Capitulo Três
Faz mais de trinta minutos que estou sentado em um dos bancos da igreja, eu não consigo mais pensa no que pode ter acontecido com a minha família. Eu já estou com as mãos com manchas roxas e cheias de cortes, depois de socar a posta da igreja para tentar sair atrás da minha família, era o mínimo que eu poderia esperar. Já xingue todo mundo ali de tudo que eu conseguia imaginar por ficarem me enchendo o saco com "fica calmo", como eu poderia ficar calmo? Será que ninguém aqui percebeu que metade da cidade esta morta? E mais do que isso, minha família esta desaparecida.
– Você esta mais calmo? – estou preocupado demais para notar que a menina aproximou-se e sentou ao meu lado.
– O que você acha? – eu estou quase berrando com ela, quando levando a cabeça para lhe encarar, a única coisa que eu consigo ver são olhos fundos e completamente preenchidos pelo cansaço e o medo. – Desculpe, eu não queria... É só que...
– Tudo bem, eu sei que não queria – seu sorriso fez com que eu me sentisse mais culpado ainda. – Sinto muito pela sua família.
– É... – eu não sei o que falar, é obvio que ela também perdeu alguém – ham... como você veio parar aqui?
– Fugindo, em um momento estava tudo bem, minha mãe e meu pai estavam chegando do supermercado, estávamos arrumando as compras nos armários, e no outro... – os seus olhos se encheram de lagrima e ela virou o rosto para baixo para tentar disfarçar.
– Sinto muito – antes mesmo de pensar, estou com a mão apoiada no ombro esquerdo dela – Não acredito que eu fui tão egoísta, nenhum de vocês esta aqui porque querem.
– Tudo bem, não te culpo, minha maior vontade agora é de sair correndo – sua mão direita esta sobre a minha – Posso saber o seu nome?
– É Finn – antes de poder concluir a frase, o padre que também estava sentado a um bom tempo na cadeira da mesa principal, se levantou e começou a nos chamar para se aproximarmos dele.
– Bom, eu estou sentado aqui a quase uma hora mexendo nesse pequeno radio a pila, e tudo que eu consegui achar foi estática. – Ele estava segurando um radinho medíocre, desses que se ganha em rifas de alunos da quinta série – Garoto, por acaso você tem um celular com você? – Demorei um pouco para perceber que ele estava falando comigo.
– Tenho sim, ta ali na mochila – Eu tinha esquecido completamente dela até aquele momento.
Entreguei o celular da minha mãe para o padre, ele começou a discar e colocar o celular na orelha varias vezes, sempre mantendo o rosto sério.
Aquele foi o primeiro momento em que pude prestar mais atenção em como era o lugar e as pessoas que estavam comigo.
A igreja era um lugar excepcionalmente frio, apesar de todas aquelas velas deixadas lá pelos devotos da cidade. Ainda que não fornecia calor ao local, elas emprestavam um ar meio melancólico às paredes e estatuas, isso quando não precisavam disputar a iluminação com os raios de sol que entravam pelos vitrais da abóboda central. Uma cruz de uns quatro ou cinco metros que está fixada na parede atrás da mesa principal atrai toda a atenção de quem está entrando na igreja, a cruz é inteira feita de prata e era muito fina, uns 5 centimetros de espessura , as pessoas acabam deixando passar os pequenos querubins de pedra que sorriem para o teto.
Lucas estava sentado no primeiro banco, esperando as conclusões do padre. Ele era um homem alto, não era exatamente magro mas também não estava acima do peso, tinha o cabelo curto que parece ser de um loiro escuro e tinha um rosto quadrado, a característica que mais me chamou a atenção foi o fato dele mancar com a perna esquerda.
A garota usa um rabo de cavalo simples, fazendo seu cabelo muito preto cair suavemente pelas costas, os peitos pequenos combinam com o rosto fino e a baixa estatura.
– O sinal do celular esta funcionando, mas nenhum numero esta recebendo chamadas – O padre esta estendendo o telefone para mim.
Pego o telefone da mão dele quando um barulho muito alto ecoa fora da igreja, mal da tempo de eu olhar para a porta quando um carro a estoura e entra empurrando os bancos para os lados. Sinto um empurrão no meu braço esquerdo, enquanto estou caindo seguro o braço da mulher e a puxo junto ao corpo.
No estante seguinte o carro bate na mesa principal, jogando-a na direção da enorme cruz, desprendendo-a da parede e caindo no chão com um barulho enorme de metal.
Levanto a cabeça para ver o que aconteceu e por um momento acho que vou desmaiar de novo, meu coração esta quase explodindo o meu peito.
– A propósito, meu nome é Tracy.
Ela começou a se levantar quando um grito horrível escapou da sua garganta, me fazendo voltar a si.
O padre foi cortado ao meio pela cruz.
