2011
"O que aconteceu pra vocês ficarem desse jeito?"
Assim que Melissa entrou no carro, viu House chateado, tentando se distrair com o rádio ligado.
"Não foi nada."
Ele foi aumentar o volume e ela segurou sua mão, olhando em seus olhos tristes.
"Pai, não precisa mentir pra mim. Nós sempre fomos sinceros um com o outro, não fomos?"
Ele apertou sua mão e deu um forte suspiro.
"Aquela corrente.."
"Eu não vi. Era a corrente que você deu pra ela quando começaram a namorar?"
"Sim."
"Você não sabia que ela usava ainda?"
"Eu imaginei que ela tivesse jogado fora, junto com todos os outros presentes que eu dei à ela."
Melissa apertou sua mão com o olhar mais compreensivo do mundo.
"Você não me respondeu se ainda a ama."
Ele respirou fundo mais uma vez e sorriu, mas não era um sorriso triste, era sincero.
"O que você acha?"
Melissa sorriu de volta, e lhe deu um beijo na bochecha.
"Eu tenho certeza que você ama. Como também sei que ela ama você."
House fez um carinho em sua mão e se virou, olhando pela janela do carro para a casa de Cuddy.
"Eu amo. Muito."
"Você ainda culpa ela?"
House voltou a olhar para Melissa, que mantinha sua expressão compreensiva.
"Eu nunca culpei a sua mãe."
Setembro, 1999
"Já entendi, mãe. Eu tenho dez anos, já sei me cuidar sozinha."
"Você ouviu isso, Greg? Nosso bebê acha que já é adulto."
House estava fazendo a barba e ria da conversa entre Melissa e Cuddy, ela iria dormir pela primeira vez na casa de uma amiga e Cuddy estava repassando todas as orientações pela terceira vez aquele dia.
"É melhor você ouvir a sua mãe. E nada de colar chiclete no cabelo das suas amigas enquanto elas dormem."
House gritou do banheiro e Melissa riu, gostando da idéia.
"Você tem que parar de dar essas idéias antes que ela perca todos os amigos."
Cuddy falou em um tom mais alto para ele escutar e pegou a mochila de Melissa.
"Vamos."
Melissa correu até o banheiro para dar um beijo em House e saiu de lá cheia de espuma de barbear no rosto. Cuddy pegou as chaves do carro e elas desceram a escada rapidamente.
Há três anos House estava tranquilo em seu emprego, isso porque a única diretora de hospital que o aceitou foi sua mulher. Desde o momento em que ela se tornou diretora do Princeton Plainsboro, ele conseguiu o cargo que tanto desejava, onde só recebia casos difíceis para diagnosticar.
Ele amava resolver esses problemas e descobrir doenças raras.
Sua vida finalmente estava perfeita para ele, tinha mulher, filha, um trabalho que amava e um novo melhor amigo, só não gostava de ter que acompanhar Cuddy nos eventos beneficentes prestados pelo hospital, coisa que teria que fazer aquela noite.
Ele separou um terno e fez a barba para ela não reclamar, estaria pronto para a festa antes dela voltar da casa da amiga de Melissa.
"House."
Wilson chegou na festa acompanhado de Sam e assim que avistou House e Cuddy foi cumprimentá-los.
"Oi Wilson, tudo bem?"
Cuddy o abraçou logo depois de House.
"Está gostando da festa?"
"Claro, está ótima. Eu acabei de vir da recepção, estamos arrecadando bastante coisa."
"Se Deus quiser logo nós teremos nossa nova ala de Oncologia."
Cuddy disse à ele com um enorme sorriso no rosto, ela estava muito animada aquela noite, ao contrário de House, que bebia um whisky atrás do outro.
"Amor, pára de beber um pouco."
Ela retirou o copo de sua mão e o puxou para a pista de dança, pedindo licença à Wilson e Sam.
"Eu só estava tentando me divertir. Você sabe que eu não gosto disso."
"Eu sei, mas você podia fazer um esforço por mim, né?
"Mais? Mais do que eu faço? Você não faz idéia do quanto eu odeio isso, é só muito amor mesmo."
Cuddy sorriu e envolveu seus braços nele, dançando juntinhos uma música lenta. Ela adorava quando ele resmungava assim, parecia o House que ela conheceu na faculdade.
"Lembra da nossa primeira música juntos?"
"Da música eu não lembro, mas eu me lembro do seu vestido."
"Sério?"
"Sério. Eu fiquei horas analisando a forma mais rápida de arrancar ele de você quando chegássemos no seu quarto."
Ela deu uma gostosa gargalhada e ele ficou encantado, ele adorava aquele sorriso.
House e Cuddy ficaram na pista de dança por mais algum tempo e foram embora um pouco depois da meia noite.
Ele ia abrindo a porta do carro quando ela passou em sua frente.
"De jeito nenhum. Você bebeu demais, deixa que eu dirijo."
Cuddy retirou a chave da mão dele e pediu que ele se sentasse ao lado dela.
"É bom mesmo você me obedecer."
Ela riu e deu um beijo na bochecha dele quando os dois entraram no carro.
"Só fiz isso com uma condição."
"É mesmo? E que condição é essa que eu não sabia?"
"Eu não precisei te perguntar porque eu sei que você vai querer fazer."
"O quê?"
Ela olhou pra ele sorrindo e ele fez uma das suas caras mais pervertidas.
"Você sabe o quê."
Cuddy deu a partida no carro e apertou sua coxa.
"Saber eu sei, só não sei se você vai aguentar. Você está bêbado demais."
Ela o provocou do jeito que ele mais gostava.
"Vá pra casa e veremos."
Cuddy dirigia atenta e devagar, pois alguns faróis estavam apagados aquela noite.
"Pára, Greg, você está me desconcentrando."
House começou a mexer em sua nuca.
"Olha pra frente, presta atenção."
Medir poder com ela era sempre sua melhor preliminar, ele adorava vê-la perder o controle, porque era sempre ele quem ganhava.
"Se você não me soltar eu vou parar o carro e nós vamos demorar mais pra chegar em casa."
Ele aumentou as carícias e se aproximou dela, beijando seu pescoço, Cuddy fechou os olhos e abriu seus lábios, deixando que ele envolvesse sua língua na boca dela.
Tudo isso durou apenas alguns segundos, mas quando ela abriu os olhos já era tarde demais.
Cuddy pisou no freio por reflexo, mas um carro havia passado o farol apagado em alta velocidade e bateu com toda a força na lateral do carro em que eles estavam.
Eles capotaram e ela acordou um pouco machucada alguns minutos depois.
"Greg?"
Ela olhou pro lado e House estava desacordado.
"Greg?"
Ela tentou chamá-lo mas ele não acordou, então soltou seu cinto e se forçou a sair pelo vidro quebrado do carro, indo para o outro lado para tentar tirar House dali. A batida tinha acontecido exatamente na lateral onde House estava e ele recebeu quase todo o choque da batida. A porta estava toda amassada e Cuddy não conseguiu abrir, não havia jeito de tirá-lo dali sem chamar os paramédicos.
Cuddy ligou para seu hospital e pediu uma ambulância imediatamente.
"Wilson.. Ele.."
Wilson chegou ao hospital pouco tempo depois de Cuddy ligar para ele. Ela estava desesperada e precisava de alguém para ficar com ela.
"O que aconteceu?"
Cuddy não conseguia falar direito de tanto chorar.
"Ele.. Ele está muito mal."
Wilson a envolveu em seus braços e se sentou com ela.
"Fica calma."
"Foi minha culpa..."
Ela chorava cada vez mais.
"Se eu tivesse prestado mais atenção.."
"Lisa, foi uma fatalidade, você não teve culpa. Se acalma, ele vai ficar bem."
Wilson continuou abraçado à ela, que tremia e chorava sem parar.
Algum tempo depois o médico que estava atendendo House foi conversar com Cuddy.
"Doutora Cuddy?"
Ela se levantou e o encarou com seus olhos vermelhos.
"Ele está bem?"
"Ele está estável, mas o caso dele é delicado, ele perdeu muito sangue."
"Onde? Algum órgão foi atingido?"
"Por sorte, não. Mas ele teve uma fratura exposta no fêmur e parte da perna direita foi amassada pelo choque. Infelizmente..."
"Infelizmente o quê?"
Seu coração estava pesado e ela quase não conseguia se manter em pé.
"Nós precisamos da sua autorização para amputar."
"Amputar?"
"É a única chance, o único jeito de tentarmos conter o sangramento, não existe possibilidade nenhuma de consertar a perna."
"Mas..."
Cuddy estava desesperada, sem saber como agir.
"É necessário."
Ela retirou a autorização das mãos do médico e assinou por impulso. Wilson apertou seu ombro e a levou para uma cadeira.
"Ele vai ficar bem, tudo vai ficar bem"
Cuddy andava de um lado para o outro esperando a cirurgia acabar, ela só precisava saber que ele estava bem.
"Doutora Cuddy?"
Ela foi até o médico tentando manter a calma.
"Como ele está?"
"Correu tudo bem na cirurgia, ele está vivo graças a você."
"Oh Meu Deus."
Cuddy colocou a mão no coração e respirou aliviada.
"Eu posso vê-lo?"
"Pode."
2011
Melissa dirigiu em silêncio até a casa de House, nenhum dos dois falou nada até ela estacionar o carro.
"Tem certeza?"
"Certeza do quê?"
"De que você não culpa a mamãe pelo que aconteceu."
"É claro que não, ela salvou a minha vida."
"Então por que você tratou ela daquela forma?"
House não soube responder, ele olhou para Melissa e viu Cuddy em sua frente, os mesmos olhos, o mesmo cabelo e a mesma delicadeza.
Melissa podia ter o gênio parecido com o dele, mas conseguia ser doce quando se tratava de assuntos delicados. Ela nunca havia questionado os motivos que o levaram a tratar Cuddy daquela forma até ouvir da boca dele que ele ainda a amava.
"Eu não sei."
"Pai, você tratou ela como lixo."
"Melissa..."
As palavras de Melissa fizeram lágrimas caírem do rosto de House, ele odiava lembrar do quanto foi cruel com Cuddy.
"Ela te ama tanto. Por que você fez isso?"
Melissa começou a chorar junto com ele e ele segurou sua mão.
"Só Deus sabe o quanto eu me arrependo."
"Vocês poderiam ter sido felizes."
Ele respirou fundo e tentou acreditar no que dizia.
"Não. Nós não seríamos."
"Por quê?"
Ele passou as mãos pelo rosto de Melissa, enxugando suas lágrimas.
"Eu mudei, a dor me transformou numa pessoa má. Um aleijado miserável que tinha uma prótese na perna e mesmo assim não conseguia andar direito porque nenhum tratamento resolveu o problema com a dor fantasma."
"Mas pai..."
"Eu era incapaz de fazê-la feliz. Ela não merecia viver presa à alguém assim."
House deu um beijo na bochecha de Melissa antes que voltasse a chorar e saiu do carro com uma dor psicológica em um membro que nem existia mais.
"Está tudo bem com a sua perna?"
Ela perguntou antes que ele entrasse em casa.
"Se você chama isso de perna.."
Ele se virou pra ela e puxou sua calça, mostrando um pedaço da prótese.
1999
"Suas coisas estão lá no quarto, pode pegar."
Cuddy nunca o olhou com tanto desprezo, foi a partir desse dia que ele começou a ter dificuldade em olhar nos olhos dela.
Ele sabia que ela estava sofrendo e isso rasgava seu coração, mas ele não se achava mais capaz de ter uma vida à dois, ou à três.
Melissa chorava baixinho sentada na escada.
"Meu amor, não precisa chorar. Eu prometo que venho te visitar todos os dias. "
"Promete mesmo?"
Ela fez um biquinho e ele a abraçou com todo o amor do mundo.
"Prometo. Eu nunca vou me separar de você."
Ele subiu para o quarto segurando uma bengala, a dor era forte demais pra ele conseguir andar direito, por mais que já estivesse acostumado com a prótese.
Quando chegou no quarto viu que Cuddy tinha deixado suas malas prontas em cima da cama.
Ele se sentou e segurou o travesseiro dela, fechando os olhos e sentindo seu perfume.
House queria abraçá-la e dizer que tudo entre eles ficaria bem, que ele iria se recuperar e voltar a ser quem era, que ela poderia sorrir de novo porque ele nunca mais iria magoá-la, mas isso tudo era tão difícil...
Ele desceu as escadas com as malas e viu que apenas Melissa o esperava na porta.
"Ela vai sentir a sua falta."
House tentou sorrir pra ela.
"Eu também vou sentir a falta dela."
Melissa o ajudou a abrir a porta e ficou observando ele ir até o carro.
"Tchau papai, eu te amo."
Ele abriu o porta-malas e jogou as malas lá dentro.
"Eu também amo você."
Da janela do quarto, Cuddy o observou ir embora em meio a um choro sentido e doloroso.
