Capítulo 18 – Cervo
Acordei no meio de meus cobertores como em um dia normal.
Me arrumei normalmente, tomei o café-da-manhã normalmente, assisti as aulas e almocei normalmente.
Ah se eu soubesse o quanto aquele dia não ia ser normal.
A única aula da tarde era dupla de Trato das Criaturas Mágicas.
O professor tinha uma novidade.
Mandou a turma se dividir em duplas pois iríamos fazer um trabalho... Diferente.
Virei-me em direção as meninas.
Lene rapidamente agarrou um dos braços de Sirius, Emme e Alice se abraçaram e me deram um sorriso fraco e Remus fez com Peter o "Toque Super Secreto dos Marotos".
Eles nunca vão crescer.
E planejaram uma armadilha para eu ter que fazer par com o James!
Bufei e puxei James pela mão.
- Ontem eu fui informado pelo nosso guarda-caça, Hagrid, que um unicórnio foi visto correndo pelo terreno perto da Floresta Proibida. Hoje vamos tirar um pouco esse proibido do nome.
Sabe aquelas piadinhas dos professores que nunca fazem ninguém rir?
- Bem, cada um pegue uma lanterna e não se esqueçam de checar se estão com suas varinhas.
Todos fizeram o que era pedido, e se dirigiam à orla da floresta.
- Ah é, – o professor completou – cada dupla deve ter pelo menos uma garota, já que os unicórnios são mais simpáticos ao sexo feminino.
- Se ferraram. – ouvi Sirius dizendo à Remus e Peter –
Puxei James mais rápido e entramos na floresta.
- Qual o motivo de tanta pressa? – ele me perguntou depois de algum tempo –
- Eles não podem continuar achando que têm o direito de controlar a minha vida desse jeito!
- Eles só estavam brincando, não precisa ficar tão estressada Lily.
Tentei controlar meu gênio e pensar com mais clareza.
- É, eu acho que sim.
Parei de andar tão rápido, só então percebi que já levantava a lanterna à altura dos olhos para poder enxergar alguma coisa.
- James, onde estamos? – eu girei lentamente, tentando ver algo no meu campo de visão –
- Eu não sei, mas estamos bem longe de onde deveríamos estar.
Institivamente, dei alguns passos para trás.
Havia um declive atrás de mim, e eu escorreguei para dentro.
James também caiu logo após.
Por sorte aterrissamos em algum tipo de arbusto, mas a pouca luz do sol que as árvores da floresta deixavam passar criava um arco bem acima das nossas cabeças.
Foi assim que acabei presa num buraco sujo, profundo e escuro com James Potter.
Eu caminhava de um lado para o outro incansavelmente.
- Olha Lily, ficar cansada não vai nos ajudar em nada.
- Eu penso melhor quando estou em movimento. Você por acaso já tem alguma ideia brilhante? – ironizei –
- Muitas, mas nenhuma que vá funcionar. – ele disse pensativamente –
Eu estava irritada.
Por muito tempo não admiti que na verdade o que me deixa irritada é não ter uma solução para um problema.
Era como estar fazendo um teste e não saber nenhuma resposta, e ter a certeza que vai tirar um zero.
Mas, no caso, o zero representaria apodrecer em um buraco fedido.
- Você pode chamar a sua amada vassoura. – sugeri –
- Estamos muito longe para um Accio. – ele falou, em dúvida –
Sentei em uma pedra coberta com um musgo meio suspeito.
Eu não ligava, estava emburrada. Fui a única que pelo menos tentou apresentar uma ideia, e James não a aceita.
Acho que eu estava mais brava comigo mesma, por não achar uma saída decente.
Ele suspirou e disse: - Vamos escalar.
Assim, simplesmente.
Soltei uma risadinha meio irônica pelo nariz.
- Desculpa, talvez você consiga com um pouco de sorte, mas eu não sou, de longe, tão atlética. – falei –
- Eu posso te ajudar. – o tom de James era prestativo –
- Você já vai estar ocupado o bastante tentando não escorregar, James. Humanos não nasceram exatamente para isso. – por mais que eu tentasse, minha voz soava irritada –
- Eu preciso te mostrar uma coisa.
James estava profundamente e completamente sério, de um jeito que eu nunca tinha o visto antes.
Ele respirou fundo, fechou os olhos e uma ruga de concentração surgiu-lhe entre as sobrancelhas, alguma coisa importante estava por vir.
Eu não enxergava muito bem na escuridão, mas tinha a certeza que o vulto de James estava diminuindo de tamanho.
Não conseguia entender, era muito rápido. Pisquei os olhos uma vez e a imagem à minha frente era totalmente diferente.
De repente eu podia ver um cervo, um grande e majestoso cervo, mas que ainda não fazia sentido para mim.
Rodei minha cabeça a fim de achar James, ele não estava em lugar algum.
Experimentei chegar mais perto do animal.
Ele inclinou a cabeça na direção da minha mão.
Levantei-a e acariciei as manchas escuras em seu dorso.
Então eu tive um pensamento que, na hora, acreditei estar louca.
- James? – perguntei suavemente –
O cervo balançou a cabeça suavemente, em um gesto quase imperceptível.
Fui ligando os fatos.
O animal tinha marcas circulares em volta dos olhos, assim como os óculos de James.
Seus olhos tinham o mesmo tom castanho e o mesmo brilho maroto.
Pensei sobre a teoria de Severus, e de como às vezes os garotos pareciam cansados ou doloridos, mesmo em dias sem Quadribol.
Não tive tempo o suficiente para absorver tudo.
James se moveu até uma das "paredes" do poço.
Lentamente, os cascos e os olhos de cervo foram achando protuberâncias na parede, patamares mais planos e quase totalmente livres de musgo.
Me apoiava tão pesadamente em James que ele praticamente me arrastava.
Me pareceu um século até chegarmos lá em cima, e meu medo de cair não me deixou olhar para baixo nenhuma vez.
Desabei imediatamente no chão logo após de sair pela borda.
Talvez tivesse sido mesmo um século.
Fechei os olhos para apreciar melhor a sensação de respirar um ar que não fosse carregado ou cheirasse mal.
- Venha Lily, temos que voltar.
Abri os olhos e vi que James já era James novamente.
- Então... Um animago? – perguntei em um desinteresse forçado –
- É... – ele respondeu vagamente –
- Sirius é também?
Ele assentiu vagarosamente.
- Então Remus é mesmo um... – não completei a frase –
- Como você sabe? – ele tinha os olhos arregalados –
- Eu... – resolvi não culpar ninguém – descobri. Não foi tão difícil. Quero dizer, vocês sempre espalham que ele tem uma contusão todo mês ou alguma coisa assim. Ele não está nem mesmo no time de Quadribol!
- Acho que nós precisamos arranjar umas novas desculpas... – ele estava pensativo novamente –
- Urgentemente. – acrescentei –
Ele se levantou e me puxou do chão pela mão.
- Acho que você faria isso de qualquer jeito, mas será que você pode manter em segredo?
- James, eu desconfio a bastante tempo, e não me afastei dele nem abri a boca, não se preocupe.
Continuamos caminhando.
- Ah, e se o Remus perguntar, diz pra ele que você descobriu sozinha, e que eu não confirmei nada.
- Por que eu te ajudaria? – perguntei –
- Eu poderia arranjar para você um daqueles negócios trouxas que você gosta. Acho que são... Donuts?
- Faria isso por mim? – abri um sorriso satisfeito –
- Uma caixa cheia. – ele sorria também –
- Fechado. – afastei um arbusto para poder passar –
O sol me cegou por um instante, tínhamos chegado à orla da floresta.
Tudo fora muito confuso depois disso.
Mas entre as perguntas sobre nossa demora e o estado de nossas roupas, uma nota mental de falar com Remus depois e de um Sirius se gabando porque ele (e Lene) foram os primeiros a acharem o unicórnio, eu tinha a certeza de uma coisa.
Eu nunca ia entrar naquela floresta maldita novamente.
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Capítulo enorme então sem repostas as reviews hoje.
Tinha gostado da ideia, mas acho que não ficou tão bom quando eu escrevi. Mas nem tive tempo de tentar melhorar, eu viajo essa tarde e eu queria postar alguma coisa antes.
Não sei quando sai o próximo, mas tenho certeza que não vou atrasar muito e que vai ser melhor.
