Já há algum tempo, Arthur encarava as próprias mãos, rígidas e brancas ao redor do copo de vidro. O uísque acabara há pouco, mas o ligeiro estado de torpor em que ele se encontrava não se devia à bebida. Ouviu, vagamente, a irmã mais nova se despedir de Merlin e voltar para a mesa onde todos estavam, mas, em sua cabeça, os ecos da conversa que acabara de presenciar – sem autorização, sua consciência sussurrou, fazendo-o sentir-se ainda mais culpado – sugavam toda a sua atenção.

'Eu sei que você ama ele, Mer, eu sei.'

Pela primeira vez, sentiu que Morgana tinha toda a razão em chamá-lo de idiota. Nunca se sentira tão… estúpido. E, no fundo, enganado, ainda que tentasse ignorar aquela linha de pensamento. (Treze anos. Ela sabia por todo esse tempo e não–) Aquela não era a melhor hora.

Arthur se sentia ainda mais idiota por ter descoberto daquela forma, como um garotinho curioso de cinco anos, tentando escutar a conversa dos adultos por trás da porta. Coisas daquele tipo não deveriam ser descobertas de um jeito tão escuso. Mas, se não fosse daquela maneira, Merlin algum dia teria lhe contado pessoalmente? Arthur engoliu em seco diante da resposta óbvia. Não.

Logicamente, ele entendia o significado de tudo o que acabara de ouvir – Arthur se retraiu, como se sentisse dor, ao lembrar que Merlin fora seu padrinho de casamento. Com um suspiro cansado, passou uma das mãos pelos olhos, afastando a franja do rosto. Logicamente, ele podia entender. Mas, mesmo assim, era difícil de acreditar que Merlin, seu melhor amigo, era o mesmo Merlin que acabara de admitir que…

'E eu sei que você também vai cuidar bem dele – porque Arthur pode não saber, mas ele também precisa de alguém que o ame e faça tudo por ele.'

Arthur inspirou longamente, tentando afastar a sensação fantasma de que um soco o atingira no estomago. Agora não.

Não fazia ideia de quanto tempo ficara naquela mesma posição, completamente imóvel, tentando absorver as palavras de um modo que fizessem sentido. Tentando ignorar pequenos detalhes ao longo de todos aqueles anos de amizade, detalhes que agora começavam a mudar de forma, como se alguém, de repente, acendesse uma luz sobre uma foto que estivera no escuro por tanto tempo, sem ele saber.

Sua cabeça já começava a latejar quando uma mão fria e envelhecida cobriu um de seus pulsos. Com um sobressalto, Arthur ergueu os olhos, aterrorizado com a ideia de que pudesse ser Merlin ou Morgana, que eles tivessem descoberto o que acabara de fazer e ouvir. Encontrou apenas o sorriso compreensivo de Gary.

"É isso que acontece quando você ouve conversas sem ser convidado, meu garoto." Apesar da repreensão, seu tom de voz era gentil. Ele tirou o copo vazio das mãos inertes do sobrinho e o substituiu por outro, com uma nova dose. Em seguida, deu dois tapinhas em um dos seus ombros. "Tome isso e vá para lá. Eu acho que ele está precisando de um amigo."

Arthur franziu o cenho e olhou na direção para onde o tio apontara. Para sua surpresa, Merlin continuava exatamente onde Morgana o deixara, e com a mesma expressão melancólica de antes, enquanto observava alguns casais dançando entre as mesas. O loiro suspirou. Certas nuances daquela foto realmente estavam ficando mais aparentes – e começando a ganhar novo sentido.

Com um sorriso rápido para Gary, o loiro pegou o próprio copo e se aproximou devagar, tentando não chamar atenção. Preferia que Merlin não desconfiasse que ele estivera por perto todo aquele tempo. Já estava quase ao lado do amigo quando o viu sorrir suavemente. Olhando na mesma direção que ele, Arthur teve a mesma reação. Em meio a outros casais, viu Leon levantar um dos braços de Morgana e fazê-la girar enquanto segurava sua mão, antes de envolvê-la pela cintura mais uma vez e voltarem a dançar, acompanhando o ritmo da música. Morgana ria abertamente.

"Você lembra quando a gente dançou essa música?"

Merlin reagiu com um sobressalto e um grasnido estrangulado que deixou sua garganta antes que pudesse evitar. Ele se virou com olhos arregalados para Arthur, que apenas ria com uma sobrancelha erguida. Demorou alguns segundos até que o homem pálido superasse a surpresa de vê-lo ali – depois de ser ignorado a noite inteira – e finalmente registrasse a pergunta que o loiro fizera.

Ao reconhecer a melodia de Hey Baby, um gemido mortificado deixou seus lábios enquanto Merlin cobria o rosto com as mãos. Mesmo assim, Arthur ainda conseguiu ver o rubor se espalhar até o pescoço e as orelhas do amigo.

"Como eu posso esquecer? Você não deixa."

"Não há nada de errado com Bruce Channel", o loiro comentou com leveza, enfim se sentando ao lado dele.

Merlin baixou as mãos para encará-lo com indignação. Arthur mordeu uma bochecha para conter o riso.

"Há tudo de errado com Bruce Channel quando se está na festa de aniversário de Uther Pendragon, dançando com o filho dele. O filho que, até então, ele não sabia que é gay!"

"Bi", Arthur corrigiu distraidamente. Merlin revirou os olhos. "O quê foi? É um clássico!"

O homem pálido o encarou como se ele fosse um caso perdido.

"Arthur, era uma cena de Ritmo Quente! Eu me senti ridículo! Não é à toa que o seu pai me odeia."

Um muxoxo foi a resposta do loiro.

"Você não estava ridículo. Você estava dançando comigo, afinal de contas."

"Ok, eu retiro o que disse. Você é ridículo."

Merlin, contudo, estava sorrindo, e as palavras soaram mais como um apelido carinhoso do que uma ofensa. Sentindo um nó formar-se repentinamente em sua garganta, Arthur desviou o olhar para os casais que dançavam. Lancelot e Gwen tinham se juntado a eles, mas nem o ar enjoativamente apaixonado dos dois conseguiu apagar o gosto amargo na boca de Arthur.

O loiro se perguntou se, depois daquele dia, conseguiria sentir algo além de culpa ao lado de Merlin.

Ele não queria aquilo.

Arthur queria ter o amigo como sempre o tivera. Sorrisos bobos, apaixonado por gatos e programas de humor sem graça, viciado em sorvete de morango, infantil em alguns momentos, a melhor pessoa para ouvir seus problemas na maior parte do tempo. Presente. O loiro se deu conta de que sentia falta de Merlin, e aquilo não era algo recente. O sentimento o acompanhara mesmo antes do casamento, e se agravara depois da cerimônia e da viagem.

Arthur o evitara a noite inteira, por um ressentimento que, naquele exato momento, não fazia mais sentido algum. Arthur sentiu uma súbita – e irracional – vontade de abraçar Merlin e se desculpar.

Noutro dia qualquer, talvez o tivesse feito.

Mas não naquele momento. As coisas já estavam mudando irrevogavelmente entre eles. Entre todos eles – Arthur não podia imaginar que, depois de tantos anos, os outros também não soubessem. Todos tinham a chave de um segredo que, eles sabiam, alteraria a dinâmica de todo o grupo caso viesse à tona.

E, no entanto, Arthur se surpreendeu com o pensamento de que, se pudesse voltar algumas horas no tempo, ele ainda assim escolheria ouvir aquela conversa mais uma vez. Talvez as coisas precisassem mudar, afinal de contas.

Se não por ele, então pelo bem de Merlin, que, como Morgana sempre o alertara, tinha a tendência pouco saudável de largar tudo e correr para Arthur a qualquer sinal de que o amigo precisasse de alguma coisa.

Tinha certeza de que, no fim de tudo, seus amigos, ao manter aquele segredo, haviam tentado proteger Merlin, e não ele. Estava na hora de Arthur colaborar de alguma forma com a causa.

"Então… eu tenho ouvido alguns boatos," Arthur tentou ser casual, terminando a dose de uísque enquanto observava o movimento ao redor, mas imediatamente sentiu o olhar de Merlin em seu rosto, "algo sobre um novo namorado?"

Quando enfim se voltou para o amigo, depois de longos minutos de silêncio, era Merlin quem o ignorava dessa vez, observando os casais com bochechas ligeiramente coradas. Arthur ergueu uma sobrancelha.

"O quê? Você achou que eu não fosse perceber o cara alto, com cabelo de garota, abraçando você e segurando a sua mão a noite inteira?" Arthur sorriu para disfarçar o tom pungente das palavras.

"Hm."

"Eloquente, Merl."

"Eu não… hm," Merlin pareceu engasgar, olhando-o de esguelha antes de continuar, "ele não é o meu… namorado."

"Ah, não? Então os olhares apaixonados eram para Morgana, não para você?", Arthur provocou, tentando não rir do desconforto do amigo. "Eu espero que Leon não tenha percebido."

Merlin bufou e, quando enfim se voltou para encarar o loiro, ele tinha uma conhecida expressão determinada, o que sempre o deixava com a aparência de um adolescente fazendo beicinho. A súbita torrente de afeição que preencheu Arthur naquele momento o fez piscar, surpreso consigo mesmo.

"Arthur, Leon me apresentou Gavin pela primeira vez há três semanas. A gente ainda 'tá se conhecendo."

Arthur já vira Merlin começar um namoro em muito menos tempo, mas, vendo o amigo começar a adotar uma posição defensiva, como se eles estivessem prestes a brigar, decidiu mudar de tática. Não queria aborrecer Merlin, apenas fazê-lo falar mais sobre Gavin.

"Hm… é mesmo? Então ele já deve saber que Amélie Poulain é a sua heroína favorita?" Foi imediato: o rosto de Merlin começou a ficar vermelho, para o prazer e diversão de Arthur. "E que você sempre chora assistindo Blue Valentine?" (Ei! Eles podiam ter ficado juntos no final!) "Ah! E que você acha Sweetest Thing a maior declaração de amor de todos os tempos?"

Para o alívio do loiro, viu os ombros de Merlin relaxarem.

"O seu problema com o Bono é que ele, ao contrário de você, pode esquecer o aniversário da mulher e se desculpar com uma música!" O homem pálido resmungou, fazendo uma careta.

"E não podemos esquecer o seu caso de amor com aquele ator loiro que fez um padre albino. Eu nunca lembro o nome. Com certeza, nosso amigo vai querer saber mais sobre isso", Arthur continuou com um sorriso provocativo, ignorando Merlin. Perdera a conta de quantas vezes ouvira aquela mesma resposta.

"O nome é Paul Bettany, e ele era um monge, não um padre. Você pode parar?", Merlin tentou soar indignado, mas ele estava rindo demais àquela altura para conseguir convencer alguém. "A ideia é que Gavin fique comigo, não que ele saia correndo assim que você entregar todos os meus segredos."

"Segredos? Merl, eu sinto informar, mas não tem nada menos secreto do que a sua paixonite por esse monge."

"Bem, ele não precisa saber que loiros são o meu ponto fraco, precisa? Seria uma concorrência desleal."

E, em qualquer outra situação, em qualquer outra conversa normal entre eles, aquela seria a deixa perfeita para que Arthur fizesse algum comentário típico, alguma piada infame como "eu, principalmente" ou "claro, você me conhece". Exceto que, depois do que acabara de descobrir, aquela estava longe de ser uma conversa normal.

Pânico o preencheu logo em seguida, porque, naquele exato momento, Arthur não sabia dizer se algum dia as coisas voltariam ao "normal" – se é que aquilo algum dia existira entre eles. Há quanto tempo Merlin vinha escondendo um detalhe tão importante? Como Arthur não percebera? Como aquilo tudo afetaria a amizade deles? Ele deveria contar a Merlin que sabia? Eram muitas perguntas, todas sem resposta. Aquilo o assustava.

"Arthur? Está tudo bem?"

O loiro não fazia ideia de qual era a sua expressão naquele momento, mas algo certamente o denunciava, considerando o olhar preocupado com que Merlin o encarava.

Ele alcançou o copo sobre o balcão com certa urgência, apenas para se dar conta, tarde demais, de que já estava vazio e se esquecera de pedir outra dose. Engoliu em seco. Talvez fosse melhor daquele jeito. Arthur passou uma mão pelo rosto antes de responder.

"Sim, sim… é só o cansaço da viagem e do trabalho."

Um sorriso suave se formou nos lábios de Merlin, e ele baixou os olhos para a própria bebida, os dedos fazendo círculos sobre o bocal da garrafa.

"E como foi a França?" O tom desejoso certamente não passou despercebido pelo loiro. Era difícil conhecer Merlin e não saber, em menos de meia hora, que um dos maiores sonhos dele sempre seria conhecer Paris.

Mais uma vez, Arthur se pegou questionando suas respostas típicas. "Provavelmente tudo com que você sempre sonhou" agora soava cruel demais, e "eu lembrei de você em cada esquina daquela cidade" era ainda pior. Aquilo estava se tornando cansativo demais.

"Foi incrível", acabou por responder, sincero. "Mas Lizzie e eu estamos exaustos."

"Hm."

"Você sabia que as setas azuis ainda estão lá?" Arthur tentou desviar a atenção do amigo, porque, de alguma forma, trazer Lizzie para a conversa também não parecia ser uma boa ideia. Para nenhum deles. Quando Merlin franziu o cenho, encarando-o com uma expressão confusa, Arthur tentou sorrir. "As setas azuis. Que Amélie desenhou no chão das escadarias da Sacre Coeur? Eu não lembro por quê, mas ela desenha-"

"Para entregar o álbum a Nino", Merlin completou, e ele o encarava com um sorriso que Arthur conhecia bem: de orelha a orelha, alcançando os olhos. "Elas estão lá? Mesmo?" E, antes que Arthur pudesse responder, ele continuou, mais suave, a voz ligeiramente rouca: "Você lembrou?"

"Como eu não lembraria? Eu devo ter assistido àquele filme com você umas-"

"Sete vezes", Merlin o interrompeu de novo, com convicção, antes de começar a rir. O loiro gesticulou distraidamente, como se dissesse "aí está a sua resposta". "Arthur! Você tirou fotos?"

"Claro que sim." Não foi difícil sorrir, diante do entusiasmo quase infantil do amigo. "Eu também trouxe—" E ali ele hesitou brevemente, mas, antes que Merlin pudesse perceber, continuou: "Depois eu passo pelo seu apartamento para mostrar as fotos. Você pode me ajudar a escolher algumas para revelar."

Merlin concordou com o mesmo sorriso brilhante de antes, e Arthur sentiu algo dentro de si contrair-se violentamente, antes de relaxar. Quando desviou o olhar para a pequena multidão ao redor, a primeira coisa que viu foi Gavin, olhando na direção deles com uma expressão contemplativa enquanto dançava com Elena. Arthur inspirou longamente. Já estava na hora.

"Eu preciso ir. Deixei Lizzie sozinha no apartamento, e eu duvido que ela vá engolir as minhas desculpas para não ajudar com a arrumação por muito mais tempo." Quando Merlin assentiu com um sorriso compreensivo, ainda que ligeiramente desanimado, Arthur começou a erguer-se, chamando a atenção de Gary com um aceno rápido de despedida antes de voltar-se para o amigo mais uma vez. "Bem, divirtam-se por mim e não façam nada que eu não faria."

Rindo baixo, Merlin balançou a cabeça e levantou-se para acompanhar o amigo até o corredor de entrada.

"Nah, eu também não vou demorar. Trabalho logo cedo", Merlin comentou distraidamente, enquanto ajudava o loiro a vestir uma manga do casaco, e depois a outra.

"No Centro?" Arthur perguntou, quando já estava vestido e encarando o amigo mais uma vez. Vendo-o confirmar, uma expressão de dó tomou o rosto do loiro. "Boa sorte com os monstrinhos."

"Não chame eles assim! Eles sentem a sua falta, sabia?"

"Bem, a recíproca não é verdadeira. Aquelas crianças, sem dúvida alguma, me ensinaram uma lição importante."

Merlin ergueu uma sobrancelha, um sorriso divertido no canto dos lábios.

"E qual foi?"

"Nunca lhe fazer um favor sem saber onde eu estou me metendo." Arthur enfatizou as palavras com uma careta, mas era difícil conter o riso.

"Não seja ridículo. Você também trabalha com crianças. Todos os dias, aliás. Eu só vou para o Centro nos finais de semana, como você bem sabe."

"Os meus pacientes, ao contrário dos seus monstrinhos, não pintam e desenham nas paredes."

"Isso é porque você nunca deu a eles a oportunidade", Merlin retrucou, tentando fazer uma careta maquiavélica, mas suas próprias risadas o atrapalharam.

Arthur apontou um dedo para o rosto do amigo.

"Fique longe do meu hospital."

"Só se você prometer participar de novo do próximo Dia da Profissão no Centro."

"Merlin! Você estava prestando atenção em alguma coisa do que eu disse nessa conversa?" Arthur exclamou, indignado com o fato de que o sorriso largo do amigo já era o suficiente para convencê-lo antes mesmo que pudesse protestar.

"Eu não estava brincando, as crianças realmente têm perguntado por você. Elas querem saber quando o médico loiro vai voltar", Merlin comentou com falsa casualidade, quando era óbvio que ele queria rir do amigo.

Arthur suspirou. Não duvidava de que o moreno tivesse convencido as crianças a chamá-lo daquele jeito.

"Nós conversamos depois sobre isso."

O que obviamente significava – os dois sabiam bem – que Arthur diria sim, mas não queria dar o braço a torcer tão rápido.

Merlin assentiu, ainda sorrindo, até que o silêncio se instalou entre eles, e de repente o seu rosto se transformou em uma máscara que Arthur não conseguiu interpretar.

"Eu senti a sua falta esses dias."

E ali estava. O momento ideal pelo qual Arthur estivera esperando há tanto tempo, provavelmente desde antes da viagem. Ele finalmente poderia fazer Merlin se sentir culpado por não ter respondido aos seus e-mails enquanto estivera na França. Por ter desaparecido ao final do casamento, sem se despedir. Talvez até pelo último ano, quando a amizade deles parecia ter lentamente desaparecido em meio a convites, decorações e roupas de festa.

Porém, naquele instante, tudo aquilo soava como picuinhas infantis, e as palavras nem mesmo se formaram em sua garganta. Arthur provavelmente já se sentia culpado o suficiente pelos dois, e ele estava cansado.

"Eu também", foi o que conseguiu dizer, limitando-se a apertar um dos ombros de Merlin e colocar alguns passos de distância entre eles. Naquele exato momento, não sabia se eles estavam preparados para qualquer contato além daquele. "A gente se fala."

Deixou o estabelecimento sem esperar uma resposta do amigo, e quando a porta se fechou às suas costas, abafando os primeiros versos de Raindrops Keep Falling on My Head, Arthur tentou ignorar a ironia ao ser atingido pela chuva do lado de fora.


Quando finalmente adentrou o apartamento, já era quase meia noite e todas as luzes pareciam estar apagadas. O estalo da fechadura soou muito mais alto do que deveria quando a porta se fechou às suas costas.

Arthur retirou o sobretudo escuro ainda no corredor de entrada, pendurando-o num dos cabides de parede com um cuidado que deixaria Lisabeth orgulhosa. Contudo, seus movimentos eram distraídos, e o olhar estava distante demais para dar-se conta do que estava fazendo.

Seguiu devagar até a sala de estar, ainda vestido com o casaco interno. Parando ao lado de uma das poltronas, Arthur começou a despir a peça de roupa, mas antes retirou a caixinha circular de madeira que estivera no bolso do seu casaco a noite inteira.

Um dos quartos estava aceso e com a porta aberta, e a luz fraca que vinha pelo corredor era o suficiente para iluminar o objeto em sua mão. O homem correu o polegar pelas imagens impressas ao redor da caixa de música – fotos da Torre Eiffel em diferentes estágios de construção – antes de girar a pequena manivela lateral. Um pequeno sorriso se formou no canto dos seus lábios quando as primeiras notas de Sweetest Thing soaram, parecendo uma canção de ninar.

Assim como o presente de Morgana, fora algo que Arthur havia visto e comprado imediatamente, sem pensar duas vezes.

"Arthur?"

O chamado distante o surpreendeu, e ele ergueu os olhos para o corredor, mas Lizzie não aparecera. Voltou a atenção para a caixinha de música em sua mão e, depois de hesitar por alguns segundos, dirigiu-se até a estante acima da televisão. Com um suspiro, Arthur colocou a caixa em meio a outras bugigangas que Lizzie adorava guardar como lembranças. Ficou parado ali por um instante, observando o presente desaparecer na sua estante, antes de se dirigir ao único cômodo aceso do apartamento.

Quando parou à porta do quarto, seus olhos se arregalaram. As paredes, que deveriam ser pêssego e haviam sido pintadas de laranja, agora estavam vermelhas, e havia enormes manchas disformes de tinta azul espalhadas ao longo delas. A tinta era recente, ainda escorrendo e formando pequenas veias em direção ao chão. Arthur piscou algumas vezes.

"Parece que ninguém nessa cidade estúpida sabe o que significa pêssego."

A voz da esposa atraiu sua atenção para onde ela estava, sentada no chão e recostada contra a única parede inteiramente vermelha. Havia tinta azul nos pés descalços, nas mãos e até no vestido branco que ela estava usando, um que Arthur tinha certeza estar entre os favoritos de Lizzie. Uma lata de tinta azul quase vazia estava largada no meio do quarto.

Tentando conter um sorriso, Arthur se aproximou e sentou ao lado da esposa. Ela imediatamente se inclinou, apoiando-se nele com um suspiro cansado, e o loiro a envolveu em um abraço, trazendo-a para mais perto. Naquela posição, conseguiu enxergar pequenas manchas azuis no rosto pálido dela, bem como algumas gotas espalhadas pelos cabelos escuros. Ele beijou a testa de Lizzie e lançou um olhar rápido ao redor.

Pela primeira vez, Arthur riu alto.

"Bem, eu até que gosto do visual… pós-moderno."

Lizzie riu baixinho, e uma de suas mãos atingiu-o no peito, sem qualquer intenção de machucar.

"Bobo." Quando Arthur apenas a abraçou mais forte, a mulher aconchegou-se mais, o rosto escondido na camisa do marido para sentir o cheiro da colônia que ele colocara antes de sair. "Você lembrou de explicar a Lance e Gwen por que eu não fui?"

"Você sabe que sim. Eles entenderam." Com um pequeno sorriso, Arthur enterrou o rosto nos cabelos escuros, ignorando o cheiro de tinta fresca. "Eu não sabia que você só estava querendo ficar sozinha para colocar os seus dotes artísticos em prática."

Ela apenas riu baixo.

"Gwen aceitou a sua oferta para fazer o bufê do casamento deles, por sinal. Ela quase me deu um abraço quando eu passei o recado." Ele sorriu ao lembrar-se da expressão agradecida da amiga. "Ela disse que liga para você amanhã."

"Hm, que bom", Lizzie murmurou, soando sonolenta.

O silêncio se prolongou depois daquilo, mas, talvez pela primeira vez naquela noite, o fato não incomodou Arthur. Estava confortável demais para tentar iniciar qualquer conversa, e Lizzie também parecia não se importar.

Ficaram naquela mesma posição por cerca de dez ou quinze minutos, apenas apreciando a presença um do outro – algo que parecia tão difícil desde que haviam chegado da França –, até que um suspiro longo de Lizzie alertou Arthur para o fato de que a esposa não estava dormindo.

"Eu estou cansada." As palavras dela soaram abafadas contra o seu peito. "Tão cansada. Eu odeio isso."

Arthur beijou a testa pálida mais uma vez, e ela o abraçou com mais força.

"Se esse é o melhor ano do meu casamento, eu não quero pensar nos piores." Eles riram juntos.

O loiro ergueu o queixo e encarou o teto por alguns instantes, antes de fechar os olhos e suspirar.

"Eu sei." Porque ele sabia exatamente o que ela estava sentindo, e o que mais havia a dizer além daquilo? Que era só uma fase transitória? Até tudo se encaixar? Arthur perdera a conta de quantas vezes já ouvira aquelas mesmas palavras, e elas nunca deixaram de soar desgastadas e sem valor, nem mesmo na primeira vez.

"Essa noite eu sonhei que a gente estava em Paris de novo", Lizzie comentou distraidamente. Sentindo que ela erguia o rosto, Arthur voltou a abrir os olhos, e quando se encararam, ele encontrou uma expressão exausta e um sorriso triste. Provavelmente um reflexo do seu próprio rosto. "Quando eu acordei, eu fiquei decepcionada. Eu queria que a gente ainda estivesse em Paris, Arthur."

O loiro se inclinou até poder beijar-lhe os lábios. Ela retornou a carícia, antes de acomodar o rosto no ombro dele. Quando Arthur fechou os olhos novamente, o cansaço começando a corroer seus músculos e a sua mente, a imagem de Merlin pegou-o de surpresa sob suas pálpebras. Lembrou-se do amigo há poucos minutos, quando o deixara na porta do bar, e do homem pálido fazendo um brinde em seu casamento. Arthur se lembrou de quando haviam dançado juntos, e dos olhos avermelhados de Merlin quando perguntara se algo estava errado.

'Você é muito mais do que o meu melhor amigo, Arthur.'

'Arthur pode não saber, mas ele também precisa de alguém que o ame e faça tudo por ele.'

'Não há nada errado. Está tudo bem.'

O homem respirou fundo, enquanto as lembranças agora ecoavam em sua cabeça, zombando-o por não ter se dado conta antes do que estava acontecendo ao seu redor. Quando finalmente respondeu a Lizzie, as palavras soaram amargas até mesmo aos seus ouvidos.

"Eu acho que nem Paris pode durar para sempre, meu bem."


People say friends don't destroy one another
What do they know about friends?
(The Mountain Goats)


N/A: Obrigada mais uma vez aos que lerem e comentarem. Eu não posso prometer que a próxima parte desse universo virá mais rápido, as coisas andam meio complicadas para mim. Mas outra história de Merlin, fora de "Felicidades", já está quase completa e deve ser publicada em breve, então fiquem atentos! Abraços.

Músicas citadas, por ordem de aparição:

1) Bruce Channel, "Hey Baby"

2) B.J. Thomas, "Raindrops Keep Falling On My Head"

Referências:

1) "Arthur, era uma cena de Ritmo Quente!" – "Ritmo Quente" (no original, Dirty Dancing, de 1987), filme de dança famoso, estrelado por Patrick Swayze e Jennifer Gray. "Hey Baby", de Bruce Channel, é uma das músicas dançadas pelo par romântico no filme.

2) "Hm… é mesmo? Então ele já deve saber que Amélie Poulain é a sua heroína favorita?"/"Você sabia que as setas azuis ainda estão lá?" - Amélie Poulain é a personagem principal do filme francês "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" (no original, Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, de 2001), interpretada por Audrey Tautou. As setas azuis se referem uma cena específica do filme.

3) "E que você sempre chora assistindo Blue Valentine?" - Blue Valentine (título original, traduzido para o português como "Namorados Para Sempre", de 2010), estrelado por Michele Williams e Ryan Gosling.

4) "Ah! E que você acha Sweetest Thing a maior declaração de amor de todos os tempos?" – "Sweetest Thing", da banda U2, é uma música composta pelo cantor Bono em 1987, supostamente como pedido de desculpas à esposa, Ali Hewson, por ter esquecido o seu aniversário.

5) "E não podemos esquecer o seu caso de amor com aquele ator loiro que fez um padre albino." - Paul Bettany, ator britânico, interpretou o monge albino Silas na adaptação para o cinema da obra "O Código Da Vinci", de 2006, estrelada por Tom Hanks.