Cap 8 – Renegade
Gabe encarava os jardins do colégio a sua frente. O sol estava tão forte que ele mal conseguia manter os olhos abertos enquanto Hilary e outras garotas do último ano matracavam sobre a festa.
Ele não ouvia uma palavra do que elas falavam, e apesar de estar de mãos dadas com Cammie, não parava de pensar em outra garota.
"Isabella Hewit".
Gabe não conseguia esquecer do dia em que a conheceu. Não que tenha sido há muito tempo, mas para Gabe, já era o suficiente para dar saudade.
Cammie abraça o braço de Gabe e deita em seu ombro, enquanto as outras garotas tagarelavam sobre estatuas de gelo e flamingos felpudos.
Gabe olhou para o lado e viu Patrick girando o lápis nos dedos. Ele parecia entediado.
Patrick Kirk era o melhor amigo de Gabe desde a sétima série. Ele era um dos principais escritores do Bugle, o jornal de Salinger High. O garoto olhou para o amigo que tinha os cabelos cuidadosamente arrepiados. Patrick fingiu se enforcar ao ver que Gabe o observava, até que surgiu um sorriso no rosto de Pat. Gabe conhecia aquele sorriso. Ele aprontaria alguma coisa.
O lápis em uma manobra incrível voou em direção ao outro lado do jardim.
- Putz, já volto! Vou procurar meu lápis. – falou com um sorriso maroto, recebendo olhares fulminantes das garotas.
- Vem me ajudar, Gabe. – Pat chamou.
Gabe olhou para Cammie e saiu como se implorasse por perdão porque ele estava prestes a ir ajudar Pat com o lápis voador.
- De nada! – disse Patrick dando um tapinha no ombro de Gabe.
- Você acaba de salvar meu cérebro. Mais coisas rosas e acho que nunca mais seria o mesmo... seus cinco anos de teatro serviram pra alguma coisa! Não me referindo a essa cena do lápis, é claro.
- Deu certo, não deu?!
Os dois começaram então a procurar o lápis pelos arbustos. Pat havia exagerado na força, mas era compreensível querer sair de lá para o mais longe possível.
Para o azar dos aventureiros naturalistas, que se contorciam no meio da grande floresta podada de S.H. atrás do lápis, aparece de repente a cabeça do bedel, Wendell Klows, no meio dos arbustos.
- Hey?!
- E ai Wendell? Beleza, cara? – Patrick perguntou como toda sua cara de pau.
- O que vocês estão fazendo ai? São vocês que andam roubando mudas do jardim do colégio?
Gabe levantou uma sobrancelha sem entender o que estava acontecendo.
- Tá chapado, Wendell?
- Vocês estão encrencados, sr. Brightman e sr. Kirk! – o inspetor falou empurrando os dois garotos pelo ombro.
Patrick finalmente fez uma cara de preocupação.
- Calma, Wendell... – Gabe tentou se explicar – Nós só estávamos procurando o lápis do Pat.
O inspetor os olhava com indiferença.
- Olha! – Patrick gritou feliz esquecendo de sua preocupação. Ele se abaixou e pegou o lápis do chão. – Achei!
- Vocês pensam que me enganam, né?
Os garotos se olharam confusos, estariam mesmo encrencados por furto de mudinhas?
"Diretor August Peper", dizia em uma placa dourada colada na porta.
- Esperem aqui. – disse Wendell abrindo a porta como se abrisse a geladeira da casa da mãe dele. Wendell era conhecido por ser o quarentão que mora no sótão da mamãe. O cara era meio estranho. Estava sempre com uma camisa engomada e uma gravata borboleta azul por baixo do avental. O cabelo comportava três litros de gel, e já haviam enquetes no myspace para descobrir se Wendell era o dono da "Combgel".
- Sr. Klows, já falei para bater na porta antes de abrir! – ouviram o diretor Peper falar, por trás da porta.
- Desculpe-me sr. Diretor, mas tenho dois delinqüentes do lado de fora e se os deixarmos esperando por muito tempo eles podem atacar de novo!
- O que aconteceu, Wendell? – perguntou o diretor, com um ar de descaso.
- Os ladrões de mudinhas! Peguei-os no flagra!
- O que? Ladrões de mudinhas? Não falei para esquecer essa história? Por qual razão alunos de um colégio de classe média alta roubariam plantas?
- Mas...
- Mande-os entrar, Wendell... – disse o diretor como em um suspiro.
Pat cutucava Gabe com o lápis causador do futuro incerto dos dois, quando Wendell abre a porta e os encara com satisfação.
- Podem ir entrando, agora vocês vão ver!
Gabe ainda tinha aquela cara de quem não está entendendo nada, enquanto Pat continuava a se entreter com seu lápis.
Ao entrar na sala, Gabe dá um tapa na mão de Pat, fazendo com que o lápis voasse para baixo da mesa do diretor, que não percebeu tal movimentação.
- Sentem-se meninos.
Diretor Peper era incrivelmente bizarro. Com cabelos brancos apenas na lateral da cabeça, e um óculos fundo de garrafa, o homem parecia o papai Noel após a dieta de Atkins. A barba dele não podia deixar de chamar atenção. Apostas já haviam sido feitas para quem teria coragem de tosar a cultivada barba, ou pelo menos tirar as migalhas do café da manhã.
- Sr. Brightman! É uma novidade ver o senhor aqui por um caso de disciplina. O senhor geralmente vem aqui para receber elogios! – o homem sorria e Gabe sentia-se cada vez mais envergonhado. Odiava aquilo.
- É verdade. – ele falou, olhando para o chão.
- Já o senhor Kirk é outra história... – o diretor olhou com desdém para Patrick, que sorriu orgulhoso de sí mesmo. – Recebo reclamações até hoje sobre aquela edição do Bugle.
Pelas costas dos outros escritores e editores do jornal do colégio, Patrick tinha impresso uma edição do jornal que tirava sarro de tudo e todos.
Era o feito de que Pat mais se orgulhava e por pouco não tinha sido expulso. Por sorte, Kirk 'pai' fazia gordas doações ao Salinger High.
- Bem, obviamente vocês não estão com problemas hoje. – o diretor disse, limpando os óculos – vocês sabem... Wendell tem muita imaginação. Vou falar para ele que vocês receberam uma advertência para que ele pare de me importunar falando que as plantas desaparecidas são patrimônio da escola.
Os garotos concordaram, assistindo o diretor reparar no lápis embaixo da mesa e abaixando para pegá-lo.
- Olha, um lápis! – ele falou ao levantar-se, tão feliz quanto como se tivesse achado uma nota de cem.
O diretor começou a brincar com o lápis, ignorando a presença dos garotos.
Pat fez uma cara desesperada para Gabe. Estava louco para rir.
Gabriel fez força para não começar a gargalhar. Sua mandíbula já doía.
O lápis escapou das mãos do sr. Peper e fez um movimento que Gabe imaginava ser impossível para um lápis. De alguma maneira, ele realizou um looping duplo, que aparentemente "acordou" o diretor, enquanto Patrick fingia uma crise de tosse para camuflar sua risada.
- Então, garotos, vocês estão liberados, mas se mantenham longe dos jardins ou Wendell pode imaginar que vocês querem roubar as palmeiras.
Gabe apenas concordou. Sabia que se abrisse a boca começaria a rir como Pat.
- O senhor está bem, sr. Kirk? – o diretor perguntou preocupado olhando para o menino que nem parecia respirar.
Patrick não respondeu. Apenas concordou com a cabeça e "tossiu" mais forte ainda.
- Está sim, sr. Peper! – Gabe respondeu levantando-se. – É só uma crise de asma. – Patrick também se levantou. Vou levá-lo para tomar água. – Gabe empurrou Pat pelos ombros.
- Qualquer coisa vá até a enfermaria, Kirk! – gritou o diretor, enquanto os garotos saiam.
Foi só a porta fechar para os dois se jogarem contra a parede e começarem a gargalhar.
À medida que os alunos passavam, mais aquilo parecia uma cena de manicômio.
- O que foi aquilo? – perguntou Gabe, juntando forças para respirar.
- Sei lá! – disse Patrick, retomando o fôlego – Mas ele ficou com meu lápis!
...continua...
