Em algum lugar no sul da Austrália…
"Não!"
"O que foi, doutor House? Você não gostou do que viu?"
"É claro que não!"
Ele se levantou e passou a mão em sua perna direita pra ter a certeza de que ela ainda estava lá.
"Eu nunca aceitaria uma troca dessas."
"E por que não? Vocês foram felizes, muito felizes."
"Sim, nós fomos, mas qual o sentido em mudar a minha vida se eu não vou terminar com ela?"
"Você teve a chance de ter uma vida feliz. Estragar sua vida com a felicidade em suas mãos já não é problema meu."
"Eu não quero isso. Ver a Cuddy casada, com filhos e ter minha perna amputada certamente não é melhor que a bosta de vida que eu tenho agora."
"Bom, já que você não gostou da mudança, temo que eu tenha que retirar um pouquinho do seu dom."
"O quê? O combinado não era esse."
"Você não pode testar esses momentos sem me dar nada em troca, se no final você não escolher nenhum deles, eu sairei perdendo, não?"
"Você não pode fazer isso, você disse que seria uma troca apenas quando eu mudasse a minha vida."
"Eu disse, mas você é muito perigoso, doutor House. Eu estou começando a achar que você vai estragar novamente todas as possibilidades que eu te der."
"Eu não vou. Me dê a próxima pílula."
Morpheus entregou à ele.
"Preste bastante atenção dessa vez, eu já retirei uma parte de seu dom, posso retirar mais."
House se sentiu um pouco tonto quando ele disse isso, mas tentou pensar em algum momento onde ele poderia fazer a coisa certa e sua vida não teria tantas consequências com a mudança.
"Já imaginou que não é no meu apartamento que você gostaria de estar entrando agora?"
"Você está falando da Cuddy?"
"Ela é meio doida, mas é linda, inteligente, divertida..."
"Eu vim aqui porque há um mosquito assassino no meu apartamento."
"House, não tem nenhum mosquito. Tudo isso é sobre a Cuddy, você foi mordido na noite que a beijou, a coceira aumenta quando pensa nela, você precisa resolver isso."
"Ela é minha chefe."
"Você não tem medo disso, tem medo dela ser a pessoa certa pra você, tem medo de se arriscar."
"Eu não estou racionalizando, eu só estou melhor sozinho."
"Vá pra casa. Ou melhor, vá até a casa da Cuddy e a convide pra sair, como gente normal faz."
House estava em casa, pensando sobre a conversa que teve com Wilson na noite anterior.
Ele estava certo, não era a picada de mosquito que o incomodava, era alguma coisa nova. Alguma coisa diferente estava acontecendo dentro dele desde a noite em que ele a beijou, era um sentimento estranho e vivo, que causava batimentos agitados e frio na barriga.
Depois de tanto anos isso de repente parecia tão claro, ele estava, ou talvez sempre fora apaixonado por ela e nunca percebeu.
O incômodo ia continuar se ele não fizesse alguma coisa.
House pegou rapidamente as chaves da moto e foi até a casa dela, disposto a por um fim nessa agitação.
Cuddy tomava um chá quando ouviu sua campainha tocar, ela estava um pouco distraída aquele dia, na verdade ela andava meio aérea desde o dia em que House a beijou, despertando sentimentos que ela imaginou que já tivessem desaparecido.
Ela se levantou e foi até a porta.
"House?"
"Eu posso entrar?"
"Claro."
Ela abriu passagem para que ele entrasse e estranhou seu jeito calmo, ele geralmente aparecia em sua casa nervoso ou agitado, querendo uma assinatura para algum procedimento complicado. Normalmente eram casos de vida ou morte.
"O que você está fazendo aqui?"
"Você... Você está bem?"
"Estou. Estou melhor. Como você disse, não há só um bebê no oceano."
House acenou a cabeça meio tímido e Cuddy não entendeu nada do que estava acontecendo.
"Alguma coisa especial te trouxe até aqui hoje?"
"Você... Quer dar uma volta, passear um pouco?"
"Com você?"
Era óbvio que era com ele, mas ela ficou tão nervosa que quase não acreditou que ele a estivesse chamando pra sair.
"Sim. Você quer?"
Ela pensou por alguns minutos para dar a resposta que sempre esteve pronta em seus lábios.
"Claro."
Com certeza ela sairia com ele.
"Você espera eu me trocar? É rápido."
"Espero, pode ir."
House se sentou no sofá e esperou que ela se arrumasse, pensando em onde poderia levá-la.
Meia hora depois ela estava pronta, linda, ele quase se perdeu enquanto a via descendo a escada.
"Você está linda."
Ela sorriu tímida e ainda mais encantadora.
"Obrigada. Já sabe onde vamos?"
Ele tinha acabado de decidir.
"Pensei em cinema e jantar. Você gosta de comida japonesa?"
"Gosto sim, pra mim está ótimo."
House piscou pra ela e foi em direção à porta, se lembrando de que tinha ido lá de moto.
"Algum problema em nós irmos na minha moto?"
Ela não queria deixá-lo chateado, mas odiava andar de moto, o vento era gelado e estragava o cabelo, além de ser desconfortável.
"Eu...Preferia ir de carro. Você sabe.."
"Não tem problema."
Ele respondeu antes que ela pudesse se desculpar.
"Então vamos."
Ela pegou a chave do carro e ele a seguiu.
"Cinema antes?"
"Sim. Acho que as próximas sessões começam daqui a pouco."
House e Cuddy chegaram no cinema um pouco antes das 21h e foram imediatamente ver quais filmes estavam em cartaz.
"Batman - O cavaleiro das trevas?"
"Oh, não. Eu ainda não estou pronta pra ver um filme do Heath Ledger, eu adorava ele."
"Indiana Jones?"
"Eu vi semana passada, odiei. O Spielberg decidiu enfiar ETs nesse filme também, ficou chato demais."
"Speed Racer?"
"Eu tenho trauma do desenho."
"Ok, vou deixar você decidir, então."
House falou brincando mas ela percebeu que estava exigente demais.
"Eu estou muito chata?"
"Não, imagina, você quase nunca é chata."
Cuddy sorriu e olhou para os próximos filmes enquanto ele a avisava dos filmes que não assistiria de jeito nenhum.
"Desde que não seja Sex and the City, nem as Crônicas de Nárnia, eu assisto qualquer coisa."
Ela terminou de ver a lista e percebeu que tirando esses só sobrava mais um.
"Que ótimo, porque só tem Madagascar 2."
"Então vamos ver Madagascar, eu adorei o primeiro. Qual era o nome daquele bichinho que dançava 'I like to move it'?"
"Rei Julian?"
"Exatamente. Ele era demais."
Cuddy deu uma pequena risada, ela não imaginava que House ainda gostasse de desenhos, mesmo ele tendo um gosto peculiar pra programas e filmes.
"E também tem aquela sessão especial.."
Ela o puxou para uma lista de filmes especiais que estavam passando aquele mês.
"Especial Romance de todos os tempos."
Ele leu.
"Você está brincando comigo?"
"Vamos ver quais são os filmes."
House deu um longo suspiro e começou a ler.
"Uma linda mulher, O casamento do meu melhor amigo, Um amor pra recordar, Don Juan, Dança Comigo, Dirty Dancing, Ghost..."
Ele se virou pra ela com um enorme sorriso irônico.
"Nem por um decreto eu vou assistir Ghost."
Cuddy deu risada, seria divertido vê-lo assistir Ghost.
"Mas hoje é quarta-feira, o filme é..."
Ela procurou o filme do dia e encontrou uma sessão que começaria nos próximos 20 minutos.
"A casa do lago."
House olhou pra ela com cara de enjoado e ela sorriu.
"Você já viu esse filme?"
"Não e você?"
"Não, mas deve ser meloso demais."
"Parece bonitinho. Aqui tem a sinopse."
Ela pegou um panfleto e começou a ler em voz alta, mas ele a interrompeu.
"Tudo bem. É melhor eu não saber a sinopse, senão eu desisto e te enfio no Madagascar."
Ele deu uma leve risada.
"Ta bom, vamos pra fila."
Cuddy achou fofo ele aceitar, não era qualquer homem que aceitaria assistir esse tipo de filme, ele estava sendo gentil, ou tentando ser. Era bom, era um sinal de que ele estava fazendo algo por ela.
Ela se aproximou dele tentando animá-lo.
"Tem a Sandra Bulock."
House olhou pra ela com um sorriso sexy.
"Agora eu estou começando a gostar. Sandra Bullock é hot."
"Tem o Keanu Reeves também."
Ela sorriu e viu a expressão dele cair.
"É.. não se pode ter tudo."
Eles compraram os ingressos e foram para a fila da pipoca, em pouco tempo já estavam acomodados na sala, que tinha poucos casais.
"Eu acho que ele morre no final."
"Fica quieto, House."
"Quem viagem de história é essa? Eles estão trocando cartas em épocas diferentes?"
"Eles moram na mesma casa em épocas diferentes, ué."
"Mas isso não é possível."
"É claro que não, isso é um filme."
"Que história complicada."
Cuddy revirou os olhos e tirou o refrigerante das mãos dele.
"Ela está lá em 14 de abril de 2006 e ele em 14 de abril de 2004?"
"Uau, você é um gênio."
"Mas cadê ela em 2004?"
"Ainda não tinha ido morar lá."
"E ele em 2006?"
"Não sei, House. Eu ainda não vi o filme."
"Você moraria em uma casa de vidro assim?"
"House! Será que você pode me deixar ver o filme?"
Ele ficou quieto por alguns momentos e sorriu, ele estava adorando atrapalhar ela.
Cuddy não sabia, mas ele já tinha visto esse filme e entendeu perfeitamente a história.
"Acho que ela é meio parecida com você, médica, solitária, acredita em coisas mágicas.."
"Eu não acredito em coisas mágicas e ela só acreditou nisso porque se apaixonou por ele."
"Como ela pode se apaixonar por alguém que nem conhece?"
"Ele também se apaixonou por ela, eles estão se conhecendo."
One man I can never meet. Him, I would like to give my whole heart to.
"Relacionamentos à distância não dão certo."
"Claro que dão."
Cuddy suspirava e House revirava os olhos, os personagens eram apaixonados demais e ele era um homem perfeito demais.
"Ele é uma propaganda enganosa."
Quanto mais Cuddy se derretia, mais House resmungava.
"Duvido que alguém faria uma coisa assim na vida real."
Assim que Cuddy percebeu que ele a estava provocando de propósito, começou a medir forças com ele para irritá-lo também.
I saw her. I kissed her. I love her.
"Olha como ele é lindo."
Let me let you go.
"Ta vendo? Ela é bem mais esperta."
Os dois se provocaram até o filme acabar e Cuddy saiu de lá com lágrimas nos olhos.
"Gostou?"
"Eu amei, obrigada por assistir comigo."
Ela ficou com seu emocional abalado depois do filme, era complicado demais e mesmo assim era amor demais, seus sentimentos estavam cada vez mais bagunçados.
House e Cuddy tiveram um jantar incrível, por um momento ela se esqueceu de todos os seus problemas, estar com ele estava recarregando suas energias, ele era interessante e divertido e ela não queria que a noite acabasse cedo.
Eles saíram do restaurante e foram pra casa dela, onde ele tinha deixado estacionada sua moto.
"Você quer entrar e tomar alguma coisa antes de ir embora? Está frio…"
"Quero."
A resposta foi simples e objetiva, ele realmente queria ficar um tempo a mais com ela, na verdade, todo o tempo que passava com ela era precioso, mas só agora ele tinha percebido isso.
Assim que entraram, foram direto pra cozinha, onde ela ia preparar um chocolate quente.
"Você gostou do passeio?"
Ele tentou quebrar o clima, os dois estavam sozinhos na casa dela e alguma energia os aproximava, mas ele tinha que se manter firme, pelo menos por enquanto, não queria estragar nada que pudesse vir a acontecer.
"Foi ótimo, fazia tempo que eu não saía pra me divertir ou via um filme bonito."
"Eu gostei também."
Ele sorriu e Cuddy lhe entregou uma xícara com o chocolate quente.
"Espero que você goste, eu não sou muito boa na cozinha."
Ele tomou e a elogiou, sem saber como continuar a conversa, sua mente estava indo para outras direções e ele não sabia o que fazer.
"Eu..É melhor eu ir."
House estava tão nervoso que não sabia exatamente como lidar com aquele sentimento, ela estava tão perto que ele só conseguiu pensar em fugir.
"Não, fica. Eu queria que você ficasse comigo essa noite."
A proposta de Cuddy o deixou assustado, ele não imaginava que ela estivesse tão certa do que queria, mas era algo que ele queria também, igualmente forte, ela só foi mais corajosa pra dizer isso à ele.
Os dois se aproximaram lentamente, com um pouco de receio, fazendo uma dança de 'beija ou não beija' durante longos e torturantes minutos, mas eles já estavam perto demais pra voltar atrás.
O jogo de resistência acabou assim que ele tocou sua cintura, ela envolveu os braços em seu pescoço e eles deram um beijo doce, cheio de sentimento.
You've got magic inside your finger tips
Its leaking out all over my skin
Everytime that I get close to you
Your makin me weak with the way you
Look through those eyes
Ela o guiou até seu quarto e eles nem pensaram nas consequências que isso poderia trazer, só queriam curtir o momento, o resto resolveriam no dia seguinte.
House entrou em êxtase ao vê-la nua, ele quase não conseguia acreditar que isso fosse verdade. Cuddy se sentia da mesma forma, ele nunca soube, mas ela sempre sonhou em fazer amor com ele de novo, em liberar todo o tesão que sentia quando ele se aproximava dela com cantadas sexuais e provocações, se ele fizesse idéia do quanto ela era atraída por ele, teria colocado ela na parede há muito tempo.
Seus corpos estavam fervendo de tanto calor e vontade, era uma reação do corpo todo, cérebro, mente, coração, a sintonia era tanta que eles chegaram juntos a um orgasmo.
And all I see is your face
All I need is your touch
Wake me up with your lips
Come at me from up above
Yeaaaa, oh I need you
Ouvir Cuddy gemer seu nome e vê-la se contorcer em seu corpo dispersou todas as dores que ele sentia.
Naquele momento ele era um homem normal, fazendo sexo com a mulher por quem estava apaixonado, sem medo de ser ferido ou de estragar tudo.
Eles se encararam e sorriram, sem dizer uma palavra, tudo estava implícito no olhar apaixonado que um direcionava ao outro.
Você tem mágica na ponta dos dedos, isso está vazando por toda a minha pele.
Toda vez que eu me aproximo de você, você me torna frágil com a maneira em que olha dentro desses olhos.
Tudo o que eu vejo é o seu rosto, tudo o que eu preciso é o seu toque.
Acorde-me com os seus lábios.
