Disclaimer: Harry Potter não me pertence.


O Nome do Jogo

Trabalho Desagradável


Meses atrás...

"Então, o que o velho quer comigo?"

"Tenha mais modos. Esse homem não é alguém que você veria em circunstâncias normais"

"Deveria ter trazido um caderno de autógrafos, então?"

O comensal sorriu. "Sem brincadeiras, Malfoy. Senão eu te mato".

Bateu na porta e ambos esperaram quietos, no corredor da mansão. Não, não era a mansão Malfoy. Era uma bonita propriedade trouxa, conhecida no local como a Mansão da Rosa Vermelha. O proprietário anterior fora um ricaço que vivia dando jantares e festas na casa, além de clubes de leitura para crianças, e que sumira depois do caso misterioso do desaparecimento de cinquenta e duas pessoas presentes em um dos jantares na mansão. Draco não admitia, mas sentia um calafrio e um frio desgraçado na barriga sempre quando entrava naquela casa. Era como se algo estivesse a espreita, sempre o observando, o seguindo, e embora esse fosse um pensamento estúpido, ele não podia deixar de espiar por cima do ombro sempre que podia, tentando ignorar aquela sensação mórbida de estar brincando com o queijo na ratoeira armada.

Depois de algum tempo, alguém do outro lado da porta ordenou simplesmente, "Entre"

O ex-comensal abriu a porta e deu espaço para Malfoy passar primeiro. Ele deu uns passos para dentro do aposento, parando na soleira da porta e olhando em volta. O comensal postou-se silenciosamente ao lado da porta, um pouco atrás dele.

A sala era luxuosa. Desde a mínima peça de decoração até os móveis mais extravagantes e inúteis para um cômodo só. Perto de uma janela alta em estilo vitoriano, havia um homem alto e magro de pé, de costas para a porta. Ele estava impecavelmente vestido, usando gel no cabelo e óculos de grau na ponta do nariz.

"Flint", disse com uma voz seca. "Feche a porta quando sair"

Flint piscou, "Mas senhor-"

"Quero falar com Malfoy a sós"

"S-sim senhor", disse o comensal, meio a contragosto. Malfoy não esboçou nenhuma reação, nem mesmo quando sentiu o rosto de Flint próximo a sua orelha e sua voz gutural sussurrando, "Se você estragar alguma coisa eu te mato do mesmo jeito"

Somente quando ouviu o click da porta sendo fechada, é que Malfoy enfiou as mãos nos bolsos e atravessou a sala, em direção aos sofás do lado do bar.

"Vou me sentar aqui", disse já sentado em um dos confortáveis e requintados sofás.

"À vontade", respondeu o outro, ainda de costas.

Malfoy lançou um olhar oblíquo ao homem, da onde estava no sofá. Ele não parecia alguém perigoso, pelo contrário: tinha uma postura elegante, aparência impecável e seu nariz aristocrático – parecendo ainda maior por causa dos óculos – era levemente empinado no ar, dando um ar sutil de arrogância e desprezo à figura do chefe. Mas ele não se engava. Malfoy sabia muito bem o significado do ditado "quem vê cara, não vê coração". Lidava com aquele tipo desde que se entendia por gente.

"Há quanto tempo você está com Flint?"

Malfoy inclinou-se no sofá, testando a maciez, "Quase dois anos, acho"

"Ah. E antes disso?"

O chefe virou um pouco a cabeça para seu lado e a luz refletiu em cheio na lente de seus óculos. Malfoy não pôde mais olhá-lo e por isso se concentrou em algum ponto cego à frente. Não respondeu.

"Azkaban, certo? Quanto tempo?"

"Cinco anos"

"Assassinato?"

"Algo assim"

"Pouco tempo para um crime desses, não acha?"

A boca de Malfoy se contorceu em uma linha sarcástica, "Fui um presidiário exemplar"

"Soube que também é exemplar nos seus trabalhos"

"Faço qualquer trabalho", disse Malfoy, "Qualquer coisa que me pedir, exceto..."

O outro se moveu um pouco, "Ah? Exceto...?"

"Trabalho que envolva mulheres", e desta vez Malfoy endureceu sua expressão, os raros olhos cinza metálico afiados como aço frio. "Não sou exigente com o meu trabalho, mas só não quero me envolver com mulheres".

"Esse trabalho envolve uma"

Malfoy olhou sem expressão para ele.

"Quero que você cuide de uma mulher por uns tempos"

Um trabalho desagradável...

"Ela está no momento vivendo em Godric's Hollow"

Mas não havia muita escolha sobre isso...

"Como você disse que não queria se envolver com mulheres, deverá ser perfeito nessa tarefa"

E depois de tudo, eu já devia saber que esse dia sempre chegaria...

"Mantenha o profissionalismo"

Eu só devia ter me preparado melhor para isso...


Malfoy parou diante do chalé 201. A casa não era vistosa, de modo algum. Passava despercebida por quem não conhecesse o povoado. Ele bateu na porta e não precisou esperar muito. A porta se abrira em um rangido, apenas o suficiente para que um rosto pequeno e sardento o espiasse da fresta.

"Srta. Ginevra Weasley?"

Ela piscou os grandes olhos castanhos, ariscos ao olhá-lo, "Quem é você?"

Não admira que ela não me reconhecesse... Azkaban muda mesmo a gente...

"Draco", ele disse simplesmente e logo depois emendou, "Bom, não acho que meu nome importe agora. Fui ordenado a te levar para Londres"

"Por quem?"

"Um homem que usa óculos e roupas caras"

Os olhos dela cresceram um pouco mais, "Um homem que usa... óculos?"

Draco não pode evitar uma risada, "Não é Harry Potter, se é quem você está pensando"

Ela replicou quase imediatamente, "Não é da gangue de Flint, é?"

"Eu mesmo não sei de muita coisa"

Ele se calou e ela também não se pronunciou. Limitaram-se a se encarar, durante alguns segundos, o que irritou Malfoy.

"Não vou força-la a nada", acrescentou ele secamente. "Não estou muito entusiasmado nisso"

A Weasley estreitou os olhos ligeiramente e bateu a porta na cara dele. Malfoy deixou sua expressão cordial de lado e encarou sombriamente a porta enquanto ouvia os passos dentro da casa. Ele não poderia força-la e não iria insistir; se a Weasley não quisesse ir, ele ficaria muito feliz em voltar imediatamente ao homem e dizer que estava tudo terminado.

A porta então se escancarou com a Weasley segurando firme o trinco, "Estou sendo alvo. Você vai ser meu guarda-costas?"

Malfoy deu de ombros, "Faz parte do meu trabalho"

Ela pegou uma mala preta e ofereceu a ele, "Carregue"

Ele apanhou a mala sem expressão alguma. Ela fechou a porta, sem trancá-la, e passou por ele em direção ao portão.

"Vamos, é melhor do que ser morta por aquele homem"

Ele enfiou uma mão no bolso e começou a segui-la, calado.

Que mulher estúpida. O jeito que balança a bunda... O cheiro do seu perfume... isso me irrita. Odeio esse trabalho.

Estavam no trem, já. Weasley estava encolhida ao lado da janela, a perna cruzada firmemente, as unhas sem pintura afundadas na carne da bochecha sardenta. Malfoy, ao seu lado, permanecia sentado reto no encosto, as mãos entrelaçadas no colo, as pernas compridas separadas. Não trocaram uma palavra desde Godric's Hollow.

"Porque não fala comigo?", Weasley perguntou, olhando a paisagem passar num borrão pela janela.

"Sobre o que você quer falar?", replicou Malfoy.

"Não tenho vontade de conversar"

"Então ficarei quieto"

Ela tirou a mão do rosto e começou a batucar o batente da janela com as unhas compridas.

"Desde quando você recebe ordens de um Weasley, Malfoy?"

Malfoy lançou um olhar oblíquo à mulher e não respondeu. A Weasley ainda encarava a paisagem lá fora, e batia suas unhas o mais rápido contra a madeira.

"Posso não ter te reconhecido lá no chalé, mas entendi agora. Você é Draco Malfoy"

Ele encarou sua frente e não respondeu.

"Céus, Azkaban transforma mesmo uma pessoa, mesmo sem os dementadores", ela continuou, "Achei que era só com Sirius porque eu não o conhecia antes de ir para prisão, mas você... Você se acabou naquela prisão"

Ela virou o rosto para olhá-lo. Malfoy ainda encarava algum ponto a sua frente com a expressão tão neutra quanto antes. Ela franziu o cenho, com uma expressão irritada e bufou. Malfoy não deu nem atenção. Passaram mais alguns minutos sem abrirem a boca.

"Não tem bebidas aqui?", perguntou Weasley de repente.

"Tenho agua, se quiser"

"Drink. Não quero água, quero uísque ou alguma coisa assim"

"Eu não bebo"

Não mais... faz seis anos que não coloco nenhum álcool na boca...

Ela se levantou e passou para o corredor, sua perna roçando os joelhos dele, "Eu já volto"

Malfoy a observou, apático, andar pelo vagão comprido, em direção ao outro compartimento.


Gina alcançou o outro compartimento e fechou a porta, respirando fundo. Não deveria ter vindo. Além de estar bem escondida em Godric's Hollow, não teria se envolvido com um assassino.

O vagão estava quase vazio. Quase. Havia em um canto, na janela, um homem baixo e gordo, de cabelo oleoso, que virava um litro de alguma bebida com avidez, e que Gina tinha certeza ser Rum.


Malfoy olhou para o relógio dourado de pulso. Quinze minutos. Olhou para frente, para a porta do compartimento. Levantou do banco e pôs as mãos no bolso da calça escura. Seus movimentos eram automáticos. Quando abriu a porta do outro compartimento, logo pôde ouvir a voz de um homem conversando "Sei, você está viajando sozinha então?"

Olhou para a janela. Lá estava a Weasley, bebendo de uma garrafa, encostada na parede ao lado da janela enquanto o homem – um tipo baixo e gordo – ficava de frente para ela, roçando seus braços.

"Sabe, eu também estou. Se você quiser nós podemos ir até a minha cabine"

Weasley baixou a garrafa para tomar fôlego, ignorando completamente o homem e entornando o líquido novamente.

"Nós podemos beber juntos, tenho mais na minha cabine"

Malfoy atravessou o espaço em três passos e agarrou o homem pela frente da camisa, jogando-o contra a parede e espremendo seu rosto contra o vidro da janela. O homem soltou uma exclamação de surpresa. Malfoy continuava tão impassível quanto antes.

"O que está fazendo?", perguntou serenamente, trazendo o gordo para frente para deixa-lo falar direito.

"C-como assim?", gaguejou o homem, "Ela me pediu um gole, falou que estava sozinha-"

Mais uma exclamação de dor. Malfoy voltou a bater o corpo do homem contra a parede com a mão fechada em volta do colarinho dele.

"Não encoste um dedo nela"

E fechou a outra mão, acertando um soco no estômago do homem e fazendo-o se inclinar. Deu uma joelhada que fez espirrar sangue pelo nariz e o homem berrar. Malfoy, sem expressar raiva, desprezo ou prazer, encostou o homem na parede e socou seu rosto com gosto, fazendo-o cair no chão, atordoado demais para emitir algum som. Malfoy ainda deu mais quatro ou cinco chutes na barriga dele, antes de se afastar e olhar Gina.

Ela tinha os enormes olhos fixos no homem espancado, e olhou assustada para ele quando ele se aproximou com uma mão no bolso, e colocou a grande mão de ferro nos seus ombros estreitos.

"Vamos", disse simplesmente e a empurrou sem muita delicadeza para a porta, colocando a outra mão por cima dos seus ombros para guia-la de volta ao lugar deles. A Weasley não disse nada, apenas o encarou assustada, mas Malfoy conservava a mesma expressão indiferente, como se nada de importante tivesse acontecido. Assim que se acomodaram novamente, não olhou para ela nem uma vez durante o resto da viagem.


"Porque você não fala enquanto come?"

"Porque você não me diz do que quer falar?"

Ela revirou os olhos. Ele continuou comendo com grande indiferença.

"Então... porque você não toma bebidas alcoólicas?", ela tentou mais uma vez.

"Minha mãe", ele disse simplesmente.

"Era alcóolatra?"

"Era doente"

Malfoy percebeu a expressão descrente no rosto da Weasley. Era engraçado. Ninguém nunca imaginaria que a fina Narcissa Malfoy tinha se tornado uma alcóolatra terrível, principalmente após a queda de Voldemort e a prisão de Lúcio. Malfoy observou a Weasley entornar a champanhe do copo com certa nostalgia.

"Não me importo se você quiser beber", ele disse. "Só não vou beber junto"

Weasley olhou para dentro do copo vazio com tristeza. Suas bochechas já adquiriram um leve tom rosado, "Devia haver uma razão"

Malfoy descansou os talheres, olhando para ela com apatia, "Você acha?"

"Há uma razão para mim", ela disse e o olhou.

Malfoy soltou o ar pelo nariz e ofereceu um sorriso sem dentes para ela, "Conte pra mim"

"É uma longa história"

"Eu também tenho um longo tempo, você sabe"

Isso a fez sorrir sem humor. Ela tornou a encher a taça de champanhe até a boca e quando teve certeza de que a taça estava praticamente cheia, começou lentamente, "Eu tive um noivo"

Pausa para um gole.

"Ele era famoso. Um bruxo excepcional, com habilidades brilhantes. Todo mundo estava certo de que nós iriamos nos casar, já era quase um contrato não dito"

"Vocês se casaram?"

"Não. Quando os comensais começaram a se vingar, anos atrás, entre as vítimas do massacre estavam meu pai e dois irmãos. Depois disso, ele terminou comigo. Precisava salvar o mundo mais uma vez e não confiava em mim para ir junto. Acredita que ele riu quando eu disse que queria ajudar? Ele riu de mim"

Gole longo.

"Então ele foi embora e me largou. Eu fiz de tudo para cuidar do resto da minha família, mas depois que Flint começou a nos perseguir tivemos que nos esconder. A partir daí a minha vida virou um inferno"

"E foi aí que você começou a beber"

"Uhum"

Ela estendeu a mão para a garrafa e hesitou. Malfoy então apanhou o champanhe e serviu uma taça quase transbordando a ela. A Weasley agarrou a taça com avidez.

"E depois?"

"Eu tentei matar meu ex-noivo"

Ela bebeu a taça inteira de um gole só e a bateu na mesa. Depois agarrou a garrafa de uma vez e bebeu direto do gargalo, um longo gole da bebida, antes de encará-lo, "Está surpreso? Eu tentei matar aquele homem!"

"Mas você não matou, não é? Não, não matou..."

A Weasley ficou quieta, esperando ele falar. Malfoy bebeu um pouco da sua água da taça, ponderando se deveria contar alguma coisa pessoal que inspirasse confiança a ela. Não encontrou nenhuma objeção.

"Sua história é melhor que a minha"

"Você matou sua namorada com uma arma trouxa" afirmou ela.

"Sim, eu puxei o gatilho", ele disse, sem deixar transparecer nenhum tipo de emoção na fala, nos gestos ou nas expressões. Era como se fosse um robô. "Minha namorada estava por cima de um cara na cama"

Weasley pareceu curiosa na sua história. Isso era bom.

"Atirei nos dois até esvaziar o cartucho", disse ele com um leve esgar amargo nos lábios, "O quarto ficou tomado pelo cheiro do sangue dos dois... e do perfume dela."

Olhou diretamente para ela. Weasley não parecia chocada nem enojada. Ela estava concentrada no que ele dizia e sua expressão era algo como reprovação.

"Quando me toquei, estava sozinho no meio de tudo aquilo"

Ela teve um arrepio e desviou os olhos, encarando a mesa à frente. Malfoy imaginou se não tinha sido um pouco demais para o primeiro dia de convivência. Pouco depois, ela voltou a encará-lo. "Você é um idiota"

Malfoy demorou um pouco até responder, "Sou?"

Então Weasley começou a rir, "Oh Merlin, sim, você é tão idiota"

Malfoy sorriu também. Tudo estava certo.


Gina Weasley bebeu até cair. Ela ainda trançava as pernas quando eles saíram do bar, e chegando perto do apartamento finalmente apagou completamente. Malfoy não teve outra escolha senão sair carregando-a até sua cama. Não arriscaria usar uma varinha estando na Londres trouxa.

Subiu as escadas com a mulher no colo. Ela era miúda para a sua idade, o que era uma sorte para ele. Abriu a porta do apartamento com uma mão e atravessou o quarto de hotel caro, levando-a até a cama de solteiro. Assim que a colocou, percebeu que ela segurava firmemente sua mão, como se soubesse que ele estava saindo e não quisesse deixa-lo ir embora. Malfoy olhou por algum tempo sua mão por baixo da dela, a pele pálida dele e a branco leite dela.

Então tirou a mão dela com cuidado, e se virou para sair. Ao chegar à porta, porém, não resistiu à tentação de olhar para aquela mão novamente. A pele láctea de unhas compridas descansando sobre o acolchoado de tecido azul, onde as vestes escuras se camuflavam em camadas e mais camadas fofas.

Que trabalho desagradável...


No dia seguinte, uma limusine branca os esperava na porta do hotel para o encontro com o chefe. Foi encontrar Weasley no pé da escada com um "bom dia" de ambas as partes, e entraram no carro sem trocarem mais uma palavra. O caminho até o outro hotel, local do encontro, foi feito no mais completo silêncio.

A limusine parou em frente a um hotel luxuoso e Malfoy desceu, oferecendo uma mão para a Weasley, e informou "O chefe está esperando nesse local"

Ela bateu levemente na mão dele, como que para afastá-lo, e saiu do carro sozinha, lançando um olhar sério a ele "Você é um assassino. Não me toque"

Um relâmpago de emoção perpassou pelos olhos desprovidos de cor e depois sumiu, tão repentinamente quanto surgira. Mas os lábios de Malfoy estavam curvados quando ele bateu a porta e ambos começaram a subir a escadaria de mármore.

"Em qual quarto ele está?", ela pediu, quando chegaram até as portas rotatórias de metal dourado e vidro fumê.

"Eu te levo até lá", ele disse entrando na frente dela.

"Não preciso de um guia, é só me dizer o número do quarto", ela disse secamente, ocupada com o estado de suas vestes antes de entrar em um lugar tão refinado.

Malfoy parou e se virou para ela de repente, gesto que fez com que ela batesse contra ele e pulasse para trás de susto. Ele a segurou com uma mão pelo ombro, de modo calmo e firme "Suas vestes estão fora do padrão desse hotel. Vou te levar até lá"

O rosto dela se tingiu de um vermelho escuro, mas não proferiu mais nenhuma palavra. Seguiu Malfoy, passando pela enorme recepção em direção ao elevador trouxa, e nem mesmo a estranheza de ver um Malfoy lidando tão bem com o mundo trouxa, até mesmo melhor que ela, a fez erguer a cabeça até chegar ao quarto.

Depois que a porta foi fechada, Malfoy sentou em uma das cadeiras estofadas do hall daquele andar, encarando por um grande tempo o brilho lustroso dos seus sapatos.

Não sei o que o cara de óculos quer com ela, mas se ela negar o negócio... esse trabalho desagradável irá acabar.

Ele olhou pela janela, onde a limusine permanecia parada em frente ao hotel e chamava a atenção dos transeuntes.

Não vou mais precisar lidar com mulheres.

Ele esfregou o rosto com as duas mãos. Não dormira bem aquela noite e provavelmente não dormiria nas próximas também. O que era muito, muito irritante. Levantou a cabeça ao ouvir o clique da porta e a figura da Weasley se aproximar lentamente pelo corredor até ele.

"O que foi?", pediu assim que ela parou na sua frente "Sua expressão não está muito boa"

"Não foi mau negócio", ela respondeu e tirou do bolso um cartão dourado "Ele me disse que eu podia gastar a vontade com esse cartão"

Ela com certeza esperava alguma piada ou comentário sarcástico sobre aquela situação. Mas Malfoy não ofereceu nada. Nem uma palavra. Ele apenas indicou que havia entendido e se virou para o elevador, enfiando uma mão no bolso.

"Então", ela disse assim que saíram do prédio "Vamos logo"

"Pra onde?"

Ela ergueu as sobrancelhas "Fazer compras"

Malfoy ficou ainda alguns segundos parado na calçada, consciente do vento que desarrumava aos poucos seu cabelo e das pessoas que passavam na rua e olhavam com inveja e admiração para ele ali.

Eu realmente odeio esse trabalho.


Eles andaram a tarde inteira. Em nenhum momento ela pedira ajuda ou a opinião dele, mas fez questão de que ele carregasse toda a sua parafernália. E Malfoy não tinha escolha senão ouvir calado tudo sobre acessórios, sapatos, calças, blusas e andar, andar e andar até que seus pés tivessem criado bolhas e ficassem apertados dentro do sapato.

Até que ela entrou na loja de vestidos. Malfoy, que até agora tinha ficado calado, apenas olhando ela conversar com a vendedora enquanto experimentava os vários modelos, percebeu que deveria interferir. Andou até onde elas estavam próximas ao provador, discutindo sobre os modelos amontoados aos montes ao lado.

Ele a vira vestida com todos e conhecia muito bem o tipo de roupa apropriada para cada ocasião. Não porque ele se interessasse por aquilo, pelo contrário; mas quando se era criado daquela maneira tradicional cada vez mais rara entre as famílias, era ensinado a reconhecer bom gosto e elegância porque convivia com isso.

"Separe o preto e branco, os três azuis, o branco de seda, o vermelho e os dois verdes", ele ordenou à vendedora, assim que se aproximara "Vamos levar todos esses"

"Eu ainda não decidi", argumentou a Weasley, olhando feio para ele.

"Esses foram os que ficaram melhores pra você", replicou Malfoy calmamente, arrancando o cartão da Weasley e entregando a vendedora.

"Você deve escutar o seu marido, Sra Weasley", disse a vendedora andando na frente dos dois "Os homens sempre sabem quando uma mulher está elegante ou não"

Ambos ficaram quietos, a Weasley insatisfeita e Malfoy com uma expressão que dizia absolutamente nada. A gerente e o restante das vendedoras acharam muito estranho que o Sr e a Sra Weasley não trocasse nenhuma palavra ou olhar durante aproximadamente uma hora que estiveram na loja, mas especularam que talvez eles fossem muito tímidos, porque ainda era um casal jovem e bonito, não tinha porque a paixão esfriar já naquele tempo.

Assim que entraram na limusine, e Malfoy descansou as sacolas de vestido em um canto, ela o interpelou "O que foi aquilo na loja?"

Malfoy a encarou fixamente e não respondeu.

"Eu não precisava da sua ajuda, eu sei perfeitamente bem escolher-"

"Não seja estúpida", cortou Malfoy serenamente, "Era mais do que óbvio que você não sabia qual escolher, era capaz de levar todos de uma vez só para não mostrar isso àquela vendedora trouxa"

"Se eu quisesse levar todos, o problema era meu", replicou ela cruzando os braços.

Malfoy imaginou se não tinha sido mimado igual a ela há alguns anos. Ah sim. Tinha sido muito pior.

"E parecer ridícula também."

Ela resolveu ignorá-lo, olhando emburrada para fora da janela do carro. Pouco depois descruzou os braços com um ar treloso natural de crianças que passaram muito tempo presas dentro de casa e anseiam por alguma diversão excitante.

"Você disse que eu fiquei bonita com aqueles vestidos"

"Eu disse que você ficava melhor com os vestidos"

"Esse é seu jeito de falar que eu fiquei bonita?", ela perguntou sorrindo.

"Você não precisa de um vestido para ser linda"

Weasley parou de sorrir e o encarou surpresa. Malfoy sustentou seu olhar calmamente, sem qualquer tipo de emoção, o que começava a ser frustrante para ela. Ela hesitou uma vez, olhando-o com o grandes olhos de boneca, tomou fôlego, e perguntou descrente:

"Você me acha linda?"

Malfoy então disse tão indiferente que de certo modo fez com que suas palavras fossem ainda mais sinceras, "Você é tão linda que é difícil olhar pra você por muito tempo¹"

Ela ficou olhando para a região escura do carro onde Malfoy estava.

"O quê?", fez.

Ele indicou a porta do carro.

"Chegamos"

Voltaram ao hotel e já era quase noite. As ruas estavam cheias de gente voltando do trabalho e saindo no final de tarde. Quando Malfoy saiu do carro, sentiu um contato quente no braço e virou o rosto por cima do ombro. Era a Weasley.

Malfoy prendeu-se alguns poucos segundos na mão dela segurando seu braço para depois reparar em um envelope branco gesso na outra mão que ela mostrava a ele. Ele ergueu uma sobrancelha para ela.

"É um convite. Convite para uma festa", ela explicou.

"Festa?"

"É o trabalho que me foi dado, comparecer em algumas festas", ela sorriu. "Só isso"

Malfoy não soube bem o que deveria dizer diante daquilo. Acenou com a cabeça, "Que bom pra você"

"E você também virá"

Dessa vez Malfoy virou-se completamente para ela e a Weasley recolheu rapidamente sua mão. Estudou as sobrancelhas ruivas e os olhos de madeira polida brilhantes, "Você vai ser meu acompanhante"

Malfoy apenas a olhou, sem dizer uma palavra. Ela então passou por ele, chamando-o com um aceno de mão, "Vamos, você ainda tem que me ensinar a comer com aquele monte de talheres"

Depois de alguns segundos, Malfoy enfiou as mãos nos bolsos da calça e a seguiu para dentro do hotel.

Esse trabalho está se tornando cada vez mais desagradável...