Capítulo 2 ---- Solidão

O céu já estava escurecendo, e todos começaram a entrar em suas casas. Anti demorou para voltar. Ficou encostado na fonte da cidade... Esperando a noite cair...

Assim que a lua apareceu, Roxas deixou o castelo. Ele fingiu ser um rapaz normal dessa vez, andando pela cidade em vez de saltar pelas construções.

Muitas pessoas olhavam para ele, pelas vestes estranhas, olheiras, pele pálida...Fora o fato de que ele estava fora de casa quando estavam dando o toque de recolher.

Por sorte ele passou pela fonte, onde Anti tinha caído no sono.

"Estava pensando em fugir?" Roxas perguntou, sorrindo sarcasticamente, enquanto Anti ainda dormia. "Se esqueceu que eu ia comer seu irmão?"

Anti apenas fez uma respiração mais violenta.

"Pelo menos me obedeceu e não tem nada escondendo seu pescoço..." Sorriu ainda mais, e passou o indicador pelo pescoço de Anti.

"Aah!" Anti acordou ao sentir o dedo longo e gelado de Roxas. Anti puxou o braço de Roxas, que se desequilibrou e derrubou os dois.

Após se recompor, Roxas se colocou em cima de Anti, segurando seus braços. Abriu bem a boca, mostrando os longos caninos para o rapaz, que se apavorou.

Mas Anti não podia se mexer. Era incrível – "como um rapaz magrinho e pálido como ele é tão forte?" – ele pensava.

Ele tentou se mover de todas as maneiras. Mas Roxas não permitiu.

O vampiro estava se aproximando do pescoço de Anti. O garoto fechou os olhos, mas Roxas rosnou entre os dentes, como se quisesse que Anti o olhasse.

"Espero que tenha ao menos se despedido de seus amigos." Roxas disse, quando encostou o rosto no pescoço de Anti, farejando suas veias, a boca bem aberta.

"Meus amigos..." Anti sussurrou, tentando desviar o pensamento de que havia um vampiro pronto para o morder. "...eu nem disse nada pra eles antes de sair..."

Roxas abriu os olhos, antes fechados. Sua boca já não estava tão aberta.

"Vai, me morde logo, o que está esperando? Não está com fome?" Disse Anti, quando percebeu que Roxas parou de cheirar seu pescoço como quem cheirava carne antes do almoço, e agora estava parado com o rosto em seu pescoço.

"...Bem que eles disseram que eu não conseguiria..." Roxas riu, e em seguida, se levantou. Anti olhou para ele, muito confuso.

Roxas deu as costas para Anti e foi embora sem dizer uma palavra.

Antes que desaparecesse totalmente de vista, porém, Anti se levantou.

"E- Espera aí!" Gritou Anti. "Para onde você vai? Por que não me mata logo!?"

"É tão grande assim seu desejo de morrer nas minhas mãos?"

Anti se surpreendeu com a resposta. Um vampiro que tinha piedade? Essa era nova...Até para ele.

Roxas mandou um "tchau" com as mãos. "Não pense que está livre de mim. Nos veremos novamente..."

"Sim..Eu...Eu sei..." Anti gaguejou, finalmente se dando conta de que estava vivo.

E sorrindo, Roxas desapareceu no escuro da noite.

E não era um sorriso maléfico como ele tinha dado antes de ameaçar mordê-lo...

Anti só se deu conta que estava de volta em sua casa quando acordou. Eram 3 da manhã, e ele estava em sua cama, coberto.

Apesar de se perguntar como ele tinha ido parar ali, Anti voltou a dormir.

Ele acordou 6:30, horário de sempre. Vestiu seu uniforme, tomou o café da manhã com seu irmão e foi para a escola (Sora estudava numa escola diferente).

Na porta da escola ele pode ver seus amigos, Olette se lamentando.

"E se ele morreu? E se virou um vampiro!?" Olette dizia, andando para lá e para cá, com as mãos no rosto.

"VIVO." Disse Fujin.

"Como você pode saber?" Perguntou Wakka.

Fujin então apontou para o outro lado da rua, onde Anti estava, correndo para a escola.

"AH! É o Anti!" Gritou Yuffie, feliz, com o braço esquerdo engessado.

"Yuffie!" Disse Anti, assim que chegou. "Você saiu do hospital! Que bom!"

Yuffie coçou a nuca e sorriu. "Eles me disseram que você está sendo ameaçado por um vampiro também!"

"Eu não sei o que deu no tal Roxas, mas ele está se recusando a me matar..." Disse Anti, olhando para o céu, ainda acinzentado. "Apesar de que ontem eu quase fui..."

"Mas você saiu inteiro de novo! A maioria saiu pelo menos com algo quebrado!" Disse Olette.

"Desse jeito parece até que vocês não estão felizes por eu estar inteiro." Ele respondeu. Olette olhou para ele sem graça.

"Não é isso...! É que você é muito sortudo!" Olette tentou se explicar.

"É...Tá certo então..." Anti estava meio cabisbaixo.

Os amigos de Anti se entreolharam, como se perguntassem algo um ao outro.

Empurraram Fujin para frente.

Fujin coçou a nuca. "TUDO--" Deu uma tossida. "--BEM?"

"...Fuu?" Perguntou Anti. "Você disse mais de uma palavra?"

Fujin ficou um pouco sem graça, mas logo recompôs sua pose séria.

"RESPONDA..."

"...Sim, tudo bem...Por que não estaria?" Anti fingiu sorrir.

"ROXAS..." Fujin desistiu, e entrou na escola.

"Número 14...Maya."
"Maya?"

"Puxa...O que aconteceu com ela?" Olette cochichou para os amigos.

"Morreu?" Wakka disse.

"Ai, Wakka!" Yuffie criticou.

"Ou foi atacada." Disse Anti.

"Que horror, Anti!" Disse Wakka.

"É possível." Disse Anti.

"É capaz...Mas os vampiros estavam mais calmos ontem." Disse Yuffie.

"Os cinco, prestem atenção na aula!" Disse o professor.

Ninguém sabia, mas Anti e Maya eram bem próximos. No intervalo, todos se perguntavam para onde Anti ia. Os dois ficavam sempre juntos, e muitas garotas tinham inveja dela (como também tinham de Fujin, Yuffie e Olette).

Todos os dias, a única pessoa em que ele pensava era Maya. Linda, morena Maya...

Mas o vampiro fez com que isso mudasse, e a única coisa que ocupava seus pensamentos era ele. Roxas.

A falta de atenção que ele deu a Maya o alertou. Por que tinha esquecido dela?

"Por que...me esqueci...dela...?" Ele sussurrou.

Fujin o olhou. Com certeza ele não estava bem. Do grupo inteiro, ela era a que mais se preocupava com Anti, tendo em vista que Olette não pensava nos sentimentos de Anti antes de dizer-lhe algo.

"anti?" Ela sussurrou de volta. Anti se surpreendeu ao ver que alguém tinha ouvido.

"...Não é nada, Fuu."

"mentira."

"Algum dia...Eu te falo..."

"...certo."

O dia passou, e Anti estava se sentido mal, Sentia falta de Maya. O seu sorriso... Seu sorriso seria a única coisa capaz de acalmá-lo agora...

A aula acabou, e Anti foi direto para casa. Sora estava lá, sorrindo muito. O que será que aconteceu para ele estar tão feliz? A tia Rosa morreu?

"Anti, você não vai acreditar!" Sora o recepcionou.

"O que aconteceu?"

"Minhas notas foram tão boas, que eu ganhei uma bolsa no colégio McDowell!"

"McDowell!? Mas é uma escola de gênios! E fica a quilômetros daqui!"

"Pois é, me arranjaram um lugar pra ficar lá!"

"Mas isso é ótimo!" principalmente porque Roxas nunca o encontraria lá. "Quando saímos!?"

"Uh...Sabe Anti...é que...bem..."

"Qual é o problema? É claro que eu vou com você! Não é?"

"É que a bolsa, como sabe, é pra uma pessoa só...Assim como a viagem e a moradia..."

"Ah...Certo...Mas...Eu vou ficar sozinho...?"

"Sinto muito, maninho...Mas é a oportunidade da minha vida e..."

"Não tem problema...Eu...fico...aqui..."

Não é preciso ser um gênio para saber que Anti ficou chorando no quarto até cansar. Ele ia ficar sozinho. Completamente sozinho...

Quando Sora ia embora, Anti não se despediu dele. Não podia. Não queria. Era melhor adiar a solidão do que fazê-la mais dolorosa...

Ele nem percebeu a noite cair. Não havia nada que ele podia fazer além de esperar que o vampiro o matasse hoje.

Já estava escuro, e Anti decidiu se trocar. Enquanto trocava a camisa, porém, a janela se abriu, e dela, Roxas.

"Ei, mas que safadeza é essa!?" Anti gritou ao ver o vampiro.

"ARGH!" Roxas guinchou, quando notou que Anti estava sem camisa. "Veste alguma coisa, seu indecente!"

"Então vira pro outro lado, inteligência!"

Roxas obedeceu, com o rosto um tanto corado, apesar da palidez. Anti não se sentia confortável se despindo com outra pessoa no quarto, mas expulsá-lo não era uma opção. Roxas se sentia menos confortável ainda, ouvindo os sons das roupas descobrindo e cobrindo o corpo de sua vítima. Era constrangedor...para os dois.

"Você já acabou?" Roxas perguntou, quando o movimento cessou.

"Sim." Anti respondeu, já vestido com seu pijama.

"ÓTIMO!" Roxas então se lançou em Anti, com os caninos á mostra.

"Ai! Eu me vesti só pra morrer!?"

"Espera, cadê seu irmão? Ele não devia ter desconfiado dessa barulheira toda?"

"Ele...foi embora..." Disse Anti, com uma profunda tristeza em sua voz.

"Oh..."

Roxas largou Anti, parecendo decepcionado. Anti o olhou, confuso.

"Por que não me mata logo?!" Anti gritou, com lágrimas nos olhos. "Não vê que não sobrou--"

"--Não sobrou mais nada para você nesse mundo, não é isso?" Roxas completou, num tom gentil, que acalmou Anti, ainda confuso.

Os olhos de Roxas começaram a brilhar. Não como os de Anti. Brilhavam de tristeza. Brilhavam, molhados pela eterna solidão.

"Meus pais morreram quando eu ainda era muito pequeno." Contou Roxas, de costas para Anti. "Eu morava com meu irmão mais velho, mas ele foi estudar no exterior e eu fiquei. Minha namorada... Naminé... Bela Naminé... Foi assassinada pelo mesmo vampiro que me mordeu..."

"Você...Você..." Anti gaguejou, perplexo. Eles eram...iguais...

"Me chame de Roxas. Roxas Lestat."

"Anti Andrews." Anti estendeu a mão. Roxas apenas observou. "Ah...Certo...Nada de brincar com a comida..."

Mas quando Anti ia abaixar a mão, a mão fria de Roxas a apertou. Depois disso, Anti decidiu que nada mais o surpreenderia.

"Não estou brincando com a minha comida." Disse Roxas, ao soltar a mão de Anti. "Estou tentando me convencer a comê-la."

"Roxas..."

Anti e Roxas ficaram muito tempo se encarando, até Roxas se levantar e saltar janela afora, desaparecendo na noite...