia se lembrar, sem saber como agir. Não sabia o que falar. Ele nunca precisara falar para se fazer entender, Rodolphus era seu irmão, e mesmo que se sentisse sufocado, nunca imaginara que chegaria o dia em que Rodolphus não o compreenderia.
Não fazia sentido, porque se não o compreendesse, já não era Rodolphus.
E então percebeu que ele já não era Rabastan.
E doeu.
"O que quer dizer com isso?", indagou, a voz um tanto mais fria do que queria, com mais agressividade do que pretendia.
"Apenas isso, não o entendo, Rabastan. Não o conheço mais.", Rodolphus inclinou a cabeça para o lado, num gesto infantil, como se analisasse Rabastan por todos os ângulos, tentando desvendá-lo, compreender a imagem do espelho quebrado, "Ou talvez nunca o tenha conhecido, Rabastan?"
Sentiu dor na voz do irmão, exatamente como na sua. E sentiu a antiga afinidade ali, latente, querendo ressurgir.
E então lembrou que com Rodolphus sempre era o segundo. Nunca era o primeiro, nunca era ele.
Mas, com todos os infernos, quem era ele?
"Você é meu irmão, Rodolphus. Se você não me conhecer, quem me conhece?", sua voz estava quebrada, demonstrando a fraqueza que, repentinamente, sentia. E não se importou, porque, naquele exato instante, se permitiria ser fraco, mesmo que se arrependesse na manhã seguinte.
E Rodolphus sorriu. Seu sorriso enigmático, muito mais do que o dele, porque ele tinha anos sorrindo daquela maneira e ver seu sorriso espelhado no irmão era como ver a imagem distorcida de si mesmo. E o pior: não compreendê-la.
"Talvez seja esta a questão, Rabastan. Talvez seja você que tenha de saber quem você é. E aí, então, eu vou poder conhecê-lo mais uma vez."
A voz de Rodolphus era suave, mas tinha um tom de aço por trás de sua superfície doce. Pequenos pedaços de espelhos quebrados ainda na pele, fazendo arder o corte indefinidamente.
"Talvez.", ele respondeu e Rodolphus lhe deu as costas e saiu.
Ele tinha, finalmente, a liberdade que tanto desejava.
Só não sabia se ainda a queria se o preço fosse perder Rodolphus.
x.x
So tear me open, pour me out
These things inside they scream and shout
And the pain still hates me
So hold me until it sleeps
x.x
Ouviu o som de alguém caindo sobre a cama e virou-se no momento exato.
A tempo de ver, como numa coreografia, os olhos frios de Shadow tornarem-se páginas em branco, sem expressão, sem vida, sem calor ou frio.
E sentiu pavor.
De ver o nada estampado no rosto de alguém que sempre tivera tanta vida.
E em seguida, foi como se um véu fosse levantado. Como se cada uma das emoções que Shadow não tinha chegasse à superfície daquele rosto, vindas diretamente da sua alma, expressadas pelos olhos que brilhavam primeiro em confusão e então apreensão e medo, e, por último, alívio, no exato instante em que o verde achou o cinza.
E Draco sentiu orgulho e alegria, porque o alívio vinha dele e Harry estava de volta.
E não precisava que Harry falasse, ou se movesse, nem mesmo que tentasse se expressar, não havia como tomar um pelo outro.
Harry sentia. E era apenas olhar e ver.
"Draco?"
E Draco admirou, durante alguns segundos, a habilidade incrível que Harry tinha de colocar tantos sentimentos e perguntas em uma só palavra: seu nome.
Sorriu, de leve, desconcertado, porque agora já não sabia como agir. Via-se, de repente, no quarto de um rapaz da sua idade, apenas de pijamas transfigurados, sendo que tal rapaz tinha sérios problemas psicológicos e havia, há poucos minutos, passado por alguma situação ainda desconhecida, mas tensa o suficiente para provocar uma alteração na sua personalidade – literalmente.
E decidiu que estava cansado, e era tarde, e precisava dormir. Fazia dias que não conseguia fechar os olhos e dormir tranqüilo. E dias que não dormia em casa. E percebeu que a fonte de tudo era ninguém mais, ninguém menos do que Harry Potter.
Oh, ironia.
"Como está, Harry?"
Harry o encarou incerto.
"Aqui...?", respondeu, a voz ainda insegura, "O que aconteceu, Draco? Quanto tempo eu... Eu estive fora?"
Draco suspirou, e sentou-se ao lado de Harry na cama.
"Algum tempo.", respondeu vagamente, "Shadow pediu que eu dormisse aqui com ele hoje. Não me disse o que aconteceu, e então... você apareceu."
Harry o encarou em silêncio, uma pequena ruga de preocupação em sua testa.
"Quando isso acontece... Ele some... Eu apareço... Você fica desapontado, Draco?"
Draco o encarou, incrédulo.
"Não.", respondeu com simplicidade, sem querer dizer que, se alguma coisa, era o contrário.
Harry ficou em silêncio, mais uma vez.
"Eu sei que foi ele quem pediu, mas... Você pode ficar? Mesmo comigo?"
E Draco apenas concordou, deitando na cama em silêncio, mantendo a distância de Harry, dormindo quase imediatamente, pois estava exausto.
E não viu Harry lhe encarando por boa parte da noite, tendo medo de fechar os olhos e não estar mais ali quando os reabrisse.
E queria, mas do que tudo, uma maneira de ser um só, pois aí saberia que Draco estava ali por ele.
E se surpreendeu ao perceber que aquilo faria toda a diferença do mundo.
x.x
Where do I take this pain of mine?
I run but it stays right by my side
x.x
A idéia apareceu em sua cabeça ainda durante o sono, só isso explicaria o fato de Draco ter acordado simplesmente sabendo que levaria Harry ao tal psiquiatra que Granger havia falado.
Convencer o garoto foi uma tarefa fácil, embora delicada. Harry não queria ir, tanto quanto Shadow não queria, mas ao saber que isso poderia ajudá-lo a ser um só mais uma vez concordou, um brilho esperançoso no olhar.
Agradecendo aos céus por ter o endereço do tal médico, aparatou com Harry até um beco próximo ao consultório e apareceu sem hora marcada, apenas avisando a secretária que dissesse ao médico que era Draco Malfoy, que viera procurá-lo com Granger.
Após preencher uma longa fila de papéis, muitas fichas, muitas perguntas que Draco não conseguiu compreender, foram conduzidos ao médico.
O consultório era simples e austero, poltronas de couro de um marrom escuro e uma mesa de mogno, alguns quadros abstratos nas paredes e um médico que se encaixava à perfeição no ambiente.
Draco começava a se sentir como um pai que leva o filho ao médico. Estava, com toda a certeza, mais nervoso do que Harry, naquela hora, mas não queria demonstrar. Harry precisava de segurança e estabilidade, não de outra pessoa desequilibrada emocionalmente ao seu lado.
O homem sentado atrás da escrivaninha, usando um suéter claro que o fazia parecia com qualquer outro trouxa que Draco já havia visto na vida. Talvez um pouco mais formal, mas mais descontraído que os medibruxos com os quais estava acostumado, os óculos acentuando o ar inteligente do rosto, um tubo de algum material trouxa com o qual ele escrevia equilibrado entre os dedos, girando-o, como quem analisa – o que era exatamente o que ele estava fazendo, pensou Draco.
Ele começou com perguntas genéricas, muito sobre Harry e sua vida escolar, seus hábitos, seus medos. E Harry conseguia explicar tudo com clareza, com muita calma, normalmente. E Draco quase conseguia sentir a sua confiança crescendo. Se Harry conseguia falar sobre sua vida com tanta calma, era porque não deveria ser assim tão difícil deixá-lo ali, era?
O médico havia vencido sua primeira objeção quanto a Draco estar na consulta junto com Harry. Pareceu notar que o garoto se acalmava com a presença dele e isso acalmava Draco também.
E Draco quase se sentiu calmo até o médico fazer a pergunta crucial.
"E como você concluiu que o que você tem, Harry, é distúrbio de personalidade múltipla?"
Harry ficou em um silêncio tenso durante alguns minutos, sua mão procurando a de Draco num gesto recorrente e involuntário, antes de dar de ombros e encarar Draco, como que buscando aprovação, antes de falar.
"Shadow. Ele... ele deixou um diário. Quando... quando tudo acabou, eu já não lembrava mais. De nada. E eu acordei na casa que eu herdei do meu padrinho, sozinho, e Draco estava lá, e os Lestrange. E aquele caderno dizendo tantas coisas absurdas, mas, de certa forma, eu sabia que era verdade, porque eu... Eu tinha medo, mas eu sei que eu poderia pensar daquela maneira. Eu apenas não acho... certo."
O médico acenou com a cabeça, com quem concorda, anotou mais alguma coisa em um papel e encarou Harry novamente.
"Eu não creio que tenha entendido, Harry, o que foi que aconteceu no seu passado. O que foi o 'tudo' que acabou?"
E Draco sentiu vontade de rir.
Porque aquele homem ali, na sua frente, a uma mesa de distância, teria sido um dos primeiros a morrer, se Harry não tivesse salvado o mundo – trouxa e bruxo – de Voldemort. E o homem nem ao menos sabia disso.
E era ridículo.
E Shadow estava certo. Não poderiam mais ser dois mundos. Mas aquela não era a questão. A questão eram os olhos cheios de dor de Harry, a mão dele apertando a sua, nervosa, os olhos baixos, a mão tremendo.
"Houve uma guerra. Uma guerra entre bruxos.", Draco respondeu, o que arrancou um sorriso agradecido e aliviado de Harry, "Nem todos os bruxos são bons, doutor, exatamente como nem todos os trouxas são. Esse bruxo era pior do que qualquer trouxa jamais foi. E o principal alvo dele era Harry. Ano passado, Harry passou cumprindo missões que possibilitaram a derrota deste bruxo, alguns meses atrás."
O médico parecia cético.
"Mas Harry tem...", ele consultou a ficha que a secretária havia feito-os preencher na recepção, antes de entrarem, "18 anos. Este bruxo certamente deveria ter inimigos mais poderosos?"
Draco viu Harry sorrir, um tanto amargamente, em resposta.
"Você acredita em profecias, doutor?"
O médico apenas negou com a cabeça, e Harry tirou a varinha do bolso do casaco, transformando a planta sobre a mesa do médico em um bloco de pedra.
"Elas existem. E Voldemort acreditava nelas."
O médico encarou sua antiga planta com um leve ar de surpresa, e pareceu satisfeito quando Harry a transformou em planta mais uma vez.
"Fale mais sobre isso, Harry. Creio que foi com o fim dessa guerra que você acredita que desenvolveu essa doença?"
Harry negou com a cabeça.
"Não. Eu não acredito em nada. A única coisa que eu sei é que eu não estou aqui por períodos enormes de tempo. Só o que eu sei é que tem pessoas na minha casa com as quais eu não me relacionaria jamais porque até três meses atrás elas queriam me ver morto. O que eu sei é que eu supostamente terminei com uma guerra, mas eu não lembro. Eu lembro de morrer, doutor, mas eu não lembro de voltar. Eu não sei se o que está causando essa... perda de memória, e esse comportamento absurdo é essa tal doença ou não, mas eu quero saber o que é!"
Harry tinha lágrimas nos olhos quando terminou de falar, e Draco sentia uma raiva e um desprezo tão grandes pelo médico que sentiu vontade de levantar do tal consultório e ir embora naquele instante.
Como pudera ser tão burro a ponto de aceitar o julgamento de Granger sobre o que seria um bom médico ou não?
"Morrer?", prosseguiu o médico calmamente, anotando mais algumas frases no seu bloco, como se nada demais tivesse acontecido.
Harry o encarou descrente, assim como Draco, antes de responder.
"É uma história tão longa, doutor, e tão confusa, que nós passaríamos os próximos meses aqui, e o senhor não entenderia metade dela. Apenas acredite na minha palavra de que eu morri, como... como se eu tivesse levado um tiro certeiro na cabeça, sem escapatória. E a próxima coisa que eu lembro é acordar em Grimmauld Place, na cama de Sirius, meus amigos sem falar comigo, Draco, com quem eu nunca havia me dado bem, na minha cozinha, tomando café com dois homens que tentaram me matar todas as vezes em que nos vimos anteriormente."
Mais uma vez o médico acenou com a cabeça.
"E sobre Shadow, Harry? Qual você acha que foi a reação dele a essas mudanças, a se ver sem você? Você consegue pensar em algum motivo pelo qual não queira mais Shadow com você?"
"Eu não sei. Eu... eu achei errado tudo o que ele quer fazer, tudo que ele já fez. Quase tudo.", ele acrescentou, com um olhar apologético para Draco, "Mas eu... Eu só queria entendê-lo. Eu não quero ficar longe dele. Sou eu, não sou?"
E Draco percebeu, graças aos anos e anos que passara treinando para identificar cada mínima mudança em seu pai, as mudanças tão sutis na sua expressão facial, que viu que as palavras de Harry haviam mudado a perspectiva do médico de alguma forma.
Mais um aceno de cabeça, e o médico sorriu de maneira tranqüilizadora para Harry.
"Esse, Harry, foi apenas um encontro primário para que eu pudesse identificar melhor o seu caso e estudá-lo. Nós vamos ter que nos encontrar com uma certa freqüência para que eu possa tratá-lo adequadamente. O ideal seria que você permanecesse internado... mas certas circunstâncias parecem impossibilitar isso."
Os dois rapazes confirmaram com um aceno de cabeça.
"Muito bem, então. Eu espero você aqui, às três horas da tarde, em dois dias. Está bem?"
Harry sorriu de leve e concordou.
"Ótimo. Agora, senhor Malfoy, se o senhor não se importa, eu gostaria de conversar com o senhor a sós, sobre o álter."
Harry sorriu e disse que esperaria na sala de espera. Draco viu o ar grave do rosto do médico e sentiu um arrepio correr sua coluna.
A porta se fechou e Draco se viu frente a frente com um médico que agora tinha uma pose mais prática, menos relaxada – mais preocupada.
"O senhor havia me dito, sr Malfoy, que Harry era a personalidade centro. Que ele era quem 'existia' antes?"
"Sim. Até o nome... Harry Potter. Shadow foi a nova 'faceta' de Potter. Por que, doutor, o que houve?"
O médico guardou silencio por mais alguns instantes.
"Se neste exato momento, sr Malfoy, com esta guerra que vocês parecem estar no centro – que eu mesmo estou vendo nos jornais – o sr tivesse que decidir quem estaria no comando, o sr diria Harry ou Shadow?"
"Shadow.", respondeu, sem hesitar, "Ele é quem lidera a guerra – ele quem a iniciou. Quem organiza e faz planos. Harry não gosta de guerras."
O médico concordou mais uma vez, como se tudo que Draco estava falando combinasse com o que ele estava pensando.
"E a reação de Shadow ao tratamento? Quando a srta Granger e o sr me procuraram e explicaram a situação, eu fiquei com impressão de que era ele quem viria?"
"Ele se negou. Nada do que nós disséssemos conseguiria persuadi-lo. Ele... o sr viu Harry agora. Vi o quanto ele fala e é aberto e sorri e... sente. Shadow não é assim. Ele não quer ser tratado. Não agora."
O médico ficou em silêncio novamente.
"Sr Malfoy, eu acredito que o seu amigo está, sim, sofrendo de DPM. Entenda que, sim, eu tinha dúvidas, essa doença é rara até mesmo entre nós, não-mágicos, e muitas vezes casos psicóticos e esquizofrênicos são confundidos com ela, mas acredito que, sim, o sr Potter tem DPM. A questão, sr Malfoy, é que o tratamento depende muito da vontade da personalidade centro de entender o álter. Saber porque ele se desligou – ou foi desligado – da sua personalidade total. Estávamos partindo do princípio de que Harry era essa personalidade...", ele fez uma pausa e Draco prendeu a respiração, sabendo que o que seguiria não poderia ser bom, "Nós estávamos errados. Shadow, ao que parece, é quem 'domina' a personalidade. É Harry, sr Malfoy, quem necessita ser 'reincorporado' ao todo. Não Shadow."
Draco ficou em silêncio estarrecido e um tanto aterrorizado durante alguns segundos.
"Mas como o sr pode ter certeza disso? O sr ainda não viu Shadow!"
O médico sorriu, de uma maneira quase triste.
"Não é realmente necessário. A personalidade de Harry tem muitas características faltantes. Ele é mais frágil, tenho certeza, ou ele não teria passado por metade do que ele afirma que passou, e eu tenho certeza de que ele não relatou nem um décimo do que realmente houve com ele. Ele é muito aberto e – o principal – ele quer se unir a Shadow. Entenda, sr Malfoy, se Harry fosse o centro, e ele quisesse se unir a Shadow, eles já seriam um. Nós precisamos convencer Shadow a começar o tratamento. Só assim será possível reintegrar o seu amigo ao normal."
x.x
I'll tear me open, make you gone
No more can you hurt anyone
And the fear still shakes me
So hold me until it sleeps
x.x
O médico não considerou prudente relatar a Harry o que ele havia concluído naquele primeiro encontro. Mais instabilidade apenas prejudicaria o estado mental já frágil do rapaz e, por isso, Draco ficou com a tarefa de saber e não poder agir, de ter medo e não poder demonstrar. De saber que quem o acompanhava era uma ilusão, e mesmo assim não conseguir deixar de se importar.
Aparatou com Harry para Grimmauld Place em um silêncio ainda atormentado.
Harry iria sumir. Shadow – a pessoa que liderava, criava e venceria guerras, mas não sabia sentir – era quem continuaria.
Harry não era uma pessoa.
Era uma ilusão.
E por Salazar, como doía perceber isso.
"Draco? Você está bem?", indagou Harry, um ar preocupado no rosto, enquanto chegavam na biblioteca da casa e acendiam a lareira.
E o loiro encarou o olhar quase inocente do moreno e sentiu dor e pena e raiva de Shadow e, principalmente, dele mesmo, por ter-se deixado levar por alguém que nem ao menos era real.
E, no segundo seguinte, não importava. Por que Harry – falso ou não, álter ou centro, pessoa ou criação, ilusão ou personalidade – estava ali. E repentinamente, Draco precisava simplesmente senti-lo e saber que ele existia e era real, e estaria ali se ele fechasse os olhos.
Com uma calma deliberada, Draco se aproximou a passos lentos de Harry, notando cada detalhe em seu rosto e na cor de seus olhos. A maneira como as linhas de expressão pareciam ser mais suaves nele, e como a postura parecia menos tensa, e menos segura de si. Como até mesmo os fios de cabelo pareciam mais rebeldes, fugindo do barbante que os segurava e fazendo pequenas mechas caírem sobre os olhos – um ar de adolescência e inocência combinados, que o fez querer trazê-lo para mais perto.
Sentir.
Puxando o garoto levemente mais baixo em um abraço, ao qual ele se rendeu facilmente, Draco inalou o cheiro confuso que Harry tinha – o cheiro do tabaco de Shadow e da loção pós-barba de Harry, inocência e malícia, uma mistura de tudo, tudo que ele queria e não teria, porque não existia.
E da inebriante sensação do cheiro nasceu a vontade de tocar seus lábios. Com os dedos finos e frios, traçando as linhas da boca de Harry, que entreabriu os lábios, surpreso, até mesmo um pouco temeroso, mas curioso tanto quanto Draco quanto ao que estava acontecendo. Olhos verdes que o encaravam sem pestanejar, e Draco desejou poder sentir com a sua própria boca as linhas que seus olhos e dedos percorriam.
E de seus dedos até tocar os lábios de Harry com os seus foi apenas uma distância mínima, porque ele precisava sentir. E Harry reagiu com surpresa, mas não o repeliu, e sentiu o outro corresponder ao beijo, quando se recuperou do susto, e o empurrou contra a parede com uma combinação precisa de delicadeza e firmeza, e correu a mão pelos seus ombros e costas, o puxando para si, soltando os cabelos confusos e entrelaçando os dedos de uma de suas mãos neles.
Muito mais necessidade de realidade que contato físico, muito mais desespero do que desejo, mas era certo e era bom, e era... ali.
E real.
E sentir as mãos do outro rapaz enredando-se em seu cabelo, mesmo que hesitantes, e os olhos brilhando de surpresa, satisfação, e uma pontada mínima de medo quando se afastaram fez seu dia mais feliz, sua agonia diminuir.
E o silêncio que os envolveu era tenso, mas, de certa forma, confortante. Porque Draco pôde analisar sem interferência a maneira como Harry estava mordendo o lábio inferior – tensão – mas também não fez movimento nenhum para sair de seu abraço um tanto possessivo – aceitação.
E foi o brilho de medo de rejeição nos olhos de Harry que fez Draco compreender, pela primeira vez desde que toda aquela história havia começado que Harry era – seria - parte de Shadow, e que ele poderia unir admiração e desejo e proteção em uma única pessoa.
E não perderia Harry, mas ganharia Shadow.
E não importava exatamente como faria, mas o ajudaria a se tornar um só.
E diante da visão insegura e enternecedora que o garoto em seus braços fazia naquele momento, e comparando-o com o Shadow que havia aprendido a compreender e admirar, ele sorriu.
E voltou a beijar Harry, rapidamente, desta vez com cautela, quase um pedido de desculpas, e o abraçou quando o beijo terminou.
E ouviu Harry rir, o encarando com um ar surpreso.
"Está tudo bem?", ele perguntou, lembrando da última vez que Harry havia rido, mesmo que esta risada fosse tão diferente da outra como água do vinho. Era leve.
"Está. Foi... inesperado. Mas está tudo bem."
Sorriu e recebeu um sorriso em resposta.
E nenhum dos dois percebeu a sombra de Rodolphus Lestrange que saía do corredor da biblioteca, mais uma vez.
E muito menos o olhar de dor que o homem tinha em seu rosto.
Oh, my.
Terminou.
Nossa, que triste.
o.o
Então, eu prometo que se vocês fizerem o numerinho de reviews ali chegar a 200, eu posto mais um capítulo até domingo.
x)
E eu JURO que o próximo começa pelo POV do Harry, nesta mesmíssima cena.
Agora, sejam LUV e
R E V I E W !
