Caminhando Juntos

And it's breaking over me,
A thousand miles down to the seabed,

Found the place to rest my head

E o dia chegou, sem que qualquer um dos dois tivesse o poder de parar o tempo, ou retirar palavras que foram ditas para cimentar uma poderosa aliança. Não havia espaço para reconsiderações ou desistências.

Jon encarou seu rosto refletido no espelho e respirou fundo enquanto ajeitava suas roupas pela milésima vez. Tyrion esperava por ele, com um sorriso grotesco, que em outros tempos seria uma tentativa de conforto.

- O negro definitivamente é a sua cor. – o anão comentou. Apenas o vermelho sangue dos dragões coloria a roupa e Jon se sentia pretensioso vestido de forma tão cuidadosa.

- Há algum modo mais fácil de conseguir uma aliança? – Jon perguntou.

- Não. – a resposta foi imediata – Mas podemos concordar que tudo isso poderia ser infinitamente pior. Coragem, Snow. Você está se casando, não indo para sua execução.

Seguiram até o bosque sagrado, cada passo era mais difícil do que o anterior. Havia nevado na noite anterior e tudo estava branco e calmo.

Os vassalos se aglomeravam ao redor das árvores sentinelas enquanto Jon guardava sua posição diante da árvore coração, com Bran sentado ao seu lado.

Rickon a trazia pelo braço, orgulhoso de ter de desempenhar uma tarefa tão importante. Os lobos estavam deitados, enroscados uns nos outros para se aquecerem, apenas Fantasma permanecia ao lado do dono.

Ela ergueu o rosto e o encarou. Arya estava calma e controlada, nenhum sinal de receio, ou ansiedade perturbavam seu rosto severo e bonito. O vestido era de veludo branco bordado a fios de prata e com pele cinzenta. Sobre os ombros ela trazia a capa branca com o lobo gigante bordado. Seus cabelos estavam limpos e na cabeça ela trazia uma coroa de rosas do inverno, que seria substituída por uma de ouro e cobre. Jon pensou que nunca a havia visto tão bonita, nem tão intimidadora.

Os votos foram proferidos com dignidade e então Jon levou suas mãos às presilhas da capa dela. Podia sentir o coração acelerado, como um eco do seu. Soltou a capa e a entregou a Tyrion, para então substituí-la pela capa negra com o dragão vermelho de três cabeças.

Deslizou as mãos pelos ombros cobertos dela até alcançar as mãos de Arya e beijá-las. Ninguém ouviu, mas Jon sussurrou um agradecimento a ela.

Todos os convidados seguiram para o Grande Salão. O banquete foi farto e havia música preenchendo o ar. Todos riam e celebravam aquele breve momento de paz, antes que uma nova batalha levasse os homens para junto de suas armas. Naquele momento, todos queriam acreditar que o inverno não seria tão longo e que logo a guerra teria fim, que um novo rei ascenderia e príncipes seriam gerados, garantindo o futuro de todos.

Eles não conversaram entre si. Guardavam o silêncio inseguro, enquanto as mãos tremiam e os corações pesavam. Era o primeiro dia do resto de suas vidas. Apenas o primeiro dia de muito que viriam pela frente.

Então chegou a hora... Os gritos alegres tomaram conta do salão e todas as damas presentes cercaram-no, desfazendo os nós da roupa dele e removendo as peças, enquanto o mesmo era feito com Arya por todos os nobres do lugar.

O casal foi conduzido ao leito, ambos nus e desconcertados com os comentários. Ele podia ver o esforço de Arya para não agredir alguém e também suas tentativas frustradas de manter algum pedaço de tecido sobre seu corpo. Era a tradição, mas Jon preferia que ao menos aquela parte não lhes fosse imposta.

A porta foi fechada e Arya já estava deitada sobre o leito, buscando um pedaço de pele de lobo para se cobrir. Jon desviou os olhos e buscou dentro de um baú dois roupões pesados. Ele vestiu um deles e o outro ele colocou sobre os ombros dela com cuidado para cobri-la por inteiro. A expressão de alívio no rosto dela era nítida e ele se sentiu satisfeito por saber que não era o único a se sentir constrangido com tudo aquilo.

De qualquer maneira, o que teria de acontecer naquele quarto era inevitável. A consumação do casamento era indispensável, assim como a produção de um herdeiro o quanto antes.

Arya encarava suas mãos, sem saber exatamente o que fazer. Jon respirou fundo e então acariciou o rosto dela.

- Já fez isso antes? – ele perguntou quebrando o silêncio entre eles.

- Não. – a resposta foi fria e direta. Ele ergueu o rosto dela para que se olhassem de forma direta.

- Não precisamos fazer isso. – ele disse calmo – Não hoje, eu digo. Podemos esperar um pouco, até que se sinta confortável com a ideia.

- Mas logo marcharam para batalha. – ela disse.

- Logo, mas não hoje, nem amanhã. Ainda levaremos algum tempo até que tudo esteja pronto. Um mês, pelo menos. – Jon disse seguro – Até lá, não há porque apressar isso. Além do mais, pretendo que nos acompanhe quando a marcha começar, assim como Margaery Tyrell seguia ao lado de Renly. Isso quer dizer que haverá tempo o bastante para consumar o casamento. Hoje...Por hoje nós vamos apenas desfrutar da bendita privacidade deste quarto.

- Obrigada, Jon. – ela agradeceu levando a mão ao rosto dele e acariciando-o também. Ele respirou aliviado e desfrutou do prazer de ter um gesto de carinho dela. Queria abraçá-la, fechar os olhos e lembrar-se de quando acreditavam ser irmãos e tudo entre eles era mais simples.

Never let me go, never let me go
Never let me go, never let me go

A mão dela pousou sobre uma cicatriz longa sobre o peito dele. Uma das muitas lembranças de como o poder pode ser fatal. Ela traçou o contorno da cicatriz, avaliando o tipo de golpe que a teria causado.

- Como conseguiu tantas? – ela perguntou por fim.

- Traições e adagas na noite. – ele respondeu – Nem todos concordam com o que diz um Comandante e nem todos são confiáveis. Por isso eu acho que me agrada a ideia de tê-la ao meu lado. Ao menos sei, ou espero, que não tentará me esfaquear durante o sono.

- Esfaquearia quem tentasse tal coisa. – ela respondeu determinada, arrancando um sorriso dele.

- Fico feliz em saber que posso entregar meu sono em suas mãos. – ele disse – Pode fazer o mesmo comigo.

Mais uma vez silêncio.

- Você já... – ela se deteve por um momento e Jon a encarou curioso – Já esteve com uma mulher antes?

Era uma boa pergunta. Uma pergunta justa, mas isso não a tornava menos desconfortável.

- Sim. – ele respondeu.

- Tem algum bastardo sumido neste mundo? – ela fazia perguntas diretas.

- Não. – ele respondeu.

- Como ela era? – por um momento ele se perguntou a razão de tamanha curiosidade.

- Uma selvagem. – ele respondeu – Coberta por várias camadas de pele e cabelos vermelhos. Beijada pelo fogo, é como os selvagens chamam as pessoas ruivas.

- Era bonita? – Arya insistiu.

- Hoje penso que não era nenhuma beldade, mas na época eu era um garoto que não sabia nada sobre mulheres e ela foi uma boa professora e eu me apaixonei por ela e pelo que fazíamos. – ele respondeu sinceramente.

- E o que aconteceu com ela? – Arya perguntou por fim.

- Morreu. – a resposta era quase um sussurro.

- Ainda pensa nela?

- Raramente. – ele disse – Fiquei com ela por uma questão de sobrevivência, acho que nunca a amei de verdade. Estava apenas enfeitiçado pela descoberta.

- Mas ela o atraía de algum modo. – Arya concluiu.

- Uma mulher interessada é sempre atraente. – ele respondeu – Mas a princípio, eu gostava de ficar perto dela porque algo nela me lembrava você, só não sei o que era.

- Oh! – ela soltou uma pequena exclamação de surpresa.

- Eu senti muito a sua falta. – ele confessou por fim e beijou a testa dela com ternura.

Num gesto inesperado Arya jogou os braços ao redor dele e o abraçou como no dia em que Jon lhe deu Agulha de presente. O coração dele exultou de alegria, tanta que chegava a doer. Ele retribuiu o abraço e afundou o nariz no pescoço dela, sentindo o cheiro de Rosas de Inverno e pinheiros.

Era o primeiro passo de uma longa caminhada, mas ao menos agora havia a esperança de que seguiriam juntos.

- Obrigada. – ela sussurrou enquanto ele deslizava suas mãos pelas costas cobertas dela.

- Pelo que? – ele perguntou.

- Pro ser sincero comigo, por Agulha, por hoje, por tudo.

Jon sentia o cansaço cobrar seu preço. Deitou-se na cama e fechou aos olhos, sentindo o corpo dela se aninhar junto ao seu, buscando calor e um pouco de carinho. Ele não reclamou daquilo, muito pelo contrário. Abraçou-a com cuidado e sussurrou um "boa noite". Beijou a testa dela mais uma vez e logo pegaram no sono.

Na manhã seguinte ele se esgueirou para fora do leito, tentando não acordá-la, o que foi inútil. Ela bocejou e esfregou os olhos. Lançou a ele um sorriso meio sonolento, fazendo-o rir. Como ainda pensavam que ela estava louca?

- Bom dia, esposa. – ele disse.

- Bom dia. – ela respondeu.

- Vou me trocar e então quebrar o jejum. Gostaria de me acompanhar ou prefere dormir mais um pouco? – ele perguntou simpático.

- Pode ir na frente, não vou demorar muito. – ela disse se espreguiçando mais uma vez, enquanto ele se vestia rapidamente.

Ao chegar no salão principal, apenas Bran e Tyrion se encontravam a mesa, conversando enquanto saboreavam a refeição.

Ambos ergueram suas cabeças ao vê-lo junto a mesa e pedindo a uma das criadas para trazer-lhe ovos, bacon, pão e um chifre de cerveja forte. O silêncio pairou sobre eles, enquanto Jon se sentava e esperava por sua comida.

- Devo dizer que é uma surpresa vê-lo de pé tão cedo. – foi Bran quem disse.

- Não sou de ficar muito tempo na cama, sabe disso. – Jon respondeu enquanto provava o bacon tostado.

- Sim, Vossa Graça, mas ninguém esperava vê-lo no salão hoje, muito menos tão descansado. – Tyrion disse – A rainha ainda dorme?

- Ela logo estará aqui. Pediu alguns minutos para se aprontar. – ele respondeu.

- E como foi a noite passada? – Tyrion o encarou com olhos acusadores.

- Este é um assunto que não lhes diz respeito. – Jon respondeu imediatamente.

- Sete infernos! Me diga que esse maldito casamento foi consumado e que você e sua esposa são mais resistentes do que parecem! – Tyrion resmungou.

- Não é da sua conta! – Jon retrucou cerrando o pulso e socando a mesa – E eu não quero ouvir uma palavra a respeito disso, principalmente perto dela.

- Jon, eu entendo que a situação seja...Delicada. – Bran disse em tom conciliador – Mas sabe que terão de consumar o casamento e produzir um herdeiro enquanto antes. Se fosse apenas um homem qualquer, com alguma consideração por sua esposa, isso não seria nada de mais, mas você é rei! Você e Arya têm obrigações e o reino vem em primeiro lugar.

- Por hoje podemos aceitar que o dia de ontem foi demasiado cansativo para os dois e que mereciam um bom descanso, mas não me apareça aqui amanhã sem antes provar que sabe onde enfiar aquilo que tem entre as pernas, Jon! – Tyrion resmungou.

Jon se afastou da mesa, deixando para trás sua refeição praticamente intocada.

- Com licença. Acabo de perder a fome. – ele disse antes de deixar o salão em direção ao bosque sagrado.

Do que lhe servia o título de rei, se nem ao menos em sua cama ele podia ditar as regras?

Nota da Autora: Então...Casaram e nenhum dos dois está muito disposto da tirar a roupa e aproveitar a vida XD. O que deixa um anão Mão do Rei louco? Um casal real que não produz herdeiros! Estou mais preocupada em reforçar a relação de amizade dos dois, antes que eles comecem a viver como um casal de verdade. Calma crianças, a fic é M por uma razão, então logo haverá coisinhas legais por aqui XD. Obrigada pelas reviews, meninas e quanto a Those Stormy Days, eu gostaria de termina-la, mas serão apenas dois capítulos pra concluir. Então, eu espero que gostem do capítulo novo e continuem comentando XD.

Bjux

Bee