The Point of No Return
Por vezes ele tinha a impressão que tudo que fazia era fugir do tempo.
Estava sempre atrasado com as tarefas que tinha que fazer nos Dursley, estava sempre atrasado com os deveres na escola, estava sempre correndo atrás do tempo perdido para desvendar alguma coisa importante e salvar o mundo mais uma vez. Estava correndo para destruir Horcruxes, correndo para sua morte, correndo para salvar Hogwarts, correndo para provocar uma guerra.
E agora estava correndo para acabá-la. Três meses desde a primeira batalha de Hogsmeade. Três meses desde a morte de Hermione Granger, três meses infernais, intermináveis, com gosto de pó e cheiro de sangue, de discordâncias, de medo, de ataques a vilas inocentes, de desaparecimentos inexplicáveis.
Três meses em que a população mágica como um todo percebeu que não havia onde se esconder.
E no fim das contas, era exatamente aonde Shadow precisava chegar. Naquele sentimento absoluto e total de pavor. Na certeza de que o seu fim estava próximo, de que não havia mais saída, de que o mundo como eles conheciam estava por acabar e nada mais mudaria o fim que se aproximava. Porque assim, e só assim, a sua solução seria concebível. Só assim sua sugestão teria peso, e seria levada a sério.
Só assim ele venceria.
E se o preço pela vitória fosse a instabilidade emocional de seu povo, então que fosse. O importante é o objetivo, e não os caminhos que o levariam até lá.
O exército da Nova Ordem havia crescido consideravelmente desde aquela primeira batalha. Blaise, Bill e os Lestrange agora eram seus generais, com pelo menos cinco outros soldados abaixo de cada um deles para manejarem todos os recrutas. A ajuda de McGonagall havia, de fato, sido indispensável, e agora todos os soldados estavam em Hogwarts quase que permanentemente. A Nova Ordem era sempre a primeira a chegar e a última a sair de todas as batalhas, os aurores não entendiam a eficiência de seus meios de comunicação, mas Kingsley não parecia perceber que antes mesmo de alguém pensar em comunicar ao governo que um ataque estava começando, sempre havia quem pensasse em comunicar à imprensa. E graças a Daniel, a Nova Ordem sempre chegava primeiro.
Aos poucos, o castelo deixara de abrigar apenas os soldados, e há pouco mais de um mês, famílias refugiadas começaram a fazer seu caminho para a antiga escola, e buscar lá segurança e paz. Tamanho com certeza não era um problema – afinal de contas, a população mágica da Grã-Bretanha não chegava a cinco mil pessoas, e um castelo com o tamanho e a força mágica de Hogwarts com certeza abrigaria muito mais que isso se fosse necessário.
Nos países vizinhos, a situação não era nada melhor – de fato, era pior em alguns países árabes, em que não apenas a questão científica da existência de magia era um problema, como também havia o fator religioso: não que isso não fosse um problema na Europa, América ou Ásia, mas nos lugares em que religião e governo ainda caminhavam lado a lado havia toda uma questão filosófica e étnica que não atingia a grande parte da população mágica do mundo. A solução para aquela parte da população de bruxos fora simplesmente se esconder por meios mágicos, e esperar e rezar e torcer para que suas defesas durassem.
Havia países falando em uma Nova Inquisição.
Sabendo disso tudo, Shadow olhava para as mais novas informações que recebera de Narcissa Malfoy sobre seu projeto Avalon, e ele sabia, tinha a mais plena certeza de que cada sacrifício valeria à pena.
Nos últimos três meses, Narcissa havia pesquisado noite e dia. A princípio, ela tentara descobrir sozinha as soluções que Shadow queria. Aberforth Dumbledore foi quem primeiro a ajudou, e com ele, veio Nicolas Flamel, algumas semanas depois. Por mais que a Pedra Filosofal tivesse sido destruída, levaria pelo menos mais dez anos para que Nicolas e Perenelle fossem ao encontro de sua "nova aventura", e ele tinha tanto interesse em uma solução quanto qualquer outro bruxo que pretendesse sobreviver à guerra.
Foram dias de descrença, de certeza de que estavam caçando uma lenda, de que nada daquilo poderia ser verdade – mas havia valido à pena. Agora, finalmente, Narcissa havia chamado Shadow, Draco, Rodolphus, Rabastan e Lucius para que ela, Aberforth e Perenelle e Nicolas Flamel pudessem apresentar suas últimas conclusões sobre Avalon.
A única coisa que Narcissa havia avisado era que eles poderiam fazer o que Morgana havia feito.
Ouvindo Draco bater à porta de seu quarto em Hogwarts, Shadow pegou sua capa e saiu com o loiro, aparatando para Grimmauld Place, onde estava estabelecido o time de pesquisa. Juntando-se aos Lestrange na entrada, trocaram olhares que variavam de amedrontados a ansiosos, e esperaram para que tivessem boas notícias ao saírem dali mais tarde.
Seu único medo era que o preço fosse alto demais.
-x-
Narcissa estava sentada em uma das pontas da mesa, Nicolas e Perenelle à sua direita, Aberforth e Lucius à sua esquerda. Shadow, Draco, Rabastan e Rodolphus completaram os assentos, e olhavam em expectativa para que a mulher começasse a explicar o fruto de três meses árduos de pesquisa e expectativas.
"A primeira coisa que quero que vocês entendam é que, embora seja completamente viável em teoria, há partes do processo que Morgana usou que podem não estar disponíveis para nós, no momento em que vivemos, e isso terá um preço, caso nós tomemos a decisão de ir até o fim com a criação de uma Nova Terra para os bruxos.", ela começou em tom de aviso. Respirando fundo, as mãos postas delicadamente sobre a mesa, Narcissa retomou a fala impassivelmente, como se estivesse dando uma aula, e Shadow reconheceu que ela estava tentando não mostrar interesses ou inclinações pessoais enquanto explicava, "A primeira coisa da qual temos que ter conhecimento é que a Magia usada no tempo de Merlin e Morgana, dos Fundadores de Hogwarts, e até mesmo antes disso, não é a mesma Magia que temos hoje em dia. Eu não estou falando apenas em uso da Magia, em evolução comum na raça humana mágica – eu estou falando sobre uma mutação na base de toda a magia do mundo, no centro daquilo que decide quem terá magia ou não, na formação mais primária disso que não conhecemos, e não entendemos, mas que sabemos que faz parte de nós. Ao retirar Avalon deste plano, Morgana não retirou apenas a sua terra, e salvou parte de seu povo e seu reinado: Morgana tirou daqui uma parte da própria magia natural, da força motriz dos nosso poderes. Ela alterou a Magia."
Seus olhos azuis-claros percorreram cada pessoa ao redor da mesa, como que se certificando de que todos haviam compreendido o que ela estava explicando. Tendo se dado por satisfeita, ela prosseguiu.
"Descobrir isso foi o que nos tomou mais tempo – mais do que a pesquisa sobre o Ritual em si. A Magia realizada por Morgana utilizou os poderes da própria terra, do próprio planeta, do chão, do ar, do fogo, de tudo que existe e que tem uma centelha de vida. A diferença é que a Magia daquele tempo – a magia que havia naquela época – tornava isso possível sem esforço. E a verdade é que o Ritual que Morgana fez foi exatamente o que modificou nossa Magia. Habilidades se perderam. A força mágica daquela época é tão estrondosamente maior do que a nossa que é aterrador imaginar o que ficará para trás quando...", mas Narcissa se interrompeu, pois Perenelle pousava uma mão na sua, e balançava a cabeça suavemente, com um sorriso quase triste no rosto, como se consolasse Narcissa de algo inevitável. A mulher se recompôs, e estendeu um mapa em pergaminho antigo sobre a mesa. Nele, as imagens de países e fronteiras eram apenas contornos finos, como se não importassem, mas por toda a sua extensão, linhas verde esmeralda e azul Royal corriam e se ligavam, com uma espécie de tinta que parecia emanar luz.
"Este mapa mostra as Leylines ainda ativas em toda esta parte do planeta. Cada uma delas é um centro de energia – uma reserva, como rios que levam ao mar. Elas carregam o excesso de magia que temos e deixamos escapar para a terra, e nos fornece energia quando usamos a nossa em demasia. São como correntes sanguíneas de magia pura, de força mágica inalterada. As cores que estão aqui são representações da natureza desta magia; a intensidade de seu brilho, o quão fortes ou fracas elas são. Quando mais escuras, mais forte a magia que corre por elas. Vocês notam que, apesar de... intensos, os tons da cores não são escuros. O que suspeitamos é que quando Morgana realizou o ritual de criação de Avalon, estas linhas eram quase negras, tamanho era o poder que carregavam. O que temos que levar em consideração também é que Morgana levou consigo trezentas pessoas, no máximo. Ela salvou o seu povo, e apenas seu povo, mais ninguém. O Ritual que nós conseguimos desenvolver pode levar até dez mil pessoas para esta Nova Terra... Mas isso será discutido depois.", ela terminou, com um sorriso forçado.
"O Ritual em si depende das Leylines e da força mágica significativa no momento em que o realizarmos. Apesar do curto espaço de tempo para preparação, eu sugiro que ele seja feito no Solstício de Inverno.", prosseguiu Nicolas Flamel, sua voz firme e determinada, fazendo Shadow sorrir. Havia algo de muito negativo em todo este ritual, algo que nem mesmo Narcissa Malfoy tinha coragem de dizer, e, no entanto, Nicolas parecia completamente a favor da realização dele. No fim das contas, Shadow não deveria ter ficado tão surpreso. Ninguém desenvolve o elixir da Imortalidade por acaso – o medo da morte, a vontade da descoberta, a necessidade de saber que era possível com certeza eram a força motriz de Flamel: esta poderia ser a sua última chance de realizar algo de grandioso antes de sua partida.
"O Ritual necessita de três coisas para funcionar. A primeira delas é um Foco. Um lugar quer será a base do Novo Espaço que será aberto. Morgana fez de seu foco Avalon, que nós hoje sabemos não se tratar de nada mais que a cidade de Glastonbury. A primeira coisa que notamos é que, se cruzarmos este mapa com um mapa geográfico, notaremos que não há uma única Leyline em Glastonbury hoje em dia, ou nenhum vestígio delas por um raio de cem quilômetros. Isto foi obviamente causado pelo transporte do Foco Avalon para o Outro Espaço. Este Outro Espaço, Novo Espaço, Nova Terra, como quiserem, é criada puramente de magia. Ele desafia o que os trouxas chamam de Leis da Física, ao mesmo tempo que complementa cada uma delas à perfeição. O Universo é infinito, eles dizem, e, no entanto, eles não têm a real dimensão do que infinito significa. O Universo é infinito porque a Magia contida em cada milímetro de sua criação se propaga, se desdobra, se molda às necessidades daqueles que a têm em si. Há infinitos Universos, infinitos Universos paralelos uns aos outros, e cada um deles é criado a partir de algum ponto. Ao abrirmos as Leylines de um Local Foco, um Novo Universo Paralelo irá se abrir para nós. Não há nada que chegue a contradizer que este universo em que estamos agora não tenha sido criado exatamente assim. Seremos a mesma raça, em um universo infinitamente semelhante a esse, tão antigo quanto, e mesmo assim, novo. Porque só passará a existir quando nós chegarmos lá. Mas ele está nos esperando desde sempre. Por ser infinito. Por ser nosso. Por precisar que o criemos.", Flamel se calou, dando tempo para que os recém-chegados pudessem absorver a magnitude do que ele acabava de dizer, e tentassem ao menos começar a compreender do que falava.
Era muita informação para ser digerida de uma única vez.
"Eu não tenho certeza se qualquer um de nós vai conseguir entender completamente o que o senhor quer dizer com isso, mas, por favor, prossiga, senhor Flamel.", pediu Rodolphus depois de alguns instantes de silêncio.
Flamel sorriu de maneira indulgente, e continuou.
"O Local Foco perfeito para nosso ritual é Hogwarts. Não só há diversas Leylines que se interpõe lá, como é uma boa base para tudo que iremos necessitar quando chegarmos a este Novo Local. Fisicamente, só o local em que o ritual for feito irá ser transportado para a Nova Terra. Hogwarts seria nossa base. Além disso tudo, o local já abriga boa parte dos refugiados ingleses e tem capacidade para abrigar muito mais – capacidade suficiente para abrigar nosso limite de pessoas, como Narcissa citou antes – dez mil pessoas."
"Limite?", indagou Draco.
Flamel concordou com um aceno de cabeça, mas foi Narcissa quem respondeu ao filho.
"Um limite. Como Nicolas explicou, as Leylines ao redor de Glastonbury desapareceram completamente para transportar trezentas pessoas, em uma época em que a Magia era muito mais condutiva do que é hoje. Com as Leylines que existem hoje, dez mil pessoas é o máximo que conseguiremos levar. Mais do que isso, e todo o ritual irá falhar. A verdade é que talvez nós nem mesmo tenhamos dez mil pessoas para levar. A população bruxa inglesa é uma das maiores do mundo. Os mais organizados, com toda a certeza, e nós somos pouco mais de três mil. Na Ásia, esse número é reduzido a algumas centenas, em todo o continente. Na África não há uma forma de governo organizado – talvez consigamos contatar alguns clãs, mas não há tempo hábil para contatarmos todos, e mesmo que consigamos, quantos deles vocês realmente acreditam que vão abandonar um universo por outro?", ela balançou a cabeça, com um sorriso quase amargo, "Dez mil pessoas é um bom número. E há outro fator.", ela disse, então, séria e grave, "As Leylines serão... sugadas para nosso Novo Universo. Elas serão a base da nossa magia lá. Não restará uma única fonte de magia neste universo. Nada. Criaturas mágicas em geral acabarão indo conosco simplesmente porque as Leylines e elas são interligadas, elas fazem parte da magia, mas os seres humanos...", Narcissa respirou fundo, e encarou Shadow diretamente ao concluir o que tinha de dizer, "Os seres humanos mágicos deste mundo, nós, na verdade, sugamos a magia das Leylines. Elas nos abastecem de magia, e nós devolvemos excessos para elas, em um ciclo sem fim. As criaturas mágicas, por outro lado, são unas com as Leylines, elas fazem parte do ciclo. As criaturas – veelas, vampiros, lobisomens, anões, elfos, unicórnios, centauros, todos eles – fazem parte do ciclo, mas não sugam ou doam para ele. E por isso, eles serão conduzidos juntamente com as Leylines para este novo espaço. O humanos mágicos que não estiverem dentro do círculo do ritual, no entanto... não sobreviverão. Nem um único deles. Dez mil bruxos é tudo o que conseguiremos levar intactos, e os que restarem...", ela parou, sem conseguir continuar.
"Os que restarem terão sua mágica literalmente sugada deles para alimentar as Leylines durante o ritual e, em consequência, sua magia será levada para o outro universo.", disse Aberforth, de um jeito prático, "Sem a sua magia, estes bruxos terão segundos de vida. Nós salvaremos dez mil bruxos, e mataremos todos os outros no processo."
Um silêncio chocado caiu sobre todos os que estavam ao redor da mesa. Eles estavam falando na morte de mais de 200 mil pessoas, ao redor de todo o mundo. Pelas proporções lógicas, a população bruxa mundial não chegava a quatrocentas mil pessoas, e muitas delas tinham alguma espécie de sangue de criaturas ainda claramente visível e acessível, o que garantiria o transporte para o Novo Mundo sem dificuldade, mas muitas dessas pessoas – a grande parte dessas pessoas – eram apenas e simplesmente humanos. Humanos com magia, que não teriam mais Leylines à sua disposição.
Humanos que iriam morrer para que a raça bruxa pudesse sobreviver em outro lugar.
"A verdade é que nós precisamos dessa energia.", prosseguiu Flamel, sua voz ainda impassível e convicta, "Sem esse... sacrifício as Leylines talvez não nos dêem a sustentação necessária para tudo que precisamos. Era disso que Narcissa falava a princípio, nós precisamos de um Local Foco, nós precisamos de uma Data carregada magicamente, e nós precisamos de Mágica. Nós precisamos de toda a força disponível nestas Leylines, e isso significa sacrifícios. Dez mil humanos puros, além de todas as criaturas com sangue puramente mágico, além de todas aquelas que têm traços humanos – partes-vella, lobisomens, vampiros, parte-gigantes – estes irão conosco sem problemas, fluindo através da Força Motriz das Leylines. Isso é uma boa parte da nossa população. Eu ousaria dizer que pelo menos cinquenta ou sessenta mil pessoas com sangue mestiço de criaturas mágicas serão levadas assim. Mas humanos puros serão apenas dez mil. E nós precisamos que todos os outros fiquem. Pela sobrevivência da nossa raça, é tudo que podemos fazer."
"Isso quer dizer que para salvarmos de cinquenta a sessenta mil bruxos, nós iremos matar quase trezentos mil?", Shadow perguntou, sua voz calma, contida, mas ainda assim duvidosa, como se não acreditasse que não havia uma saída melhor.
"Isso quer dizer que garantiremos a sobrevivência da nossa raça, sem guerras, e a sobrevivência dos humanos trouxas, sem ameaças de magia, e salvaremos setenta mil pessoas, enquanto as quase trezentas mil não vão querer ser salvas de qualquer maneira.", Nicolas inclinou-se sobre a mesa, encarado Shadow com firmeza, "Esta guerra irá destruir toda a magia deste mundo, mais cedo ou mais tarde, e você sabe disso tão bem quanto eu, Harry Potter. Eles irão nos caçar, nos estudar, tentar tirar a magia de nós, se sentirem frustrados quando não conseguirem. Eles irão atacar nossas crianças, matar nossos homens, escravizar nossas mulheres. Eu vivi a Inquisição. Eu vi este povo crescer e se tornar cada vez mais perigoso. E por mais que eu gostaria de conseguir ser como meu amigo Albus, eu jamais conseguirei realmente acreditar que nós teremos paz.", ele respirou fundo, "Então, sim, nós salvaremos setenta mil pessoas às custas de trezentas mil. Mas essas setenta mil serão setenta mil sobreviventes, em um lugar permanentemente seguro, enquanto se ficarmos aqui, seremos todos mortos, mais cedo ou mais tarde."
E Shadow se calou, enquanto todos os olhares se voltavam para ele, sabendo que a decisão final seria sua e apenas sua.
As vidas de trezentos mil bruxos pesavam sobre seus ombros, e ele não sabia o que fazer.
Ops, demorou um pouquinho mais que o previsto.
Esse capítulo ia ser maior, mas eu achei que já era informação demais pra um capítulo só, então vou tentar não demorar com o próximo.
Sejam amores e
R E V I E W !
