House recebeu alta dias depois, quando seu estado físico estava bom o suficiente para isso. Wilson havia conversado sobre sua internação e ele não pareceu relutante em nenhum momento, o que soava estranho, pois ele jamais aceitaria um tratamento psiquiátrico sem argumentar contra isso.
Algo de muito sério estava acontecendo para ele reagir dessa forma, mas ninguém sabia ou poderia imaginar que ele estivesse com medo. House estava apavorado, sem saber o que fazer ou a quem recorrer.
Pela primeira vez em sua vida tudo o que ele fez foi assentir.
Aceitou a clínica, aceitou a desconfiança, aceitou o desprezo e a falta de amor. Sua última e única chance estava nessa reabilitação e ele faria tudo para sair de lá recuperado.
Wilson o acompanhou até a clínica e aproveitou para se consultar com o médico enquanto House ia para seu quarto acompanhado de uma enfermeira.
"Você acha que ele tem chances de uma recuperação total?"
Wilson também estava com medo, não queria perder seu amigo, nem conseguiria vê-lo desmoronar.
"O estado dele é um pouco delicado, mas nós faremos o possível para ele voltar à lucidez. A mente dele ainda está muito confusa, não sabemos ainda se é efeito do Vicodin ou alguma outra droga, mas iremos descobrir e tratá-lo o mais rápido possível, fique tranquilo."
House se acomodou em seu quarto e pegou um livro pra ler, tentando se distrair um pouco, o clima daquele lugar era intenso demais e parecia que estava sugando todas as suas energias.
Leu. Tocou piano. Tomou Banho. Passeou pelo jardim. Respirou fundo. Ainda eram 6 horas da tarde.
O tempo demorava a passar e ele já não sabia mais o que fazer.
"Está tudo bem com você?"
House estava sentado em um banco no jardim quando uma moça se aproximou e se sentou ao seu lado.
"Sim. Está tudo bem."
Ele suspirou e encarou seus olhos, lindos e compreensíveis olhos azuis.
"Eu estava te observando e você me pareceu um pouco…"
"Impaciente?"
Ele a fez sorrir por estar certa em sua observação.
"Exatamente. Está sendo difícil do tempo passar aqui?"
"Muito. Eu não vejo a hora de... Me recuperar."
House hesitou um pouco ao responder. Ele não sabia exatamente o que esperar. Por um lado poderia estar louco ou mentalmente debilitado, resultando em uma recuperação demorada, por outro, ele não estaria louco, mas sua mente estaria confusa e incapacitada, o que não melhoraria em nada seu estado.
Tudo estava ficando mais escuro do que parecia ser e ele não sabia mais o que esperar.
"Você vai ficar bom logo, tenho certeza."
Ela sorriu e segurou em sua mão com um olhar confiante e um pouco familiar, trazendo doces e antigas lembranças.
"Você me lembra alguém."
Ele olhou nos olhos dela e sorriu instantaneamente, sem nem perceber.
"Alguém especial, imagino."
Ela percebeu o quão intenso era seu olhar e como ele parecia bema o olhar pra ela.
"Alguém muito especial."
Lindos e compreensíveis olhos azuis, iguais ao de Cuddy. Mesmo brilho, mesma intensidade.
"E o que essa pessoa especial era sua?"
Ele fechou os olhos para responder, focando seus pensamentos na jovem Lisa, de mais de vinte anos atrás.
"Era a mulher da minha vida…"
House abriu os olhos e viu Cuddy através daquela linda moça.
"…Você se parece muito com ela quando jovem."
Ela riu e se levantou, ainda segurando em sua mão.
"Vamos entrar. Já está na hora do seu remédio."
"Você é médica?"
Ele se apoiou em sua bengala e parou ao lado dela.
"Estagiária."
Rachel já vestia seu pijaminha rosa de ursinhos e sua pantufa do Pluto quando Cuddy terminou seu banho, ela segurava um DVD da Bela e a Fera e estava ansiosa pra assistir.
"Vem logo mamãe."
"Calma bonequinha, eu só vou me trocar."
Cuddy passou por ela enrolada na toalha e viu o filme que Rachel estava segurando, House havia dado pra ela meses antes deles terminarem e desde então Rachel assistia sempre que podia.
A presença dele continuava tão constante em sua vida que às vezes machucava. Era difícil e quase impossível conseguir esquecer alguém tão presente.
Quando tentava odiá-lo o amava ainda mais e isso a enloquecia. Ele era presença tão forte em seu coração que ela deseja muitas vezes não ter se entregado à ele. Era muito mais fácil controlar seus sentimentos antes deles terem se envolvido porque agora tudo que conseguia sentir era dor e a certeza da infelicidade.
Amar uma pessoa assim era como uma maldição, ela estava destinada a sofrer desde o primeiro momento em que ele a fez se apaixonar.
House foi para seu quarto e esperou que ela trouxesse seus remédios, um pouco mexido com o fato dela se parecer muito com Cuddy e interessado em perceber que existia algo de especial nela, algo totalmente inexplicável.
Minutos depois ela bateu em sua porta com um sorriso encantador.
"Pronto doutor House, aqui está."
Ela lhe entregou um copinho com dois remédios e uma garrafa de água. House tomou os remédios e a observou em silêncio por um tempo.
"Algum problema?"
Ela percebeu que ele estava distante em seus pensamentos.
"Eu tenho a sensação de que conheço você de algum lugar, mas não sei de onde."
Ela sorriu nervosa, balançada com aquelas palavras e sem saber o que dizer.
"Você acredita em universo paralelo?"
Ela suspirou e fez a pergunta um pouco mais calma do que estava, deixando-o surpreso e um pouco curioso.
"Se você me perguntasse isso há um mês atrás eu diria que não, mas hoje… Bom, hoje eu acredito em qualquer coisa."
Ela passou a mão em seu braço e se virou para ir embora.
"Quem sabe nós não nos conhecemos em algum outro universo?"
House sorriu e a viu andar em direção à porta.
"Hey, espera. Você não me falou seu nome."
Ela se virou para ele e pouco antes de fechar a porta respondeu:
"Melissa."
