Preces Sussurradas

In the arms of the ocean, so sweet and so cold,
And all this devotion I never knew at all,

And the crashes are heaven, for a sinner released,

And the arms of the ocean,

Deliver me

Não fingiria entender os motivos por trás da mensagem, mas Mance Rayder tinha que admitir que era algo inesperado. Ele sabia muito pouco da garota Stark, que agora chamavam de rainha, mas o que ouviu a respeito bastava para que ele tivesse receio de se aproximar além da medida.

Homens Sem Rosto. Só de pensar um arrepio lhe percorria a espinha. Uma mulher meio louca, meio selvagem e Stark por inteiro. Jamais entenderia o que Jon viu nela para tê-la como parceira de cama, mas tinha de admitir que o exército do Norte, juntamente com o Vale e o Tridente eram razões mais do que suficientes para transformar a mais horrenda das mulheres em uma beldade, ou para justificar um casamento com alguém do próprio sangue. Targaryens fizeram o mesmo desde Aegon, O Conquistador. Jon era Targaryen o bastante para seguir a tradição da família.

O bosque sagrado estava vazio, apenas o som do vento farfalhando contra as árvores e os passos sobre a neve velha. Ela o esperava diante da árvore coração.

Ser um Rei Além da Muralha não lhe dava uma ideia muito precisa de como eram as damas do Sul, mas Mance podia dizer com certeza que aquela estava longe de ser uma. Em canções todas as damas são belas, doces, delicadas e gentis. Arya Stark não tinha nada de doce, delicado, ou gentil. Seus traços eram severos, seus olhos frios e duros como aço, seus cabelos revoltos e escuros, curtos de mais para trançar ou adornar com flores. Não usava seda, ou veludo, a menos que estivesse no Grande Salão, diante de convidados.

A pequena rainha poderia se passar facilmente por um jovem camponês, ou um garoto dos estábulos se quisesse, mas aqueles olhos e aquela impetuosidade... Um homem poderia perder a cabeça facilmente com a expectativa e a adrenalina da caça. Ela era uma selvagem de espírito, muito sangue de lobo corria em suas veias e uivava para a lua de noite. Jon não queria uma rainha para um reino, queria uma loba alfa para sua matilha.

Ela usava uma espada esguia presa à cintura. Algo peculiar para uma lady.

- É um belo adorno este que trás a cintura. – Mance comentou, recebendo da garota um olhar indiferente.

- Não é um adorno. – ela disse séria – Agulha é minha melhor amiga. Poderia dizer que é a primeira filha que Jon me deu, anos a trás, quando a possibilidade dele me desposar ainda não existia.

- Muito bem. – Mance concordou com um aceno de cabeça – O que alguém como eu pode oferecer a rainha do Corvo?

- Jon confia em você. – ela disse numa constatação simples – Não sei o motivo, mas confia. Ele não me contou, mas entreouvir conversas e interceptar informações me manteve viva todos estes anos. Ele vai mandá-lo em direção às Gêmeas, não é mesmo? Uma fonte segura de informações para prepararmos o sítio.

- Vejo que tem bons ouvidos e nenhum juízo para ficar falando destas coisas. – ele disse sério.

- Posso ter me esquecido de muita coisa, mas sei bem com quem me casei e o que move Jon. – ela disse – Decisões e ações honradas. Estas mesmas decisões e ações podem nos custar muito ouro, vidas e tempo. Tomar as Gêmeas levaria meses, tempo mais do que suficiente para que alguém pudesse vir ao socorro daquela corja de caras de fuinha. – ela retrucou ríspida – Jon os poupará, se dobrarem os joelhos. Poupará todos eles e talvez tome um ou dois como escudeiros, ou reféns.

- E em que isso a desagrada, Vossa Graça? – ele perguntou curioso e debochado.

- Meu irmão e minha mãe foram assassinados de baixo do teto de Walder Frey. Seus filhos, netos e bisnetos sujaram suas mãos em sangue Stark, violaram as leis da hospitalidade e isso me parece mais do que o suficiente para lavar as Gêmeas com sangue em pagamento pelo Casamento Vermelho. – ela respondeu com a voz tão fria quanto à lâmina de uma espada – Eu quero minha vingança e isso é tudo o que Jon não me dará em nome de sua honra.

- Achei que a honra era um traço de família. – ele provocou.

- Honra não parou a espada que decapitou meu pai, ou meu irmão. – ela respondeu – Guerras não são ganhas com honra, tão pouco a honra no que fizeram com a minha família. Estou apenas jogando o jogo deles, mas eu vou vencer, nem que pra isso eu tenha que recorrer a meios dúbios.

- O que sugere, minha senhora? – ele perguntou – Vai se disfarçar e esfaquea-los em suas camas? Vai usar um de seus rostos e retalhá-los?

- Eu sou o Fantasma de Harenhall. – ela disse com um toque de satisfação – Serei a Maldição das Gêmeas e espero que me ajude nisso. – ele puxou de dentro de um dos bolsos um pequeno frasco – Lágrimas de Lis. Tudo que eu preciso é de uma pessoa dentro da cozinha das Gêmeas.

- Por que não vai até lá sozinha e resolve o problema? Eu não tenho razão alguma para ajudá-la nisso, Vossa Graça. – Mance retrucou – Não sou assassino.

- Tudo o que eu quero é proteger a minha família. – Arya disse – Seu filho ficará conosco enquanto o senhor presta seus serviços a Jon, não é mesmo? O que faria para proteger seu filho, Rei Além da Muralha? – ela não estava blefando e ele não arriscaria desafiar alguém tão letal quanto ela.

- Faria um favor a uma rainha. – ele disse tomando o frasco das mãos dela – Todos?

- Todos. – ela confirmou – E eu não me importo com idosos, mulheres e crianças. Quero os corpos pendurados sobre as muralhas do castelo para receber Jon.

- Você é um demônio, mulher. – Mance disse deixando de lado as cortesias – Aposto que se usasse metade dessa imaginação pra entreter seu rei, ao invés de planejar banhos de sangue, aquele Corvo teria uma expressão menos carrancuda do rosto. Sabe que isso é traição, não sabe?

- Cuide do serviço e deixe Jon por minha conta. – ela retrucou e sumiu entre as árvores.

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Never let me go, never let me go
Never let me go, never let me go

Deliver me

Ela havia ido até o bosque sagrado naquela manhã. Nem ao menos esperou que ele acordasse, deixando-o para trás, nu e entregue a um sono insuperável. Não era uma sensação agradável acordar com a cama vazia, mas sabia que Arya precisava de paz tanto quanto ele precisava de herdeiros. Se ela buscava segurança nos deuses antigos, Jon respeitaria isso.

Por um momento ele cogitou a ideia de procurar por ela no bosque, mas ainda era cedo e a noite passada cobrou de ambos uma boa dose de coragem para deixar de lado todo passado e seus próprios conceitos. Alguém poderia enlouquecer numa situação como aquela. O melhor era dar a ela espaço para respirar e, se preciso, fechar suas feridas.

Bem ou mal, o pior havia passado e com uma justa porção de prazer para ambos. Era estranho pensar nisso, mas a noite anterior não era sobre prazer, mas sobre aceitação e intimidade. Era como compartilhar um segredo e achar o caminho de casa. Um lugar onde não importavam títulos, ou hierarquia, ou origem.

Sem a paixão visceral que sentiu por Ygritte, ou a atração incerta por Melissandre. Nem por isso a sensação era menos poderosa. Buscar alívio dentro dela foi como respirar pela primeira vez. Doloroso e recompensador.

O que sobraria para eles depois disso ainda era um mistério. Magoa, ressentimento e nojo eram opções que ele temia, mas talvez pudessem sair disso fortalecidos em sua amizade e aos poucos aquele casamento se tornasse algo além de uma jogada política.

Casada e deflorada...Haviam cumprido a primeira obrigação para com o reino. As outras logo seriam cumpridas também. Talvez tivessem produzido um herdeiro, talvez o fizessem na próxima vez.

Tyrion estava de bom humor naquela manhã e Jon se perguntou se alguma vez a visão de trapos sujos de sangue deixou um homem tão feliz. Ao menos isso pouparia Jon e Arya de aturarem reclamações e expressões de desagrado. Bran também estava ciente do acontecido, mas preferia a resignação. A ideia do casamento também estava sendo difícil para ele e quanto menos ele soubesse do que se passava dentro dos aposentos reais, mais feliz ele ficaria.

Enquanto seus sentimentos eram cinzentos e melancólicos, seu apetite havia se tornado voraz e naquela manhã Jon se permitiu mais do que uma refeição moderada. Queria enfiar seus dentes em carne gordurosa, tenra e suculenta. Pão, manteiga fresca e cerveja forte para empurrar tudo para baixo. Era bem capaz de devorar um javali inteiro.

- Não fique gordo como Robert. – Tyrion comentou – Você pode acabar esmagando aquela sua rainha miúda.

- Preocupe-se com os seus assuntos, Lannister. – Jon retrucou – Meu apetite e minha rainha não se encaixam na descrição.

- De fato. – Tyrion respondeu – Mas eu devo comentar que seu humor está muito melhor esta manhã.

- Se quer que eu continue assim, ocupe sua boca com cerveja e me poupe os gracejos. – Jon disse – Sabe se Arya quebrou o jejum antes de sair?

- Se ainda não cuidou disso, ela deve aparecer logo, tão faminta quanto você. A menos que Vossa Graça seja um incompetente da cintura para baixo.

- Cuide de sua vida, Duende, ou posso encurtá-la para se adequar a sua estatura. – a voz de Arya cortou o Salão e ela surgiu, vestindo um vestido de lã grosseira e quente de baixo de um casaco longo de cor azul.

- Muito bom dia, Vossa Graça. – Tyrion respondeu levantando-se da mesa em sinal de respeito.

- Bom dia, minha senhora. – Jon fez o mesmo, de forma um tanto desastrada.

- Bom dia, meu senhor. – ela disse de forma discreta e por um segundo Jon jurou ter visto um toque de rubor na face pálida dela.

Se sentaram lado a lado, envoltos em constrangimento e dúvida. Jon lhe cortou pedaços do assado e eles dividiram o mesmo copo e a mesma taça, de forma tímida, enquanto vassalos e servos os observava.

Never let me go, never let me go
Never let me go, never let me go

Deliver me

Discretamente, Jon deixou que sua mão buscasse a dela debaixo da mesa. Seus dedos se entrelaçaram e o rosto de Arya corou ainda mais, mas ela não recuou. Se queriam seguir em frente, ganhar uma guerra e governar um país, teriam de seguir aquele caminho juntos.

Mance Rayder e o filho acabaram se juntando aos demais no salão. O menino correu até Arya e lhe fez um gracejo, em agradecimento ela bagunçou os cabelos dele e afagou suas costas.

- Soube que ele não tem um nome. – ela comentou.

- Os selvagens acreditam que dá azar nomear uma criança antes dos dois anos. – Jon respondeu – Mas ele já tem três.

- Não vai nomeá-lo, Vossa Graça? – Arya perguntou a Mance do outro lado do salão.

- Esteja à vontade para chamá-lo como quiser, minha senhora. – Rayder respondeu cuidadoso.

- Robb. – ela disse olhando para a criança – Robb Rayder parece um bom nome. – o menino sorriu e repetiu o nome.

- Talvez devesse guardar este para nossos próprios filhos. – Jon sugeriu e ganhou dela um olhar quase carinhoso.

- Robb é um bom nome para um nortenho. – ela disse – Mas nossos filhos serão Targaryens e seus nomes devem seguir essa tradição, ao menos um. Não se preocupe, sempre poderemos nomear um menino de Brandon ou Eddard. Deixe Robb Rayder, quem sabe assim ele siga os passos do pai como Rei Além da Muralha, um bom nome para um rei do norte.

O coração dele falhou uma batida. Ela parecia feliz, ou pelo menos tanto quanto o possível. Ela não o odiava, ou repudiava. Falava de nomes que dariam aos filhos, quando estes chegassem. Havia nomeado o filho de Mance Rayder, que agora estava sentado sobre o colo dela, enquanto ela lhe dava bolinhos de mel.

Ela estava voltando para eles. Tornando-se humana outra vez e abrindo seu coração para o mundo aos poucos. Jon havia rezado por aquilo, pedido aos deuses antigos para que Arya reencontrasse seu caminho e sua sanidade. Aparentemente ele esta sendo atendido e havia esperança para que tudo acabasse bem para eles.

Ao final da refeição, ele beijou os lábios dela de leve. Um gesto de satisfação e de carinho. Bran encarou seu prato desconcertado. Tyrion pareceu satisfeito. Mance não demonstrou reação alguma e os demais presentes sussurraram comentários de aprovação.

Jon pediu licença e se juntou ao seu conselho para planejar a movimentação do exército e o ataque as Gêmeas. Mance seguiria para o Sul no dia seguinte, com pelo menos duas semanas de vantagem em relação ao exército. Um espião que ninguém conhecia, disfarçado de músico. Seria mais do que o suficiente para garantir ao Norte informações valiosas.

Robb Rayder iria pra o Sul com o exército. Isso seria uma distração para Arya e Rickon, que pareciam ter se afeiçoado ao menino. Talvez isso desse a rainha a chance de se preparar para um futuro não muito distante.

O dia já estava no fim. O jantar foi farto e houve um pouco de música, uma cortesia de Mance, que brindou os convidados com a canção de Bael, O Bardo. Arya apreciou a música e bebeu vinho um pouco além da conta, o bastante para rir algumas vezes de um comentário de Bran.

Never let me go, never let me go
Never let me go, never let me go

Never let me go, never let me go
Never let me go, never let me go

Jon se levantou e estendeu a mão a ela. Ela o olhou desconfiada e ele sorriu esperançoso.

- Não tivemos a chance de dançar em nosso casamento. – ele disse – Me concede a honra, minha senhora?

Arya vacilou por um momento, mas acabou aceitando a mão dele. Jon a conduziu ao centro do Salão e todos admiraram o casal de forma curiosa.

- Acho que você se lembra de como eu sou um desastre nessas coisas. – ela sussurrou junto ao ouvido dele. Jon riu.

- E eu sou um bastardo que nunca foi educado nas boas maneiras da corte. Sei o básico e isso não cobre as habilidades de dançarino. – ele respondeu enquanto começavam a dançar – Uma das poucas vantagens em ser rei é que todos devem me elogiar, mesmo quando um auroque dançaria melhor.

Ela ria do comentário enquanto Jon a conduzia por todo salão. Não eram esplendidos, mas conseguiram não massacrar os pés um do outro no processo. A música era animada e logo outros casais tomaram coragem para seguirem o exemplo de seus monarcas.

Acabada a música eles se retiraram do Salão para seus aposentos. A porta foi fechada e as mãos de Jon buscaram a cintura dela imediatamente. Sua boca toucou a pele dela e as peças de roupa foram espalhadas pelo quarto.

Ao contrário da noite anterior, nenhum dos dois precisou ser convencido do que deveriam fazer. Não houve espaço para discursos e frases elaboradas. A única coisa que disseram foi o nome um do outro, em meio aos gemidos de prazer.

Arya descansava contra o peito dele, sentada entre as pernas de Jon, enquanto ele brincava com uma mecha do cabelo dela com uma das mãos e a outra traçava padrões invisíveis sobre a pele dela.

A cabeça de ambos ainda estava enevoada pelo efeito do orgasmo e aos poucos as pálpebras dela começavam a ficar pesadas.

- Como você está? – ele perguntou, finalmente quebrando o silêncio.

- Que tipo de pergunta é essa? – ela perguntou sonolenta.

- Está feliz? – ele esclareceu – Esta bem? Há algo que queira, ou talvez prefira que eu não a procure com tanta frequência? – ela se virou para encará-lo nos olhos.

A mão dela acariciou o rosto dele com todo carinho do qual era capaz, o que não era necessariamente muita coisa.

- Eu estou bem. – ela o encorajou – Nós vamos ficar bem, Jon.

- Fiquei preocupado quando soube que foi ao bosque sagrado. – ele confessou – Tive receio de que tivesse feito algo errado. De que me odiasse a esta altura, ou tivesse medo, eu não sei.

- Não pensou que talvez eu pudesse estar pedindo aos deuses para que nos mandem logo um filho? – ela sorriu discretamente e ele lhe beijou o rosto em resposta.

- Em breve. – ele disse satisfeito – Teremos nossos filhos em breve. Não só filhos, mas filhas também.

- Achei que só meninos lhe interessavam. – ela disse.

- Deuses sejam bons, você sempre valeu mais do que Robb, Bran e Rickon juntos. – ele riu – Meninos herdarão o trono, serão bem educados em armas e boas maneiras, mas meninas...Essas eu poderei mimar o quanto quiser e ainda assim todos dirão o quanto elas são lindas e bem comportadas.

- Vai dar espadas de presente para elas também? – Arya perguntou desconfiada.

- Acho que não seria muito sábio. – ele respondeu – Mas se um príncipe deve aprender as artes da guerra, por que uma princesa não deveria? Aegon, O Conquistador tinha duas irmãs que o seguiam em batalha.

- O Pequeno Conselho vai amar isso. – ela disse rindo. Beijou a testa dele, assim como a face, ignorando o fato de que ainda estavam nus e colados um ao outro. As mãos dele a seguravam pela cintura.

- Você ainda não me respondeu. – ele disse acariciando as costas dela, enquanto tentava não se desconcentrar com a visão dos seios dela tão próximos ao seu rosto – Você está feliz, Arya?

Ela então lhe beijou a boca. Arya nunca tomava a iniciativa, preferindo deixar para ele esta tarefa. Não era algo ruim ela dar o primeiro passo. Fazia com que ele se sentisse mais seguro e ao mesmo tempo era uma forma dela evitar aquele tipo de pergunta.

Arya não respondeu à pergunta, tão pouco Jon perguntou outra vez.

And it's over,
And I'm going under,

But I'm not giving up!

I'm just giving in

Oh, slipping underneath
Oh, so cold, but so sweet

Nota da autora: Eu disse que o muleque ia ficar frenético XD. Pois é, a Arya está botando as asinhas de fora. Quem acha que Frey bom é Frey morto, levanta a mão \o/. Obrigada mais uma vez pelas reviews, meninas. Amo vc's um montão! E Menina Azul, é um prazer saber que temos mais uma autora que torce pelo shipper!

Bjux!

Bee