Mudança de Estações

Never let me go, never let me go
Never let me go, never let me go

A respiração era calculada, como se ele estivesse prestes a se aproximar de uma fera selvagem, mesmo que uma parte dele gritasse que tudo aquilo era ridículo. Era Arya, não um fantasma, ou uma besta. Mesmo com todos os traumas e com toda loucura que transbordavam de seus olhos, mesmo que ela já não fosse uma criança, mesmo que mal se conhecessem agora...Ela não o machucaria.

Ela às vezes falava como uma outra pessoa, mentia como uma necessidade compulsiva de criar saídas para problemas imaginários. Recitava o nome de seus inimigos antes de dormir, mas seus olhos se tornavam suaves quando seus dedos se fechavam ao redor do punho da espada, como se tocassem uma parte dela que era guardada a sete chaves. O que restava da Arya que ele havia deixado pra trás quando foi para a Muralha.

Jon tentou tocá-la algumas vezes. Tocar sua mão pequena e calejada, ou as pontas de seus cabelos curtos. Tentou imaginar como seria abraçá-la e se o cheiro dela ainda era o mesmo.

Bran havia contado a ela. Tudo. Cada detalhe, cada justificativa, cada necessidade. O casamento aconteceria de uma forma ou de outra, mas desde então ela havia se tornado uma bomba relógio.

Ele tentava alcançá-la de alguma forma. Buscava uma reaproximação e uma chance de recuperar a confiança dela. Às vezes funcionava e ele sentia as barreiras dela rachando ao som da voz dele. Talvez uma resposta subconsciente, mas a verdade é que ela ainda era uma perigo para si a para todos a sua volta.

Bran insistia que desde a chegada de Jon, ela estava mais calma. Mesmo assim a frieza nela o entristecia. Era como por os olhos sobre uma obra de arte arruinada pelo tempo, ou uma bela boneca de porcelana que havia quebrado.

Ela se virou para encará-lo por um momento. Parecia serena, ou tanto quanto era possível. Era como vê-la num dos velhos dias, em que Arya corria para um de seus esconderijos e esperava por ele, após alguma travessura, na esperança de que Jon compartilhasse risadas com ela.

- Como tem passado, minha senhora? – ele quebrou o silêncio sagrado dos aposentos dela.

- Bem o bastante. – ela respondeu - Aposto que seus dias tem sido bem mais interessantes do que os meus. Guerras para planejar, homens para comandar, enquanto eu estou presa aqui. Por algum motivo, Bran acha que eu ainda estou dentro desta torre graças a todos os guardas que ele colocou para me vigiar. A verdade é que nada nesse mundo me impediria de fugir se eu quisesse.

- Devo entender então que não deseja fugir? – Jon perguntou.

- Dizem que eu sou louca, como o rei Aerys. – ela disse encarando-o nos olhos – Me pergunto se há alguma chance de escapar de uma guerra completamente são. O fato é que eu não estou louca, só...Seria mais fácil sobreviver se eu não fosse Arya Stark.

- Isso foi antes. – ele disse num tom baixo e preocupado – Antes de voltar pra casa.

- Eu às vezes me esqueço. – ela disse – Eu não lembro mais deles, sabia? Robb, meu pai e minha mãe. Até mesmo Bran e Rickon são estranhos para mim. Tento me convencer de que estão tentando fazer o melhor para todos nós, para manter a matilha a salvo...É difícil, muito difícil. Então você voltou também e as coisas que eu me esqueci começaram a voltar aos poucos, como o nível da maré que sobe com o passar do dia e pela influência dos astros. Percebi que Agulha e você foram as únicas coisas que eu me recusei a esquecer.

- Então ainda posso ter esperanças de...De que você não nos deixou para sempre? – ele perguntou dividido entre o temor e o fascínio.

And the arms of the ocean are carrying me,
And all this devotion was rushing out of me,

And the crashes are heaven, for a sinner like me,

The arms of the ocean deliver me

- Talvez. – ela disse séria – Eu me lembro vagamente de uma vez em que meu pai disse que um lobo solitário não sobrevive ao inverno. Eu busquei bandos, grupos aos quais eu poderia me aliar para sobreviver e isso me manteve viva. Mesmo que minhas memórias sejam falhas, sei que nenhum deles jamais substituiria minha matilha original. – ela abaixou a cabeça e cerrou os punhos como se cada palavra lhe custasse um pedaço de sua juventude – Eu não concordo com esse casamento que estão planejando, mas...Eu sei que é preciso. Somos todos lobos, não sobrevivemos sozinhos e mais do que nunca precisamos defender uns aos outros. Nunca consegui esquecer você, Jon. Talvez isso seja um sinal de que este é o caminho que devo seguir.

Com passos cuidadosos ele se aproximou dela. Ele se ajoelhou ao lado dela, numa proximidade que até então não havia existido. Como se pela primeira vez desde que se reencontraram a confiança antiga voltasse a conectá-los. Jon colocou sua mão queimada sobre a dela. Por um momento ela tentou afastar-se do toque dele, mas aos poucos sua resistência deu lugar ao conforto de um gesto de carinho.

- Nunca mais. – ele disse – Nunca mais teremos de vagar sozinhos. Eu prometo. – e como um golpe mortal aquelas palavras a atingiram, fazendo as defesas dela ruírem. Os olhos dela estavam úmidos e suas mãos tremiam.

- Jon... – a voz dela era um sussurro quase infantil, impregnado de medo e esperança.

- Esse casamento é uma estratégia política. – ele disse – Será questionado a exaustão, condenado por muitos. Talvez jamais me veja como um esposo, ou como o homem de seus sonhos, mas eu lhe prometo uma coisa. Sempre poderá confiar em mim e enquanto eu viver vou cuidar de você e protegê-la.

- E o que eu terei de fazer por você, Jon? – ela perguntou.

- Nada. – ele respondeu imediatamente.

- Mentiroso. – Arya respondeu – Nada neste mundo é feito sem um preço a ser pago. Você teve coragem para se proclamar rei, mais do que nunca vai precisar cobrar um preço por suas ações.

- Preciso que esteja ao meu lado. – ele disse calmo – Haverá mais guerras, mortes e decisões difíceis. Não vou conseguir sozinho. – ele sorriu um sorriso fraco – Posso confiar em você?

- Sim. – a resposta era segura – Por um momento achei que seu preço seria um herdeiro. – ela disse.

- Imagino que eventualmente isso aconteça, mas será uma consequência. – ele respondeu – Uma batalha de cada vez. No momento, estou mais preocupado em saber se a pessoa ao meu lado será minha aliada, ou minha inimiga.

- Sou parte da sua matilha. – ela respondeu – Isso é tudo o que importa.

E num gesto de respeito e gratidão ele beijou a mão dela. Uma aliança que determinaria os rumos da guerra seria feita em seu devido tempo. Naquele momento, tudo girava ao redor de medos, incertezas e a solidão de ambos. Ele era grato a ela por sua compreensão e consentimento, e ela era grata a ele por sua franqueza e sua devoção.

Dias brancos se seguiram sem que nenhum deles fizesse muita questão de contar. Falavam pouco um com o outro, normalmente por uma questão de propriedade e respeito. Ainda que houvesse todo aquele silêncio cerimonioso e que nenhum deles demonstrasse grande entusiasmo pelo que teriam de fazer em breve, Jon a cortejava, como era esperado.

Sob os olhos atentos do Norte, quando todos os vassalos o avaliavam enquanto futuro governante e enquanto líder em batalha, o povo precisava ser conquistado com ações que demonstrassem que nada em Jon era leviano, ou indecoroso. Os sussurros pelos corredores ainda podiam ser ouvidos e ele sabia o que todos pensavam.

Desertor, vira casaca, um patrulheiro que quebrou seus votos...Mesmo assim, Robb, o antigo Rei no Norte, o havia reconhecido como um herdeiro antes de morrer. Rhaegar o havia reconhecido como seu filho legítimo antes de ser derrotado no Tridente. Tyrion Lannister estava disposto a empregar uma boa quantia em dinheiro na campanha dele, mesmo sabendo que eventualmente Jon seria obrigado a levar a Justiça contra Cersei e Jaime. E acima de tudo, Brandon Stark estava disposto a dar a ele sua irmã em casamento.

Então ele precisaria conquistar a simpatia do Norte e isso se fazia com austeridade e honra. Com preces perante os deuses antigos e uma boa dose de justiça aos que o desafiavam. Acima de tudo, com respeito por uma mulher que seguia os costumes antigos e que tinha mais do que apenas uma parcela de sangue de lobo correndo nas veias.

Se Aryas estava disposta a cooperar, então tudo seria mais tranquilo e logo eles poderiam desfrutar de alguma privacidade em seu relacionamento, ainda que fosse para ignorarem um ao outro.

Ela o divertia, apesar de tudo. Os rumores a respeito de seu temperamento eram tantos, que crianças se escondiam atrás de colunas e de duas mães quando ela estava por perto, mas continuavam encarando-a com olhos curiosos. Ela os surpreendia com sustos e caretas, mas nunca fez nada para machucar alguém. As crianças saiam correndo, gritando e gargalhando, enquanto Arya escondia um sorriso satisfeito e guardava para os pais seus olhares mais severos.

Caminhavam juntos pela manhã, ou ao cair da tarde. Na maioria das vezes era seguidos de perto por um escudeiro e uma dama de companhia, já que Arya se recusava a ter uma septã por perto. Ela seguia a religião dos deuses antigos, não precisava de uma adoradora dos Sete seguindo-a por todos os cantos.

Não falavam muito, apenas discutiam os eventos mais marcantes do dia. Naquele dia em especial, Jon pediu a Bran que os servos não os acompanhassem. Arya se sentia mais confortável com a ausência de olhos em suas costas e eles podiam conversar com menos formalidade.

Eles caminharam pelo castelo até o Jardim de Vidro, aonde as frutas e flores cresciam, apesar do inverno. O cheiro do ar era doce e intenso. Rosas do Inverno cresciam e desabrochavam, tornando a estufa um belo refúgio. Arya se sentou entre elas, sem dar importância ao vestido que usava.

Ela tocou as pétalas azuis e sentiu o perfume. Jon se lembrou de quando desejou ser o senhor de Winterfell e apresentar a Ygritte seus lugares favoritos. Dar a ela flores do Jardim de Vidro, dar um banquete em sua honra, mostrar as torres magníficas de Winterfell e a cripita, onde os Reis do Inverno descansavam em seus tronos, e amá-la no bosque sagrado, sob os olhos dos deuses antigos.

Não poderia fazer dessas coisas algo fabuloso aos olhos de Arya. Ela era a senhora de tudo aquilo e ele o convidado. Mesmo assim, havia algo de especial naquele momento. As boas lembranças que ele tinha daqueles lugares, eram lembranças dela também, lembranças que precisavam ser revividas. Ela parecia feliz e ele também.

Ela apanhou um punhado de Rosas do Inverno, e com cuidado ela trançou-as, formando uma guirlanda e então entregou-as a Jon.

- Acho que uma coroa de flores ficaria melhor em você do que em mim. – ele brincou. Arya balançou a cabeça levemente.

- Não são pra você. – ela respondeu – Você já está aqui há algum tempo, mas ainda não foi a cripta. Talvez não tenha se acostumado com a ideia ainda, mas ela é a sua mãe. Devia visitá-la. Meu pai levava flores para ela, mas a tumba está abandonada há muito tempo.

Jon aceitou a coroa de flores e juntos eles foram até a cripta. Os rostos esculpidos em pedra eram severos e imponentes. Alguns desconhecidos e outros tão familiares que faziam o coração doer. Ned e Robb estavam lado a lado, orgulhosos e honrados, encarando Jon e Arya com bondade e expectativa.

Ele se deteve diante do túmulo de Lyanna e pela primeira vez admirou o rosto de sua mãe atentamente. Linda e infeliz, mesmo que nas cartas ela dissesse a todo momento o quanto amava Rhaegar e o quanto desejava segurar seu filho nos braços. Infelizmente ela não viveu o bastante para isso.

Desviou os olhos da estátua e notou as semelhanças entre Lyanna e Arya. Os mesmos traços firmes do Norte, uma beleza austera e selvagem. Duas mulheres de espírito indomável.

Jon depositou as rosas sobre a cripta e em silêncio pediu por proteção e sabedoria. Então ele voltou para junto de Arya e com um toque de surpresa sentiu a mão dela segurar a dele, entrelaçando os dedos, num gesto de encorajamento.

Naquele breve momento, ele se sentiu feliz.

Though the pressure's hard to take,
It's the only way I can escape,

It seems a heavy choice to make,

Now I am under

Nota da autora: Pois é, como eu disse esse casal não está nada apaixonado, nem satisfeito com a perspectiva de um casamento. Tudo está girando em torno de obrigações e política, enquanto eles tentam salvar a relação de cumplicidade e confiança que sempre tiveram. O que acontecerá depois do casamento é uma incógnita. Pra quem não notou, a musica tema da bagaça é Never Let Me Go, da Florence and The Machines.

Em resposta à Lily Evans: Fia, obrigada pela review. Vejamos, o Jon era Lorde Comandante, mas deixa a Patrulha e a Muralha ao assumir a pretensão ao trono, obviamente isso não é uma atitude muito popular, mas ninguém tá afim de caçar briga com o Norte inteiro. O Bran é Rei no Norte por um tempo, mas aceita dobrar os joelhos e apoiar o Jon contanto que o casamento com a Arya aconteça. Pra minha sanidade mental a Sansa ficará trancada no Ninho da Águia, parindo herdeiros para o Vale loucamente (só assim pra mulher num sair fazendo merda). Tommen é rei, Stannis não é mais um problema (nem sei se vou me prolongar nesse ponto). Danny...Ouvi falar que ela existe, mas que tipo de rainha pode esperar subir ao trono quando não pode ter filhos? O que resta entre Jon e o trono é o que sobrou dos Lannister. E não tenha medo de me dar spoilers, fia. XDDDDDDDD Não há um spoiler pelo qual eu não tenha procurado XDDDDDD.

Bjux

Bee