Capitulo Dois
Eu não posso deixar aquele corpo daquele jeito ali, eu preciso chamar alguém para me ajudar.
Toco a campainha da casa mais próxima e fico esperando com uma ansiedade que mal posso controlar, porque será que estão demorando tanto para me atender? Talvez não tenha ninguém nessa casa, vou correndo para a casa ao lado e bato na porta com mais força e desespero que qualquer bandido que estivesse sendo perseguido conseguiria, ninguém me atende nessa também, aonde esta todo mundo? Em completo desespero vou para o lado do corpo e começo a gritar por ajuda, o mais auto que eu consigo, com a maior quantidade de urgência que posso colocar na minha voz. Mas não tem ninguém aqui para me ajudar. Estou sozinho ao lado de um corpo em estado de putrefação.
Enquanto estou em baixo do chuveiro, esfregando meu pé até minha pele ficar vermelha e ardendo, o celular esta no viva voz na minha décima tentativa de ligar para os meus pais. Desligo o chuveiro e vou para o meu quarto me trocar, eu preciso descobrir onde eles estão, aonde esta todo mundo, não posso ficar aqui de braço cruzado com a minha casa cheia de sangue e minha família desaparecida.
Depois de ter trocado o pijama por uma calça jeans e uma camiseta, pego a minha mochila e começo a colocar algumas coisas caso eu tenha que passar o dia no hospital ou algo parecido, escova e pasta de dente, mais uma calça e uma camiseta e o celular da minha mãe. Desço as escadas e coloco alguns pacotes de comida instantânea na mochila e vou em direção a porta da sala.
Quando estou na rua, me dou conta de que eu não tenho a menor idéia em que hospital eles poderiam estar, ou onde eles poderiam estar. Sigo na direção do corpo caído, o cheiro esta insuportável perto do cadáver que nesse momento esta muito inchado, eu não sei se foi falta de atenção minha, mas ele já estava sem uma perna quando estava vivo?
Pela primeira vez naquele dia me vem uma idéia que qualquer um teria feito antes de sair berrando na rua com vizinhos a beira da morte: obviamente eu deveria ligar para a policia. Disco o número e coloco o celular na orelha, são no máximo duas chamadas para uma voz feminina atender do outro lado.
– Polícia de Blytheville, posso ajudar?
– Oi, é que... É, eu acordei hoje de manha e meus pais...
– Só um minuto senhor, já voltarei a falar com você.
– O que? Espera, é uma emergência. – digo quase suplicando, mas o telefone já esta mudo.
Desligo o celular e disco novamente para a polícia, mas o telefone continua mudo, como se eu não tivesse digitado um número curto demais para completar a ligação. Não sei mais o que fazer, já são quase oito horas e eu ainda to aqui, sem ter feito nada. E ainda esse sino não me deixa pensar. O sino.
Estou correndo na direção do som, consigo ver a ponta da igreja, parece que quanto mais perto eu chego, um cheiro horrível vai ficando cada vez mais forte. Quando finalmente chego à esquina da rua da igreja, eu não acredito no que estou vendo, isso não pode ser real. Eu estou sonhando. Tenho certeza. Dezenas de corpos estão caídos no chão, talvez centenas, todos em volta de uma poça de vomito misturado com sangue. O que é tudo isso? Está um cheiro horrível de carniça.
No fim da rua eu consigo ver a igreja com as portas abertas e uma figura negra postada na frente balançando os braços pra mim, eu não sei se aquilo é real, eu to muito zonzo e chocado, eu não sei se tudo isso é real. Antes de eu conseguir fazer mais qualquer coisa, tudo já esta escuro, o silencio tomando conta dos meus sentidos. Tudo esta calmo outra vez. Calmo para mim.
Estou acordando, eu acho, só que esta mais macio e confortável do que uma rua estaria. Começo a abrir os olhos, mas a claridade está muito forte e faz meus olhos lacrimejarem, tento levantar o braço para tampar a luz com a mão, mas alguém segura o meu braço.
– Ele ta acordando! Rápido. – Escuto uma voz bem ao meu lado gritando com alguém, é uma voz forte, de um homem de pelo menos 25 anos.
– Não deixe ele se mexer, ele pode estar doente como os outros. – Alguém respondeu do meu outro lado, só que dessa vez era a voz calma, uma voz com sabedoria, era de uma mulher.
– Você não acha que se ele estivesse doente, ele já não estaria fedendo como um porco? E para mim, parece que ele acabo de sair de um conto de fadas. – Respondeu a primeira voz.
– Eu não sei em que contos de fadas tem um batalhão de gente podre caída na rua. – O tom de raiva ficou mais claro na minha voz do que eu queria. Estou erguendo o meu corpo e me apoio nos cotovelos, dessa vez ninguém me impede. – Onde eu estou?
– Você esta dentro da igreja, o padre viu você desmaiando e obrigou o Lucas a ir te buscar lá no meio, o que você tem na cabeça para sair correndo pelas ruas assim? – A mulher respondeu, mantendo a calma na voz.
– Como eu ia saber que... que estava acontecendo isso? Eu acordei hoje e minha família inteira tinha sumido, e não tinha ninguém nas casas vizinhas, o único lugar que parecia ter vida era aqui. – Respondi.
– Como você ia saber? Faz dois dias que as pessoas estão caindo mortas de repente! – Falou o homem do meu lado, que deve ser o Lucas.
– O que? Impossível! Eu fui para a escola ontem, ontem estava tudo bem, eu jantei com a minha família e fui dormir, impossível!
– Você foi para a escola ontem? Mesmo que não estivesse acontecendo tudo isso seria impossível, ontem foi domingo. – Falou a mulher, que estava começando a demonstrar medo na voz.
– Que? Hoje é... Hoje é segunda?
– Sim. Pelo menos era da ultima vez que eu chequei. – O padre estava parado no meio de dois candelabros em uma mesa em baixo da cruz, o fogo das velas não me deixava enxergar o rosto do homem, sendo possível só ver o perfil de um homem.
