Título: A Soma de Todos os Medos
Capa: no profile
Sinopse: Quando o inferno é a sua alma, seu inimigo é a sua salvação.
Ship: Harry Potter/Draco Malfoy
Orientação: Slash
Classificação: M
Gênero: Angst/Horror/Romance/Drama
Spoilers: 7 – mas SEM o Epílogo.
Formato: Longfic
Status: Incompleta
Idioma: Português

Disclaimer: nada me pertence e eu não ganho dinheiro com isso.


Cure For the Itch

Alton apenas encarou o rapaz à sua frente por alguns longos segundos, respirando fundo e tentando parecer muito mais calmo do que se sentia.

"O Sr Malfoy e a Srta Granger me disseram que você não está a par da consulta que Harry teve comigo, algumas semanas atrás?"

"Se por 'a par' o senhor quer dizer que algum deles me contou a respeito, não, eu não estou 'a par'. Mas, se por acaso, o senhor estiver se referindo ao simples fato de eu ter conhecimento do que acontece com uma parte de mim; sim, eu sabia perfeitamente que Harry havia vindo até aqui, ele escreveu no diário que gostaria que nós obtivéssemos ajuda."

O médico concordou com um aceno de cabeça, e olhou para os outros dois jovens no quarto. Por mais próximos emocionalmente que qualquer um deles fosse de Shadow, o rapaz não se mostrava capaz de discutir seu problema com ninguém, e parecia a Alton muito menos provável que ele fosse admitir alguma forma de fraqueza em frente a seus dois companheiros.

Como um comandante jamais admitiria um ferimento em batalha a seus soldados.

"Se não for incômodo para você, poderíamos conversar alguns momentos a sós? Sr Malfoy e Srta Granger podem esperar na cafeteria da clínica."

Shadow examinou o médico friamente por alguns segundos, e então voltou o olhar primeiro para Hermione, que acenou quase imperceptivelmente para que ele ficasse, e então para Draco que, dr Alton percebeu, examinou-o tão friamente quanto Shadow e só então voltou a olhar seu companheiro e acenou também. Sem dizerem mais nada, os dois bruxos se retiraram, e Shadow se viu a sós com seu 'médico'.

Com um sorriso sarcástico e apenas um pouco amargo, Shadow encarou novamente o médico.

"E então, doutor, o que gostaria de me dizer?"

"Eu pensei em começar descrevendo minha seção com Harry, Shadow, mas acho que antes mesmo de mergulharmos neste âmbito da questão, eu sinto que tenho que incutir no senhor a gravidade da situação em que você se encontra."

Shadow riu uma risada alta e seca, carregada de amargura, enquanto Alton apenas o observava, calmamente impassível.

"A 'gravidade' da situação? Doutor Alton, com todo o meu respeito pelos anos que o senhor vem praticando a sua profissão, eu sei muito bem da gravidade da minha situação. Eu venho sabendo da gravidade da minha situação desde os onze anos de idade, quando eu enfrentei um bruxo que adultos tinham medo de dizer até mesmo o nome, e venci. Eu penso que é o senhor quem tem de entender a gravidade da minha situação aqui. Os trouxas, doutor Alton, os homens como você e seus amigos, tem medo do desconhecido. Eu não irei dizer que nós bruxos também não somos o mesmo, mas nesse exato momento, seu ministro quer nossos nomes registrados, e só Salazar sabe o que mais ele vai querer no futuro. Não importa o quão em menor número nós estejamos, doutor Alton, nós certamente não vamos ser arrebanhados e marcados como judeus durante a sua Segunda Guerra. O único problema, doutor, é que a nossa segunda guerra acabou há menos de seis meses. Nosso Ministério mal tem coordenação suficiente para encontrar seu caminho para fora da sua própria lareira, e tem uma única pessoa que salvou o Mundo Bruxo uma vez e então outra, e que ainda continua viva: eu. E se eu demonstrar alguma fraqueza, se eu desmoronar durante uma batalha, se eu cair e não levantar, nossas esperanças de sobrevivermos como pessoas com habilidades diferentes e não como ratos de laboratório são praticamente nulas.", Shadow balançou a cabeça e levantou da cama, indo em direção ao médico, e sentando-se na cadeira diretamente em frente a ele, "Não imagine nem por um segundo, doutor, que eu não sei o que a divisão entre mim e Harry significa. Não pense que eu não tenho a noção exata do que eu fiz comigo mesmo, ou do que eu estou fazendo com os outros. Não pense tampouco que eu estou feliz com o que está acontecendo comigo ou que eu não sei os riscos que assumi quando Harry surgiu. Eu sei. Mas é o preço que eu preciso pagar para ajudar o meu povo a ser livre, de uma vez por todas. E também não pense que eu estou fazendo isso apenas por nós. Vocês não sabem do que nós somos capazes. Um bruxo sozinho, com treino e poder suficiente, pode muito bem subjugar um batalhão. E é por isso que eu não posso me curar. Não agora. Não sem uma solução para essa guerra. Porque eu sou tudo que eles têm, e eu não vou fugir das minhas responsabilidades."

Alton manteve-se em silêncio alguns instantes.

"Você parece estar em uma posição realmente muito difícil. Mas você não vai conseguir ajudar ninguém se não estiver bem o suficiente, Shadow. A crise de hoje poderia ter resultado em uma outra personalidade. Você já considerou a possibilidade desta outra personalidade se formar sem seu conhecimento, ou o conhecimento de Harry? Se essa outra personalidade se mostrar avessa aos seus ideais? Se ela decidir agir contra você e o que você acredita?"

Shadow permaneceu em silêncio, seus olhos gelados encarando o piso branco do hospital.

"Uma seção por semana. Não vai ser o suficiente para curá-lo, com certeza, mas vai, pelo menos, manter o nível de stress sob controle."

O silêncio se prolongou por mais alguns minutos, e então verde encontrou marrom escuro.

"E quando no campo de batalha nossos povos forem um contra o outro, doutor? O que o senhor vai fazer quando o seu ministro pedir a minha cabeça para o senhor?"

Alton sorriu de leve.

"Eles só poderão pedir pelo que souberem que acontece. Discrição sempre foi um dos maiores atrativos dessa clínica."

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Grimmauld Place era estranhamente aconchegante a Shadow, de uma maneira que fazia com que ele repensasse sua noção de normal, quando um lugar com maçanetas no formato de cobras e cabeças de elfos-domésticos penduradas nas paredes lhe davam um certo conforto.

Devia ser passado da meia noite, mas ele não estava particularmente preocupado com horários. Todos os encontros do dia seguinte haviam sido adiados, em expectativa pelo anúncio da exigência do registro. Kingsley, aparentemente, mandara avisos e notificações a todos os bruxos do país, instruindo-os a não se registrarem ou atenderem a nenhum trouxa até terem a idéia exata do que estava acontecendo. Havia um certo senso de alerta em cada um dos membros da Nova Ordem àquela noite, que só fazia a Shadow lembrar dos dias de Guerra e dos encontros da Ordem da Fênix que ele tentava entreouvir, quando parte dele ainda era uma criança, um adolescente sem a real noção do que 'guerra' queria dizer, mesmo que só conseguisse perceber isso agora.

A cozinha estava escura quando Shadow parou no batente da porta, mas um único ponto de luz, subindo e descendo lentamente a intervalos espaçados e regulares anunciava a presença de um fumante a mais na casa. Com um gesto da varinha algumas velas se acenderam, não o bastante para realmente iluminar o lugar, mas apenas para que não fosse plena escuridão.

"Eu não sabia que estava morando em Grimmauld Place, Rabastan.", a voz não tinha censura ou repreensão, nem tampouco pena ou compaixão, era apenas uma voz, assim como o olhar de Shadow era apenas um olhar, sem significados ocultos por trás, sem entrelinhas para serem lidas.

Ele estava, simplesmente, cansado.

E pelo olhar vago e o suspiro que recebeu em troca, também o estava Rabastan.

"Morando... não. Mas pensei que passar a noite na sua cozinha não fosse incomodá-lo."

Shadow deu de ombros, enquanto sentava na ponta da mesa, distante o suficiente de Rabastan para que não pudessem se tocar, mas próximo o suficiente para ver seu rosto enquanto falavam.

"Não me incomoda. Apenas imaginei que quisesse ficar com seu irmão."

Silêncio foi a única resposta que seu comentário encontrou, e Shadow já havia até mesmo se esquecido de esperar alguma palavra de volta, quando a voz de Rabastan soou, não fria, ou calculada, não tentativamente sedutora, ou com fome de saber ou poder, mas apenas curiosa, como uma criança quando se depara com um enigma que sabe que jamais compreenderá sozinha, mas tem a certeza que o adulto ao seu lado terá a resposta.

"Por quê?", vendo o olhar em branco que recebeu de Shadow, Rabastan escorou os cotovelos na mesa, aproximando seu rosto, e falando mais rápido, com ansiedade, "Por que imaginou que eu fosse querer ficar próximo de Rodolphus? Por quê?"

Shadow arqueou uma sobrancelha, escorando-se na parte de trás da cadeira, inclinando-a nas pernas de trás, como havia visto Sirius fazer tantas e tantas vezes.

"Por que não o faria?"

"Porque eu sou apenas eu. E Rodolphus é apenas Rodolphus."

"E vocês dois juntos são uma força diferente e maior e mais interessante e perigosa do que separados. Vocês são complementares.", disse Shadow, com um ar de entendimento por finalmente perceber o que afligia Rabastan. E então acrescentou, com um sorriso cínico de lado, "Vocês são quase uma única pessoa, em dois corpos. Ter um nível tão grande de compreensão é raro."

Rabastan estudou o rapaz à sua frente por longos minutos, antes de sorrir um sorriso idêntico.

"Diz o homem que tem duas pessoas em um corpo só."

"Touché.", respondeu Shadow, convocando uma garrafa de firewhisky de uma das prateleiras.

"Algum dia eu vou poder saber o que é que faz você agir assim?"

"Não.", disse Shadow, calmamente tomando sua bebida, e diminuindo ainda mais as luzes, "Porque você, Rabastan, está tão perdido, que quando finalmente se encontrar – sozinho – já não vai mais haver problema algum para você descobrir.", sua voz tinha um certo tom gelado que fez Rabastan calar-se com o insulto, sentindo que talvez tivesse ido longe demais.

Aquele era o homem que havia matado o Lorde das Trevas, no fim das contas.

Alguma parte de seu quase medo deve ter transparecido em sua expressão, porque Rabastan ouviu Shadow suspirar, e passar a mão pelo rosto, em um gesto de exaustão.

"Há certos assuntos, Rabastan, que são simplesmente pessoais. Talvez eu tenha cruzado o limite quando falei de você e Rodolphus, e se isso foi o que aconteceu, eu sinto muito. Mas o que acontece comigo, diz respeito unicamente a mim. E só passará a dizer respeito a vocês se por acaso o que está acontecendo ou não comigo interferir no curso da guerra. Não há espaço aqui para momentos de fraqueza, ou crises internas, Rabastan. Existe uma hora certa para tudo, mas dividir uma força como a de vocês dois agora é, na mais simples das análises, tolo. Mas eu não sou você ou Rodolphus. E eu também não sei o que motivou essa... divergência. A única coisa que eu peço é que ela não interfira nos nossos planos, exatamente como meus problemas pessoais não irão interferir."

Rabastan conseguia reconhecer a lógica fria do pensamento de Shadow, e por mais que lhe doesse admitir, ele sabia – sempre soubera – que estava agindo de maneira infantil. Seu maior problema era que jamais tivera momento algum para agir daquela forma antes. Ele poderia tentar não interferir com a guerra, ou o que quer que fosse. Mas não podia simplesmente ignorar o que estava acontecendo.

Ele precisava de soluções, mas via agora que teria que procurá-las em silêncio.

Como Rodolphus fazia.

Sentindo a necessidade de mudar a direção do assunto, Rabastan acendeu um outro cigarro, já que seu antigo havia se consumido em cinzas alguns segundos antes.

"E seu guarda-costas fiel?"

"Eu não tenho guarda-costas.", replicou Shadow com um quase-sorriso, "Mas Draco está dormindo. Ele precisa."

"Você não?"

"Não hoje."

"E Granger? Rodolphus comentou mais cedo que ela parecia estar se consumindo de preocupação quando você saiu com Malfoy."

"Hermione está trabalhando em outras frontes esta noite. Não acho que ninguém que sabe do que está por vir vá conseguir dormir hoje. Ao menos não sem o auxílio de algumas poções."

"Eu imagino que o povo de Avalon tenha se sentido exatamente assim quando Arthur declarou a Bretanha um território livre de bruxaria, não é mesmo?"

Mal Rabastan havia terminado de falar, Shadow sentou-se ereto na cadeira, encarando o homem à sua frente, mas não realmente o vendo.

"Avalon?", ele indagou, mas não realmente esperando uma resposta, as palavras de Draco mais cedo naquele dia voltando à sua mente, 'Arthur, treinado por Merlin, teve ciúmes de sua irmã, porque ela era uma bruxa e ele não tinha um único pingo de sangue mágico nele mesmo. Ele foi a causa da separação de Avalon do nosso mundo, o que é um simbolismo da divisão entre trouxas e bruxos. A partir da caça que ele fez às bruxas e bruxos em geral foi que um Congresso Bruxo se formou, instituindo nossa forma de governo até hoje. Ciúme e ignorância. Foi dali que surgiu nosso governo.'

"Avalon.", repetiu, levantando-se e correndo escadaria acima, em direção ao quarto onde Draco dormia.

Ele tinha, finalmente, uma resposta.


Hehe. Quanto a questões políticas para as quais Juzinha-Holy me chamou a atenção: eu estou aqui supondo que a primeira forma de governo bruxo tenha sido um congresso. Como saiu de congresso e virou Ministro + Winzengamot vai aparecer em capítulos por vir.

Aaaaai, como é boooom estar de voooolta!!!!!!! Muito obrigada pelas reviews, pessoal! Continuem assim!

Beijos!

(Em momento marketing: minha outra fic, Silent Lucidity – que está completa, e sendo postadas todas às quintas-feiras – será att amanhã, dêem uma conferida!)

Sejam amores e

R E V I E W !