Post Mortem
Os olhos dela estavam abertos.
Isso era só o que Draco conseguia realmente captar de toda a cena à sua volta. Ele não havia esperado que algum dos bruxos morresse em batalha. Eles eram bruxos.
Eles tinham mágica.
Eles deveriam ser invencíveis.
Pelo menos em frente aos seres sem magia e sem alma que agora fugiam como se os cães do inferno estivessem em seu encalço, embarcando nos caminhões verdes, e desaparecendo entre gritos dos moradores de Hogsmeade.
Hermione ainda tinha os olhos abertos quando o som dos tiros finalmente cessou.
Shadow ainda não havia dito nenhuma palavra.
Weasley gritava como se o som de sua voz fosse desfazer o que quer que havia sido feito com Hermione, como se seus gritos fossem de alguma maneira chamar a sua alma para seu corpo danificado e embebido em sangue, como se seu desespero sozinho pudesse fazer com que Granger, Hermione, a Sangue-Ruim, a Nascida-Trouxa não estivesse... morta.
Hermione estava morta.
Os olhos verdes de Shadow estavam tão abertos quanto os dela, como se ele não ousasse piscar, não ousasse tirá-los do rosto pálido, manchado de sangue. Como se seu olhar fosse tudo que impedia que ela desaparecesse.
Ou talvez que ele desaparecesse.
Granger estava Morta.
William Weasley havia finalmente aparecido ao lado do irmão, seu olhar azul metálico também parecia não conseguir acreditar no que via. Puxando o irmão contra si, ele o afastou do corpo de Hermione enquanto Ron ainda gritava, fechando os olhos como Hermione jamais poderia fazer novamente, sua voz jurando vingança e espalhando dor. Ron escondeu o rosto no ombro do irmão, e chorou. Chorou apenas, seus gritos desaparecendo na noite, enquanto a calma mórbida que se seguia ao assassinato cruel de uma heroína de guerra envolvia o pequeno vilarejo.
E então Shadow se moveu do lugar onde havia estado desde o primeiro grito de Weasley.
Um passo depois do outro, com uma calma felina, uma graça triste e condenada, como se chegar ao fim do caminho que traçava era o que mais odiava e mais precisava ao mesmo tempo.
Os passos cessaram ao lado do corpo, e com uma leveza que não era característica ao Menino Herói, ele caiu de joelhos. Suas mãos incrivelmente estáveis correram pelas mãos da menina que havia sido seu porto seguro durante toda a vida que ele queria lembrar.
Hermione havia sido mais que sua colega e sua amiga. Hermione havia sido sua... apenas sua. Não como namorada, ou amante, ou irmã, mas dele. Ali, constante. Hermione nunca havia parado de falar com ele por vontade própria – mesmo suas brigas foram começadas por ele, e ela apenas sabia aceitar e perdoar, e apontar seus erros e corrigi-los, fazê-lo se sentir melhor quando fracassava, apoiá-lo quando necessário, rir dele quando a ocasião se apresentava.
Hermione havia sido... sua mãe, em muitas maneiras. Alguém a quem ele sabia que não incomodava, e com quem ele poderia contar. Alguém que superara os próprios medos por ele, para lutar com ele, que dizia com orgulho que era uma Sangue Ruim. Alguém que havia vencido uma guerra ao seu lado.
Que o amava, sempre e incondicionalmente. Que aceitara sua frieza, que dera às boas-vindas a Shadow, assim como admirava Harry.
Que deixara seus pais e seu mundo para trás para segui-lo.
E agora Hermione simplesmente não existia mais.
Assim como James e Lily, e Sirius, Dumbledore, Remus. Não havia mais nenhum deles.
Não havia mais Hermione.
E então ele não pôde mais estar ali, porque sem Hermione ele não conseguia mais não sentir.
"Não.", foi a palavra suspirada que saiu dos lábios de Harry, enquanto ele puxava o corpo de Hermione contra si, abraçando-a forte, como não lembrava de jamais tê-la abraçado, "Não, Mione, não, por favor.", ele sussurrou de novo, a voz entrecortada, as lágrimas tantas, que ele não conseguia respirar.
Não Hermione. Não sua Hermione. Não ela.
Com um grito desesperado e sem sentido, Harry abraçou-a com ainda mais força, embalando-a como um pai embala um filho, a cabeça da menina pendendo contra seu peito, enquanto lágrimas caíam no rosto indiferente, manchando o sangue ali presente, tornando tudo uma bizarra imitação de lágrimas de sangue no rosto que já não mais chorava. Que nunca mais iria chorar, sentir dor, ou frio, ou pena, ou amor.
Que nunca mais iria sorrir, ou gritar, ou se espantar com a magia que ela queria conhecer. A voz que nunca mais estaria exasperada com sua falta de vontade de aprender na escola, que nunca mais diria 'meninos' em seu tom irritado e divertido.
Que nunca mais diria "Harry", e nunca mais o abraçaria, mesmo quando ele não se sentia confortável com abraços.
Alguém estava gritando, e apenas metade de sua consciência lhe permitia entender que os gritos eram seus.
Braços passaram por seus ombros, e uma mão pálida e trêmula tocou o rosto de Hermione, fechando seus olhos. Olhando para o lado, trêmulo e confuso pela dor, viu Draco, e se apoiou nele, que dizia palavras vazias de conforto em seu ouvido, enquanto se deixava embalar com seu movimento contínuo.
E foi naquele momento, quando ainda não havia percebido a imensidão do que realmente acontecera, que os estalidos de aparição novamente ressoaram pela vila.
Pelo menos uma centena de aurores em vestes magenta apareciam em Hogsmeade, seus rostos prontos para a luta que já havia acontecido.
Tarde demais.
Sempre, e constante e irrefutavelmente tarde demais.
E a sua frente, liderando o grupo como se realmente houvesse mais alguma que pudesse fazer, estava Kingsley Shacklebolt, que ordenava para que levassem todos os antigos Comensais para interrogatório, que apreendessem todas as varinhas, que verificasse quem havia usado Avada Kedavra, para que ele pudesse revogar suas condicionais.
E foi naquele exato instante, no momento em que aurores se aproximavam dos Lestrange, e dos Malfoy, e dos Parkinson, que Harry sentiu talvez o único sentimento que Shadow se arrependia de não conseguir sentir.
Harry sentiu ódio.
Escaldante e gelado e quente e congelante ao mesmo tempo, correndo por suas veias, e fazendo sua magia se descontrolar. O vento parecia correr mais rápido, e suas lágrimas, que ainda continuavam caindo, pareciam ferver em seu rosto.
Com as pernas trêmulas ele se ergueu, Draco dando um passo para trás, mas mantendo-se perto, Ronald se afastando do irmão, encontrando brevemente o olhar de seu melhor amigo, e se colocando à esquerda de Harry.
"Você ousa chegar quando a batalha já está terminada e questionar nossos métodos para defender essa vila?", ele sussurrou, e ainda assim foi ouvido por todos, que simplesmente pararam o que quer que estivessem fazendo e viraram-se para O Eleito, que avançava a passos lentos e deliberados até o Ministro, "Você ousa chegar aqui quando nós impedimos que os trouxas sequestrassem três seres mágicos e os levassem embora, e tenta dar ordens?", ele continuou, sua voz se erguendo aos poucos, até que ele estivesse frente a frente com o Ministro, tendo que olhar para cima para encará-lo, "Você ousa chegar aqui quando Hermione Granger foi assassinada, e dizer que NÓS AGIMOS ERRADO?", suas últimas palavras gritadas pareceram ter pegado Kingsley de surpresa, fazendo com que ele desse um passo para trás, e olhasse em volta. Seus olhos negros por fim acharam o corpo de Hermione no chão, a alguns metros de onde ele estava, e ele fechou os olhos com pesar verdadeiro, o que só fez com a raiva escaldante que Harry sentia aumentasse ainda mais.
"Harry, eu..."
"NÃO!", Harry gritou, virando-se para as pessoas que agora estavam todas à volta dele, de Draco, Ronald, o Ministro e o corpo de Hermione, "Não.", ele repetiu com firmeza, as lágrimas ainda caindo, o tempo todo, como se ele não conseguisse impedi-las mesmo que quisesse, e ele não queria, "Você não VAI dizer que sente muito. Você não tem o DIREITO de dizer que gostaria de poder ter ajudado. Você não PODE nem dizer que sabe como eu estou me sentindo, ou como Ron está se sentindo. Você, Ministro,", ele continuou, como se o título fosse, na verdade, um insulto, "você pode dar as costas e voltar para onde veio, com todos os inúteis que trouxe com você. Você pode dar às costas ao seu povo quando ele precisou de você, por que isso é, obviamente, o que o Ministério sempre fez de melhor. Você pode deixar meus homens limparem a bagunça que você não teve a capacidade de arrumar, e então nos deixar partir. Porque Hermione Granger está morta, e você não estava aqui para defendê-la."
Ignorando o que quer que o Ministro fosse dizer em seguida, Harry virou-se para a multidão mais uma vez.
"Esse Ministério é quem os deixou desprotegidos. Esse Ministério é quem permitiu que aqueles trouxas tentassem levar suas crianças, seus filhos, suas esposas e esposos para serem testados e torturados por informação. Eles," ele continuou, apontando para os aurores, claramente distinguíveis pelas suas vestes magenta, "eles foram os co-responsáveis pela dor e o sofrimento que vocês estão sentindo agora. É a hora de vocês questionarem a quem vocês realmente seguem. Em quem vocês realmente confiam. Naqueles que arriscaram a própria liberdade para salvar um dos nossos,", ele disse, apontando para Rabastan e Rodolphus, que estavam lado a lado a alguns passos dele, "ou neles,", ele sibilou, seus olhos se estreitando de raiva, e apontando para os aurores, "que deixaram uma menina de dezoito anos mal completos morrer nas mãos do inimigo porque se recusam a acreditar que os trouxas são nossos inimigos. Não há mais dúvida do que eles são capazes.", seus olhos verdes percorreram a multidão que agora estava em silêncio absoluto, olhando com uma mistura de medo e aprovação para os antigos Comensais, ou então nojo e horror para os aurores, "Não há mais tempo para negar a guerra. Eu só espero que vocês escolham lutar, porque através da passividade, nós todos estaremos condenados."
Com suas últimas palavras, Harry aparatou, fazendo Draco dar um passo à frente.
"Esquadrões da Nova Ordem, para suas casas. Nós nos comunicaremos com vocês pela manhã.", ele ordenou, verificando que todos os homens e mulheres de capuzes e capas negras haviam aparatado para longe, apenas Ronald e ele permanecendo para trás.
Com um último olhar de desprezo para o Ministro, eles também aparataram, o corpo de Hermione ficando para trás.
O único trabalho dos aurores àquela noite foi providenciar um funeral, e alertar os pais da menina que sua filha havia sido assassinada.
Ok, eu não lembro se as vestes dos aurores são carmim ou magenta... então deixei magenta. (E, não, não é dos filmes que eu estou falando, porque a Warner sucks para Canon, é nos livros).
Sejam amores e
R E V I E W !
