Until It Sleeps – Part II

A mensagem não era uma que Shadow esperava, mas ele não permitiu que o choque o impedisse de agir. Chamou por Kreacher e ordenou-lhe que chamasse os Malfoys, avisando que deveriam estar em Grimmauld Place o mais rápido possível – e que esse mais rápido não poderia, de maneira alguma, ultrapassar vinte minutos. Em seguida, mandou uma mensagem por patrono para Bill Weasley, pedindo que ele contatasse todos os membros da Nova Ordem que haviam pertencido à Ordem da Fênix previamente, esperando que o mais velho do clã tivesse a presença de espírito de não envolver a menina ou seus pais, eles certamente não podiam contar com a distração que pessoas fracas em batalha causariam. Por fim, assim que Kreacher reapareceu com um estalo na sala de estar, Shadow mandou que fosse até os Lestrange, e que mandasse os irmãos contatarem todos aqueles que seriam úteis em uma batalha.

Correndo até seu quarto, Shadow retirou de seu armário a sua Capa da Invisibilidade e o Mapa do Maroto. O ataque estava acontecendo em Hogsmeade, mas Hogwarts poderia se tornar um alvo fácil. A vila havia, no fim das contas, sido um dos lugares mais protegidos de toda a Bretanha, com a escola tão próxima, e sendo o único vilarejo inteiramente mágico de todo o país. Ele sabia que não tinha tempo para tentar entender exatamente havia acontecido para que trouxas pudessem ter acesso a um dos lugares mais mágicos do mundo – ver tal lugar já deveria ter sido um feito impossível, mas atacá-lo?

Como isso havia acontecido?

Antes que pudesse realmente ponderar sobre a situação, ouviu o Floo sendo ativado, e desceu as escadas apressado, vendo Hermione na base da escadaria, olhando para ele com medo, determinação e assombro estampado em seu rosto.

"Hogsmeade está sendo atacada.", ela disse, enquanto seguia os passos apressados de Shadow até a biblioteca, onde ele começara a afastar a mobília, para dar espaço aos bruxos e bruxas que chegariam a qualquer instante.

"Eu sei disso. O importante aqui é saber como você sabe.", ele disse em voz baixa, olhando rapidamente para a bruxa que havia entendido sua intenção, e começava a ajudá-lo a afastar prateleiras, poltronas e mesas para os cantos do recinto.

"Daniel enviou uma mensagem antes de ir para lá. O editor-chefe dele apareceu no meio da noite lhe avisando que a cidade estava sob ataque. Aparentemente ele só teve tempo de nos enviar as mensagens e ir até lá... Furo de reportagem.", ela complementou, parecendo decididamente desgostosa com o fato de que o bruxo jornalista não fosse estar lá para defender o lugar, mas simplesmente contar o que teria visto.

"A missão de Daniel dentro da Nova Ordem é exatamente coletar informações, Hermione. Se não fosse por ele, nós não saberíamos do ataque."

Hermione não pôde responder, pois naquele momento o Floo havia sido ativado, mostrando os irmãos Lestrange, e mais um punhado de bruxos de aliança duvidosa durante a última guerra. Suas vestes imaculadamente negras eram uma lembrança arrepiante do fato de que boa parte deles poderia muito bem ter sido parte do esquadrão de Lord Voldemort, mas Shadow não tinha tempo para pensar em escrúpulos agora.

Acenando com a cabeça para Rodolphus e Rabastan, ambos tensos, mas aparentemente concentrados, Shadow indicou com um gesto que os demais deveriam se acomodar ao redor da sala, enquanto os irmãos Lestrange e Hermione ficavam à sua volta.

Os próximos a chegar foram os Malfoy, com mais alguns conhecidos – estes muito mais discretos quanto às suas passadas alianças, mas ainda assim em vestes escuras e rostos sombrios. Enquanto Lucius assumira a linha de frente dos convidados, Draco foi com a cabeça erguida até a direita de Shadow, e recebeu um olhar de agradecimento pelo seu ato, mas nenhuma palavra.

Por fim, Bill Weasley apareceu com Percy, Charlie e os gêmeos ao seu lado, um Ronald vermelho e zangado atrás dele, seguidos de mais alguns bruxos que haviam sido efetivamente neutros ou rebeldes durante o reinado de terror de Voldemort. Em seus olhos estava mais do que claro o desdém que sentiam pelos demais presentes, mas um único olhar para O Eleito fez com que se calassem.

No total, havia cerca de oitenta pessoas na sala – não exatamente um exército, mas contando que eram bruxos treinados, prisioneiros e soldados de guerra recente, eles sabiam que poderiam fazer a diferença.

Shadow deu um passo à frente, correndo o olhar por todos os presentes, antes de respirar fundo, sua voz calma, fria, controlada e exatamente por isso centenas de vezes mais perigosa do que se estivesse gritando.

"Hogsmeade está sob ataque.", ele começou, vendo rostos espantados aqui e ali, daqueles que decidiram seguir quem quer que os tivesse chamado sem se importar com a razão, sabendo que no momento certo eles receberiam as explicações necessárias, "Eu os chamei aqui porque nossos irmãos bruxos precisam de nossa ajuda. Trouxas invadiram o vilarejo, ainda que não saibamos como isso foi possível, e provavelmente apenas descobriremos o que realmente aconteceu depois que a batalha estiver terminada. Porque haverá uma batalha.", ele disse a última frase em nada mais que um sibilado baixo e tenso, caminhando em frente dos homens e mulheres que o cercavam, tomando seu tempo e encarando-os um a um, "Se você acredita que veio até aqui apenas para discutir alguma ação futura, você está enganado. A ação é agora. A batalha começa . Se você acha que não pode aguentar, que não pode lutar com os demais que estão nessa sala como um único time, então você deve simplesmente sair pela porta da frente, voltar para casa, e ler sobre a derrota dos trouxas amanhã pela manhã no jornal. Não há espaço aqui para brigas internas. Nós partiremos em três minutos para Hogsmeade, por aparatação, que é o que vai desconcertar mais os trouxas. A sua formação deve ser divida em três esquadrões, os antigos membros da Ordem da Fênix na retaguarda, Comensais da Morte na frente. Se você não tem experiência em batalha, e mesmo assim desejar se juntar a nós, fique no meio, entre os dois esquadrões. Ataquem qualquer um que não tiver uma varinha. Evitem mortes, se for possível, mas não arrisquem as suas vidas, ou as vidas dos seus companheiros, por escrúpulos quanto a ferir alguém que o mataria sem piedade, se pudesse. Lucius Malfoy liderará o Esquadrão Um, Blaise Zabini está encarregado do Esquadrão Dois, Bill Weasley liderará o Esquadrão Três. Dirijam-se para o jardim dos fundos, assumam suas posições, nós partimos em dois minutos. Draco, Rodolphus, Rabastan e Hermione, por favor, aguardem aqui por mais um momento."

Nenhum dos presentes sequer cogitou a possibilidade de não ir até Hogsmeade, e a dimensão do ataque parecia tão grande, que nenhum dos neutros, ou antigos guerreiros da Luz, sequer tentaram negar que os Comensais deveriam ir à frente.

Para surpresa dos Lestrange, mas nem tanta de Draco, Shadow ou Hermione, Ron ficou para trás, encarando seus antigos dois melhores amigos com um misto de raiva e medo.

"Eu não tenho tempo para discussões infantis agora, Ronald. Ou você vai para o ataque, ou você volta para casa. É a sua decisão. Você queria ficar fora da guerra, essa a sua melhor chance.", Shadow disse rapidamente, voltando-se em seguida para Hermione, "Você fica."

"O quê?", a bruxa exclamou indignada, "Você não pode fazer isso, Shadow, eu posso ajudar!"

"Hermione, vai haver muita pesquisa e muito trabalho para você assim que essa batalha terminar, eu não posso deixar que você se arrisque assim. Você não nasceu para batalhas, você não sabe atacar – somente defender.", Shadow argumentou em voz baixa, tentando fazer o impulso de sentir preocupação sumir. Se se preocupasse com Hermione como sua amiga, Harry apareceria em questão de segundos, e esse era o momento em que ele não podia deixar que isso acontecesse.

Com os olhos estreitos, Hermione apenas assentiu uma vez, seus olhos fixos em Ron.

Shadow, Draco e os Lestrange se apressaram até os jardins, não notando Hermione e Ron logo atrás deles.

Shadow assumiu a dianteira dos três grupos separados, instruindo para que todos puxassem os capuzes para cobrir seus rostos, e que deixassem suas roupas negras, erguendo a varinha para dar o sinal. Hermione puxou um Ron levemente indignado pela mão, até estarem escondidos entre o grupo do meio.

"Hermione, Harry disse para você ficar.", Ronald cochichou, e Hermione deu de ombros.

"E quando foi que eu ouvi Harry quando ele pediu para que eu o deixasse sozinho em uma batalha?"

Não querendo discutir com a sua ex-namorada em um momento de crise, Ron apenas suspirou, puxando o capuz de sua capa sobre os cabelos, Hermione o copiando em seguida, assim como os demais bruxos do jardim.

Shadow lançou faíscas cor de prata para o céu, e com um estalido maciço e extremamente alto, eles aparataram para Hogsmeade.

Começava a primeira batalha da I Grande Guerra entre Bruxos e Trouxas.

-x-

A massa negra composta de mais de oitenta bruxos e bruxas que aparatou como um só homem à beira de Hogsmeade causou espanto nos soldados que carregavam artilharia pesada. O sobressalto veio do barulho, da sua formação concisa, da maneira como pareciam se mover como se fossem uma só pessoa, dos capuzes negros e os olhos brilhantes e espantosamente verdes que eram só o que se podia distinguir da figura à frente dos demais.

Hogsmeade havia sido uma zona quase neutra durante a guerra. Talvez não um equivalente da Suíça, mas um... gueto, controlado e vigiado, mas jamais atacado. Moradores que discordassem de Voldemort eram tirados dali para nunca mais voltar, mas ações violentas jamais haviam acontecido na pequenina vila.

Até aquela noite.

Eles haviam chegado com a força de rojões, com sons e explosões saindo de canos frios e de metal escuro. Suas roupas verde-escuro, suas calças cheias de bolsos, com pequenas formas ovais escuras presas em volta da cintura, a maneira como se moviam em conjunto, não era nada como nenhum dos moradores jamais havia visto.

Aberforth fora um dos primeiros a vê-los, e fora ele quem arrebanhara os menores de idade, e mandara-os para Hogwarts pela passagem secreta no andar de cima de seu bar. Antes que ele pudesse tomar qualquer outra providência, os gritos começaram.

Sons altos de um homem que ficava atrás na batalha, jamais assumindo a dianteira, gritando que eles não queriam matar ninguém, ferir ninguém, mas que eles precisavam de voluntários para experimentos.

Aberforth não precisava ser um gênio como seu falecido irmão para saber que esses trouxas, esses malditos trouxas, iriam pegar bruxos e bruxas inocentes e transformá-los em cobaias, em projetos, em experiências que permitiriam que eles conhecessem melhor o inimigo mágico.

Hogsmeade jamais havia sido uma zona de guerra. Ninguém ali sabia realmente como lutar. Então eles defenderam o que puderam, mas os ataques dos trouxas eram desconhecidos. Eram metais saindo de outros metais, e explosões saindo das esferas negras, e ninguém entendia como suas armas funcionavam.

Os feitiços atingiam os soldados, mas ninguém ali queria matar ou ferir realmente – Hogsmeade nunca havia sido uma zona de guerra.

Jornalistas dos dois mundos haviam se posicionado à beira da cidade, nenhum deles ousando entrar no lugar propriamente dito, a rua principal da vila, onde Aberforth e mais alguns homens e mulheres mais jovens defendiam alguns dos prédios principais, sem saberem muito bem como atacar, sem saberem até que ponto seus escudos iriam defendê-los das peças de metal que saíam dos canos – sem saber qual tipo de dano aquilo causaria, sem saber se sua mágica era capaz de conter o ódio que havia em cada um daqueles homens.

A batalha estava acontecendo há pouco mais de vinte minutos quando, como um, formas negras surgiram nos contornos da vila. Eles avançavam sem medo, aproveitando-se da distração momentânea dos soldados.

Era como algum tempo antes, e Comensais da Morte estavam em todos os cantos, em esquadrões enormes e perigosos, prontos para exterminar quem quer que ousasse falar contra seu Lord.

Mas agora eles vinham em seu auxílio, com os feitiços de desarmamento que faziam os canos de metal saírem das mãos dos soldados, e as azarações que fizeram os cento e cinquenta trouxas que atacaram a vila repensar suas táticas.

Como uma formação concisa eles avançaram, até chegarem ao centro da batalha, dividindo-se então em três colunas, os primeiros atacando sem medo, os de trás com feitiços defensivos, e os do centro espalhando-se entre os habitantes de Hogsmeade, arrebanhando-os para dentro de suas casas, protegendo os civis dentro de uma nova guerra, muito maior e mais perigosa do que a última.

No entanto, escudos não param tiros, e feitiços não contém granadas. Assim que pareceram realizar este fato, os trouxas começaram seu ataque com força redobrada, esquivando-se de qualquer jato de luz que viesse em sua direção, atirando sem parar com suas metralhadoras, atacando sem pensar que por detrás dos capuzes negros havia pessoas exatamente como eles – com famílias, filhos e dor e lágrimas e morte e sofrimento em seu passado.

Os gritos do comandante trouxa eram para que recolhessem o maior número de bruxos possível, e então corressem para seu meio de transporte – pequenos caminhões de guerra, com cobertura camuflada, esperando exatamente do lado dos trilhos do Expresso de Hogwarts.

Shadow tentava controlar o desespero que sentia – eles não estavam preparados. Sua maior arma havia sido a surpresa momentânea dos trouxas com sua aparição, mas depois daquilo tudo indicava um massacre. Seus escudos não funcionavam contra balas, embora seus feitiços dificilmente errassem o alvo. Ele se perdeu durante a batalha, aproximando-se dos trouxas com uma aparatação após a outra, tendo que se esquivar e desaparecer a cada poucos segundos para escapar dos tiros e das granadas. Só tinha consciência de Draco o seguindo a cada passo, os gritos dos irmãos Lestrange como instruções para a população local, os comandos de Bill Weasley que tentava melhorar sua defesa dos bruxos por tentativa e erro.

Os trouxas recuavam agora, duas mulheres bruxas e um homem que sangrava profusamente sendo carregados com eles, e Shadow trocou um olhar rápido com Rabastan, que finalmente fez o que todos esperavam e temiam que algum dos bruxos fizesse. Com três jatos de luz verde brilhante, os soldados carregando os bruxos caíram ao chão, causando pânico em bruxos e trouxas da mesma forma. Os tiros sendo encobertos pela primeira vez na noite pelos gritos desesperados, os passos apressados, o som dos primeiros caminhões partindo, e então o mais desesperado dos sons, na voz de Ronald Weasley, a apenas alguns metros de onde Shadow estava.

"HERMIONE!"

-x-

Ela realmente não havia sido feita para a batalha. Reconhecia isso agora que realmente tinha que lutar contra pessoas que eram... diferentes. Em Hogwarts, era um feitiço por um feitiço. Era uma igualdade por mais que os inimigos tivessem anos e anos de experiência, enquanto ela era uma adolescente no centro de uma guerra, arrastada até ali pela sua lealdade para com seu melhor amigo.

Mas ali, com trouxas, com as pessoas que ela havia conhecido durante toda a sua vida, ela nunca havia se sentido mais deslocada, mais temerosa. No entanto, tentou fazer o que havia ido até lá para fazer: defender seu novo povo, sua nova vida, sua nova cultura. Impedir que os trouxas pegassem os bruxos para usá-los como cobaias, para que testassem novas armas neles, para que descobrissem suas fraquezas.

Ela estava apenas defendendo em uma batalha em que só se pensava em atacar.

Os jatos de luz verde que criaram a quase histeria a tomaram de surpresa, e naquele segundo de distração, seu capuz negro caindo em seus ombros, os cabelos presos em uma trança firme, enquanto ela tentava empurrar um menino teimoso de uns dez anos de volta para a segurança de sua casa.

Os três tiros que ela custou a reconhecer pelo que eram. A sensação exata de que o tempo e o espaço estavam fora de foco, que havia alguma coisa errada. A garganta que se fechava, e, quando tossiu pela primeira vez, o sangue caindo em sua mão.

Haviam perfurado seu pulmão. Ela sabia disso, já havia lido sobre os sintomas.

Seu olhar espantado erguendo e encontrando um soldado com o rosto cheio de pânico, como se não acreditasse que havia acabado de matar uma menina mais nova que sua filha.

O soldado atrás dele, que deu mais dois tiros.

Mas nenhum desses foi percebido por ela, que já havia caído no chão, sem nem mesmo notar que o garoto que tentara ajudar também havia sido atingido.

E a última coisa que ela jamais ouviu foi seu nome gritado com desespero pelo homem que, ela sabia, havia a amado por anos.


Para Kolly, com amor. (risadas mega-malignas ao fundo)

R E V I E W !