Saint Seiya não me pertence, pertence à Masami Kurumada e à Bandai, uso seus personagens com carinho 8DDD
Os personagens Hewke, Zeta e Milia são de criação própria.
Destino selado
Deitado ali na carroça, novamente sentiu frio, o ar tinha um cheiro de folhas húmidas que só a noite tinha,suas entranhas agora doíam com a fome, mesmo que à algum tempo havia decidido morrer. Mas havia algo estranho, suas costas estavam aquecidas, é, aquele loiro, Milo estava encostado em si, provavelmente para se aquecer também. Abriu os olhos com dificuldade, estava escuro, olhou através das grades de madeira para cima da gaiola e viu a lua, grande e brilhante. Ainda era noite.
Sentou-se, sua barriga definitivamente doía. Camus esfregou os olhos com as mãos pequenas e tentou observar seu pequeno grupo de órfãos condenados.
A garota Milia estava sozinha, deitada em posição fetal abraçando seu próprio corpo, treima levemente. O garoto com o ferimento da perna, Zeta, dormia sentado recostado na grade com uma mão sobre a perna. O último, Hewke, dos cabelos vermelhos dormia estirado em um canto com os braços e pernas abertas..
Camus sentiu Milo se remexer de leve, estava acordado.
-Está com fome?-sussurrou para não ser ouvido por nenhum dos outros companheiros.
Camus acentiu.
-Tome, roubei ontem enquanto estávamos lá fora- Camus tirou de dentro dos trapos que seriam suas roupas um pedaço grande de pão sujo- ele não notou, carrega muita comida com ele para ele mesmo.
-E você?
-Comi a minha parte já, roubei o suficiente para duas pessoas acho.
Camus colocou as mãos sobre o pão, empurrando-a delicadamente de volta para Milo.
-Guarde para você. Não o quero.
Milo riu e balançou a cabeça negativamente. Seus cabelos sujos eram bonitos até engordurados como estavam e a lua iluminava metade do seu rosto deixando um brilho pálido e uma sombra levemente macabra.
-Coma, ande, antes que os outros a vejam, não posso guardar comida aqui. Vão brigar comigo por ela, roubei-a para você, sei que você quer, coma.
Camus olhou para os olhos azuis sorridentes, a boca tranquilamente em forma de arco se abriu de leve mostrando os dentes alinhados.
Segurou o pão analisando de leve, estava com terra mas isso não seria problema. Enfiou um pedaço generoso na boca, dessa vez não enguliu de uma vez, mastigou pacientemente cada mordida, saboreando o sabor de ser alimentado.
-Porque me trata assim?
-Assim?
-Digo, vem me trazer alimentos, vem conversar comigo.-Camus agora engolira o último pedaço, era bom, muito bom. Naquele momento a morte não lhe passava pela cabeça, apenas queria conversar. Ouvir a voz de alguém dirigida a ele.
-Não posso guardar, vão ficar bravos comigo. E, gostei de você.
Camus rubrou envergonhado, era estranho ouvir essas coisas de alguém que acabara de conhecer, mas agradeceu educadamente o pão e voltou a se jogar no chão.
E Milo ergueu o braço para cima, as estrelas brilhavam.
-Vê aquele conjunto? Aquela estrela brilhante no meio, aquela é Antares, a estrela mais brilhante de escorpião. Minha mãe me dizia que, quando eu nasci ela brilhou como nunca. Meu povo dizia que aquele era o escorpião, o escorpião que defendia a nossa deusa Artemis e morreu para protegê-la. Minha mãe falava que era essa a missão de quem nascia sob essas estrelas, defender a quem amamos.
Ele respirou profundamente, sua mãe..como seria a sua vida antes de ser capturado? O que acontecera com ele? Ele, Milo, tinha uma família, ele saíra de algum lugar, ele, os outros, cada um deles tinha sua própria história. De repente ocorreu à Camus que ele parara de perguntar coisas à seu respeito.
-Não vai mais perguntar meu nome?
-Você quer dizer?
Ele não respondeu, apenas olhou para cima para o conjunto de estrelas que se chamava escorpião. Milo segurou sua mão e virou-se de lado, olhou para ele e abriu um largo sorriso mostrando os dentes.
-Foi o que pensei..
O grupo foi acordado com um chute e berros do velho na carroça, ele abriu o grande cadeado e puxou a garota para fora pelos braço. Ela tropeçou e caiu algumas vezes antes de ver uma outra carroça esperando por ela com outras escravas, todas mulheres .
Milia passou a chorar compulsivamente antes de tomar um estrondozo tapa em seu rosto para se calar.
Ela sabia o que aconteceria com ela agora, tinha idade para saber. Todas as outras garotas da outra carroça eram mais ou menos da mesma idade, todas belas. É claro, seria vendida como concubina de algum lorde desgraçado que gostava de menininhas.
Um senhor e um rapaz discutiam tranquilamente enquanto esperavam a garota ser puxada como um animal.
Os quatro agora estavam em silêncio assistindo a cena. Isso aconteceria com eles também, não? Seriam vendidos um a um para algum lugar, provavelmente nenhum deles teria sorte de encontrar um senhor gentil. E queriam? Camus pensou em si mesmo, para ele tanto fazia ser vendido a um rico senhor feudal ou ir para os campos de concentração, era na morte que ele pensava na maior parte do dia.
O velho segurou Milia pelo braço e o outro a apertou, apertou sua cintura e seus seios também, apertou sua coxa. Ele empurrou-a para o rapaz segurar enquanto espiou os rapazes.
-Muito magra- disse o velho senhor com seu filho jovem de uns vinte anos. Eram senhores muito ricos obviamente, tinham jóias nos dedos e pescoço, as roupas eram finas, mas não da nobreza, eram comerciantes. O que faria esse tipo de gente comprar escravos na rua? A barba expessa estava suja e ele babava e cuspia quando falava, tinha olhos castanhos escuros moldados com rugas de sua idade. Ele segurava nas barras de madeira, e seu olho direito era perfeitamente visível, tinha a testa encostada na grade enquanto falava- se quizer vendê-los por um bom preço deve alimentá-los direito, se não, adoecem e você perde seu investimento, se morrerem será apenas um peso a mais em sua carroça. E aquele ali, aquele da perna, ele não vale nada, é melhor livrar-se dele, se alguém oferecer qualquer coisa por ele aceite. Aquele ruivo também, é magro demais, e tem cara de doente, não aguentaria viver no campo, seria inútil para diversos tipos de trabalho.
O velho condutor resmungou algo que eles não ouviram e eles viram Milia ser jogada dentro da carruagem, imediatamente ela se encolheu abraçando os joelhos. As outras meninas nem ao menos erguiam seus rostos. Algumas choravam mais, e uma ou outra encarava a carruagem dos garotos.
-E não bata em seus escravos na frente de um vendedor, seu idiota, marcas deixadas fazem cair o preço da mercadoria. E faça o possível para que falem a nossa língua, essas selvagens não são muito úteis para clientes com classe.
A carruagem voltou a andar, chacoalhando violentamente com a estrada rústica. Os cavalos relinchavam e a madeira rangia junto com as correntes e cadeados que prendiam a jaula. O velho homem montado na frente cantava uma canção para os deuses de sua terra . E eles esperavam em silêncio pelos seus destinos.
Era fim da tarde já quando ganharam outra refeição, Camus inicialmente pensou que não faria diferença o encontro com o comerciantes de prostitutas, mas fez. Ganharam uma porção mais generosa de pão e carne, e algumas frutas. Estavam acorrentados agora pelos pés na beira do rio comendo e bebendo água corrente enquanto o velho, nem um pouco temeroso de fugas, se servia com uma bebida forte.
A fogueira crespitava e pulava, fazendo barulhos de pequenos estouros quando a gordura da carne pingava no meio do fogo.
Camus não imaginava que tinha tanta fome, mas comeu com satisfação as frutas e a carne. Assim como os outros meninos. Logo o velho voltaria e os enfiaria dentro da gaiola novamente.
Seria uma espécie de luto pelo destino da menina que se tornara sua companheira por tão pouco tempo? Naquela noite, em silêncio, Hewke e Zeta simplesmente deitaram em seus cantos e dormiram. Milo, suavemente passou o braço pelo pescoço de Camus, abraçando-o com ternura e encostou seus lábios em seu rosto.
-Boa noite- para apenas Camus ouvir.
Já haviam se passado alguns dias desde que fora arrancado brutalmente de sua vida perfeita. Seus companheiros estavam cada dia mais silenciosos, a não ser por Milo, o loiro tagarela a quem Camus acabara se apegando. Ele, com sua inocência infantil, se sentira por algum motivo atraído por Camus e passava o tempo todo perto dele.
Algumas vezes trocavam palavras, algumas vezes era apenas um monólogo, e mesmo após alguns dias, Milo ainda não sabia seu nome.
Chegaram a uma cidade grande com ruas de pedras e casas altas, carruagens passavam e as pessoas gritavam em meio à barracas
O velho falava rapidamente com um senhor mais novo, talvez uns quarenta anos que olhava com atenção para cada um dos garotos. Ele tinha os cabelos negros ondulados e a sombracelha expessa e olhos muito grandes e redondos. Seu rosto era quadrado e forte e Camus tinha certeza, sentia algo de maléfico vindo daquele homem.
Puxou o braço de Camus e apertou-lhes, virou-o e abriu sua boca para conferir seus dentes. Desceu as mãos para as coxas e colocou suas mãos dentro de seus trapos despudoradamente como se analisa animais. Apertou-lhe as partes fazendo-o gemer.
Camus sentiu vontade de morrer naquele momento, mas ele logo passou para a segunda criança.
-Falam nossa língua?-disse rispidamente.
-Oh sim, acho que uns deles devem escrever também, eu os ouvi sussurrando à noite. São fortes e saudáveis, esse com a perna ferida é extremamente inteligente.
-Se buscasse inteligência não procuraria entre escravos que pessoas como você vendem e sim em bibliotecas- ele olhou novamente com a mão no queixo alisando a barba preta rala.
-Seu preço é bom, mas não preciso de quatro. Quero dois.
-Mas é claro.
-O da perna ferida não me interessa.
-Obviamente.
-Esse é muito magro, vou levar o ruivo maior e o loiro. Tome, leve essa bolsa, pode conferir se quizer. Deve pagar o suficiente pelos dois
-Oh, creio que custem mais, entenda, ambos são estudados..
-Ganancioso? Bem, não valem tudo isso, ou pega essa quantia ou eu vou embora e procuro em outros locais, as crianças pobres das periferias são mais baratas que você.
-Mas não encontrará ruivos e loiros tão exóticos quanto esses dois.
O vendedor encarou o rapaz com um grande sorriso e passou os olhos novamente por Milo e Hewke.
-Não, não pagarei uma fortuna para dois escravos quando posso arrumá-los de graça.
-Pense bem, são como mercadorias raras..
Derrotado ele entregou algumas moedas de ouro para o velho.
-Não tenho mais que isso, seu velho mesquinho desgraçado, agora entenda que estou sendo generoso você não merecia isso.
Camus viu Milo ser desamarrado e o velho dando instruções, agora aquele seria seu mestre e deveriam obedecer.
É claro que nenhum deles precisava ser amarrado, como já sabiam, não teríam para onde ir. Milo olhou com tristeza para Camus que retribuiu o olhar. Estavam lado a lado.
Camus se aproximou da orelha de Milo fazendo-o se arrepiar. -Camus.-disse em um sussurro-esse é meu nome.
Ele desejava intimamente que não se separassem, que se fosse vendido que fosse com um deles, querendo ou não, tinham amor um pelo outro agora. Doía por dentro, mas não ousou dizer nada, não podia, não tinha esse direito.
Camus viu Milo tremer de leve, mas ele se esforçava o máximo para não derrubar uma lágrima como Milia havia feito. Virou-se com cuidado para não ser notado, e, com o mesmo cuidado sussurrou "prometo que nos encontraremos novamente".
No dia seguinte partiram novamente, agora estavam apenas Camus e Zeta. O velho remungava coisas sobre como os dois eram inúteis, um era mais parecido com uma menina de tão fraco e o outro, um inválido.
A ferida de Zeta havia melhorado levemente, Camus –e ele mesmo- poderiam jurar que ele morreria por uma infecção, mas não, ele foi forte. As ataduras indicavam que iria melhorar, devagar, mas iria.
A segunda cidade era maior e mais populosas, as ruas tinham cheiro de comida fresca e preparada também, era barulhento e haviam igrejas de telhados pontiagudos e grandes vitrais. As casas tinham grandes colunas brancas e janelas altas e as praças eram apinhadas de pessoas.
O velho discutia furioso com um rapaz de no máximo dezoito anos, bem vestido e com um porte invejável. Era um nobre, disso podia-se ter certeza.
-Idiota-ouviu o garoto mais velho resmungar.
-Ele vai conseguir nos vender assim?
-Provavelmente, estamos abaixo do preço do mercado, mas se fomos seremos comprados por idiotas tão grandes quanto ele.
-Você nasceu por aqui?
O rapaz ergueu uma sombracelha curioso pelas perguntas do menino, havia ele pegado a mania do loiro tagarela?
-Não- respondeu- sou de uma terra distante também,não vê? Tenho traços diferentes dos seus. Falo outras línguas também.
-Não sou daqui também, senhor, sou de longe. Escreve?
-Claro.
-Porque está aqui?
-Meu povo morreu na mão desses idiotas que se acham cultos, chamaram meu pequeno reino de bárbaro e nos atacaram, nós, um povo pacífico- ele meneou a cabeça indignado- estudamos vários povos, tínhamos um vasto conhecimento sobre o mundo, os povos e a história da humanidade e vivemos em paz, plantamos, colhemos, criamos cavalos e é assim que nos retribuem. É ridículo e chega a ser irônico.
Camus olhou para a rua apinada de pessoas, vozes, caixas, carroças, pedras, animais, era uma mistura estranhamente agradável de sons. Olhou para seu amigo agora, parecia tão forte, mas destruído por dentro, jamais ouviu Zeta falar de seu passado novamente.
...oooOOOooo...
Olá amigos XDD
Andei com preguiça de postar, isto é, preguiça de logar, pois escrever eu ando escrevendo xDDD.
Estamos caminhando devagar pois quero deixar o tipo de vida que Camus teve quando novo antes de passar para a próxima fase, mas aguardem.
Espero que tenham gostado dessa fict.
Reviews, críticas construtivas, "olá eu li" serão muito bem apreciados.
Agradecimentos à minha nechan, que me inspira e me insentiva *-*
bjs
até a próxima
