Dança dos Dragões

Ela ouvia os sussurros que ecoavam entre as paredes da Fortaleza Vermelha. Varys e Mindinho levavam e traziam informações o tempo todo, mas a questão era saber para quem aquelas informações eram valiosas.

Jon estava ciente do perigo, mas queria evitar uma guerra contra o meio irmão a todo custo. Afinal eles dividiam o mesmo sangue, ainda que não tivessem nada em comum, e pela honra dele como um Stark, Jon não derramaria sangue a menos que fosse absolutamente necessário.

A Fé estava do lado de Aegon quanto à questão da anulação do casamento e aos poucos o cenário era montado para que Jon fosse declarado um desertor e condenado pela quebra de seus votos, o que acabaria tanto com sua pretensão ao trono, quanto com o casamento com Arya.

O apoio de Dorne, Jardim de Cima, um exército de bárbaros e mercenários, sem mencionar os três dragões. Arya via o tempo escorrendo por entre seus dedos. Se Jon se recusava a armar um contra ataque, então ela tomaria as rédeas da situação. Guerras são vencidas com espadas e cartas, e Arya possuía ambas em abundância.

Brienne era sua companheira mais confiável, assim como Asha Greyjoy, a quem Jon havia concedido as Ilhas de Ferro e uma boa porção de terras. Três mulheres que lutavam, governavam e impunham sua vontade num mundo dominado por homens, não era de se espantar que houvesse uma relação de respeito e admiração entre elas.

Arya terminou de rabiscar as cartas e as selou com o emblema dos Stark. Uma para Sam Tarly, uma para Mance Rayder, uma para Sansa, uma para Gendry Baratheon.

- Tem certeza de que isso é necessário, Vossa Graça? – Brienne perguntou encarando a rainha com seus lindos olhos azuis.

- Sinto cheiro de problema à distância, Brienne. Aegon é tudo, menos um sinal de paz e enquanto Aemon e Jon viverem, ele não estará feliz. – Arya respondeu – Logo ele vai atacar. Jon vai ser preso, Aemon tirado dos meus braços e mandado pra longe de mim. Se ele me obrigar a casar com ele, tão logo eu tenha outro filho para herdar o trono, Aemon e Jon serão assassinados. Se Jon for detido e algo acontecer comigo, é responsabilidade de vocês levarem essas cartas e tirarem meu filho daqui.

- E pra onde levaremos o príncipe? – Asha perguntou – Winterfell seria óbvio de mais.

- Não o levarão para Winterfell. Deve levá-lo para o Vale, pra junto da minha irmã, Sansa. – ela respondeu - Caso seja perigoso de mais atravessa os Portões Sangrentos, então você o levará para a Muralha. Entregue a carta a Sam e ele permitirá que atravessem para o Norte da Muralha. Entreguem Aemon a Mance Rayder.

- O Rei Além da Muralha? – Brienne a repreendeu – Vossa Graça, tem certeza de que isso é sábio?

- Jon salvou o filho dele, só espero que ele retribua a generosidade. – ela respondeu – Tudo o que eu falei é tarefa sua, Brienne. Asha providenciará apenas a embarcação para levá-la. Quanto a você. – ela se virou para Asha – Vai levar essa mensagem para Ponta Tempestade e vamos rezar para que Gendry se movimente rápido. Vou precisar dos exércitos atacando os portões da cidade, caso eu seja feita prisioneira. Você zarpará com a esquadra de lá e vai esmagar os navios Balerion, Meraxes e Vhegar contra a baía de Água Negra, junto com qualquer galé, ou navio de guerra que Aegon tiver a sua disposição. Saqueie o quanto quiser as embarcações, mas quero todos no fundo do mar, junto com a tripulação. Nada de reféns.

- Seu marido é um bom rei, mas tenho que admitir...Sem você, esta guerra nunca teria acabado. – Asha pegou a carta sorrindo – O Touro virá, vou cuidar disso.

- Assim espero. – ela respondeu – Se os dragões devem dançar, então será de acordo com a minha música. – Agora só falta uma coisa.

- Que seria? – Asha perguntou arqueando uma sobrancelha.

- Acabar com passarinhos e aranhas. – ela respondeu sorrindo – Seus homens vão ao bordel esta noite, Asha. Uma boa diversão para homens de ferro, eu acredito.

- Sem dúvida, Vossa Graça. – Asha concordou.

- Brienne, eu gostaria de falar com Varys esta noite. Diga que espero por ele no bosque sagrado.

- Senhora, não seria mais apropriado que outra pessoa cuidasse disso? Talvez um dos soldados de seu irmão, talvez um dos homens de Tyrion Lannister? – Arya lançou a ela um sorriso de desdém.

- Não se manda um homem para fazer o serviço de uma mulher, Brienne. Achei que entenderia melhor do que ninguém. – a rainha respondeu.

Brienne e Asha deixaram a Fortaleza Vermelha ao final da tarde. Arya permaneceu no castelo cuidando de Aemon, enquanto Jon cuidava de discutir com os representantes da Fé e negociar uma legitimação para o casamento e seus direitos ao Trono.

Arya tinha todos os motivos do mundo para odiar Aegon Targaryen, mas era Daenerys quem a incomodava. Não gostava de como a Mãe de Dragões olhava para Jon, fosse por piedade, ou por simpatia. Ela enxergava por trás daquele olhar o interesse velado. Não era ingênua ao ponto de ignorar o fato de que Jon era atraente, muito menos de que a única razão pela qual Daenerys aceitava Aegon como consorte era a tradição Targaryen, somada a vã esperança de que produzissem um herdeiro.

Ela não tinha motivo nenhum para confrontar Daenerys com relação ao Trono, uma vez que a pretensão dela era a mais fraca. Ninguém seguiria uma filha de Aerys, enquanto houvesse dois filhos de Rhaegar para ocupar o Trono. O único receio de Arya era que a última Targaryen decidisse que Jon seria um consorte melhor do que Aegon.

Tanto medo fazia com que Arya corresse para Jon todas as noites, buscando segurança e autoafirmação. Pensaria nas consequências daquela relação quando houvesse paz e tempo, enquanto o mundo dela estivesse sendo ameaçado, tudo o que ela queria era senti-lo dentro dela tanto quanto o possível, sentir que ele estava por perto e não a deixaria.

Ao menos isso Jon deveria a Aegon Targaryen. Desde que o filho mais velho de Rhaegar pisou em Porto Real, Arya havia se tornado uma amante muito mais participativa.

Jon dormia, exausto por causa do sexo, quando ela se esgueirou para fora da cama e se vestiu, escondendo a adaga de baixo de sua capa.

Arya deixou o quarto, ainda sentindo as pernas bambas e o efeito relaxante do orgasmo em seus músculos tensos. Por um momento ela temeu a ideia de que Jon pudesse ter feito outro filho nela. Aquela altura, uma outra criança poderia dificultar ainda mais os planos dela de acabar com a maldita ameaça de Aegon.

Ela se ajoelhou diante da árvore coração e sussurrou suas preces aos deuses antigos. Não demorou muito para que ela ouvisse o som dos passos e se virasse para encarar Varys. A aranha fez uma reverência a ela.

- Um horário tão incomum para as preces de uma rainha. – ele comentou.

- As preces de uma mãe não tem horário, Lorde Varys. Acredito que até mesmo o senhor tem de concordar com isso. – ela disse calma, enquanto se levantava para encará-lo.

- O jovem príncipe é a criança mais segura e amada dos Sete Reinos, Vossa Graça. Tenho certeza que nenhum mal poderia atingi-lo. – Varys assegurou.

- Acredito que o mesmo poderia ser dito a respeito de Rhaenys e Aegon, nos tempos do rei Aerys. – ela disse – Eu não tenho motivos para confiar em meu cunhado mais do que tenho para confiar em você.

- Seu pai também não confiava em mim. – ele disse de forma desgostosa – Uma pena. Eu sempre o considerei um homem bom e honrado, apesar de sua tolice.

- Nenhum homem ou mulher nos Sete Reinos tem motivos para confiar no senhor. – ela disse serena – De que lado ficará a sua lealdade quando Aegon decidir que Jon já esquentou o Trono tempo de mais? Vai ajudar meu filho a fugir do castelo, ou vai entregá-lo para meu cunhado numa bandeja?

- O príncipe não corre perigo. – ele insistiu – Minha senhora está sofrendo de uma crise de ansiedade. Talvez um maester devesse examiná-la. Vou chamá-lo imediatamente. – ele disse enquanto se afastava dela com cautela.

- Se há uma coisa da qual me orgulho é do fato de ter escapado do senhor e de seus passarinhos quando meu pai foi condenado. – ela disse levando a mão debaixo da capa e sentindo o punho da adaga contra seus dedos – Até hoje o senhor ainda tem dificuldades em me ouvir, não é mesmo? Enquanto seus passarinhos cantarem e você decidir que essas canções são para Aegon, meu filho nunca estará seguro.

- Minha rainha, eu... – ele gaguejou ao ver o brilho do aço valiryano.

- Valar Morghulis. – ela sussurrou e antes que Varys pudesse dar um passo o aço já havia perfurado a barriga gorda e aberto um rombo até as costelas, cortando a carne como um pedaço de manteiga fresca.

O corpo caiu no chão com um baque surdo. Ela limpou a lâmina com um lenço que trazia na manga. Pegou a adaga e cavou um buraco aos pés da árvore coração onde a enterrou. Ninguém procuraria a arma de um crime no bosque sagrado.

Ela voltou para o quarto usando uma das muitas passagens. Ela passou primeiro pelo berçário para se assegurar que Aemon estava bem. O príncipe dormia tranquilo, enquanto Arya queimava o lenço ensanguentado. Ela saiu pela porta do berçário e Brienne lançou a ela um olhar solene, enquanto fazia uma breve reverência.

O caminho até os aposentos reais estava vazio e Brienne a acompanhou até a porta. Ela retirou suas roupas mais uma vez e se deitou ao lado de Jon, deixando seu braço descansar sobre o tórax nu dele.

Ela o observou por um longo momento. Nunca foi muito boa em avaliar a beleza das pessoas, mas Jon tinha traços bonitos. Traços firmes, nortenhos, que ela sempre admirou. Adormecido daquela maneira ele se parecia mais com aquele rapaz que se despediu dela em Winterfell e lhe deu de presente Agulha. O rapaz que ela não estava disposta a perder outra vez.

Arya fechou os olhos e dormiu ouvindo o som do coração dele.

Na manhã seguinte as notícias chegaram aos ouvidos de Aegon, Daenerys e Jon, enquanto todos quebravam o jejum no solar real. Mindinho foi encontrado morto no porto da baía de Água Negra, sem nenhum ouro e sem seu emblema de prata. Quanto a Varys, acreditavam que ele havia sido assassinado por um desconhecido com aparência de mendigo, provavelmente um de seus informantes insatisfeitos, ou pelo menos foi isso o Brienne de Tarth alegou ter visto quando chegou ao bosque sagrado e viu um vulto encurvado correndo para longe do corpo.

Jon deu ordens para que a segurança do castelo fosse reforçada e nem Aegon, nem Daenerys contestaram isso. A julgar pela cara do cunhado, Arya sabia que Aegon estava a ponto de ter um acesso de raiva. O dragão estava cego e surdo graças ao golpe do lobo.

Jon se levantou da mesa, beijou a boca dela de leve e deixou o solar para se preparar para uma reunião de emergência do Pequeno Conselho. Daenerys também se retirou, preferindo a segurança da presença de seus guerreiros Dothraky.

Apenas Aegon permaneceu na mesa, encarando-a com raiva. Arya tinha que admitir que ele tinha traços bonitos e aristocráticos, seu cabelo ainda guardava resquícios da tinta azul que ocultava sua maior herança Targaryen, mas naquele momento o rosto de Aegon estava obscurecido pela fúria. Ele bateu palmas e ergueu a ela uma taça de vinho tinto.

- Confesso que a subestimei, minha senhora. – ele disse sério – Mas se acha que essa manobra vai mudar qualquer coisa nos meus planos, está terrivelmente enganada.

- Pode não mudar seus planos, mas ao menos vai deixá-lo nervoso o bastante para cometer erros. – ela disse séria – Você vem até mim, ameaça minha família e espera que eu fique quietinha esperando até que decida que é uma boa hora para me tornar a sua puta. Você não conhece as mulheres do Norte e você não me conhece.

Ele sorriu um sorriso satisfeito que a deixou desconcertada.

- Estou começando a conhecer. – ele disse enquanto se levantava da mesa e caminhava até ela. Ele pousou suas mãos sobre os ombros dela, deixando-a tensa. As mãos desceram até a borda do decote, permitindo que ele sentisse a textura os seios dela – Não devia instigar minha imaginação. Só me faz querê-la ainda mais.

Ele depositou um beijo na base do pescoço dela.

Estava declarada a guerra entre eles e foi Arya quem atacou primeiro.

Nota da autora: Agora a porra vai ficar séria, minha gente! Guerra declarada entre dragões e lobos. Os próximos dois capítulos serão tensos. Aproveito pra dizer que serão apenas mais três capítulos de história e pode ser que eles demorem um pouco mais pq a titia aqui tem semana de prova e monografia pra fazer. Pra quem queria Asha na parada, cá está ela. Brienne tmbm fazendo sua aparição especial. Varys e Mindinho bateram as botas. É, acho que o barraco tá bem armado.

Bjux

Bee