Cap 7 - I've got you
-Abóbora!?! – Lizzie gritou depois que as duas já estavam no chão.
-Rúcula! – Isa falou abraçando a amiga.
As duas achavam patético aquelas pessoas que ficavam chamando as outras de "chuchu", por isso preferiam se chamar de "Abóbora" e " Rúcula". Ninguém poderia falar que elas não eram originais.
-O que você estava fazendo no carro de Gabriel Brightman? – Lizzie perguntou num tom inquisidor.
-Ele me deu carona. – Isa respondeu tímida, mas sem conter o sorriso.
-Como assim ele te deu carona? Ele passou em frente a sua casa e buzinou? – Lizzie imitou alguém businando, parecendo mais lesada do que realmente é.
-Não, Lizzie! Estava eu, a caminho do colégio...
-Ah não! – Lizzie falou séria.
-Você não estava dançando e cantando estava? - Isa ficou quieta. As vezes ela se surpreendia com o quanto Lizzie a conhecia. – Ah não! ele te viu dançando igual um coelho desgovernado?
-Viu, mas ele foi bem legal, tá? – Isa falou tentando botar fim ao assunto "coelho desgovernado".
As duas começaram a rir e Isabella contou todos os detalhes do caminho até a escola, inclusive o fato de estarem em uma fase Lostprophets.
-Só teve um problema... – Ela falou séria e Lizzie a olhou já sabendo o que era. – Cammie.
-Ela é só um pequenino detalhe. – Lizzie virou os olhos e fez um gesto com a mão como que se jogasse Cammie no lixo.
-Sabe o que é o pior? – Isa perguntou sentindo- se elétrica.
-O quê? Você não consegue odiar ela, né? – Lizzie respondeu à própria pergunta. Era sempre assim, elas eram tão unidas que acabavam pensando do mesmo jeito e as vezes, mesmo antes de Lizzie falar qualquer coisa, Isa já sabia o que ela falaria apenas por olhar na cara da amiga, e vice versa.
-Isso.
-Eu sei, ela é tão, tão...Nem sei.
-É! Exatamente! É impossível odiar alguém como ela! Ela é bonita, ela é inteligente e ela é popular, mas ao mesmo tempo ela sempre me tratou muito bem. Aliás, até ontem, ela e você eram as únicas pessoas que sabiam meu nome nesse lugar.
-Nós precisamos no esforçar, Isa. – Lizzie falou séria e colocou a mão no braço da amiga. – Nós precisamos odiar a Cammie, essa é uma parte importante de toda a nossa experiência pelo colegial.
-Eu sei. – Isa respondeu séria também entrando na brincadeira.
-Certo, então concentra. – Isa concordou com a cabeça prestando atenção. – Fecha os olhos... – As duas fecharam os olhos. – Respira fundo e solta. – As duas seguiram às instruções. – Isso, estamos indo bem. Agora, faz pose de yoga. – As duas cruzaram as pernas e colocaram as mãos em posição de meditação até não se agüentarem e começarem a rir escandalosamente.
Lizzie era uma palhaça.
-Vamos, Lizzie, as pessoas já estão encarando. – Isa falou levantando-se e reparando que recebiam olhares tortos dos alunos.
Levando em conta que elas tinham caído no chão do estacionamento, não se levantaram e começaram a meditar e depois a ter ataques de riso ali mesmo, a reação das pessoas era até compreensível.
-Pau no cu deles! – Lizzie falou alto enquanto levantava. Ela fez caretas para algumas garotas do primeiro ano que as encarava, fazendo as garotas se afastarem dali rapidamente.
Lizzie era o tipo de pessoa que não dava a mínima para o que as pessoas pensavam dela e se divertia assustando-as.
-Qual é a nossa primeira aula hoje? – Isa perguntou enquanto as duas seguiam para seus armários.
Lizzie fez uma careta pensando e depois uma careta de sofrimento.
-Química 1.
Isa bateu na testa com a mão. Seriam 50 minutos de tortura desumana logo no início do dia.
-Que macumba, cara! Não podia ser alguma coisa como história ou biologia?
-Pois é... – Lizzie falou enquanto quase se matava para pegar um livro no fundo do armário.
Isa riu da situação da amiga.
-Já falei para organizar seu armário, Rúcula.
-Não enche, o seu é bem pior.
-Nem é, ok?
Lizzie olhou para a amiga sem paciência e andou até o armário dela. Girou a combinação (sim, Lizzie sabia a combinação, assim como Isa sabia a dela) e abriu o armário, da onde caíram dois livros, um furador de papéis e o avental de laboratório.
Isa olhou para o próprio armário, prometendo a si mesma que o arrumaria o mais cedo possível. O problema era que todas as vezes que ela o arrumava, ela passava semanas sem achar nada. Pelo menos, aquela bagunça dela era uma bagunça organizada. Ela sabia exatamente onde estava tudo.
-Mudando de assunto... – Isa falou no caminho da sala. – Sexta tem show do Forever The Sickest Kids! – Isa falou com um sorriso gigante, com a esperança de que aquilo amoleceria o coração da amiga; Lizzie levantou uma das sobrancelhas. – Vamos?
-Não vou em nenhum show dessas bandas estranhas que você gosta, Isa.
Certo, esse era um aspecto em que as duas não se entendiam.
Isabella era viciada em música e pode-se dizer que era uma enciclopédia ambulante no que se tratava de bandas de punk, rock e afins. Seu gosto ia de metal a Beatles e no entanto ela não se considerava uma pessoa eclética. Isa torcia o nariz para 98 das músicas tocadas nas rádios e tinha planos de assassinar todos os rapers do país.
Lizzie era uma pessoa de uma banda só. Se a banda não era Green Day, não interessava a Lizzie (nisso as duas concordavam, já que Isa também era super fã de Green Day. As duas inventavam planos mirabolantes para seqüestrar Billie Joe, Mike e Tré e obrigá-los a tocar só para elas). A "ecleticidade" de Isa irritava Lizzie. E de uns anos para cá, Lizzie tinha desenvolvido aversão a qualquer tipo de música que Isa ouvisse que não fosse Green Day. Isa não sabia exatamente o porque disso, se Lizzie sentia ciúmes de Isa não se dedicar inteiramente ao Green Day ou era ciúmes do interesse da amiga em algo que ela não gostava.
Sim, Lizzie era ciumenta, mas Isa também era. Como as duas só tinham a elas mesmas, tinham que cuidar do que lhes "pertencia". Isso soou um tanto quanto lésbico, mas você também seria ciumento (a) se só tivesse uma pessoa com quem contar contra um zilhão de adolescentes maldosos e sem nada para fazer.
-Por favor, por favor!!! – Isa pediu juntando as mãos e fazendo cara de coitadinha. Sempre funcionava.
Lizzie a olhou com uma cara quase de choro e por um segundo, Isa quase comemorou.
-Hum... mas é sexta?
-É.
-Nem posso então.
Isa bufou com a expectativa de enfrentar mais um show sem companhia.
-Por quê?
-Essa sexta é aquele jantar que comentei com você, onde minha mãe vai me botar numa roupa ridícula e rosa e vai me mostrar para as amigas dela que vão falar como eu estou uma mocinha. – Lizzie falou com uma voz fútil e fina, como se imitasse as amigas da Sra. Dunn.
-Não dá para você escapar? – Isabella implorou.
-Não, desculpe.
As duas entraram na sala e sentaram em seus lugares de sempre. Isa se sentava na última carteira da fileira da janela e Lizzie se sentava na sua frente. Elas sentavam nessa posição em todas as aulas e impressionantemente, todos respeitavam. Era como se as duas tivesse amaldiçoado os lugares e ninguém se atrevesse a se aproximar.
Mas é que aqueles lugares eram realmente os melhores. Elas estavam no fundo da sala, ou seja, ótimo para ler escondido, ouvir música escondido e passar bilhetinhos. Sem contar, que a localização próxima da janela lhes dava uma chance de distração a mais. A maioria dos alunos considera isso algo ruim, porém as duas não. Isso significava que poderiam encarar os jardins da escola e perder-se em pensamentos enquanto algum professor inútil falava algo inútil sobre algum assunto inútil.
A professora entrou, e Isa virou sua cara para a janela, vendo alguns alunos atrasados, correndo desesperadamente pelo jardim. Era engraçado.
Lizzie virou-se rapidamente e Isa mal reparou quando ela largou um papelzinho em cima da mesa.
"O que você vai fazer em relação ao Gabe?"
"O que você quer dizer com isso?"
Isa não se sentiu confortável com aquela pergunta. Ela não tinha pensado em Gabe desde que ele a deixou no estacionamento para ver sua namorada. Certo, ela tinha pensado, mas não muito e a garota evitava pensar que ele tinha uma namorada adorável.
"Quero dizer que agora ele está mais próximo, e eu vi o jeito que ele olhou para você hoje cedo, você vai se declarar ou coisa do tipo?"
Será que Lizzie pensava que estava em um filme da Hilary Duff? Agora ela queria convencê-la de que Gabe a olhou de uma maneira diferente e de que ela deveria se declarar?
Isabella riu. As vezes ela imaginava se a Sra. Dunn não teria deixado a filha cair de cabeça quando bebê.
"Rúcula, você está chapada? Anda cheirando marca texto de novo? Eu me declarar? Há-há-há. Eu tenho vergonha de pedir para ir ao banheiro no meio da aula. Você realmente acha que vou me declarar para alguém? Além do que, o cara tem namorada. Na.mo.ra.da! Saca o que é isso?"
"Alguém não tomou o seu Prozac do dia! Desculpe, não está mais aqui quem falou. Mas que ele no mínimo foi com a sua cara, ele foi. Eu sento o frisson no ar a metros de distância."
"Frisson?"
Lizzie sempre aparecia com umas palavras estranhas que pareciam terem sido inventadas por ela mesma.
"Sim, FRISSON, sua sem cultura! Nunca leu A Garota Americana, não?"
"Não, você ainda não me emprestou, se lembra?"
"A Garota Americana" era um dos livros favoritos de Lizzie e ela vivia mandando Isa lê-lo, mas nunca o emprestava para a amiga. Ela falava que não conseguia se separar dele.
"Ah, é verdade. Enfim, frisson é quando tem um clima no ar, saca? Química, sintonia...Chame do que quiser."
"É claro que tinha uma química no ar, sou apaixonada por ele desde sempre. Tenho química o suficiente para suprir a falta que ele tem por mim. Tipo, olha para a namorada dele! Ele nunca a trocaria por mim!"
"Tanto faz, Isa, mas você é mais teimosa que uma porta de vez em quando."
Isa não respondeu o bilhete da amiga. Odiava quando a chamavam de teimosa, ainda mais quando ela tinha certeza de que não estava sendo.
Certo, ela estava felicíssima por estar passando tempo com Gabe, mas tinha consciência que o máximo que conseguiria era a amizade do garoto.
O que um cara como ele faria com uma garota esquisita como ela?
...continua...
