How Far We Go
Grimmauld Place tremia. Não era apenas uma expressão exagerada do que poderia ser uma sensação, era um fato concreto e firme: o local estava literalmente vibrando em suas fundações, e Draco não sabia muito bem o que deveria fazer.
Ele desejava que Granger estivesse ali, com as suas palavras certas nas horas certas, e a ideia brilhante que salvaria todo o quartel general – e principalmente a pessoa que estava lá dentro naquele momento – de ser trazido abaixo pela magia sem controle que estava fazendo todo o prédio vibrar de uma maneira sinistra.
Com passos carregados de uma firmeza que ele não sentia, Draco abriu a porta e seguiu os gritos sem controle que vinham de algum lugar da casa, chegando à sala de estar. Harry estava de pé no centro da sala, objetos sendo convocados até ele, e então sendo atirados contra as paredes, enquanto ele gritava em raiva, negação, ódio, tensão, arrependimento, todos os sentimentos misturados que geravam sons incoerentes mais dolorosos do que os seus apelos anteriores para que Hermione não se fosse.
O garoto virou-se subitamente para ele, como se tivesse sentido a sua presença à porta, e o ar carregado de mágica pareceu acalmar um pouco. Olhos verdes firmes nos seus, Draco entrou na sala, esperando ser atacado a qualquer momento, mas Harry apenas continuou olhando firmemente para ele, sua respiração saindo com dificuldade, como se Harry estivesse tentando controlá-la, lágrimas ocasionais ainda caindo pelo seu rosto.
"Eles assassinaram Hermione.", ele falou por fim, sua voz apenas um sussurro de negação, seus olhos jamais deixando os de Draco, como se esperasse que ele negasse e dissesse que não, que havia sido um engano, que Hermione havia sido curada e que tudo ficaria bem.
E por Salazar, como Draco queria poder dizer que era tudo mentira. Que Granger estaria bem, e tudo se resolveria, e que os trouxas subitamente compreendiam que os bruxos de agora não eram os mesmos de alguns meses antes, e que os dois mundos poderiam coexistir em paz. Que Harry não havia perdido a melhor amiga, e que Shadow ainda poderia contar com alguém que o aceitava completamente.
Que, por mais clichê que isso soasse, tudo ficaria bem no fim.
Mas Draco não podia, e por isso apenas acenou com a cabeça em afirmação, dando mais um passo em direção ao menino que subitamente parecia ter onze anos novamente, pequeno e mal vestido em um banquinho na loja de vestes, tentando parecer tão calmo, mas no fundo deixando todo o seu nervosismo e medo transparecer a cada palavra.
Harry fechou os olhos e baixou a cabeça, suas mãos fechadas em punho ao lado do seu corpo, tenso mais uma vez, e a temperatura de toda a sala parecia ter caído dez graus naqueles poucos momentos. Draco parou a alguns passos de Harry, tentando entender qual seria o melhor curso de ação, mas não conseguia saber.
"Harry?", chamou lentamente, e os olhos verdes se abriram de súbito, e havia tanto ódio naquele olhar que Draco podia jurar tê-los visto faiscar em vermelho por um instante, mas Harry apenas o encarou, e então respirou fundo, tentando se controlar.
"Eu sinto tanto ódio e raiva. Eu quero que eles sofram, Draco, que paguem. Que morram, mesmo sabendo que isso não vai trazer Hermione de volta, eu quero que eles paguem.", ele disse baixinho, toda a sua postura parecendo se encolher com aquelas palavras, as lágrimas voltando mais uma vez livres, soluços sacudindo os ombros finos, fazendo com que Draco terminasse com a distância que havia entre eles, mas Harry se afastou mais um passo, não deixando que Draco o abraçasse.
"Eu tenho medo desse sentimento, Draco, é ódio demais. Eu... sinto como se eu pudesse matar todos eles com as minhas próprias mãos. Eu saí de lá não porque não queria mais ajudar, ou lutar, mas porque se eu ficasse mais um segundo, eu teria matado Kingsley. Eu queria... destruir, e acabar, e fazer com que eles sofressem como eu sofri. Nada no meu caminho estava seguro, Draco, nada.", ele disse apressado, sussurros confusos em um estado de desespero maior do que Draco já havia visto alguém estar, "Tanto medo, Draco, tanto medo...", ele repetiu, soluçando mais uma vez, e Draco o puxou contra si finalmente, abraçando-o com força, como se tentasse protegê-lo do medo que Harry sentia apenas por estar ali, "Eu não quero ficar como ele, Draco.", Harry sussurrou por fim, abraçando Draco com força contra si, falando tão baixinho que Draco quase não ouviu.
O loiro respirou fundo, e fechou os olhos, uma de suas mãos subindo até os cabelos de Harry e acariciando-os com cuidado durante longos instantes de silêncio.
"Você nunca vai ser como ele, Harry, eu juro.", Draco assegurou.
"Tanto medo...", Harry disse por fim, e Draco sentiu seu corpo ficar tenso durante alguns instantes até relaxar novamente, soltando-o do abraço.
"Eu... preciso ir deitar.", ele disse por fim, se afastando, "Chame os outros até aqui pela manhã, sim? Eu vou para o meu quarto.", completou, sem jamais encontrar os olhos de Draco novamente.
E se o mais jovem dos Malfoy teve a impressão de ver os olhos faiscarem em vermelho mais uma vez, ele concluiu ser uma ilusão gerada pela exaustão e nada mais.
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Cisão entre Ministério e O Escolhido!
Harry Potter declara "Esse Ministério é quem os deixou desprotegidos" após ataque a Hogsmeade!
A noite de 17 de Agosto de 1998 será para sempre lembrada como a noite da Primeira Batalha da Grande Guerra Entre os Mundos. Às vinte e três horas e trinta e quatro minutos, o editor chefe do Profeta Diário recebeu uma mensagem via Floo: Hogsmeade está sob ataque.
A princípio, o próprio editor se confessa confuso: a Guerra havia acabado, e mesmo quando em Guerra, jamais Hogsmeade, a única vila inteiramente mágica da Grã-Bretanha, havia sido atacada. Mesmo no Reinado de Terror Daquele-que-Não-Deve-Ser-Nomeado, a vila se manteve pacífica, nem uma única vez sendo tocada por tragédias, sendo respeitada pela sua história, e pelo símbolo que era, até a noite passada, da Comunidade Mágica em sua forma mais pura.
No entanto, o ataque de ontem mostra que Os Trouxas certamente não têm respeito pelos símbolos da Comunidade Mágica.
Para entendermos o que realmente aconteceu na noite e madrugada de ontem, é necessário primeiramente compreender como a vila mais protegida magicamente do continente pôde ser vista – e atacada perversamente – por trouxas que, em tese, não teriam como localizá-la. Hogsmeade, assim como Hogwarts, O Beco Diagonal, e até mesmo o Caldeirão Furado, estão sob fortes encantamentos e redes de proteção, que impedem que seres sem mágica os percebam, apesar de estarem ali. A única maneira de desfazer esses encantamentos seria ser o trouxa em questão ser ligado à rede de proteção do local – como é feito com pais de alunos nascidos-trouxas, para que estes possam acompanhar os filhos em passeios no Beco Diagonal, ou usar os fins de semana em Hogsmeade a que os alunos de Hogwarts têm direito para verem seus filhos. Uma vez ligados à rede, a magia reconhece a sua assinatura, desfazendo, assim, os encantamentos para aquele trouxa em especial.
O que aconteceu à noite passada foi não somente um ato covarde e cruel dos Trouxas, como também uma traição de famílias que foram recebidas em nossa comunidade de braços abertos. O Corpo Militar que tomou parte na ação violenta da noite de ontem teve acesso a Hogsmeade depois de ter sido ligado às redes de proteção da vila por bruxos de suas famílias.
Cada um dos cento e trinta soldados que executaram a manobra militar que visava sequestrar bruxos e bruxas para fins nefastos têm, em sua família, um ser mágico.
A traição é mais profunda do que apenas entregar parte da comunidade a que eles agora pertencem: foi a traição da confiança em troca de sua segurança pessoal, ou, pelo menos, é essa a impressão que passam os poucos que tiveram coragem de tentar defender suas ações.
"Eles (os soldados responsáveis pela idealização do ataque) nos disseram que, se nós conseguíssemos fazer com que eles entrassem na vila, eles não iriam nos machucar. Eram os bruxos de lá, ou nós. Não é exatamente uma decisão difícil de se fazer.", diz F. T. W., de 28 anos, sobrinho de um Militar Trouxa.
O senhor W. explica que, ao longo dos últimos 20 dias, pelo menos dez nascidos trouxas levaram seus parentes militares até o vilarejo por dia, fazendo com que eles pudessem reconhecer o terreno, e entender os pontos principais da vila. Os moradores locais tomaram o súbito aumento no turismo local como um resultado do fim da guerra.
Esses nascidos trouxas não apenas desonraram seu papel como bruxos, mas como seres humanos – com um agravante ainda mais terrível depois do fim da batalha. Na luta de ontem à noite, foi morta friamente com cinco tiros a Heroína de Guerra Hermione Granger, uma bruxa excepcionalmente brilhante, de apenas dezoito anos, parte essencial na derrota de Voldemort e também uma nascida trouxa.
O mais revoltante é a posição de Granger quando foi atacada e assassinada: não estava nem mesmo fazendo parte da batalha. A ex-aluna de Hogwarts e melhor amiga de Harry Potter estava meramente tentando proteger um jovem bruxo de nove anos de idade, Timothy Dalton, dos tiros dos trouxas. Timothy também foi atingido, e faleceu nas primeiras horas da madrugada no Hospital St. Mungus.
O único acalanto de toda a batalha reside no fato de que nenhum bruxo ou bruxa foi, de fato, sequestrado, rendendo a missão dos militares um completo fracasso tático. Tal pequena vitória, no entanto, não teria sido atingida não fosse por Rabastan Lestrange, que acabou por colocar em risco sua liberdade ao incapacitar três soldados que estavam carregando bruxos para seus meios de transporte.
Lestrange (41) está em liberdade condicional, depois de ter estado preso por quinze anos por ser partidário de Lord Voldemort durante a primeira guerra, e conseguindo ficar em liberdade ao ter Harry Potter defender sua liberdade.
Reside neste fato também a cisão entre O Eleito e o Ministro: os Aurores, os supostos grandes defensores da nossa comunidade, chegaram à vila minutos depois do ataque já ter terminado, e os trouxas já terem fugido. Ao ver os corpos dos trouxas no chão, o Ministro Shacklebolt ordenou que os participantes da batalha que estavam em condicional fossem levados para interrogatório, antes mesmo de verificar se algum dos bruxos em questão estava ferido, ou em necessidade de ajuda médica.
No entanto, Harry Potter, que havia chegado com seu grupo de oitenta bruxos logo no início da batalha, e que foram, afinal, os responsáveis pela pequena vitória que tivemos, o impediu com palavras firmes. Em seu discurso, o senhor Potter indicou não estar satisfeito com a maneira como o Ministério está lidando com a guerra contra os trouxas, e questionou seriamente a capacidade do Ministério de ajudar seus cidadãos.
Não há muita dúvida sobre o lado de quem o povo irá escolher no final: seu Salvador por duas vezes, ou o Ministério inepto que desaponta seus cidadãos e falha em protegê-los uma vez após a outra.
Mais sobre a Batalha de Hogsmeade nas pg. 5, 6 e 7.
Rodolphus pousou o jornal sobre a mesa, mas não ousou encarar seu irmão, que já havia lido a matéria mais cedo. Rabastan, aparentemente, não havia dormido àquela noite, se as olheiras em seu rosto pálido eram algum indicativo. Rodolphus também não havia dormido bem àquela noite. Ele não tinha certeza se pela sua surpresa pela tristeza que sentiu ao ver Granger morta – uma tristeza verdadeira, um pesar pela morte de alguém jovem e brilhante e com um futuro promissor à sua frente. Um pesar muito parecido com o que sentia por ele e seu irmão, por terem perdido tanto -, ou se pela tristeza em si, apenas. Não conseguia simplesmente expulsar a imagem dos olhos castanhos abertos, do sangue em seu rosto e torso, não conseguia esquecer os gritos de Weasley, ou os gritos ainda mais desesperados de Harry – pois não havia dúvida alguma de que aquele era Harry.
Com um gesto cansado, Rodolphus correu as mãos pelo cabelo, antes de massagear os olhos, suspirando pesadamente. A batalha havia sido o início, e mais tarde, ele sabia que Shadow iria explicar seu grande plano para esta guerra – pois ele sabia que havia algo maior do que 'matem os trouxas' por detrás do que o rapaz estava planejando. Ele só queria que tudo chegasse ao fim, de uma vez.
Ele estava ficando cansado de lutar.
Baixando a mão até a mesa, tomou um gole do chá que já estava esfriando em sua xícara, e sobressaltou-se quando sentiu o peso frio da mão de Rabastan sobre a sua. Os olhos de seu irmão encontraram os seus, e Rodolphus tentou se fazer não sentir esperanças. Não ousar pensar que, talvez, naquela manhã, fosse o momento em que Rabastan reconheceria que eram, sempre haviam sido, sempre seriam, um só.
Fitaram-se em silêncio alguns instantes, até que Rodolphus esticou os dedos, entrelaçando-os com os do irmão, apertando firmemente a mão dele, tentando dar a Rabastan o que quer que fosse que ele parecia buscar desesperadamente em seu olhar.
Depois de longos minutos, Rabastan levantou-se, puxando Rodolphus com ele e, em silêncio – seu velho e costumeiro silêncio –, levou seu irmão até seu quarto, fechando a porta atrás de si.
Com um som entre um suspiro e o começo do desespero, Rabastan abraçou Rodolphus contra si, tentando tomar para ele o calor do irmão, fazer com que seu frio fosse embora, e apenas o calor de Rodolphus permanecesse. Em um gesto que falava de desespero, e dor, e perda, e, acima de tudo, rendição, Rabastan puxou o rosto de Rodolphus para si, beijando seus olhos, os lados de seu rosto, e enfim encontrando sua boca, invadindo-a com desespero. A princípio, Rodolphus não correspondeu, tomado pelo choque e pelo medo de perder tudo aquilo que ainda estava tentando entender que não tinha.
Rabastan afastou o corpo do de seu irmão, buscando em seus olhos o que estava errado, e viu a dúvida no olhar tão igual ao seu. Com um sorriso distorcido e quebrado, exatamente como ele, Rabastan aproximou-se mais uma vez, sussurrando "não me deixe nunca mais" antes de deixar que Rodolphus o beijasse com desespero, e força, e medo, e lágrimas, e querer total, completo e absoluto.
Não havia como separar partes quebradas de um mesmo espelho que por mais que refletissem sozinhas, só estariam completas lado a lado. Por mais fragmentado, um espelho ainda é um espelho, e um pedaço é apenas um pedaço.
Rabastan já não aguentava mais ficar longe do seu todo. Ele precisava de Rodolphus.
Rodolphus que o levava até a cama, e o despia com uma pressa cega, e o beijava com uma exigência surda de mais e agora e para sempre e nunca mais ouse pensar em me deixar.
E Rabastan se rendeu, sem resistências. Permitiu-se se entregar a Rodolphus, a ser dele mais uma vez, a ter seu corpo tomado pelo seu irmão, que parecia indeciso entre a força e o carinho, que avançava sobre ele com fome e necessidade, e o penetrava lentamente, como se com medo de parti-lo em dois. Que o beijava ternamente, e puxava seus cabelos com força, e mordia seus lábios, e acariciava seu pescoço, e o fazia tremer sob ele, e ser dele, e fechar os olhos como não fazia há tanto tempo, seus limites se desfazendo e se apagando enquanto eram um só, um só e para sempre, e sozinhos e únicos. Partes de um todo que ele havia sido tolo o suficiente para tentar negar.
Não havia como negar o que eram - o que ele era - e ele era de Rodolphus. E Rodolphus era dele. Ele e dele, e para ele.
Os olhos fechados, e as testas encostadas, os corpos suados sobre a cama. As mãos acariciando seus cabelos, enquanto ele traçava padrões sobre seu peito, que subia e descia num ritmo constante – seu ritmo constante. O mesmo ritmo. O mesmo, eles, dois, um, apenas.
"Eu matei.", Rabastan sussurrou depois de longos minutos de paz e silêncio.
"Eu teria matado se você pedisse.", Rodolphus respondeu, tão quietamente quanto seu irmão.
"Eu? Não Shadow?"
"Você, Rabastan. Sempre, só e apenas você.", Rodolphus respondeu, e Rabastan fechou os olhos, conseguindo dormir pela primeira vez em dias.
Rodolphus guardaria seu sono, e velaria pela sua paz.
Taram! Mais um.
Antes do meu pedido por Reviews: considerem estes 3 capítulos em 3 dias um pedido de desculpas pela demora em voltar a postar. A Soma finalmente caminha para seu final, e está sendo escrita constantemente. Eu vou postar um capítulo a cada 3 dias de agora em diante (ou sei lá, mais rápido dependendo do número de reviews hehe).
R E V I E W !
