Capítulo 3 ---- Amizade

Anti se deitou. O cheiro das roupas de Roxas ainda estava em sua cama – o cheiro de roupas velhas sujas de sangue velho.

Mas aquilo não o incomodava. Pelo contrário. Por algum motivo isso o ajudou a dormir mais calmo... Era um cheiro ruim, mas que para ele estava mais doce do que mel...

Quando acordou, se vestiu e foi para a escola sem comer.

Na frente da escola, Fujin foi novamente a primeira a recepcioná-lo.

"ANTI." Ela disse.

"...Oi Fuu, o que foi?" Anti perguntou, sem dar atenção aos amigos que perguntavam sobre o tal vampiro.

"...VOCÊ..." Ela tossiu, e fazia uma breve pausa a cada palavra. "...FELIZ... ...HOJE..."

"Uh?" Ele respondeu, sem graça, coçando a nuca e olhando pros lados. "Você... você acha é?"

Ela simplesmente sorriu como resposta. Era muito estranho ver Fujin sorrindo... Ela era tão inexpressiva...

"Anti, responde!" Olette gritou para Anti, que ainda estava surpreso com o sorriso de Fujin. O lembrava de sua querida Maya...

"Uh...Foi bem, não teve nada de mais, ninguém se matou." Respondeu Anti, ainda olhando para a escola, para onde Fujin tinha ido.

Ele nem percebeu que já tinha ido para a sala de aula e sentado na carteira.

"Anti, está prestando atenção?" O professor perguntou. "Anti, está me ouvindo? Anti..."

"Não sobrou mais nada para você nesse mundo, não é isso?"

Roxas...

"Mas...Mas hein?" Anti colocou a mão na cabeça. A única coisa em que pensava agora era ele...

"Anti, você não me ouviu a aula inteira não é?" O professor perguntou.

"Uh...Não sei..."

"Pelo jeito não. A aula já acabou."

"COMO É?!"

Era verdade – a sala estava vazia, a não ser por ele.

"Que droga! Mas o que está acontecendo comigo!?!?" Anti perguntou, massageando as têmporas.

"Se quer minha opinião, você está gostando da Fujin."

"Não pedi sua opinião!"

Anti saiu da escola, enfurecido consigo mesmo. Roxas, Roxas, Roxas! Era a única coisa em que pensava!

Novamente Anti foi direto para casa. Não estava muito a fim de ver o Merlin hoje, nem de ficar falando com seus amigos do vampiro que o perseguia. Ele já ocupava demais seus pensamentos.

"Vai dormir, Roxas!"

"Eu não consigo..."

No castelo, Roxas e Axel discutiam. Axel estava basicamente capengando em cima de seu caixão, enquanto Roxas estava sentado, encostado em uma parede.

"Roxas, qual é o problema?" Perguntou Axel, após um breve bocejo.

"Ontem." Ele começou. "Eu me lembrei de algo que nunca quis ter lembrado. Da Naminé. E do vampiro que nos mordeu."

"Roxas...Ah, eu entendi. Você matou alguém que não devia e quer perdão."

"E você não sentiu nenhuma pena dela, não é?" Roxas o encarou. Axel fez uma cara de cachorrinho triste.

"Eu não sabia que ela era sua--"

"MENTIRA! Nós estávamos juntos! Nós estávamos indo pra casa! VOCÊ SABIA! E mesmo assim, poupou a mim, mas a matou!"

"Mas Roxas..."

"Por que você me deixou viver!? Só para sofrer com a perda dela!?"

"Mas você não gosta de mim? Não é meu amigo?"

"...Desculpe. Algumas coisas são melhores se não forem ditas."

Roxas seguiu para seu próprio quarto. Era o menor de todos. Ele tinha uma estante de livros, com um livro. Seu caixão estava jogado no chão. Ele tinha uma moldura de quadro, torta e vazia. Haviam restos humanos apodrecendo no chão. Marcas de sangue pelo quarto inteiro.

Ele gostaria de poder ver o quarto de Anti na luz do sol pelo menos uma vez...

Se deu um tapa na cara. Que idéia idiota era aquela!?

"Estou ficando doido de fome..." Ele disse para si mesmo.

Olhou para uma foto suja de terra e sangue, caída no chão.

"Nami...Naminé..." Ele sentou no chão novamente, e lágrimas rolaram por seu rosto.

Um misto de tristeza, saudade, amor e ódio se concentraram em seu coração. Ele estava perdido. Estava com fome, mas não conseguia matar sua presa.

Ele era um vampiro inútil que precisava de ajuda...

Eu odeio essa vida. –Os dois pensaram.

Anti ficou deitado na cama lendo um de seus livros. Ele ia esperar Roxas novamente. Para conversar com ele. Principalmente após aquela distração de um dia inteiro... Roxas... Será que ele se sentia da mesma maneira?

Roxas queria a mesma coisa. Estava apenas esperando a noite cair. Esperar o fazia se sentir mais vazio por dentro. Ele nunca mais havia sentido o calor do sol...Por dois longos anos... O frio parecia eterno...

Então, finalmente o sol se pôs. Roxas partiu, dessa vez usando roupas mais limpas. As pessoas continuavam o olhando, com medo de sua aparência doentia... Por incrível que pareça, Roxas preferia que fosse assim. Já estava acostumado a ser rejeitado pela humanidade...

Dessa vez, ele bateu na porta. Não queria dar de cara com um Anti sem camisa novamente, e sabia que ele era o único por lá.

Anti abriu. Dessa vez, ele não estava de pijama, e sim, com uma blusa branca, coberta por uma regata preta, e calça jeans bem larga.

"Que roupa esquisita." Disse Roxas.

"Digo o mesmo para você." Disse Anti, fazendo um gesto para que entrasse.

Roxas sentiu um cheiro gostoso, enchendo suas narinas, e o deixando com água na boca. Havia alguma coisa nas panelas da cozinha.

"Eu...estava fazendo meu jantar..." Anti disse, coçando a cabeça. "Eh...Está com fome...?"

Roxas se lançou em Anti mais uma vez, derrubando os dois, a mesa e duas cadeiras. Estava faminto. A cada vez que ia lá, as veias de Anti pareciam mais atraentes e apetitosas...

"Você rasgou minha roupa nova!" Anti disse, acordando Roxas de seu estado de semilucidez.

"...Desculpe..." Roxas murmurou, se levantando.

"Não é culpa sua." Disse Anti. "Se você quiser eu...Tô fazendo carne... Eu sei que vocês gostam de sangue mas..."

"Não se preocupe, eu posso comer..." Disse Roxas, de cabeça baixa.

Ao ouvir isso, Anti se animou e pegou dois pratos. Colocou um pedaço de bife em cada um deles, e Roxas farejou o ar. Adorava aquele cheiro de comida. O fazia lembrar de casa.

Sua casa...

"Você me lembra meu irmão..." Roxas murmurou sem pensar.

Anti o olhou, surpreso. "Jura? Você acha mesmo?"

"Hã...Desculpa...Disse isso sem pensar."

"...É bom saber que você pensa isso...Que eu sou como um irmão..." Anti sorriu.

Roxas o olhou, perplexo. Seu sorriso parecia tão sincero...

"...B-Bom, vamos comer..." Roxas gaguejou, um pouco sem graça.

Quando Anti sentou na mesa, bem em frente a Roxas, ele olhou para a manga rasgada da blusa. Seu braço estava todo arranhado.

As veias dele tornaram a ser muito atraentes...

Ele moveu um pouco a mão, desconcentrado, mas logo acordou, e começou a comer seu bife.

Fazia muito tempo que não comia algo assim...

"Isso está muito gostoso..." Ele murmurou.

"Obrigado!" Anti sorriu novamente, fazendo a atenção de Roxas se desviar mais uma vez...

"Roxas..." Ele acordou novamente. "Na verdade eu queria mesmo é um modo para conversarmos em paz..."

"Uh? Por que?"

"É que... Eu ando pensando demais..."

"...Pensando demais?"

"É...Eu me distraí...Por uma aula inteira... E a culpa é sua."

"MINHA!? Eu nem posso sair de dia, coisa!"

"Roxas...Você gostou só da Naminé?"

"U-uh... Uhum..."

"Estou ficando confuso...É estranho, gostar de duas pessoas..."

"Anti..."

"E como você anda?"

"Hã? Bem...Hã...Ah, sinceramente, todos me odeiam."

"Eu não te odeio! Não tanto. Você me odeia?"

"Anti... Pare de falar disso, nós somos amigos, tá? Tenha isso em--"

"...Nós somos amigos? Sério mesmo!?"

"Hã? Não foi bem isso que eu--"

"Eu estou muito feliz, Roxas! Eu achei que você só queria meu sangue e pronto, mas...Mas ser seu amigo é muito melhor!!"

Anti o abraçou, sem pensar. Quanto tempo eles ficaram assim?

Ninguém sabe. O tempo estava passando tão depressa...

"Ah! Caramba, eu tenho que dormir!" Anti gritou, quando finalmente voltou a si. "Uh... E me desculpe...pelo abraço..."

Os dois foram para o quarto de Anti. O dono do quarto se deitou, e Roxas se despediu enquanto ia para a janela.

"Espera! Você vai voltar, não vai?" Anti perguntou antes que Roxas fosse embora.

Este, porém, apenas sorriu e saltou para fora, desaparecendo na neblina que cobrira a cidade.

Roxas...

"desculpa pelo abraço"? Por acaso eles não podiam se abraçar?

Roxas só se atrapalhava cada vez mais quando pensava...