Esclarecimento: No capítulo passado, quando foi usado o termo 'bruxo puramente humano' ou 'puramente mágico', eu estava me referindo a bruxos sem sangue de criaturas nele, não status de sangue em relação a nascido-trouxa ou puro sangue.


The Unforgiven

"Lucius,", Shadow chamou, quebrando o silêncio de longos minutos, e a atenção de todos voltou-se para ele, "consiga-me uma lista de todas as comunidades mágicas representativas com alguma forma de governo estabelecido. Rodolphus, Rabastan, por favor, uma lista de todos os membros da Nova Ordem que vocês confiem que possam se defender sozinhos durante uma viagem de não mais que uma semana. Narcissa, senhor e senhora Flamel, Aberforth, comecem a preparar Hogwarts e os terrenos em volta dela para o ritual. Dia 22 de dezembro, ele será realizado."

"Você percebe que está condenando trezentas mil pessoas à morte, não percebe, Harry Potter? É um caminho sem volta.", Aberforth disse, parecendo, de uma maneira desconcertante, com seu irmão.

"Eu não vou condenar ninguém a nada.", respondeu Shadow calmamente, "Cada um desses governos receberá a opção de juntar-se a nós, de oferecer isso ao seu povo, ou de recusar. Se eles não forem conosco, se eles ficarem aqui, se eles morrerem por ter a sua magia drenada, terá sido a escolha deles, e não a minha."

"E se a quantidade de bruxos puramente humanos ultrapassar dez mil, o que faremos, então?", Narcissa indagou.

"Tentaremos realizar o ritual. Se ele não acontecer, pelo menos teremos tentado. Mas eu acredito que nós não teremos esse problema."

"Quando as pessoas souberem que a escolha é participar do ritual, ou ser um daqueles que vai morrer...", começou Draco, mas Shadow virou-se para ele com um sorriso gelado e olhos completamente despidos de qualquer emoção.

"Ah, aí está. Elas não saberão. A proposta que nossos embaixadores farão será para a liberação da nossa raça, e apenas isso. Quem desejar vir conosco, deve desejar vir conosco, e não desejar ficar vivo. Se eles não têm a coragem de tentar se libertar, eles não merecem serem libertados.", seus olhos correram por cada um daquela mesa, "Eu quero um Voto Perpétuo de cada um de vocês de que a informação pertinente ao sacrifício daqueles que ficarem para trás não será divulgada a ninguém que não saiba dela. Ninguém.", seus olhos fixos nos de Draco quando ele dizia a última palavra, e Draco compreendeu que Shadow fazia isso para proteger Harry, antes de qualquer outro.

E, repentinamente, tudo fazia sentido. A recusa de Shadow de sequer mencionar o nome do psiquiatra que o estava ajudando antes da morte de Hermione, a maneira como Harry não havia aparecido nem uma única vez desde a noite daquela batalha, tudo: Shadow não queria Harry envolvido na guerra. Não era seguro – jamais seria. Não aqui, não nesse mundo, não nesse universo.

Shadow não tinha plano algum de se unir novamente a Harry.

Ele planejava salvá-lo.

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Shadow podia ver que Narcissa Malfoy não estava confortável com a ideia de matar trezentas mil pessoas, mas que faria o que fosse necessário para concluir o ritual. Aberforth estava reticente sobre a coisa toda, deixando claro que ajudaria, apenas porque podia ajudar, como se não se importasse realmente com o que aconteceria dali para frente – Shadow tinha a nítida impressão de que seu Novo Mundo seria um lugar completamente livre de Dumbledores. Nicolas Flamel, no entanto, fora o verdadeiro choque. Quando todos já haviam saído para cumprir as tarefas delegadas por Shadow, o homem ficara para trás, sorrira e apertara a sua mão, dizendo que ele havia feito a escolha certa. Por motivos óbvios, Shadow – Harry, na verdade – sempre havia suposto que Nicolas Flamel seria um homem como o Dumbledore que existira apenas no imaginário do mundo bruxo: alguém sempre bom, sempre correto, e sempre disposto a fazer sacrifícios. Vendo-o disposto a matar centenas de milhares de pessoas com os olhos brilhantes pelas possibilidades de um novo universo, no entanto, fez com que Shadow questionasse o pouco que sabia sobre aquele homem.

Fez com que questionasse até mesmo a destruição da Pedra Filosofal. O homem que achava que Nicolas era teria destruído o trabalho de sua vida em prol da segurança do mundo. O homem que ele estava vendo que Flamel era meramente a esconderia melhor e propagaria rumores de que a pedra já não existia mais.

Quando finalmente se viu a sós com Draco, Shadow o encarou com um sorriso que beirava a tristeza, mas que não tinha nada do verdadeiro sentimento por trás da ação – Shadow não sentia tristeza, por mais que quisesse expressá-la.

"Eu existo para proteger aquela parte de Harry Potter.", ele começou com a voz baixa, servindo-se de whisky e deslizando um copo vazio e a garrafa até Draco, que estava sentado à sua frente na mesa da cozinha, "Ele não vai saber dos sacrifícios feitos para a conclusão desse ritual. Ele não vai saber o que aconteceu com esse Mundo Mágico depois que chegarmos ao nosso Novo Mundo.", ele tomou um gole demorado, escorando-se completamente ao encosto da cadeira, e dando de ombros displicentemente, "Ninguém vai, na verdade, exceto seus pais, os Lestrange e os Flamel. E ninguém vai falar disso, porque se falarem, morrerão, e ninguém que sabe do nosso segredo quer morrer, ou nem mesmo tentaria fazer o ritual. É seguro de todas as formas. É perfeito. Inegavelmente perfeito, porque nosso povo – o que restar dele – vai estar seguro, para sempre, sem saber das milhares de vidas que foram sacrificadas para que conseguíssemos essa façanha, e é assim que tem que ser, Draco, porque se as pessoas quisessem saber do sangue por trás de toda conquista de paz, elas lutariam por si mesmas, e cada um deles seria o líder de si próprio, e eles não são. Eles não querem ser. Eles não precisam ser. Harry não precisa ser."

"Mas quando você se unir a Harry, Shadow, ele vai descobrir. Você sabe. Ele vai saber também."

O moreno deu de ombros, colocando o copo vazio sobre a mesa, e se levantando, saindo da cozinha a passos lentos.

"Isso nós ainda iremos ver.", ele disse, ainda mais baixo, "Mas aconteça o que acontecer, eu sei que você estará lá para protegê-lo.", ele concluiu, deixando Draco Malfoy sozinho.

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As preparações para o ritual eram extensas, complicadas, e carregadas de uma força mágica que Narcissa jamais pensara ser possível. Toda a área de Hogwarts, dos portões da escola à Floresta Proibida, o castelo em seu todo, os terrenos em volta, estava circundada em Runas, como se estive delimitando as margens do que seria Novo Mundo, e o que ficaria para trás. Em volta dos mesmos terrenos, ela, os Flamel e Aberforth teciam aos poucos a Magia Fundamental, que conectava toda a atmosfera envolvida naquela teia às Leylines que se cruzavam em Hogwarts. Uma segunda teia de feitiços e encantamentos, Runas e símbolos mais antigos que o tempo, essa no chão, conectava a magia de Hogwarts – do castelo, do próprio ar à volta de toda a propriedade – às Leylines, que se estendiam e pareciam se tornar quase visíveis, se focadas com a vontade necessária. Uma terceira teia servia como uma conexão, um ponto foco para onde toda a magia acumulada das Leylines de todo o mundo correria quando as Runas e encantamentos fossem ativados, no momento exato do Solstício de Inverno, quando todas os dez mil bruxos que eles salvariam entoassem o feitiço em Inglês Antigo – a última conexão necessária entre as peças que formavam o quebra-cabeças da chave do Novo Mundo.

Bastava que entoassem o feitiço, e a Magia faria o resto.

Olhando o lago contrastando com a Floresta ao entardecer, Narcissa tentava esquecer que o preço pela sua paz seria a morte de todos aqueles que ficariam. Tentava se convencer de que eles deveriam se sentir orgulhosos – afinal de contas, assim que as Leylines os drenassem de Magia, eles estariam abrindo as portas para um Novo Mundo. A sua mágica, afinal, viveria para sempre.

A sua mágica seria imortal como o próprio mundo que se abriria.

Com um sorriso amargo, olhando o túmulo de Dumbledore refletir a luz avermelhada do sol ao longe, ela concluiu que seriam apenas milhares de pessoas indo em direção à próxima Grande Aventura.

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Lucius tinha a lista das Comunidades Mágicas mais representativas para ser entregue a Shadow naquela mesma tarde. Os Lestrange também não demoraram a sugerir uma lista com cinquenta nomes, menos do que o necessário, mas algo que podia ser trabalhado. Shadow, Draco e Lucius decidiram naquela noite quem enviar para qual Comunidade – muitas delas não significavam exatamente um país, mas um aglomerado de Comunidades Mágicas com um centro em comum – e em seguida procederam a decidir como, exatamente, um bruxo da Inglaterra, o centro de todos os problemas do Mundo Bruxo atual, iria chegar e apresentar uma solução para os representantes daqueles países, dizendo poder transportar sua população para um Novo Universo?

Quem acreditaria? Quem viria? Quem mesmo ousaria apresentar esta opção para seu povo?

Era nesta incredulidade, no entanto, que Shadow estava apostando. O nome Harry Potter carregaria algum peso, fazendo com que pelo menos a opção fosse dada para a população mágica em questão. Aqueles que decidissem vir teriam acesso para aparatação às margens de Hogwarts, a partir do dia 3 de dezembro, até no máximo dia 21, momento no qual as preparações para o ritual deveriam começar.

O processo era cansativo, e exigia muita manobra política e social, por isso a escolha de Lucius para ajudá-lo. No entanto, Shadow fazia algumas mudanças e sugestões sutis, que ajudariam a garantir que não mais de dez mil bruxos puramente humanos decidissem se juntar a eles. Um nascido-trouxa para a Hungria. Um londrino para a França. Pequenas mudanças que estariam influenciando e reaquecendo velhos preconceitos, que fariam com que a parcela de população que de fato decidisse ir com eles estaria com a mente aberta, pronta e nova para deixar preconceitos para atrás. Para abraçar aquele Novo Mundo sem velhas percepções.

Para terem, por fim, de uma vez por todas e para sempre, paz.

Talvez suas manobras fossem cruéis. Talvez fossem desalmadas, talvez beirassem o imoral, mas Shadow já não podia se dar ao luxo de ter escrúpulos. Os ataques aos bruxos estavam cada vez mais agressivos, cada vez menos focados em sequestrar, estudar ou incapacitar, e cada vez mais focados em matar, destruir e exterminar.

O ódio não conhecia mais limites naquela terra que dividiam, e Shadow não podia se deixar prender por questões morais quando o que estava em jogo era a sobrevivência de todo o seu povo.

Dois dias depois, seus emissários partiam, com um discurso puramente pacífico, oferecendo a saída ideal daquele tormento e guerra. Claro, muitos decidiriam ficar com suas famílias que talvez contivessem algum trouxa, muitos não iriam nem mesmo acreditar na solução dada, mas Shadow sentia que estava lhes dando a opção.

Obviamente, nem mesmo seus emissários sabiam do destino daqueles que decidissem ficar, mas isso realmente não era o problema de Shadow.

Uma semana depois, com todos os seus emissários de volta – alguns com sua missão plenamente cumprida, outros sentindo que nem em um milhão de anos os representantes daqueles países que visitaram sequer mencionariam o plano de Shadow à população – Shadow tomou o passo final para a propagação de uma solução para a guerra: assim como combinado com as Comunidades Organizadas que decidiram oferecer à sua população a chance que os ingleses lhes davam, um anúncio em letras garrafais na capa do Profeta Diário exclamava a rota de fuga do Mundo Bruxo para um Lugar Melhor.

Ritual a ser realizado nos terrenos de Hogwarts, a começar à meia noite do dia 22 de dezembro. Todos os interessados deveriam se dirigir à escola até dia 21.

Era quase o anúncio de uma festividade, com detalhes mais claros na matéria interna – algumas alusões à pesquisa e ritual em si, a confirmação de que era, sim, possível, fazer o que Harry Potter estava prometendo.

Shadow só esperava que alguns dias fossem o necessário para convencer a maior parte da população de que era, de fato, uma solução.

A mais pacífica de todas elas.

Desde o dia do anúncio, Kingsley tentava falar com Shadow, mas não conseguira nem uma única vez. O homem estava furioso com o uso supostamente indevido dos terrenos da escola, mas não podia fazer nada, já que a diretora interina estava dando uso dos terrenos para os soldados que ajudavam muito mais a população bruxa do que seus aurores – na verdade, muitos dos aurores ainda em serviço haviam abandonado os quartéis no Ministério e se instalado em Hogwarts, já que os soldados da Nova Ordem sempre pareciam saber dos ataques muito antes que o governo.

Durante este período, no entanto, ninguém da Nova Ordem teve descanso. Problemas de última hora com o ritual, acomodações para os primeiros civis que chegavam à Hogwarts na esperança de um mundo melhor e, principalmente, a busca incessante por livros, artefatos mágicos, obras de arte – partes da História da Magia que teriam que ser levadas. Os Anões, ao saberem do plano, se prontificaram a ajudar, entendendo de Rituais Mágicos muito mais do que a grande maioria dos outros seres com magia, e sabendo das prováveis repercussões para aqueles que ficassem para trás.

Tudo era embalado cuidadosamente, catalogado e armazenado em Hogwarts. Certamente muita coisa ficaria para trás, mas tudo o que conseguissem levar seria de valor inestimável à sua nova cultura.

As semanas que se seguiram foram de atividade intensa, com mais e mais bruxos civis chegando todos os dias – famílias e algumas comunidades inteiras, com seus objetos mais caros e preciosos depositados nos confins de Hogwarts. Uma espécie de registro com um teste mágico mostrado aos responsáveis por esta tarefa pelos Anões separava os humanos puros daqueles que continham sangue de alguma criatura em si com quantidade suficiente para transportá-los com as Leylines sem que entrassem no registro dos dez mil bruxos que necessitariam da força da magia da Terra para levá-los.

A lista crescia a cada dia, mas ainda não atingira seu limite. Na verdade, levando em conta que muitas das famílias mais antigas sempre tinham, em algum ponto ou outro da sua árvore genealógica, o sangue de alguma criatura, o número era bem menor do que o esperado.

Ou era, até o entardecer do dia 20 de dezembro.

O alarme soando pelos corredores de Hogwarts era um que já fazia parte da rotina daqueles que moravam no lugar, e os soldados e todos aqueles que se sentiam seguros o suficiente de que poderiam ajudar a defender comunidades bruxas corriam para o ponto de encontro, no Salão Principal, para ouvir as últimas instruções antes da saída para onde quer que os trouxas estivessem atacando naquele momento.

Shadow foi um dos primeiros a chegar ao Salão, Draco ao seu lado, e viu o rosto pálido de Daniel Everlast, sendo ajudado até uma cadeira por Ronald Weasley, que parecia ter perdido a capacidade de pensar, tamanho o pavor estampado em seu rosto.

"Daniel?", chamou Draco, "Onde é o ataque?"

O jornalista, seu principal contato com o Mundo Trouxa, já que eles acreditavam que Daniel era um deles – um correspondente internacional, era o que pensavam que ele era, na verdade – engoliu em seco.

"O ataque ainda não aconteceu, mas a notícia vazou para a imprensa há alguns minutos. Eles...", ele parecia não ter coragem para continuar o que queria dizer fechando os olhos para retomar a palavra, "Eles atacarão a Ilha de Skye. Hoje."

Os poucos soldados e alguns civis que estavam presentes empalideceram como se fossem uma só pessoa. Algumas mulheres abraçavam seus filhos contra si, outros bruxos e bruxas começavam a movimentação, e os gritos pedindo, exigindo, clamando para que pudessem ir também em defesa da Ilha.

A Ilha onde, por uma decisão estúpida do Governo Bruxo, estavam todos os menores de idade da população bruxa inglesa, em uma tentativa vã e mal pensada de defendê-los. Como na Segunda Guerra Mundial, quando os ingleses mandaram suas crianças para o campo para fugirem dos bombardeios, o Ministério havia pensando que era uma boa ideia tirar as crianças das áreas primárias de ataque, como vilas, cidadelas, regiões mais mágicas do que trouxas. E, por fim, as crianças foram enviadas para a Ilha de baixa população, e uma concentração mágica intensa.

Cada criança do Mundo Bruxo Inglês, cada uma que não estava com sua família dentro dos terrenos de Hogwarts, estava naquela Ilha, com a proteção de algumas dezenas de aurores e nada mais.

E um exército de trouxas, com suas armas que nenhuma criança seria capaz de deter, e suas bombas que nenhum feitiço seria capaz de parar, estava indo para lá, para dizimar o futuro de toda uma raça.

Se a situação não fosse tão desesperadora, Shadow sentiria admiração pelo pensamento tático do general que comandava as tropas trouxas. Acabar com o futuro da raça, deixar toda a população fragilizada ao ponto da desistência.

O Mundo Bruxo cairia sozinho se esse ataque tivesse sucesso.

Gritos e clamores eram ouvidos no castelo, e a organização para a defesa da Ilha não tomou mais do que alguns minutos. Batalhas teriam de esperar – a missão de todos e cada um dos bruxos e bruxas que desejavam ajudar era simples: aparatar até a ilha, pegar duas crianças, e trazê-las para Hogwarts.

Bruxos estrangeiros, criaturas mágicas, toda e qualquer pessoa que tivesse um mínimo de treinamento em magia se dispôs a ajudar, e Shadow gritou a permissão para que aparatassem até a Ilha, como um soldado só, composto de milhares deles.

Mas eles haviam chegado tarde demais.

A casa em que as crianças estavam estava cercada de soldados trouxas - armas, fuzis e granadas visíveis, claros e ameaçadores como monstros em histórias infantis. Pelas janelas, podiam-se ver e ouvir o desespero e os gritos das crianças menores que ainda estavam atrás das proteções que cairiam a qualquer segundo quando a estrutura da casa ruísse. Os maiores, que talvez tivessem quatro ou cinco anos de estudo em Hogwarts, estavam do lado de fora da casa, sendo dizimados com a mesma facilidade que um humano pisa em formigas – corpos adolescentes já jaziam no chão, cobertos de sangue, roupas trituradas pelo impacto dos tiros, olhos abertos de surpresa, varinhas seguras nas mãos geladas que nunca mais conheceriam o calor de seus pais e seus amigos.

E os soldados atiravam, gritando palavras de encorajamento e ódio, como se crianças, pequenas, inocentes, puras fossem, de fato, alguma espécie de inimigos.

A raiva e a incredulidade batalhavam no rosto de cada um dos bruxos, que se atiraram com abandono contra os trouxas, conseguindo com dificuldade abrir caminho até a casa, estalidos de aparatação podendo ser ouvidos lá dentro, misturados ao choro e gritos desesperados dos feridos, do clamor dos pequenos por suas mães e pais, do pavor refletido nos olhos daqueles que viram seus irmãos e amigos caírem em uma tentativa quase nula de tentar defendê-los. Os soldados trouxas continuavam atacando – a cada bruxo que entrava na casa, eles fechavam o cerco mais uma vez, como se possuídos pela necessidade de destruir e matar o inimigo – crianças.

Shadow, observando a movimentação do topo de uma colina, monitorando a quantidade de bruxos na Ilha para ter certeza de quando já havia resgatado todas as crianças vivas e os corpos daquelas que já não estavam mais lá, finalmente deu o sinal para que todos aparatassem de volta a Hogwarts. Olhando do topo, com Draco ao seu lado, viu soldados comemorando como se fosse uma vitória – certamente crentes de que agora eles poderiam localizar muito mais do que crianças em um único lugar.

Com os olhos frios, suas mãos tremendo com o esforço de não sentir, fechou os olhos por um segundo, para então abri-los novamente, faiscando em vermelho, apontando a varinha para a casa que os soldados agora entravam.

"Fiendfire", sussurrou, vendo uma chama se estender como um chicote até a casa, enquanto Draco selava por magia todas as portas e janelas.

Os gritos ecoavam no entardecer, com a garoa que caía contradizendo as chamas cada vez mais vivas que consumiam toda a casa e cada um dos trouxas dentro dela, ardendo com o Fogo Maldito até que nada mais restasse.

Mas destruir os que haviam causado a morte de crianças inocentes não trazia a inocência de volta.

Destruir o inimigo não desfazia as perdas.

A dor não diminuía, não passava, o ódio já não tinha mais lugar – só o que havia era a angústia da perda, da dor, do medo, da certeza de que nunca mais estariam seguros ali.

Com um grito de desespero puro, Harry caiu de joelhos, vendo a casa arder, sabendo, nem ele mesmo tinha certeza de como, que crianças haviam perdido suas vidas ali pelas mãos dos trouxas.

E com as lágrimas em seus olhos, Draco ajoelhou-se ao seu lado, abraçando-o contra si, querendo que pudesse ter protegido Harry desse conhecimento, como tinha certeza que Shadow havia tentado fazer.

Com um último estalido, estavam de volta a Hogwarts, as imagens das chamas e dos corpos de crianças bruxas gravadas em seus olhos para sempre.

A imagem em Hogwarts era a de um caos organizado, de tristeza profunda, de medo, de dor – e de uma certeza estranhamente renovada de que a escolha que faziam era a certa.

Nenhum bruxo ali presente desejava viver e dividir o Mundo com uma raça que fazia o que aqueles trouxas haviam feito.

Na Ilha, havia um total de quatrocentas e vinte e três crianças. Após o ataque, trezentas e sessenta e sete sobreviveram, algumas com ferimentos que levariam alguns dias para curar. Cinquenta e seis crianças foram mortas.

Seus corpos pequenos e frágeis, alguns meninos de pouco mais de onze anos, algumas meninas com os cabelos ainda em tranças, alinhados nas mesas do Salão Principal.

Harry caminhou a passos lentos por entre as mesas, lágrimas ainda escorrendo pelo seu rosto como no momento da morte de sua melhor amiga. O Salão todo havia caído em um silêncio profundo, devastado, aguardando que seu Salvador fosse dizer algo que tornasse a situação melhor, que a dor diminuísse – como se ele, sozinho, pudesse devolver a vida aos que haviam partido, devolver a inocência àqueles que ficaram para trás.

Kingsley estava no fim do corredor, aparentemente havia ido até a Ilha quando as crianças já haviam sido transportadas com segurança para Hogwarts pela Nova Ordem, seu rosto coberto de pesar, de arrependimento, de dor.

Harry parou à sua frente, Draco ao seu lado, e encarou o homem que deveria ser responsável por todos eles.

"É esse o Mundo que você quer?", ele indagou em voz baixa, dolorida, rouca pelo choro, derrotada pela visão de cinquenta e seis inocentes a serem enterrados em algumas horas, "São aquelas as pessoas que você quer defender?", ele continuou, sua cabeça inclinando-se para o lado, com uma curiosidade infantil, "Você realmente acredita que ainda haverá paz aqui, Kingsley?", ele terminou, sua voz tão suave que mal era um sussurro.

E o Ministro da Magia, olhos marejados de lágrimas, baixou a cabeça, sacudindo-a levemente, antes de responder, sua voz tão suave quanto a de Harry.

"Não. Não mais."

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Havia silêncio em Grimmauld Place quando Harry e Draco finalmente aparataram para a Mansão, exaustos, e doloridos, e... vazios.

Como se cada uma daquelas cinquenta e seis crianças houvesse levado com elas uma parte deles.

Harry, olhos ainda marejados, pegou Draco pela mão, subindo os degraus devagar, levando-o até seu quarto.

"Ele tem uma solução?", ele perguntou por fim, sua voz quebrada, e tão pequena, tão frágil, que Draco não viu outra maneira que não abraçá-lo forte contra si, correndo suas mãos pelos cabelos negros e despenteados.

"Tem. Mais dois dias, Harry, e estaremos todos livres.", ele sussurrou de volta.

Harry afastou-se alguns centímetros, seus olhos impossivelmente verdes fixos nos de Draco.

"Você promete?"

"Eu prometo.", Draco respondeu de volta, tanto para confortar a Harry quanto a si mesmo de que aquele era o fim, que eles não teriam mais que estar ali.

Não mais, nunca mais.

Ficaram abraçados longos momentos, como se o mero pensamento de estarem separados fosse demais para suportarem. Harry, por fim, levantou o olhar, e Draco o encarou por alguns segundos, até ter coragem de tocar os lábios de Harry com os seus. Inocente e cálido e tenso e atencioso a princípio, como se tivesse medo de que Harry fosse se partir.

Mas Harry o abraçou de volta com força, com medo, como se temesse que ele fosse desaparecer, e Draco aprofundou o beijo, tomando a boca de Harry com a sua, levando-o lentamente até a cama, onde o deitou, seguindo-o alguns segundos depois.

Era uma intensidade involuntária, uma sensação de querer sentir, dar, ter, viver, ter a confirmação absoluta de que conseguiriam sobreviver, de que não era o fim. As mãos pálidas de Draco afastando as vestes negras, beijos lentos e calmos que se tornavam possessivos, quase temerosos, a pele contra a pele, por fim, sem obstáculos, sem nada entre eles. Eram Harry e Draco, não eram Shadow e Malfoy, não eram o líder de uma guerra e seu braço direito, não eram o homem que estava convencido que matar mais de trezentas mil pessoas era o certo a se fazer e aquele que se deixara convencer: eram Harry e Draco. Eram mãos, pele, calor, intensidade e desejo.

Eram vestes no chão, sussurros leves, carícias.

Eram verde e cinza firmes um no outro, para ter a certeza de que queriam aquilo.

E Draco se deixou levar pelo mar de emoções que Harry era, preparando-o com cuidado, acalmando-o com sussurros quando a dor surgiu, tomando-o, por fim, com carinho, e sem pressa, fazendo com que se movessem juntos, amando cada sussurro, e gemido, e pedido, e lágrima de Harry como se fossem tesouros. E quando por fim atingiu seu clímax, estimulando Harry mais algumas vezes para que ele o seguisse, apenas correu as mãos pelos cabelos negros, vendo nos olhos verdes a certeza de que nada do que haviam feito diminuiria a dor, mas a amorteceria por saberem que estavam juntos, sabendo que Harry precisara daquilo tanto quanto ele.

E o abraçou contra si, acalentando sua cabeça sobre seu peito, acariciando seus cabelos até que ouvisse a respiração do moreno se acalmar, as lágrimas ainda molhando sua pele mesmo no sono.

E antes de dormir, Draco fechou os olhos, e sussurrou sua promessa, a única, talvez, que havia feito em toda a sua vida e que não tinha intenção alguma de quebrar.

"Eu nunca vou te deixar."


Estamos na reta final, e eu me sinto feliz em anunciar que já terminei de escrever A Soma. Mais um capítulo e o Epílogo apenas.

Nossa, nem acredito.

Agora sejam amores e

R E V I E W !