Esta história é uma fan fiction sobre a obra de Charlaine Harris, Southern Vampire Mysteries. Algumas personagens e passagens têm direitos de autor pertencentes a CH.

Comentem!

CAPÍTULO 3

CPOV

- Sim? – Atendi o telefone como se fosse salvar alguém da forca. Não sei que horas são, quanto tempo dormi e sinto-me cheia de dores, pela posição em que adormeci.

Do outro lado do telefone, o André falava e falava e eu não conseguia perceber nada.

- André podes abrandar um bocadinho? Eu estava a dormir, não estou a perceber nada! Que horas são?

- Vinte horas! – Gritou exasperado com tal violência que quase me rebentava um tímpano.

Jesus! Dormi catorze horas de seguida. Não admira que me sinta péssima!

- Dormi demais!

- Tu estás bem ou não? – Parecia que o André ia explodir do outro lado da linha.

- Estou! Mais ou menos! Assim-assim! – E quase que ri com a minha pobre descrição de como me sentia.

Acabei por ter que lhe explicar com todos os pormenores a noite passada, o estado caótico do meu braço e que tinha chegado demasiado cansada a casa e por isso dormi tantas horas de seguida.

O André continuava a falar depressa demais, nervoso com o meu estado físico, irritado com a vampira que me esmagou o braço, zangado porque eu não tinha nada que me ir meter num assunto que não me dizia respeito.

- O que te passou pela cabeça? – Gritava ele - Não achaste que eles são fisicamente capazes de se defender?

Ele tinha a sua razão mas não pensei nisso na altura. Havia um atacante e quis defender a ''vitima'', mesmo que essa vitima fosse muito mais forte que todos os humanos presentes, juntos!

Finalmente consegui acalma-lo e ele acabou por desligar a chamada.

Procurei desesperada por um café e de seguida encaminhei-me para o chuveiro. Quem diria que tomar banho com um braço imobilizado era tão difícil? Como se consegue lavar o cabelo com uma mão só?

Deixei-me ficar debaixo do chuveiro a sentir a água quente a escorrer pelo meu corpo. Aos poucos fui recordando a noite passada e não evitei lembrar-me dele.

Que colosso de homem, ou vampiro como diz o André!

Era quase como se tivesse sentido um poder que emanava do seu corpo e que esmagava todos em seu redor. Aqueles olhos tão azuis, tão brilhantes e ao mesmo tempo tão letais. Será possível resistir-lhe?

Já nem falo de força física mas sim de um certo poder hipnótico que ele distribui quando passa. Se não fosse o braço que me doía e que tinha que manter fora do fluxo de água, de certeza que a minha mente me teria encaminhado para outras fantasias mais quentes e mais sensuais.

Saí do chuveiro e procurei algo para vestir. A noite não estava fria e em minha casa muito menos, pelo que pude escolher uma t-shirt pois era o mais fácil de manobrar com o braço assim. Vestir os ''jeans'' foi mais difícil, ora puxando de um lado, ora puxando de outro e a aventura final foi conseguir puxar o fecho e fechar o botão. Estava exausta quando acabei!

Era sábado e não iria a lado nenhum antes de segunda-feira de manhã mas precisava treinar senão a próxima vez que precisasse de sair de casa ia levar uma eternidade para me arranjar ou então sempre poderia amarrar um lençol cor-de-laranja ao corpo e ir trabalhar tipo monge budista!

Sequei os meus longos cabelos loiros e alisei-os com a prancha. Como estava um pouco pálida resolvi maquilhar-me também. Isso é fácil de fazer apenas com uma mão. Muitos anos de experiência a maquilhar-me no meio do trânsito, trazem os seus frutos. Até consegui passar o ''eye-liner'' de forma irrepreensível sobre os meus olhos castanhos.

Olhei-me ao espelho. Gostei do meu reflexo. Agora é só tentar várias vezes até conseguir faze-lo em menos tempo.

Não tinha paciência para cozinhar, pelo que resolvi encomendar algo para enganar a fome. Passei o resto da noite no sofá a ver televisão e com a companhia de um livro. Algumas pessoas estranham isto em mim, ler com a televisão ligada mas para mim sempre foi natural. A televisão serve apenas de companhia, um certo barulho de fundo que me ajuda a concentrar no que estou a ler. Nos tempos de estudante, alguns colegas meus comentavam como precisavam de silêncio absoluto para estudar. Já eu preciso de algum som ou então parece que começo a ouvir os meus pensamentos e desconcentro-me no que estou a ler.

EPOV

Estacionei o carro na parte de trás do Fangtasia e entrei pela porta de serviço. O bar ainda estava vazio de clientes e encaminhei-me para o meu escritório.

Tirei o blusão e pendurei-o num cabide. Quando não preciso de me apresentar como um empresário conceituado, inserido na sociedade, prefiro este tipo de vestuário. Calças de ganga, t-shirt, blusão e botas. Vestir um fato e uma gravata é um aborrecimento por vezes necessário.

Estava envolvido no trabalho, lendo os e-mails que chegaram e a assinar um sem- número de documentos necessários quando senti o profundo aborrecimento de Pam através da nossa ligação.

Não é preciso ser vampiro para saber que o Vaseli chegou. Segundos depois a Pam estava à porta do escritório e antes de ela bater, dei-lhe ordem para que entrasse.

Ela entrou. Estava menos pálida mas muito mais irritada. Estava vestida com o chamado uniforme do Fangtasia, corpete e calças de cabedal bem justas e botas pretas até ao joelho. O tipo ''dominatrix'' que os turistas tanto adoram.

Colocou uma mão na cintura e levantou uma sobrancelha. Tive vontade de rir. Está com um humor de urso!

- Amo, Vasile solicita o seu tempo para apresentar cumprimentos. – Se ela não fosse uma vampira juraria que iria meter dois dedos à boca e provocar o vómito.

Não evitei sorrir e fiz-lhe sinal para que deixasse Vasile entrar, coisa que ela fez sem uma palavra.

Vasile aproximou-se da porta, abrindo a sua famosa capa e fazendo uma vénia claramente exagerada. Sempre foi muito teatral!

- Companheiro que prazer em rever-te! – Disse-lhe.

- Companheiro, o prazer é todo meu.

Fiz-lhe sinal para que se sentasse. Nós éramos conhecidos de longa data, pelas normas humanas podia até dizer-se que somos amigos mas, nós vampiros não nos cumprimentamos efusivamente como os humanos.

- O que te traz pela minha área, Vasile? – Havia largas décadas que não o via e estava curioso.

- Estou apenas em trânsito, como sempre, Eric. Como sabes, nunca fico muito tempo apenas num lugar e achei que era hora de visitar esta zona do mundo. Não ficarei muito tempo, apenas o suficiente para ver as vistas, reencontrar alguns companheiros e apreciar a ''gastronomia da zona''.

- Vasile, atenção! Nós aqui cumprimos as regras da sociedade! – Não quero ter problemas com a visita dele. Não poderá atacar ou matar humanos como faz em algumas zonas do mundo. Não pretendia ter que andar a limpar os problemas que ele causasse. Se quiser ficar terá que cumprir as minhas ordens.

- Companheiro, vais-me obrigar a beber aquela bebida nojenta a que vocês chamam de sangue? – Estava com um ar suplicante, como se isso funcionasse comigo. Ele conhece-me melhor que isso.

- Vasile! Tenho que te lembrar que eu sou a lei nesta área? Se quiseres ficar, terás que cumprir as minhas ordens e isso implica que não podes atacar nem matar humanos! – Nesta fase nem referi a existência de humanos cooperantes. Prefiro que ele entenda que tem de alimentar-se de sangue sintético do que andar por aí a perguntar a qualquer humano na rua, se importa de ser dador!

- Eric, isso vai ser um tédio mas tu és a lei e as tuas ordens são para cumprir. Tens a minha palavra que não atacarei nem matarei nenhum humano na tua área. – Disse inexpressivo

Conheço-o a muitos séculos e isso dá-me alguma segurança. Já o facto de me ter dado a sua palavra, não me trouxe nenhuma segurança adicional. Não teria chegado a esta idade se confiasse piamente na palavra de honra de um vampiro. Seja como for, ele sabe que se não cumprir as minhas ordens será severamente castigado e nem os anos de convivência em comum serão atenuante. Eu aplico a lei cegamente, doa a quem doer.

- Muito bem, és bem-vindo então. Conta-me o que andaste a fazer nas últimas décadas.

Vasile reclinou-se na cadeira, trocando a perna com um ar divertido, fazendo a sua capa voar por cima das costas da cadeira. Começou a pôr-me a par de todas as suas aventuras. Nos últimos anos esteve em muitas zonas do mundo, principalmente zonas de guerra e em convulsão social. É natural que assim tenha sido. Para alguém como ele agarrando às antigas técnicas de sobrevivência, as zonas de guerra do chamado terceiro mundo são uma fonte de alimentação constante. Os humanos podem simplesmente desaparecer que ninguém apontará os vampiros como os atacantes. Há sempre outros suspeitos: Forças governamentais, rebeldes, grupos terroristas.

De vez em quando fez umas breves incursões pelo mundo civilizado nunca ficando muito tempo no mesmo sítio. Quase todo o mundo civilizado têm lideres como eu, que impõem a lei e o Vasile não convive bem com isso. Ele não disse, mas eu sei que ele foi e é contra à Revelação. Para ele tudo estava bem antes, para que fomos complicar o que era simples? Se somos um predador, porque fomos avisar a presa da nossa presença? Ele não se adapta aos novos tempos e não compreende que até nós, predadores e assassinos nos cansámos de viver pelas sombras. Nem tudo é perfeito, obriga-nos a uma contenção pessoal que leva muitos anos a atingir e uma paciência que se aprende. Com o passar dos anos torna-se mais fácil. Não precisamos de tanto sangue para sobreviver e a contenção pessoal torna-se motivo de orgulho e não de sacrifício. Todos preferíamos matar um humano para nos alimentar, não só pelo sangue mas também pelo prazer de matar. Sim, ainda somos predadores e sim, os humanos são as nossas presas mas é também motivo de orgulho conseguir conviver com eles e não os atacar. Para os vampiros mais novos é mais difícil. Sentem-se frustrados e irritados mas o facto de saberem que a lei é rígida e que não permitimos desvarios, ajuda-os a manter o controlo.

Vasile continuava a contar-me as suas caçadas, não tendo noção de como essa atitude já não era bem vista entre nós, quando recebi uma mensagem de texto no telemóvel.

''Parabéns. O negócio final foi fechado e é neste momento o único proprietário de todos os edifícios da zona. Precisamos marcar um encontro para preparar a segunda fase. Ryan''

Sem desviar os olhos de Vasile, respondi:

''Segunda-feira, no vosso escritório, às 21 horas. Assegurem-se que estarão sozinhos. E.''

De seguida apaguei as mensagens.

A minha acção não passou despercebida a Vasile.

- Estou a ver que estás muito ocupado. Geres aqui um pequeno império. – Disse ele esperando que eu lhe desse alguma informação.

Não lhe fiz a vontade. Há apenas uma pessoa em quem confio, que é a Pam e nem ela sabe dos meus mais recentes planos. Sei que ela não será contra e que a ideia de ver o Fangtasia rodeado de toda uma zona turística e fervilhante lhe trará um sorriso ao seu bonito rosto. No entanto, prefiro fazer-lhe essa surpresa.

- Tens onde passar o dia? – Perguntei-lhe

- Sim, já encontrei um cemitério aqui perto.

Claro! Vasile não escolheria uma casa ou um hotel. Os vampiros de outra época descansam na terra. Também o fiz muitas vezes ao longo do último milénio mas hoje em dia isso seria apenas um motivo de irritação e não um prazer.

- Muito bem!

Precisava trabalhar nos meus planos e definir os tópicos que queria ver discutidos com o Ryan e o Gerald na nossa reunião. Quero decidir sobre a renovação de cada um dos edifícios pessoalmente. Escolher quais serão para o meio empresarial diurno e quais serão para os estabelecimentos nocturnos. Ver a viabilidade de alguns e decidir sobre a destruição de outros para dar origem a novos. Assim sendo, dispensei o Vasile e informei-o que poderia apreciar uma bebida no bar. Ele fez uma cara feia mas com um leve aceno de cabeça, saiu pela porta, esvoaçando a capa com a ajuda das mãos.

- Pam!

Ela entrou de imediato.

- Não o percas de vista.

A Pam assoprou.

- Agora tenho que fazer de baby-sitter ao ''vamp erectus''? – A Pam arranja sempre novos termos quando não gosta de alguém.

- Pam!

- Sim, eu sei, desculpa, não queres ter problemas com ele. Vou-lhe pôr uma coleira apertadinha e talvez até um açaime!

A Pam pode ser insolente mas não é nada tola. Sabe bem que um de nós sem contenção pessoal significa problemas que não podemos ter.

A presença do Vasile poderá ser um problema e quero tê-lo o mais controlado possível. Não gostaria de ter que o matar, coisa que não hesitarei em fazer, caso ele não cumpra as minhas ordens.