Acorde.

Acordou um pouco assustada, olhou para os lados e não viu ninguém, achou isso estranho. O vento soprou com força e a jovem sentiu frio, em pouco tempo começaria a chover.

- Yumi. – Chau Mei falou agasalhando Yumi com um casaco marrom. – Está fazendo frio, entre.

As duas entraram e a avó começou a falar:

- Nossa, como está escuro! Vou pegar algumas velas.

Mesmo no escuro ainda dava para distinguir os objetos da casa, Chau Mei pareceu não distinguir nenhum e saiu trombando em tudo.

- Deixa que eu pego vó.

- Está no armário da cozinha. Ai! – respondeu trombando no sofá. – A luz acabou já faz um tempo.

Yumi sem trombar em nada pegou as velas e espalhou-as pela casa toda. Sentou ao lado da avó, estava sem sono e um pouco de companhia não faria nenhum mal a ela.

- Obrigada pela ajuda Yumi.

- Não precisa agradecer vó.

- Preciso sim, você é muito boazinha. Morar sozinha não é fácil.

- Por que mora sozinha?

- É uma longa história, depois eu te conto. Essa vai ser uma noite perigosa.

- Não precisa se preocupar, eu cuido deles.

- Eu sei que cuida, mas você ainda tem muito que aprender.

- Eu zei.

Chau Mei começou a rir, nunca imaginou que sua neta fosse capaz de falar errado algo tão simples. Yumi envergonhada tampou a boca e abaixou a cabeça, queria se matar.

- Há quanto tempo você veio para os Estados Unidos, meu bem? – perguntou contendo o riso.

- Dois anos.

- Não fique assim eu sei como você se sente, vai demorar um tempo para falar tudo certo.

- Tudo bem.

- Ehh. – mudando de assunto para não deixar Yumi mais constrangida ainda. – Você quer saber como surgiram os demônios?

- Pode ser.

- Bom antigamente os demônios só atacavam pessoas más, mas ao longo do tempo eles foram atacando pessoas inocentes também. – falou animada. - O mundo ia ser tomado pelos demônios quando um deles salvou a humanidade inteira da devastação.

- Já sei quem foi, Sparda.

- Conhece essa história?

- Conheço.

- Então o que quer...

Sua frase foi interrompida pelo som de um trovão seguido do barulho da chuva caindo com força, como previra essa seria uma noite de tempestade.

- Vamos dormir Yumi.

- Boa noite. – falou ao se levantar e subir as escadas.

Quando chegou ao quarto, foi para a cama e se deitou, esperou o sono chegar, o que demorou muito para acontecer, pois estava sem sono. Quando finalmente sentiu as pálpebras pesarem um pouco um relâmpago clareou todo o céu e ela jurou ter visto um homem sentado na sua frente. Levantou assustada.

Só posso estar ficando louca, pensou, mas logo começou a repassar o ocorrido, isso a distraiu por horas, a chuva engrossou ainda mais, parecia que destruiria tudo. Ela olhou a tempestade pela janela e colocou a espada no colo.

A chama da vela colocada em seu quarto começou a enfraquecer aos poucos, logo ficaria na escuridão total. A jovem não se importou muito com isso, a vela já estava no final mesmo. Levantou-se para pegar outra vela, mas assim que alcançou a porta a chama se apagou.

- Droga. – praguejou baixinho.

Abriu a porta e apertou a espada na mão, por sorte a vela do corredor ainda estava acesa, escutou outro trovão e ao mesmo tempo passos, foi até a cozinha e pegou uma caixa de velas. Sentiu a aproximação de algo e não deu nem chance para a criatura atacá-la, desembainhou a espada e partiu o demônio ao meio.

Voltou para o quarto e acendeu três velas, colocou cada uma em um ponto estratégico, não ia querer esbarrar em uma e causar um incêndio.

O relógio na parede marcou três horas da manhã e ela escutou a porta da varanda ser aberta, foi até a escada furtivamente e encontrou sua avó no último degrau, seu olhar era sério.

Quando a anciã deu o primeiro passo em direção a porta da varanda que estava aberta, Yumi a conteve e foi na frente, a jovem fechou a porta, o vento apagou todas as velas acesas no cômodo. Chau Mei veio logo depois com um candelabro na mão.

- Cuidado. – Chau Mei sussurrou.

Yumi olhou para o chão e viu marcas de bota, elas se dirigiam para a cozinha. Seguiu-as com cuidado e também reparou em algumas manchas escuras no trajeto, a pessoa que entrou na casa estava ferida.

Entrou na cozinha, sentiu cheiro de sangue, deu mais alguns passos e se deparou com o rapaz da noite anterior. Ele estava sentado e assim que ela se aproximou ergueu sua espada.

Chau Mei se aproximou com o candelabro, o que deu uma claridade extra para o local, assim Yumi pode reparar no quanto ele estava ferido. Seu corpo estava repleto de cortes, alguns superficiais, mas com o outro braço ele parecia tampar um ferimento pior na altura do abdômen. Ela não soube o que fazer.

- Você... – murmurou com frieza.

- Suma. – ele falou com dificuldade.

- Não quando você está na minha casa. – ela desafiou.

- Suma, eu não vou repetir. – respondeu com mais dificuldade ainda.

A respiração dele era audível agora, ela se ajoelhou e o encarou, aquele mesmo olhar frio, só que dessa vez também demonstravam raiva. A sensação de perigo começou a se tornar mais intensa.

- Deixe-me ajudá-lo. – Yumi falou mais fria ainda.

Ele continuou a encará-la e lentamente começou a abaixar a espada, embainhando-a. Yumi quase chegou a sorrir, aquilo já era um bom progresso, o rapaz estava fraco e era apenas questão de minutos para vê-lo desmaiar de cansaço.

- Yumi, ele está fraco. Precisa de um médico.

A jovem ignorou o comentário e se levantou, Chau Mei resolveu ir buscar alguns curativos. Yumi se aproximou dele, ele a observou de cara feia e não gostou nem um pouco quando ela passou seu braço pelo ombro dela.

Ela o carregou até o sofá e o deitou lá, correu até o seu quarto e pegou um travesseiro e uma colcha, quando voltou apoiou sua cabeça no travesseiro e o cobriu.

- Por que está fazendo isso? – ele perguntou com dificuldade.

- Não preciso de motivos para ajudar alguém. Quer que eu passe um remédio nos seus ferimentos?

- Não.

- Que seja. Posso saber o seu nome?

- Vergil.

Ficaram em silêncio até Chau Mei aparecer com um saquinho na mão.

- Yumi, esmague essas ervas e misture com um pouco de água.

- Não encostem em mim.

- Mas você precisa de algum cuidado ou vai morrer, mesmo com a sua regeneração rápida. – Chau Mei retrucou.

- Dane-se, não encoste em mim.

- Que seja, quando precisar do remédio pede a Yumi que ela prepara. Boa noite. – falou subindo as escadas.

Yumi sentou no chão e ficou observando a chama da vela, de vez em quando olhava para Vergil, ele ficou bem diferente com o cabelo caído.

Ele fechou os olhos e com o tempo a respiração foi ficando mais a mais audível, preocupada Yumi coloca a mão na testa dele, estava quente como uma panela de pressão. Estranhou isso, ele era um demônio, esse fato ela soube desde a primeira vez que o viu, mas por que se encontrava nesse estado?

Começou a analisar cada ferimento sem nem se importar com o que ele iria achar disso e ficou espantada, não cicatrizavam, pelo contrário estavam aumentando. Pegou o saquinho de ervas da avó e preparou o remédio, tinha de ser rápida.

Vergil acordou e sentiu seu corpo dormente, se esforçou um pouco e se ajeitou no sofá, olhou para o seu corpo, estava repleto de ataduras, do seu lado seu sobretudo e sua camisa estavam jogados em cima da mesa. Tentou levantar e sentiu uma dor insuportável.

Olhou em volta novamente e viu Yumi dormindo no chão com as mãos sujas de sangue, nunca gostou de humanos, mas aquela humana salvou sua vida, tinha de admitir, não era tão inútil assim.

Ela se remexeu um pouco e abriu os olhos, meio sonolenta olhou para ele e falou:

- Bom dia. Se sente melhor?

Vergil não respondeu e a encarou com desprezo, só o fato de uma humana ter cuidado dele o irritou.

- Bom dia para vocês dois. – Chau Mei falou com uma bandeja nas mãos. – Espero que esteja com fome. – entregando-lhe uma xícara de chá fumegando.

- Não quero. – respondeu irritado.

- Ahh, você está fraco, precisa se alimentar, ou vou colocar isso na sua boca como se fosse a sua mamãe, isso com certeza seria desagradável.

Vergil ficou desconcertado, desde quando alguém tinha a coragem de falar assim com ele?

- Deixa aí vó, ele bebe quando quiser. – Yumi falou sentando em lótus.

- Mas aí vai ficar frio e perder o efeito. Mas vocês que sabem. – falou deixando a bandeja em cima da mesa e indo para a área externa.

- Não precisava ter feito aquilo. – ele falou frio.

- Mas eu fiz. – respondeu mais fria ainda.

Ele olhou nos olhos dela e a contemplou por um tempo.

- Me passa o chá.

Não era o tipo de cara que se convencia fácil, mas o que pudesse fazer para sair logo daquela casa ele faria. Ela entregou o chá e escorou a cabeça no sofá, estava cansada.

- Aqui tem algum livro? – ele perguntou.

- Tem.

- Me passa um.

Sem nada para fazer ele iria ler, ler até o final do dia, assim não veria a cara daquela velha e poderia ficar em paz por um tempo.

Pelo menos até a hora do almoço.