"House, eu…"
Ela precisava lhe dizer alguma coisa, qualquer coisa.
Dentro de seu coração existia um furacão de emoções incontroláveis e ela tinha que lutar com todas as forças para não se entregar. Isso só traria mais sofrimento.
Seja forte.
Cuddy pensava nisso o tempo todo.
"..Eu.."
"Sim?"
Ele sussurrou em seu ouvido e a sentiu amolecer.
"Eu não posso."
Cuddy soltou os braços de seu pescoço e deu um longo suspiro.
Eles estavam próximos demais. Cara à cara. House tentou tocá-la, mas ela se afastou.
"Por Favor.."
Ele respeitou seu pedido e encarou seus olhos com toda a ternura.
"Por quê?"
House precisava de uma explicação clara antes de deixá-la partir.
"Eu não quero me aproximar de você agora."
"Por quê?"
Ele repetiu a pergunta com a voz embargada, era cruel demais perdê-la de novo.
"Porque eu te amei demais."
Cuddy segurou suas lágrimas o máximo que pôde, mas algumas delas teimaram em cair e fizeram com que ela liberasse tudo que estava sentindo.
Um choro sentido, cheio de dor.
"Me desculpa…"
Ela disse entre lágrimas.
"Cuddy.."
House tentou argumentar qualquer coisa, mas não sabia o que fazer pra ela acreditar nele.
"Eu preciso de você."
Era simples e verdadeiro, e foi a única coisa que ele conseguiu dizer enquanto seus olhos ficavam marejados.
"Eu não vou desistir de você. Eu prometo. Mas nós só podemos ser amigos.."
Transformar o amor apaixonado em amizade estava longe de ser o que ele queria. Era complicado demais se desprender do desejo, do ciúme e da necessidade de tê-la pra si.
"Nós nunca vamos ser amigos. Você sabe que não."
"Você ainda se sente machucado?"
Ela passou as mãos em seu rosto com um gesto carinhoso e delicado, como ela sempre fazia quando se sentia preocupada com ele.
House segurou nas mãos dela.
"Não vá embora."
Ela soltou seu rosto e deu um passo para trás.
"Eu preciso ir."
Cuddy depositou um pequeno beijo em sua mão e se virou sem encarar seus olhos, indo em direção à porta que Melissa havia deixado entreaberta.
Batidas de leve em sua porta o acordaram no dia seguinte.
House estava cansado e abatido, sentindo seu coração despedaçado.
"Hora do seu remédio."
Melissa sabia que a noite não tinha terminado bem e queria que ele reagisse de alguma forma.
"Eu acho que vou passar."
"Por quê? Você não quer ficar bom logo?"
House se encostou na cabeceira da cama e abriu um espaço para ela se sentar.
"Não vai adiantar."
"Ah, claro que vai! Tem que acreditar.."
"Você não entende.."
Ele segurou nas mãos dela e a fez encarar seus olhos, queria compartilhar com alguém tudo o que estava passando.
"O que aconteceu?"
Melissa sorriu e olhou para ele compreensivamente, ela sabia que seria uma longa história.
"Eu.. Eu nunca contei isso pra ninguém. Na verdade Wilson soube parte da história e mesmo assim não acreditou em mim.."
"Sobre o homem com poderes sobrenaturais e as pílulas do passado?"
House suspirou e deu um meio sorriso.
"Você também sabe disso?"
Melissa apenas acenou com a cabeça e esperou que ele continuasse.
"Você acreditaria em alguma coisa assim?"
"Claro. Por que não?"
Ela olhou bem fundo em seus olhos, sincera, doce e transmitindo toda a calma do mundo pra ele.
"Jura?"
Melissa sorriu.
"Sim. Coisas sobrenaturais são possíveis de acontecer ou você estaria louco, não?"
"É…"
Ele riu e acariciou suas mãos. Dentre tantos amigos, ela foi a única a acreditar nele.
"Mas não é só isso…"
Melissa pediu que ele continuasse e prestou atenção em cada parte da história que ele lhe contou.
"Você não se lembra de mais nada?"
"Eu não sei nem pra que servem os remédios que eu estou tomando."
House abaixou seus olhos e Melissa se entristeceu.
"Mas…Você já tentou…"
"Eu já tentei de tudo."
Ela a interrompeu e a olhou com um misto de dor e medo.
"Não sei mais o que fazer…"
Melissa respirou fundo. Queria poder dizer à ele o que fazer, mas qualquer coisa que dissesse traria uma consequência.
"A consulta já é amanhã…"
"Eu sei. Vou perder minha licença."
House tentava parecer conformado, mas não conseguia aceitar que sua vida pudesse se tornar tão dolorosamente miserável.
Melissa sentiu seus olhos se encherem de lágrimas e o abraçou,
House a segurou força e ela deixou que pequenas lágrimas molhassem sua camiseta.
"Você vai ficar bem, House…Vai ficar."
Melissa falou baixinho enquanto ainda não havia se soltado dele.
Cuddy estava em uma reunião quando recebeu uma mensagem de Wilson, pedindo à ela que fosse para seu escritório. Ela sentiu a urgência de suas palavras e encerrou a reunião mais cedo, indo imediatamente para lá.
Wilson conversava com Melissa quando ela chegou preocupada.
"Aconteceu alguma coisa?"
A presença de Melissa a deixou ainda mais nervosa, mas bastou um sorriso para que ela se acalmasse. Melissa tinha esse poder inexplicável com ela também.
Cuddy respirou com mais tranquilidade e se sentou ao lado dela, abraçando Melissa carinhosamente.
"Está tudo bem. Eu só queria te convidar pra passar mais uma noite na clínica."
Cuddy sorriu desconfiada.
"Vai ter um jantar especial e ele vai tocar?"
Melissa deu uma doce gargalhada, fazendo Wilson reparar no quanto elas se pareciam.
"Não. Hoje não. É que.. Amanhã é a última consulta dele e depois ele vai ter alta.."
"Que maravilha."
Cuddy olhou para Wilson que sorria, animado pela notícia.
"Então eu posso vê-lo em casa."
Cuddy derrubou as esperanças de Melissa na mesma hora.
"Não…"
Ela precisava argumentar de outro jeito, a presença de Cuddy era de extrema importância nessa noite.
"Não?"
Cuddy estranhou a reação dela.
"Não, quer dizer.. Claro. Pode vê-lo em casa. Mas seria importante que você viesse hoje.."
Cuddy encarou seus olhos azuis e tentou ser o mais gentil possível.
"Melissa… Me desculpa, mas nossa conversa ontem foi muito difícil e eu não quero mais passar por isso, entende?"
Ela tinha medo de uma outra aproximação igual a da noite anterior. Conviver com House seria complicado, mas ela conseguiria se segurar se existisse uma certa distância.
"Eu entendo, doutora. Ma é necessário que um médico de confiança passe a noite com ele."
"Por quê?"
Cuddy não estava entendendo nada.
"Porque são regras da clínica. Ele precisa de algum médico que não trabalhe lá."
Melissa disse tudo de uma vez antes que perdesse a criatividade. Inventar histórias estava ficando cada vez mais difícil e Cuddy era esperta demais.
"Sério?"
Cuddy olhou para Wilson desentendida e ele não soube o que dizer.
"Bom.."
Ela se virou para Melissa.
"…Acho que o doutor Wilson está livre hoje à noite. Não está?"
Wilson quase engasgou com a água que estava bebendo.
"Eu..?"
Ele observou Melissa suplicar com o olhar para que ele não aceitasse.
"..Olha.. Eu não vou poder. Eu tenho um compromisso.."
"Compromisso com quem?"
Cuddy percebeu que ele estava desconfortável, ela sempre sabia quando ele estava mentindo.
"Compromisso, ué. E ele é seu empregado, vá ajudá-lo."
Ela ficou sem fala, não esperava aquela resposta.
Melissa piscou pra ele.
"Que ótimo. Obrigada, doutora. Vou confirmar sua presença."
Ela respondeu antes que Cuddy tivesse tempo de dar alguma desculpa.
"Posso entrar?"
Melissa apareceu na porta do quarto de House e o viu lendo um livro.
"Claro."
Ele fechou o livro, retirou os óculos e esticou a mão.
"Qual o coctel do momento?"
Ela riu e se aproximou dele.
"Nenhum. Sem remédios hoje, só uma visita."
"Visita? Que ótimo, a que devo a honra?"
"Na verdade a visita não é minha..."
Ela olhou para porta e Cuddy entrou com um sorriso tímido.
"Ouvi falar que você precisa de um acompanhamento médico antes do grande dia."
House sorriu ao perceber que ela estava tentando animá-lo.
"Obrigado por vir."
Ele não esperava que ela fosse, mas estava feliz por poder estar com ela. Não sabia como seria sua vida de agora em diante, mas tinha certeza que precisava da presença dela para ajudá-lo a superar seu problema.
Melissa os deixou sozinhos e eles conversaram boa parte da noite.
Sorriram. Brincaram. Lembraram. Tudo corria bem até Cuddy se aproximar demais.
"Oh. Me desculpe."
Ela se enroscou em seu lençol e acabou ficando perto demais.
Você tem um carro veloz e eu quero uma passagem para qualquer lugar.
Talvez possamos fazer um trato, talvez juntos possamos ir para algum lugar.
Um único movimento e toda energia que estavam conseguindo manter guardada acabou explodindo.
Qualquer lugar é melhor, começando do zero não teremos nada a perder.
Talvez façamos algo, eu mesmo não tenho nada para provar.
Ela o queria tanto. Ele a queria tanto. Poderiam ser felizes, estavam vivos, não deveriam perder tanto tempo.
Cruze a fronteira e entre na cidade.
Você e eu podemos conseguir um emprego e finalmente saber o significado de viver.
Seria sempre assim, sentimentos misturados, dor, saudade, borboletas no estômago e lágrimas ao adormecer.
Porque era tão difícil amar alguém? Porque eles não podiam ser como qualquer outro casal?
Você tem um carro veloz.
Mas é rápido o suficiente para que você possa voar para longe?
Você tem que tomar uma decisão, você partirá essa noite ou morrerá desse jeito?
House inspirou devagar, sentindo o perfume dela.
Olhos nos olhos, corações batendo no mesmo ritmo.
Ele pensou duas vezes antes de perguntar, mas achou que merecia uma resposta.
"Você ainda me ama?"
