Em algum lugar da Austrália...
"Não, por favor, me dê mais uma chance."
"Trato é trato, doutor House."
Morpheus tinha um sorriso diabólico no rosto, estava prestes a receber todo o dom de House, finalmente.
"Não é justo, eu fiz tudo certo dessa vez."
"Destino é destino. O seu agora é viver sem a medicina."
House estava fraco e quase sem voz.
"Você não pode fazer isso, eu não aceitei nenhuma troca."
"Mas experimentou a última pílula, me obrigando a pegar o que resta do seu dom."
Ele se aproximou de House e segurou em sua cabeça.
"Você trapaceou, isso não é certo."
House estava desesperadamente preocupado, se ele não pudesse mais fazer seus diagnósticos, sua vida perderia o pouco de sentido que restava.
Morpheus olhou em seus olhos e lhe deu uma última chance.
"Trapaça seria se eu não desse nada em troca. Eu continuo lhe dizendo que você pode escolher uma pílula."
"Eu vou perder meu dom de qualquer jeito, não é?"
"Sim, mas se aceitar a troca, você o terá em sua história."
House não sabia o que fazer, mas tinha certeza sobre o que não fazer. Aceitar a troca seria ver Cuddy casada, com filhos ou morta e ele jamais suportaria nada disso.
O contrário seria abrir mão da única coisa que lhe dava prazer no momento e em contrapartida poder vê-la de longe e ter o presente ao seu lado para poder ajeitar as coisas.
"Eu não vou trocar meu dom. Prefiro não tê-lo na vida real do que viver com ele em qualquer história dessas."
Morpheus sorriu.
"Bom.. É você quem sabe."
House desmaiou no momento em que Morpheus roubou o que restava de seu dom, ele desapareceu em segundos e o deixou sozinho naquela casa abandonada.
Tempos depois, House acordou desnorteado, sem saber quanto tempo tinha se passado desde que Morpheus foi embora. Ele continuava fraco e sua cabeça doía desesperadamente, tanto quanto sua perna, como se um furacão tivesse passado dentro dele.
Ele se levantou com muita dificuldade e procurou por seu celular.
"Alô?"
Wilson atendeu o telefone estranhando o número desconhecido.
"Wilson.."
A voz de House era quase inaudível, mas Wilson soube imediatamente que era ele.
"House? Onde você está? Que diabos você fez com a casa da Cuddy? Você está louco? Eu tenho procurado por você há meses…"
"Wilson, por favor…"
Ele não tinha forças para dizer mais nada que não fosse um pedido de ajuda.
"House? Você está bem?"
Wilson percebeu que tinha algo errado.
"Eu preciso da sua ajuda."
House respirou fundo e lhe deu o endereço em que estava hospedado, quase perdendo todas as forças que lhe restava.
"Fique calmo, eu vou ir o mais rápido possível."
Wilson não era um cara comum, ele era o amigo mais especial que qualquer pessoa poderia ter. Apenas um endereço foi o suficiente para fazê-lo cruzar o mundo para ajudar um amigo.
House não era tão azarado assim no final das contas.
Ele se levantou devagar e procurou por sua bengala, saindo da casa ao amanhecer e se dirigindo para o Hotel, que ficava próximo dali. A história que havia passado na noite anterior era tão absurda que ele não queria que mais ninguém soubesse disso.
Ao chegar em seu quarto, desabou na cama e tentou se acalmar, mas nenhuma de suas dores diminuiu.
Durante os dois dias seguintes ele não saiu de lá e não conversou com ninguém, seu único contato com pessoas acontecia quando recebia suas refeições.
Wilson chegou na Austrália nervoso e preocupado, e quando se encontrou com House viu que alguma coisa muito séria tinha acontecido.
"Como você está?"
Ele entrou no quarto e se deparou com um House abatido e quase doente. Ele ainda não havia recuperado suas energias, mas precisava contar à Wilson o que tinha acontecido.
"Lisa? Sim, consegui encontrá-lo. Não, não está nada bem. É sério, Lisa, mais do que você pode imaginar .Eu preciso da sua ajuda. Sei, eu sei, mas o caso é grave. O caso é realmente grave, você precisa tirar a queixa. Por Favor, ele precisa de nós. Eu sei que você está, não digo que você precisa perdoá-lo agora. Tudo bem, faça o que quiser, mas por favor, me deixe levá-lo pro hospital. Sim. Voltamos amanhã. Obrigado. Eu sei que não, mas não fique magoada com ele. Eu sinto muito, queria que vocês ficassem bem. Tudo bem, não se preocupe. Tchau."
Wilson ajudou House e arrumar suas coisas e comprou alguns remédios, pegaram o primeiro vôo do dia seguinte, ele já estava reagindo melhor.
Ao desembarcarem em Nova Jersey, Wilson telefonou para Cuddy e pegaram um táxi para o Princeton Plainsboro.
Foreman e Chase já esperavam por eles quando Wilson chegou com House.
"Precisamos interná-lo e fazer alguns exames, eu dei alguns medicamentos mas ele precisa de soro."
House estava tão dolorosamente perdido que não argumentou com Wilson nem fez qualquer piada sarcástica com Foreman, ele apenas se sentou em uma cadeira de rodas e deixou que cuidassem dele.
Seu estado físico era quase tão debilitado quanto seu estado emocional.
"House, meu amor, você está bem?"
My life is changing everyday
Every possible way
Minha vida está mudando todos os dias, de todas as maneiras possíveis
Though my dreams
It's never quite as it seems
Embora meus sonhos nunca sejam exatamente como parecem.
Em seu sonho, Cuddy continuava apaixonada e doce, exatamente igual ao dia em que ela lhe disse que havia terminado o noivado por ele.
Ela havia descoberto que ele estava internado em seus hospital e foi se desculpar pelo mal entendido de meses atrás.
Seus olhos brilhavam e ela o abraçou carinhosamente.
"Eu vou cuidar de você."
House passou as mãos por seus cabelos, era tão bom sentí-la perto de novo, tão distante do pesadelo de perdê-la.
"Me desculpa."
Ela sorriu e balançou a cabeça afirmativamente, aceitando suas desculpas. Tudo ficaria bem agora.
Eles deram um beijo quente e apaixonado, até que batidas na porta o fizeram despertar de seu sonho.
Thirteen entrou em seu quarto para ver como ele estava e ficou feliz ao perceber que ele já estava bem mais corado.
"Me desculpa se te acordei."
Ela trocou seus remédios e se aproximou dele.
"Você está melhorando, tenho certeza que logo voltará a comandar a nossa equipe."
House respirou fundo, ele se sentia perdido e não conseguia raciocinar direito, sua cabeça estava confusa entre doenças e diagnósticos.
Thirteen sorriu e passou a mão em seu braço.
"Eu volto em duas horas."
Ela saiu do quarto segurando seu histórico médico e fechou a porta delicadamente para não fazer barulho.
"Ele está melhor?"
Do lado de fora, Wilson e Cuddy esperavam por notícias.
"Bem melhor."
Thirteen entregou as anotações que havia feito na prancheta de House e foi visitar outro paciente, deixando Wilson e Cuddy sozinhos.
"Ele está melhorando, mas nós temos outro grande problema."
Cuddy olhou para Wilson preocupada.
"Você acha mesmo?"
Ele respirou fundo.
"Eu conversei com ele ontem à noite e ele me contou a mesma história. Não sei se tem a ver com excesso de Vicodin, mas ele está mentalmente debilitado."
"Mas ele não te disse que diminuiu o Vicodin?"
"Disse, mas acreditar que ele diminuiu o Vicodin é acreditar em coisas sobrenaturais. Eu não acredito.."
Cuddy abaixou seus olhos.
"E você?"
Wilson perguntou à ela tentando entender porque Cuddy estava com medo de interná-lo em uma clínica psiquiátrica.
"Eu.. Eu não sei, Wilson. É claro que é uma história absurda, mas você acha que tudo isso será necessário?"
Ele deu um longo suspiro e a abraçou.
"Ele não está bem. Um acompanhamento médico com quem entende será melhor. House já passou por isso e se saiu bem, tenho certeza que sairá de novo."
Ela olhou em seus olhos e sorriu, se soltando do abraço e andando em direção ao corredor.
"Cuddy?"
Wilson a chamou de volta.
"Sim?"
"Você não quer vê-lo?"
Ela andou de encontro à Wilson e parou em frente à porta.
"Eu não sei. Me preocupo com ele, mas ainda estou muito magoada. Nós tínhamos uma chance de ser amigos e ele acabou com isso."
Wilson segurou em sua mão, dando-lhe a coragem que faltava para entrar ali.
"Vai ser bom pra ele ver você."
"Eu não sei.."
Ela continuava hesitante mas queria ver com sues próprios olhos se ele estava bem.
"Vocês se conhecem há mais de vinte anos, Lisa. Não será nada além de uma visita de amigos, ou colegas de profissão, se você quiser assim."
Ele olhou pra ela com o olhar mais compreensivo do mundo e ela pensou apenas mais um pouco antes de decidir entrar.
"Não vai ser nada demais."
Disse a si mesmo enquanto segurava a maçaneta.
House não tinha voltado a dormir, estava ansioso, como se sentisse a presença dela por de trás da porta.
Ele sorriu quando a viu entrar.
Cuddy olhou para ele com um olhar diferente, quase irreconhecível, não era amor, nem ódio, mas também não era indiferença.
Ela se aproximou fisicamente, mas manteve suas emoções distantes.
I know I felt like this before
But now I'm feeling it even more
Because it came from you
Eu sei que já me senti assim antes, mas agora eu estou sentindo ainda mais.
Porque isso veio de você.
Cuddy tentava manter as batidas de seu coração, mas ele já estava acelerado, trazendo à tona uma mistura de sentimentos e a lembrança de como se sentiu quando ele destruiu o último fio de esperança que ela tinha para os dois.
"Você está melhor?"
Sua voz era séria e ela parecia sentir um peso por estar ali.
"Sim, não precisa se preocupar."
Ele ficou chateado por perceber que ela não o perdoou.
"Bom, eu.. Eu só vim ver se estava tudo bem. Preciso ir agora."
"Mas você acabou de chegar."
Cuddy se virou e saiu de lá o mais rápido que conseguiu, sem responder nada e arrependida por ter entrado.
A presença dele bagunçava seus sentimentos e ela não queria sentir amor por ele de novo. Seria um erro.
Era terrível não ter o controle de seu coração quando tudo que sua mente lhe dizia era para que ela se afastasse.
You have my heart so don't hurt me
You're what I couldn't find
Você possui meu coração então não me machuque
Você é o que eu não pude encontrar.
House se sentiu machucado de novo, com dúvidas entre qual sofrimento seria pior.
Tentaria consertar a situação ou deixaria tudo como estava e aceitaria seu destino?
"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim"
