Tempestades e Neve
Por um momento Jon se perguntou quantos bastardos uma pessoa podia colocar no mundo. Para Robert Baratheon o limite era bem flexível e agora ele se perguntava o que devia fazer com todos aqueles nomes listados por Tyrion Lannister.
Quanto a Edric Storm a solução parecia prática. Mandaria o menino para as Terras do Rio, onde Edmure Tully o manteria sob custódia. As mulheres não apresentavam um perigo iminente, mas ainda havia um último problema que atendia pelo nome de Gendry Waters, também chamado de Gendry Baratheon.
Apesar de Edric ser o único bastardo reconhecido por Robert em vida, Gendry era aquele que mais se parecia com o velho rei. Apesar da pouca instrução e falta de experiência em batalha, muitas das casas aliadas da Casa Baratheon estava dispostas a se reagrupar e atacar o exército do Norte, graças à existência desse homem.
Alguns grupos pequenos já causavam problema na fronteira de Ponta Tempestade com as Terras do Oeste. Cada dia que se passava essa resistência, ainda que insignificante, lhe causava uma dor de cabeça maior. Um dia perdido com o bastardo Baratheon era um dia de atraso ao cerco de Porto Real.
Foram semanas nesta agonia até que num descuido, o bastardo caiu numa armadilha. Isso facilitava as coisas até certo ponto. Jon precisaria de um Lorde Protetor de Ponta Tempestade e se Gendry estivesse disposto a dobrar os joelhos e renunciar a qualquer pretensão ao trono, Jon o tornaria herdeiro legitimo de Robert por meio de um decreto.
Arya já estava no fim do oitavo mês e irredutível quanto a ideia de abandonar as campanhas. Faltava tão pouco para acabarem com aquilo. Logo teriam Porto Real sob controle e ela daria a luz ao herdeiro do trono. Talvez fosse uma menina, o que Jon adoraria, mas de qualquer modo, o futuro seria mais seguro.
Quando mencionou a prisão do bastardo ela pareceu desconfortável e se remexeu inquieta em sua cadeira. Ela lançou a ele um sorriso fraco antes de se retirar mais cedo para a cama.
Jon tinha planos de discutir alguns pontos importantes com Tyrion e seus generais, mas acabou desistindo da ideia. Se Arya não se sentia bem, era melhor estar por perto caso ela precisasse de ajuda.
Quando chegou ao quarto que dividiam no Rochedo, encontrou-o vazio. Arya não estava em nenhum lugar aparente e por um momento Jon se perguntou aonde ela poderia ter ido. Tyrion havia apresentado a ela o bosque sagrado, talvez ela estivesse fazendo suas preces, enquanto desfrutava um pouco do ar da noite.
Jon saiu à procura dela, sem avisar a ninguém. Não queria alarmar os guardas. Se ela estivesse no bosque sagrado, então ele lhe faria companhia e também diria suas preces por uma vitória rápida e um parto tranquilo para sua esposa.
Mas Arya não estava no bosque sagrado, tão pouco estava na estrebaria, ou admirando o mar de uma das sacadas. Ela não estava em parte alguma do castelo e por um momento Jon temeu.
Ele preferia ignorar o passado dela a maior parte do tempo, mas talvez aquilo lhe dissesse onde ela poderia estar. Gato do Canal, Fantasma de Harenhall, Arya de baixo dos pés...Ela sempre foi furtiva e as sombras eram suas melhores amigas. O lugar mais sombrio de um castelo eram suas masmorras.
Jon desceu a longa escadaria e furtivamente caminhou pelos corredores do calabouço. Ouviu o som de vozes sussurradas e caminhou até o lugar de onde vinha.
Arya resmungava alguma coisa e a pessoa com quem falava tinha a voz grave. Só havia um prisioneiro ali. Gendry Waters, o bastardo Baratheon.
- O que diabos você tinha na cabeça pra fazer uma burrice dessas? – ela resmungava furiosa – Pretendente ao trono? Você só pode estar brincando!
- Me desculpe se não tenho um nascimento tão elevado quanto o seu, milady. – Gendry disse sério – Bastardo ou não, meu pai era rei e isso no mínimo me equipara àquele maldito corvo.
- Preste atenção nessa sua maldita boca, ou vai acabar com a cabeça enfiada numa estaca! – ela revidou.
- O que está fazendo aqui afinal, Arya? – ele perguntou cansado – Veio só me insultar, ou tem algo de importante a dizer? Se não tiver, faça o favor de me deixar em paz.
- Eu quero uma resposta! Por que fez isso? Você nunca quis nada da vida além de um martelo e ferro para trabalhar! Uma coroa está muito além de sua ambição. – ela estava exaltada, mas Jon não se aproximou mais. Queria saber o que discutiam.
- Quer mesmo saber? – ele perguntou furioso – Por sua causa! Quando soube quem eu era, tudo o que eu conseguia pensar era em como eu poderia conseguir ocupar meu lugar como herdeiro e então eu marcharia para o Norte e pediria sua mão ao Lorde Stark. Um bastardo que sonha com uma dama de alto nascimento, uma princesa nortenha. Como eu poderia ter qualquer esperança de conseguir sua mão se eu não tomasse uma decisão drástica?
- Isso não faz sentido! – ela retrucou espantada – As notícias de meu casamento devem ter chegado aos seus ouvidos, então por que insistir nisso?
- Sinceramente? – ele disse com uma dose de sarcasmo – Eu tinha esperança de encontrá-la infeliz e então eu encontraria aquele corvo que você chama de marido e acabaria com ele, assim como meu pai acabou com Rhaegar. Quando se tornasse viúva, eu a pediria em casamento e você seria a minha rainha. Eu teria seus exércitos e o de Ponta Tempestade. Nada ficaria em nosso caminho e eu a faria feliz.
- Esqueça essa bobagem, Gendry. – ela disse – Eu não sei de onde tirou essas ideias, mas é tarde de mais pra qualquer coisa neste sentido. – ela parecia furiosa – Seja esperto. Dobre os joelhos e fique com Ponta Tempestade e a minha gratidão por todos estes anos, mas não espere mais nada de mim. Se essas suas palavras caírem nos ouvidos errados, pode significar morte para nós dois. Entendeu?
- Ele a trata bem? – Gendry perguntou.
- Jon jamais me machucaria, Gendry. – ela respondeu.
- Está feliz com ele? – ele insistia – Você o ama o bastante para esquecer que até bem pouco tempo você o chamava de irmão? – e por um instante, Jon desejou que ela respondesse as perguntas e temeu pelo que poderia ouvir.
- Não seja ridículo. – ela respondeu – Ainda que eu não estivesse, eu fiz um juramento e eu estou carregando um filho dele na barriga. Eu sou a esposa e a rainha dele, nada vai mudar isso, nem seu plano maluco de matá-lo me faria sentir algo diferente por você. Matar Jon seria o mesmo que assinar sua sentença de morte e eu mesma a executaria.
Jon saiu de seu esconderijo e entrou na cela, pegando Arya de surpresa. Gendry se levantou do monte de palha seca onde estava deitado e encarou Jon como um touro enfurecido.
- Acho que esta pequena conversa já foi longe de mais. – Jon disse sério, enquanto segurava Arya pelo braço – Seja esperto e pense no que ela lhe disse, falarei com você pela manhã. E quanto a minha senhora, acredito que temos de conversar.
- Jon, eu... – ela tentou pensar em algo para dizer.
- Falaremos quando estivermos a sós. – ele disse seco – Eu posso ser um corvo, posso ser tão bastardo quanto você, mas se eu souber que esteve perto dela outra vez, não vou lhe dar a chance de manter a cabeça sobre os ombros. – ele falou diretamente para Gendry e então deixou a cela, conduzindo Arya para fora.
Foram direto para o quarto que dividiam e Jon fechou a porta com muito mais força do que o necessário.
Ele a encarou, enquanto ela se sentava na beirada da cama. A barriga parecia um fardo enorme para ela e Arya estava exausta. Ela levou a mão ao baixo ventre, massageando-o com cuidado.
Jon respirou fundo, tentando pensar no que dizer. A verdade é que queria arrancar a cabeça de Gendry pela audácia e açoitá-la por ter cometido uma burrice daquele tamanho. Se esgueirar até a cela do bastardo e confabular com ele no meio da noite como dois...Amantes. Apenas o som da palavra o enojava.
- Como o conheceu? – Jon perguntou por fim, tentando manter a calma.
- Quando executaram meu pai, eu me juntei ao grupo de Yoren, da Patrulha da Noite. Gendry também estava no bando. Cersei queria a cabeça dele e na época ninguém sabia o porque. – ela respondeu enquanto encarava a barriga.
- E por que foi até ele? Tem noção do que poderia acontecer se alguém ouvisse o que estavam dizendo? – ele perguntou irritado – Arya, eu ignorei seus atos de rebeldia antes, mas isso foi ainda pior do que as Gêmeas! Estava ajudando-o a fugir?
- É claro que não! – ela respondeu imediatamente – Eu posso ser rebelde como diz, mas não sou louca. Eu sei o que está em jogo se ele erguer um exército novamente, mas eu precisava saber os motivos dele e precisava colocar naquela cabeça dura um pouco de bom senso! Jon, ele é meu amigo e provavelmente a única pessoa que tentou cuidar de mim quando eu não tinha ninguém.
- Posso ver muito bem como ele pretendia cuidar de você! – Jon rosnou – Por um acaso era ele quem você imaginava no meu lugar quando proferimos os votos? O quão perto chegou de se deitar com ele quando estavam viajando para o Norte?
- Jon, por favor. – ela sussurrou – Isso não faz sentido. Nos separamos há muito tempo e é a primeira vez que o vejo em anos. Todos estes planos que ele fez, eu não tive nenhum envolvimento. Se aquele imbecil sente alguma coisa por mim, eu juro que não é recíproco. Ele é apenas um amigo e nunca houve nada além de delírios de um cabeça oca.
- Você o ama? – Jon perguntou firme.
- Não, Jon. – ela respondeu sincera – Eu não amo Gendry e eu nunca tive homem nenhum antes de você, então me poupe desse interrogatório sem sentido.
- E quanto às perguntas que ele fez? – Jon a encarou mais uma vez. Ela ainda tinha a mão sobre a barriga e parecia ainda mais desconfortável – Está feliz comigo, Arya? Sente algo por mim além de obrigação?
Ele teria continuado aquele inquérito, não fosse pelo gemido de dor dela. Jon se virou para encará-la e viu a forma como ela levava a mão ao ventre. A saia do vestido estava molhada e ela se agarrou as mantas da cama.
- Está mesmo interessado em saber isso agora, ou prefere dar atenção ao seu filho que está nascendo? – ela rosnou – Vá buscar o maldito maester, ou alguma mulher que saiba fazer o serviço!
Ele não pensou duas vezes antes de sair do quarto correndo em busca de ajuda para ela. Meia hora depois e todos estavam fora de suas camas. Dentro do castelo os gritos de dor dela preenchiam os corredores, enquanto soldados nortenhos se agrupavam no bosque sagrado para rezar por sua pequena rainha.
Os sulistavas encheram o septo do Rochedo e Tyrion, que não era o maior exemplo de fé do mundo, ascendeu velas para a Mãe, por um parto seguro; para o Pai, por um julgamento justo; para o Guerreiro, que era a própria natureza daquela garota rainha; e para o Estranho, para que não botasse seus pés no castelo aquela noite. Todos rezavam para que tudo acabasse bem.
Nota da autora: Gente, preciso abrir meu coração. VC'S QUASE ME FIZERAM CAIR DA CADEIRA AQUI! 27 REVIEWS EM 7 CAPÍTULOS! Sério, meu coração é fraco pra tanta alegria XD. E eu cheguei a uma conclusão. As mina pira no Jaime/Brienne XD. Pois é...Arya e Gendry se reencontram, Jon fica puto, Arya em trabalho de parto. Tipo isso, o bebê tá chegando. Adivinhem o nome XD.
Bjux
Bee
