Um mês havia se passado desde que House começara a comandar novamente a equipe de diagnósticos do Princeton Plainsboro.

Julia insistia que Cuddy não devia tê-lo aceitado de volta e Jerry ainda ligava tentando persuadí-la a voltar com a queixa, mas ela não se importava com nenhum dos dois, pois sabia que tinha feito a coisa certa.

House era um grande médico e uma boa pessoa no final das contas.

Ele não merecia que ela se distanciasse.

Cuddy sabia que um laço de vinte e cinco anos não seria modificado facilmente, por isso, conviver com ele pareceu ser a melhor saída.

A relação que estavam mantendo não era de amizade nem profissionalismo, mas existia respeito. Claro que House continuava medindo forças com ela, só que isso já era costume.

Dessa vez, pelo menos, não existiam mais sentimentos ruins.

Eles finalmente haviam brigado e ela finalmente soube que ele estava machucado. House deixou que seus sentimentos fossem expostos e se liberou de uma mágoa muito grande. Nenhum dos dois sentia mais culpa e estavam livres para seguirem com sua vida.

Durante o tempo em que House ficou fora, Cuddy havia contratado alguns médicos para ajudarem na sua equipe.

Henry Millers era um deles, também infectologista e bastante parecido com House no seu jeito de ser. Ele passou para outra ala assim que House voltou, mas não deixou de insistir para que Cuddy aceitasse um jantar.

Ela não sabia exatamente se era o medo da proximidade com House ou a vontade de conhecer alguém e esquecê-lo de vez que a levou a aceitar o convite.

Naquele noite iriam ter seu primeiro encontro e House descobriu sobre isso bem mais rápido do que ela imaginava.

"Eu preciso de uma assinatura."

Ele entrou com seu jeito característico e jogou os papéis na mesa dela, que leu o pedido e negou na mesma hora.

"Você sabe.."

Ele começou seu discurso.

"Que se não assinar isso, vou matar ela?"

Cuddy nem esperou ele terminar a frase, ela conhecia aquela história.

"E mesmo assim.."

"Mesmo assim nada, House. Você sabe quais exames deve fazer antes disso. Eu não vou nem perder o meu tempo."

"Tudo bem."

Ele se virou e foi indo embora quando ela revirou os olhos e o chamou de volta.

"Vem aqui."

Ele sorriu e se virou pra ela demonstrando indiferença.

"O que é?"

Cuddy pediu para ele se sentar e perguntou o real motivo dele estar ali.

"Real motivo? Quer motivo mais real que uma vida?"

"House… Eu te conheço, não comece com isso."

Ele mudou seu semblante de repente, encarando os olhos dela com seriedade.

"Você tem um encontro hoje.."

Ela sempre imaginou do que se tratava, mas não pensava que ele pudesse ser tão direto, então resolveu ser sincera, já que a relação dos dois estava bem.

"É só um jantar."

"Com o doutor Henry?"

"Por quê?"

House se acomodou na poltrona e sorriu maliciosamente para ela.

"Minha pesquisa com as enfermeiras diz que ele se parece muito comigo."

Cuddy ficou sem resposta e continuou ouvindo.

"Você não está querendo me encontrar em outra pessoa, está?"

House percebeu o nervosismo dela e sentiu que seu dever estava cumprido.

Entregue-se a mim suavemente.

Você está tentando encontrar um lado diferente em mim.

"Você está louco? É claro que não.."

Cuddy gaguejou ao responder, o que fez com que ele se sentisse mais vitorioso.

"Tem certeza?"

Você vê esta vida como nada mais que uma canção sem rima.

Cuddy até poderia tentar ser feliz com alguém, mas House sabia que ela era quebrada demais pra isso. Ela era como ele.

"House.. Vá cuidar da sua paciente."

A presença dele a deixava nervosa, ainda mais fazendo essa pressão. Ela não tinha pensado nessa possibilidade, mas agora parecia que ele estava certo.

House deu um último sorriso e saiu dali deixando-a confusa.

"Alô?"

"Hey Girl. Está muito ocupada ou aceita sair comigo agora à tarde?"

"Oi House… Eu não estou ocupada, não. Onde vamos?"

"Eu passo aí pra te pegar em meia hora e decidimos, pode ser?"

"Claro."

Melissa trocou o jaleco por uma roupa leve e esperou por House. Eles decidiriam ir à um restaurante mexicano e aproveitaram o final da tarde tomando sorvete em um parque.

"Você quer dizer que ela está seguindo em frente?"

House contou à ela sobre o encontro de Cuddy e como lidou com o relacionamento deles durante aquele mês.

"Eu quero dizer que se eu ainda tiver uma chance, não posso deixar isso ir em frente."

"E você já sabe o que fazer?"

"Eu vou conversar com ela hoje antes desse encontro. Só queria sua opinião sobre isso ser o certo a fazer."

Melissa sorriu e pegou um pouco do sorvete de flocos que House estava comendo.

"Você confia em mim?"

Ele revirou os olhos e pegou de volta um pouco de sorvete de doce de leite da tigela dela.

"O que você acha?"

"Sendo assim…"

Ela parou por alguns minutos só pra deixá-lo curioso.

".. Eu acho que está mais na hora de vocês se acertarem."

House teve então o apoio que precisava.

Ele gostava de Melissa, realmente gostava muito dela.

Me dedico com compromisso, mentindo de forma egoísta, dando maus conselhos…

House sabia, com toda a certeza do mundo, que não era o príncipe encantado que Cuddy precisava, mas também sabia que príncipe nenhum seria capaz de amá-la tanto quanto ele.

I can do better - era tudo que ele pensava.

Esperou que o expediente acabasse e foi até o escritório dela, se certificando que ela ainda não tinha ido para o encontro.

"Preciso falar com você."

Ele entrou e a viu com um lindo vestido dourado, cabelos soltos e bonitas jóias, e sentiu inveja de qualquer pessoa que a tivesse naquele momento.

"Eu estou atrasada, House. Pode ser amanhã?"

"Não, não pode."

House andou até ela com passos firmes, esquecendo-se completamente de sua dor, encostou-a em sua mesa e olhou em seus olhos, enquanto a segurava pelos ombros.

"Você sabe que não vai sentir por ele o que sente por mim."

"House..Me deixa ir.."

Ela cortou o contato visual e ele segurou em seu rosto, trazendo novamente seus olhos para os dele.

Entregue-se a mim mais uma vez, você está tentando encontrar um menino dentro de um homem.

"Eu não sou o House por quem você se apaixonou na faculdade e talvez também nem seja mais o House que não esteve ao seu lado quando você mais precisou, mas eu amo você. Amo como o primeiro, como o segundo. Eu te amaria em qualquer situação.."

Cuddy fechou os olhos e estremeceu com aquela declaração.

Talvez estejamos perdendo toda a razão nas nossas brigas tolas.

Talvez desta vez parecerá correto.

"Eu errei ao ir embora da faculdade sem falar com você, errei ao brincar com o seu coração e fingir que não estava apaixonado e errei por não estar ao seu lado quando vc mais precisou de mim..."

Quero te falar sobre o dia em que nos conhecemos e como eu me sinto quando você me abraça forte.

"Então eu me casei, me operei e atirei meu carro na sua casa…"

Cuddy encarava o brilho dos olhos dele tentando entender aquela atitude tão inusitada e grandiosa.

"Mas tudo isso já passou e eu não posso mudar nada. Nós não podemos mudar o passado, Cuddy, mas podemos começar de novo."

House soltou seu ombro e segurou carinhosamente em suas mãos, entrelaçando seus dedos.

"Eu vou errar com você, de diversas formas, mas jamais vou deixar de sentir essa coisa tão boa e incrível que você me faz sentir. Eu estou certo do que eu quero.."

Ele deu um passo para trás e sorriu, sincero e confiante.

Oh, e como você mudou minha vida.

"A decisão agora é sua. Eu estarei esperando por você."

House saiu da sala dela orgulhoso de si mesmo, pois tinha aproveitado perfeitamente aquela chance.