Rumo ao Oeste
Ouviu quando ela se levantou desajeitada, procurando um lugar para esvaziar seu estomago furioso. Enjoos matinais a perturbavam constantemente, fazendo com que Jon se perguntasse até que ponto aquilo poderia ser saudável. O maester dizia que ela estava bem e que não havia motivo para temer.
Ele insistiu para que Arya retornasse para Winterfell e permanecesse lá, aos cuidados de Bran. Desnecessário dizer que ela se recusou. Ao menos ela estava sendo tão cuidadosa quanto possível. Mesmo assim não estava sendo fácil.
A barriga começava a aparecer, ainda muito discreta e encoberta metodicamente por roupas pesadas, mantos e pela cota de malha que ela insistia em usar sempre que cavalgava a frente das tropas com ele. Ao final do dia ela estava mais exausta do que o normal e pela manhã o estomago a lembraria de que haveria mais alguns meses severos pela frente.
Ele não sabia como mulheres passavam por aquilo e certamente nenhuma das que conheceu na vida estava disposta a passar a gravidez inteira junto de um exército. Talvez Brienne de Tarth tentasse. Era bem provável que a mulher cavaleiro preferisse dar a luz com uma espada na mão, após uma batalha. Ou Asha Greyjoy, que daria água salgada aos filhos antes de dar o seio.
Ainda era difícil assimilar que seria pai e aquela criança teria um sobrenome e uma mãe. Ainda parecia uma brincadeira, uma piada de mau gosto e Jon custava a acreditar que logo viveria a experiência de ser pai e que ela seria a mãe.
Por mais que a cama dela fosse tão atraente quando a de qualquer mulher jovem e bela, uma parte dele sempre a veria como aquela garotinha que estava sempre descabelada, suja e que se recusava a ser uma dama. Às vezes buscava nos olhos dela um pouco daquela menina que ele havia deixado pra trás e que ele temia jamais encontrar. Quando isso acontecia, ele se contentava em apenas abraçá-la e beijar sua testa.
Alguns dias eram mais difíceis que outros. Difíceis porque ele sentia o peso da culpa caindo sobre seus ombros. Culpa por ter quebrado seus votos da Patrulha, por ter se erguido em armas para tomar o trono, por ter aceitado a aliança com o Norte, por ter se casado, por ter feito um filho em Arya e, acima de tudo, por não pensa em mais nada quando estava dentro dela e os gemidos dela o faziam se sentir tão poderoso.
Era um pensamento terrível, que vez ou outra passava pela mente dele. O que Lady Stark teria dito a respeito daquele casamento e como reagiria a ideia de que seu neto seria filho de Jon Snow. Mais cruel ainda era a satisfação que sentia em ouvir a filha de Catelyn se contorcer em baixo do corpo dele. Que os deuses proibissem. Jon não conseguia mais negar que ela despertava algo dentro dele.
Ela voltou para junto dele, com a boca lavada e após mastigar algumas folhas de menta para o hálito. Pálida e com cabelos desgrenhados. Arya se deitou ao lado dele e levou a mão a testa, como se sentisse a cabeça doer.
- Juro que jamais engravidaria se soubesse que era assim. – ela disse – Meu olfato está quase tão bom quanto o de Nymeria, o problema é que todo cheiro que eu sinto me faz querer botar pra fora até o que não tenho dentro do estômago.
- Eu gostaria de poder ajudar de algum modo, mas isso é tão novo pra mim quanto é pra você. – ele respondeu solidário – Talvez seja hora de considerar a minha ideia de permanecer em Riverrun. Lá estará segura e poderá dar a luz em um castelo onde terá toda assistência.
- Fora de questão. – ela disse convicta – Não agora que estamos tão próximos de atacar o Dente de Ouro.
- A campanha pelo Oeste ainda pode levar muito tempo e eu ficaria mais tranquilo sabendo que está segura em uma boa fortaleza enquanto espera pelo parto. – ele insistiu.
- Eu só farei isso quando tomar o Rochedo. – ela disse convicta – Tome o Rochedo e nosso filho nascera sobre os lençóis de fios de ouro dos Lannister. Um lobo uivará onde antes os leões rugiam.
- Você é terrível. – ele respondeu levando a mão até a barriga dela. Ainda parecia estranho pensar que havia algo ali e que esse algo era o herdeiro do legado dele. Carinhos surgiam entre eles sempre de forma incerta, ou como fruto de memórias antigas. – Mas se são estas as condições para que aceite a minha ideia, então eu farei o possível para tomar o Rochedo.
E esta era uma promessa que ele estava determinado a cumprir.
Asha Greyjoy surgiu nos planos dele quase como uma benção e Jon sentia-se generoso o bastante para conceder o perdão real e algumas terras a ela, se a mulher de ferro ajudasse a comandar a esquadra que partiria das Terras do Rio para arrasar as Terras do Oeste. Quando o tempo chegasse, e Asha estava ciente de que isso podia levar algum tempo, ele devolveria as Ilhas de Ferro a ela.
Os homens do Tridente seguiriam com a mulher Greyjoy, enquanto as forças do Norte e do Vale atacariam por terra, dividindo as forças do exército dos Lannisters em duas frentes de batalha. Uma delas acabaria falhando e se reagrupando. A ideia era empurrá-los para a costa, onde ficariam encurralados por todos os lados.
E era assim que estavam reduzindo cada vez mais os homens de Jaime Lannister. Com o Regicida fora do caminho, seria hora de voltar as atenções pare Cersei. Quanto ao que deveria ser feito com Cersei Lannister, ninguém tinha dúvidas, já as crianças e Jaime, isso era um outro assunto.
Bem ou mal, Jaime era o irmão favorito de Tyrion, que por sua vez era a Mão do Rei. Jon jamais se sentiria a vontade para tomá-lo a seu serviço, não quando o Regicida havia enfiado uma espada nas costas de seu avô.
Em consideração ao anão, Jon estava preparado a fazer uma boa oferta. Se Jaime Lannister reconhecesse a paternidade de Tommen e Myrcella, excluindo-os definitivamente da linha sucessória para si e seus descendentes, além de dobrar os joelhos, Jon concederia ao cavaleiro a chance de se juntar à Patrulha da Noite, deixando as crianças sob a custódia do tio.
Myrcella permaneceria em Dorne, ao menos até tudo se desenrolar e se os Martell desmanchassem o noivado com o príncipe Trystan, então caberia a Tyrion definir o futuro da sobrinha.
Um corvo vindo do Crag e Faircastle chegaram pela manhã. Asha era um demônio do mar que havia arrasado metade da costa do Oeste. O próximo passo era tomar Lannisporto e o Dente de Ouro, fechando a passagem de recursos financeiros para a capital definitivamente. Porto Real não tinha tropas o suficiente para se proteger e ainda enviar reforços para o Oeste e a cada nova batalha Jaime Lannister se tornava mais e mais desesperado.
Foi no Dente de Ouro que a maior vitória de Jon foi conquistada e também a mais dramática.
Em combate singular, Jon e Jaime cruzaram espadas, enquanto o sangue lavava o chão ao redor deles. A mão esquerda de Jaime era traiçoeira e mais de uma vez Jon teve problemas em bloquear os ataques.
Num golpe certeiro, a mão falsa, que segurava o escudo, foi ao chão. Fantasma rasgava a garganta de um soldado a apenas cem metros de distância. Jon recebeu um corta na altura da perna e perdeu o equilíbrio.
Não fosse por uma flecha de penas de ganso, ele teria morrido pelas mãos de Jaime Lannister, tal qual seu avô Aerys. A flecha atingiu o braço do Regicida, fazendo-o largar a espada e dando a Jon tempo de se recompor e tomá-lo como prisioneiro.
Quando procurou o arqueiro que havia disparado a flecha, se deparou com Arya, coberta de aço dos pés a cabeça. A batalha estava ganha, mesmo assim ele queria gritar com ela e perguntar o que diabos estava fazendo no meio daquela carnificina, botando em risco a vida dela e da criança.
Ele viu Nymeria ao lado da rainha, destroçando soldados, rasgando pele e carne com seus dentes afiados, assim como Fantasma fazia. Ela cavalgou até ele, oferecendo a mão para que ele se juntasse a ela sobre o cavalo, assim que dois outros soldados levaram Jaime sob custódia.
Cavalgaram juntos sobre o mesmo cavalo. Jon se segurava à cela e acariciava a barriga dela com sua mão livre, enquanto ela conduzia o animal até a retaguarda das tropas. Era o fim e eles entraram na fortaleza juntos.
Naquela noite, Arya apareceu no salão da fortaleza usando o cinza e o branco dos Stark. A coroa sobre sua cabeça e uma capa negra sobre os ombros. O vestido era justo na cintura, revelando a barriga arredondada pela primeira vez. Cinco meses, já haviam se passado cinco meses e logo ela teria condições de cavalgar com ele, ou segui-lo em batalha.
Era a primeira vez que todos receberiam a confirmação de que havia um herdeiro a caminho. Lobos uivaram onde antes rugiram os leões. As tropas do Norte, do Vale e do Tridente ergueram seus copos e brindaram ao futuro.
Eles eram invencíveis. Eles eram incontroláveis como o gelo e o fogo.
Ao final da celebração, Jon e Tyrion desceram ao calabouço, onde Jaime era mantido. A luz bruxuleante das tochas era a única iluminação do local. O homem, outrora tão belo e imponente, parecia ter envelhecido vinte anos, mesmo assim, seu olhar foi de alívio ao ver o irmão caminhando ao lado do rei.
- De algum modo, eu sempre soube que ficaria bem. – Jaime disse – Mesmo assim estou feliz em comprovar isso com meus próprios olhos.
- Poupe suas palavras, irmão – Tyrion disse – Talvez seja o momento de ouvir o que Sua Majestade tem a dizer.
- Eu não vejo um rei. – Jaime respondeu – Vejo um garoto. Um desertor da Patrulha da Noite. Um bastardo que se acha digno do vermelho e do negro em suas roupas.
- Meça suas palavras! – Tyrion o alertou. O anão sentiu a mão de Jon pousar sobre seu ombro.
- Paz, Tyrion. – Jon disse – Ele não disse nada que eu não tenha ouvido um milhão de vezes.
- Um rapaz esperto. – Jaime respondeu.
- Eu sou um desertor, você um regicida. – Jon encarou o Lannister mais velho com firmeza – Em outras circunstancias isso poderia ser a morte de nós dois, mas os deuses são bons e eu não tenho o interesse de ser cruel sem necessidade.
- Um fraco. – ele resmungou.
- Prefiro crer que estou sendo sábio, mas é a seu irmão que deve a minha oferta. – Jon retrucou – Assuma a paternidade de Tommen e Myrcella, e dobre os joelhos. Se fizer o que peço, lhe concederei a chance de viver.
- Eu sou um soldado, rapaz. Aprendi como morrer e prefiro a morte limpa e rápida em campo de batalha. – Jaime disse.
- Seu estúpido cabeça dura! – Tyrion rugiu – Ouça o que está dizendo e verá que o egoísmo de Cersei o contaminou por completo! Pense nos seus filhos!
- Se não reconhecer a paternidade deles, muitos de meus generais podem considerar isso como uma ameaça e achar que o melhor meio de acabar com isso seria pelos métodos de Gregor Clegane. – Jon disse sério – Estou certo de que se lembra de como meus meio irmãos morreram no cerco.
- Você é honrado de mais. – Jaime disse.
- Posso falar por mim, não por meus homens. – Jon retrucou – Dobre os joelhos, junte-se a Patrulha da Noite, e seus filhos viveram em segurança, sob os cuidados de Tyrion e de acordo com seu nascimento.
- O que acontecerá com Cersei? – Jaime perguntou por fim – O que farão com ela?
- Até você tem de admitir que ela não tem salvação. – Tyrion disse – Eu me empenhei em conseguir uma alternativa para o seu caso e Sua Majestade foi muito generoso em considerar meu pedido, mas Cersei...Ela está além de qualquer perdão.
- Eu teria feito qualquer coisa... – Jaime disse – Em outros tempos eu teria feito qualquer coisa por ela.
- E pelos seus filhos? – Tyrion insistiu – O que faria por eles? Tire as crianças desta loucura! Eu cuidarei deles. Tommen é um garoto gentil e doce, ele será meu herdeiro e Myrcella terá sempre a minha proteção, mesmo casada com Trystan! Pense neles, Jaime!
- E quanto a Brienne? – a pergunta parecia ter sido feita em voz alta por acidente e nem o rei, nem a Mão entenderam muito bem.
- O que? – Tyrion perguntou.
- Dêem a ela uma posição na guarda real. Ela morreria antes de quebrar seus votos e já que eu não poderei cumprir a minha promessa a ela, ao menos sei que ela ficará feliz em empunhar uma espada e usar uma capa branca pelo resto da vida.
- Que promessa você poderia ter feito a Donzela de Tarth? – Tyrion insistiu.
- Querido irmão, posso garantir que retirei o título de donzela dela a um bom tempo. – ele disse num meio sorriso melancólico – Eu prometi que me casaria com ela quando tudo terminasse, mas eu nunca estive livre para o casamento e aparentemente nem ela. Tome-a em seu serviço e ninguém lhe será tão leal. Eu direi meus votos a Patrulha da Noite, ela os votos à Guarda Real e este será nosso casamento casto. Ela de branco e eu de negro.
- Feito. – Jon respondeu – Ela me servirá na Guarda Real e talvez eu a nomeie guarda pessoal da rainha.
- Então...Eu lhe sou muito grato, Vossa Graça – Jaime fez uma breve reverência de cabeça.
Jon e Tyrion deixaram a cela e o anão não entendeu nada da história de Jaime e Brienne, pelo menos não tanto quanto Jon havia entendido.
Quando ele se deitou ao lado de Arya naquela noite, ouvindo o som do coração e da respiração dela, enquanto contemplava a barriga levemente arredondada, Jon refletiu sobre aquele romance improvável entre o Regicida e a Mulher Cavaleiro.
Um casamento casto, um casamento incomum. Ele de negro, ela de branco...Jon se lembrou do momento que ele e Arya trocaram votos, de como o branco caia bem nela e de como estava nervoso quando prendeu a capa negra sobre os ombros dela. Lembrou-se de como resistiu por duas semanas inteiras à ideia de deitar-se com ela.
Foi com um toque de espanto que percebeu que entendia Jaime Lannister muito melhor do que poderia imaginar.
Nota da autora: Então...Nem eu resisto à Jaime e Brienne, mas se eu queria que o Jon virasse rei de vez, eu precisava dos Lannister fora do caminho XD. Dominamos as Terras do Oeste e agora a coisa vai ficar legal, pq cá pra nós, eu dei um salto de alguns meses nesse capítulo, como eu acho que já deu pra notar. Isso quer dizer que logo haverá um bebê correndo por aqui. Aliás, sou só eu, ou tem mais alguém sentindo falta de um certo Touro por aqui? Espero que gostem e comentem. Bjux. Bee.
