Disclaimer: Harry Potter não me pertence.


O Nome do Jogo

O Homem que Sabia Demais


Ele terminou de ajeitar a gravata verde e preta, de frente ao enorme banheiro em madeira rósea e azulejos resplandecentes.

Que estranho. Eu posso ir a vários lugares com a mesma gravata sempre. Apenas uma.

Saiu para o esplendor e a luz do salão que tanto estava acostumado. Passou pelas pessoas, andando devagar, olhando para os lados febrilmente, buscando. Até que estacou de repente, seus olhos fixos em um ponto.

"Lá está", murmurou para si mesmo.

O jovem de cabelos castanhos estava em uma roda de quatro pessoas, conversando e rindo, ricamente vestido com terno trouxa.

Então, ele é o demônio.

O rapaz tinha expressão leve e despreocupada, alegre mesmo e se virou de frente para Malfoy, para cumprimentar outro homem mais velho.

Ele apertou muitas mãos... tantas que ela deve ter inchado.

Mas o jovem rapaz nunca mostrava sinais de cansaço, tédio ou qualquer outra coisa. Era sempre o mais animado e o que mais falava, parecia ser engraçado também porque arrancava muitos risos dos que estavam em volta.

E aí ele saiu do salão. Sozinho.

Cumprimentou os funcionários da porta, que sorriram e acenaram de volta para ele. Malfoy o seguiu tomando distância, mas sem tirar o olho dele.

O garoto entrou em um carro de luxo já parado em frente à porta do salão. Pouco depois, um comum carro prata também saía atrás. Malfoy o seguiu até um hotel de luxo no coração de Londres, parecido com aquele que o chefe ficava.

Entraram. Quando Malfoy se aproximou, viu o elevador já com as portas se fechando. Apertou o botão e olhou para o contador em cima, esperando. Segundo... Terceiro... Quarto... Quinto... Sexto... parou.

O elevador ao lado abriu com o funcionário enquanto Malfoy entrava.

"Para onde, cavalheiro?".

"Sexto andar".

"Certamente senhor".

O elevador subiu. Chegando ao andar, Malfoy saiu olhando para os lados. O corredor era de carpete vermelho, cheio de enormes quadros de casas abandonadas no meio da floresta e trabalhadores em um monte de feno.

"Mas qual quarto?".

Ele caminhou até encontrar uma porta aberta. A placa dizia que era o quarto 606. Malfoy hesitou em frente, encarando o interior pela fresta da porta. Será?

De repente, a porta fora aberta e o garoto, o jovem de cabelos castanhos apareceu sorrindo para ele. "Por favor, entre"

Malfoy não hesitou ao entrar no apartamento, as mãos no bolso. O garoto veio logo em seguida. A sala era grande para um apartamento, com móveis simples, mas distintos e uma lareira elétrica.

"Pode se sentar aqui, sinta-se em casa", falou o jovem agradavelmente.

Sentaram. Malfoy no sofá de dois lugares, o garoto em uma cadeira de estofado verde musgo e em estilo imperial.

"Você quer ver ele também, certo?", disse o jovem animado.

Malfoy inclinou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos, "Ele?"

"Também estou esperando-o", continuou o garoto, "Ele estará aqui daqui a pouco, então vamos conversar até que ele chegue".

Malfoy o olhou sem expressão.

"Qual assunto...", disse o garoto olhando para o lado, pensativo, "Ah já sei! Vamos falar sobre o fim do mundo"

Os olhos castanhos do rapaz eram claros como os de Gina, mas tinham um brilho esquisito no olhar que os tornava quase lascivos enquanto Malfoy o encarava quieto.

O garoto continuou a falar como um robô... Era como uma criança contando aos pais os acontecimentos do dia na escola. Foi assim que ele conversou comigo.

O rapaz tinha uma eloquência incrível, Malfoy tinha que admitir. Se ele não soubesse do caso de antemão, cairia facilmente na conversa mole do garoto. Era como a de um político.

A história do fim do mundo uma ova. "Esse garoto só diz besteiras" eu pensei naquela hora.

"O que achou?", perguntou o garoto animadamente. "Gostou da história? Não foi interessante de ouvi-la, Sr. Draco?"

Malfoy piscou, "Como sabe meu nome?"

O jovem riu, divertido. "Simplesmente sei. Agora vamos falar um pouco de você. Está trabalhando para o Flint há dois anos?"

"Você me investigou?", perguntou Malfoy com uma expressão dura.

"Esteve na prisão antes disso", o garoto o ignorou, "Esses cinco anos de Azkaban devem ter sido difíceis"

"Você é bruxo", afirmou Malfoy, cada vez mais confuso.

"Mas você foi um presidiário exemplar, certo? Conseguiu sair daquele lugar mesmo tendo cometido duplo homicídio. Foi divertido viver com ela?", ele baixou o tom, "digo, com a mulher que você matou. O nome dela era Astoria"

Malfoy inclinou-se para trás, encarando o jovem rapaz, "Você tem mau gosto, garoto"

"Ela era viciada em drogas. Muito rica também. Mas você tentou muito tirá-la do vício. Infelizmente, não é algo fácil de fazer"

O garoto contava tudo como se fosse uma história de um filme.

"Foi por amor?", ele perguntou sorridente.

"Você quer ser machucado?", Malfoy replicou, com a mesma expressão impassível.

"Ela conseguiu melhorar", continuou o outro gentilmente, "Ela ficava na mansão Malfoy e te esperava voltar do trabalho. Uma vida feliz se iniciou".

Malfoy interrompeu serenamente, "Perguntei se você quer ser amaldiçoado"

"Mas naquela noite...", continuou o garoto, "Você viu uma cena terrível quando entrou no quarto"

Sem querer, as cenas daquela noite voltaram com força em sua mente, conforme o garoto ia relatando com sua voz risonha.

Ele abriu a porta do quarto e estacou. Na sua cama enorme estava Montague, nu, deitado entre os travesseiros e montado em cima dele era Astoria, os cabelos escuros molhados, os olhos – fundos e inchados com a droga – voltados para a porta, para ele.

"O ex-namorado dela estava lá. Ela estava se drogando de novo. Ela te olhou e resmungou algo. Ela ficou repetindo: Perdoe-me. Perdoe-me. Perdoe-me."

"Perdoe-me!"

"Mas você a matou junto com o homem. Foi isso que o julgamento determinou."

O jovem se inclinou um pouco mais para frente, arregalando os olhos que exibiam curiosidade "Porque mentiu?"

Malfoy não disse nada.

"Ela se matou, não é mesmo?", continuou a falar o garoto. "O seu advogado encontrou pólvora nas mãos dela e deduziu que ela tinha se suicidado. No entanto, na frente de um júri completo na Suprema Corte você ainda confessou tê-la matado. Mas eu já sei por quê. É porque ela te implorou, não é mesmo?"

Malfoy desviou os olhos.

"Aha!", disse o garoto animado. "Acertei! Acertei, não é? Eu sabia! Não foi você quem atirou nela! Ela te pediu, certo? Para atirar nela."


"Me mate, Draco" ela pediu, de quatro na cama, olhando para ele, enquanto Montague se livrava do cobertor para buscar suas roupas "Por favor me mate! Não me olhe assim. Me mate!"

Ele se virou para a porta novamente, dando as costas para aquela cena.

"DRACO!"

Ele saiu para o corredor e fechou a porta calmamente. Estava calmo. Surpreendentemente calmo. Talvez estivesse em choque, mas naquele momento ele não sentia nada. Nadinha. Começou a andar para fora. Talvez dali a alguns segundos ele voltasse para amaldiçoar ambos naquele quarto. Ele não sabia. Só sabia que ouviu um estampido forte vindo do seu quarto.

Parou no corredor e olhou para o quarto. Uma sensação horrível se apoderou dele. Correu de volta. Quando escancarou a porta, a cena que viu foi nauseante.

Sangue. Por todo lado. Uma pequena poça que começava a aumentar nos lençóis, espirrado na mesa de cabeceira, nas paredes, no chão.

"Não fui eu!" berrou Montague, meio vestido, olhando horrorizado e enojado para a cena "Não fui eu! Ela se matou!"

Malfoy se aproximou da cama lentamente. O cheiro de sangue começava a impregnar o ar do quarto fechado. Ele tirou gentilmente o revolver da mão esguia de Astoria. Onde ela arrumara aquilo? E desde quando ela tinha? Será que ela andava pensando em se matar?

"Está vendo, não fui eu!" exclamava Montague, andando de costas em direção à porta, olhando para Malfoy nervoso.

Ele só olhou para o ex-companheiro de Casa e apontou a arma para ele. Um cartucho inteiro foi descarregado.


Malfoy encarava o chão de madeira polida em tábuas.

"Eu sabia", repetiu o garoto triunfante. "Incrível, não?"

"Não", disse Malfoy, olhando para ele.

"Você a abandonou. Foi assim que fez o desejo dela se tornar realidade"

"Não!", exclamou Malfoy, olhando para o garoto, de repente furioso.

"E a sua mãe?", continuou o outro, exibindo uma expressão de extrema satisfação.

Malfoy arregalou os olhos. Como o desgraçado poderia saber? O garoto riu superiormente.

"A sua mãe. Ela congelou até morrer quando você tinha 20 anos, não foi? Você a abandonou naquela vez, também."

Os olhos cinzentos não estavam mais inexpressivos e Malfoy estava longe da característica fleuma. Ele parecia um homem que acabou de receber a sua sentença de morte.

O garoto deu outra exclamação empolgada, "Acertei de novo? Incrível! É incrível! Estou surpreso que adivinhei!"

Malfoy agarrou as vestes no joelho, os punhos apertados tão forte que os nós dos dedos haviam ficado brancos.

"Você chegava todo dia do trabalho e encontrava sua mãe bêbada em casa, certo? E a sua mãe sempre te dizia para deixa-la, mas mesmo assim você sempre acendia o fogo da lareira. Mas, numa noite..."

"Você não pode dormir aqui"

"Não se preocupe querido, só vou esperar um pouco até o efeito do alcool passar"

"Não mãe, a senhora não pode dormir aqui. Vai congelar se ficar aqui nesse frio, não chamou o elfo pra ligar a lareira?"

"O estupido até tentou, mas eu o enfeiticei até ele sumir daqui. Está tudo bem, basta me deixar sozinha"

"Tudo bem, mas pelo menos use um cobertor"

Draco foi fazer um gesto para acender a lareira, mas Narcissa bateu em sua mão. Sua expressão tranquila se tornou repentinamente furiosa.

"Acha que eu vou dormir aqui, como uma criada? Ora, por favor, vá se deitar Draco e deixe sua mãe beber em paz! Subirei quando for a hora"

"Está frio, a senhora quer morrer? Droga, é só ligar a lareira!"

"Não admito esse palavreado, mocinho. Você está me saindo igualzinho o seu pai"

"Ótimo, congele até a morte! Eu não me importo! Avisada a senhora está"

"Draco, volte aqui me desejar boa noite apropriadamente! Draco Malfoy volte já aqui!"

A porta bateu com estrondo, fazendo as dobradiças da janela tremerem.


"Você a deixou lá. Estou certo? Você deixou sua mãe lá. Na manhã seguinte você encontrou sua mãe morta na sala."

Malfoy encarava o nada, segurando os joelhos, o rosto atormentado pelas lembranças, os olhos arregalados de pupilas dilatadas.

"Mas você pensou consigo mesmo", continuava o garoto, "que não era sua culpa. Você só a deixou lá porque ela pediu. Estava certo. Não foi culpa sua. A sua mãe e a sua namorada viciada queriam morrer!"

Ele estava começando a respirar mais rápido, como se estivesse com falta de ar. No entanto, o jovem continuava, "Você apenas deixou aqueles que queriam morrer, morrerem. Você não errou, estava certo! Você as libertou do sofrimento de viver"

O garoto se calou por um instante, sempre sorrindo, e Malfoy estava em choque, tremendo da cabeça aos pés.

"Gina também quer morrer"


A porta foi fechada pouco tempo depois. Malfoy encarava o chão com os olhos arregalados e começou a fazer lentamente seu caminho através do corredor luxuoso.

Naquela hora, o verdadeiro demônio chegou.

Vinha vindo pelo corredor outra pessoa no lado contrário ao dele. Mesmo sem olhar para cima, com sua visão periférica, Malfoy sabia que o outro era homem, um jovem homem, um garoto mesmo, alto de pele pálida e cabelos louros igualmente pálidos.

Passei por ele, tomando cuidado para não encará-lo.

Eles se cruzaram, e Malfoy não se atreveu a erguer o rosto. Continuou olhando fixamente para o chão, de olhos muito abertos.

Não posso olhar. Não devo vê-lo. Repeti aquilo para mim mesmo, como uma criança.


Malfoy voltou direto ao quarto de hotel que alugara. Estava neste momento parado no meio do quarto escuro com a arma, que ganhara no restaurante, empunhada na mão esquerda. Ele olhava para Gina Weasley deitada na cama de costas para ele, e apontou a colt para a massa de cabelos vermelhos. Era só puxar o gatilho. Tão simples.

"Gina também quer morrer"

Ocorreu-lhe um pensamento estranho.

"Por favor me mate!"

"Está tudo bem, basta me deixar sozinha"

Os cabelos dela camuflariam o sangue que ia se espalhar pelo lençol. Como ele era comprido, provavelmente demorariam uns dois dias até encontra-la. Até lá, ele teria fugido.

"Harry..." falou ela no meio de seu sono e uma lágrima solitária caiu lentamente sobre sua face.

Malfoy ergueu as sobrancelhas, surpreso. Soltou o gatilho e baixou a arma, olhando para ela melancolicamente.

Eu... não farei parte dos planos do demônio. Porque ninguém... ninguém quer morrer.


Era madrugada e uma fina chuva começara a cair. Pela ventania, aquilo logo se transformaria em uma tempestade.

A tranca da porta virou e três homens apareceram no corredor. Somente seus vultos eram vistos através da penumbra. No quarto escuro, a cama vazia estava desarrumada e um homem estava de pé, encostado na janela. Era Malfoy.

Um dos homens deu dois passos para dentro. "E a mulher?"

"Ginevra não está mais aqui"

"Pra onde você a enviou?"

"Acabei com ela"

"Não minta, Draco. Você ainda pode..."

"Não estou mentindo"

O homem bufou desgostoso, "Que patético"

"O que?"

"Perder sua vida por uma mulher"

Então o homem sacou sua varinha do cós da calça, mas Malfoy já estava preparado. Lançou um feitiço estuporante que fez o homem cair chapado e os outros dois lançarem maldições para ele.

Malfoy fez um movimento complicado e o guarda roupa embutido se soltou da parede indo parar na sua frente. As maldições o fizeram em pedaços. Enquanto isso, ele abriu a janela atrás de si e pulou, sob uma chuva de feitiços.


10 minutos atrás...

"Você acordou"

Gina, que ainda estava sonolenta na cama, de repente se sentou e olhou confusa para Malfoy, que estava parado olhando pela cortina através da janela lá fora.

"Eles vieram", disse Malfoy e Gina arregalou os olhos em horror. "O carro deles parou ali fora. É só questão de tempo"

Ele olhou para trás, por cima do ombro, para Gina que segurava os cobertores no seu colo, olhando-o com medo. Ele passeou o olhar por um momento no tecido frágil da camisola de seda rubra, de uma cor mais escura que os cabelos dela, que fazia ressaltar o branco da pele.

"Roubei um uniforme de empregada. Coloque-o e fuja pela porta dos fundos."

Gina procurou pelo quarto até ver o uniforme colocado no encosto da cadeira. Ela voltou os olhos para ele.

"E você?"

Malfoy, que ficou observando-a, voltou a olhar para a rua lá embaixo. "Sairmos juntos é como pedir para sermos pegos"

"Mas você será morto se não fugir"

"Se estiver sozinho conseguirei", e voltou para ela, como se precisasse ver o rosto dela e toda a expressão que ele fosse ter enquanto falava. "Vá ao lugar que está escrito no papel. É o hotel em que Potter está."

Gina vagarosamente foi se levantando, o lençol amarelado com a luz do poste deslizando por sua perna como folhas de papel manteiga, o tom de sua pele láctea adquirindo um brilho luminoso na penumbra da noite. Na escrivaninha, em frente a roupa de empregada, havia um pergaminho dobrado. Ela o pegou e leu.

"Troque-se rápido", disse Malfoy sem emoção e se virou para deixar ela se trocar.

Alguns segundos de silêncio.

"Ficarei te esperando em King Cross"

Malfoy tornou a olhá-la. Ela terminava de colocar uma manga do uniforme, de costas para ele. Depois de alguns segundos de silêncio ela continuou, "Vamos fugir juntos"

"Pare com isso. Isso não é hora para brincadeiras!", disse Malfoy irritado. "Escute! Ir onde Potter está é a única maneira de ficar segura e é o que você quer!"

Ela o ignorou, ocupada em abotoar as vestes na frente.

"Essa é uma ordem! Vá logo"

Gina o olhou superiormente, erguendo o queixo, "Você não tem o direito de me dar ordens"

Malfoy não disse nada. Ela terminou de abotoar e deu uma risadinha, olhando por cima do ombro para ele, "Foi uma brincadeira"

Pegou a mala preta que já ficava pronta para qualquer emergência daquele tipo, "Estou indo"

Malfoy ficou olhando ela andar até a porta. Lá, ela parou antes de abrir a porta e começou, "Não faça nada impensado ou será morto"

Ele sorriu de repente, "Não sou obrigado a ir tão longe por você"

Ela abriu a porta, "Tchau"

Malfoy ficou calado. Gina então olhou para ele e Malfoy sabia o que ela iria falar, estava claro nos olhos dela, no modo como ela o olhou naquele momento, mas ele ficou aliviado de que ela engoliu as palavras e virou de costas. A porta foi fechada com um clique suave.


Sim. Não sou obrigado...

Ainda conseguiu fazer um feitiço para impedir sua queda no asfalto, mas aquilo lhe custara uma maldição que passou a centímetros dele e que fez um horrível corte no seu braço. O motorista do carro vinha em sua direção, a varinha em punho, e estava pronto para lançar outra maldição letal. Malfoy rolou para trás de um carro e enfiou a varinha por trás da roda. Um clarão verde iluminou as casas em volta e o homem caiu morto.

Não sou obrigado a ir tão longe por aquela mulher...

Malfoy não sabia feitiços de cura nem nunca se preocupara em aprender algum e agora aquilo lhe custara caro. Ele tinha que fugir de qualquer jeito. Saiu de trás do carro e atravessou a rua, meio abaixado, segurando com a mão o braço sangrento ao mesmo tempo em que empunhava a varinha.

Dois feitiços passaram queimando os cabelos do seu cocuruto e ele se jogou em um beco entre dois prédios, murmurando um feitiço que fez os postes de luz ganhar vida e entortarem em direção aos homens que vinham correndo.

Ele contou até três, tomando fôlego, e saiu de trás do muro para enfrentar os homens no duelo. Estavam em maior número, mas Malfoy sempre fora liso nas batalhas, desde pequeno. Era difícil um feitiço acertá-lo em cheio.

Malfoy podia não ir bem em feitiços de cura, mas tinha amplo conhecimento na área de magia negra e maldições letais. Tivera bons professores ao longo de sua vida e naqueles tempos pós-Voldemort era difícil encontrar algum remanescente que ainda estivesse vivo ou solto por aí como ele.

Em menos de cinco minutos Malfoy estava parado sozinho rodeado de cadáveres. Ele olhou em volta, contando.

"Um...Dois...Três... Quatro..."

É, tinha matado todos. Mas o que aquilo iria lhe custar? Estavam em uma área trouxa. Malfoy deu uma olhada ao redor. Havia pelo menos umas dez cabeças o espiando por entre as cortinas das janelas. Os trouxas estavam obviamente apavorados e confusos com aquilo.

Malfoy enfiou a varinha no bolso esquerdo, e se dirigiu calmamente para seu carro. Debaixo do arco da pequena ponte, ele parou e se encostou lá para ajeitar melhor o braço. Estava doendo pra caralho.

"Estou surpreso de ter sobrevivido", murmurou, olhando fixamente para um ponto a sua frente enquanto segurava o corte do braço. Ainda sangrava. "Droga. Estação de King Cross...?"

Ele seguiu andando, puxando a chave do carro do bolso esquerdo. Era isso. Malfoy estava distraído e não percebeu o vulto que surgira a sua frente. Era o dono do estacionamento, um trouxa magro e curtido. Tinha um revolver na mão e o apontava diretamente para Malfoy.

Ambos ficaram quietos por um momento. O trouxa tremendo da cabeça aos pés, o revolver indo de um lado para o outro enquanto permanecia apontado para Malfoy, que o encarava quase com tédio. Então Malfoy falou serenamente:

"Acho que minha sorte acabou..."

O trouxa o encarou apavorado. Era obvio que nunca havia matado ninguém. Malfoy enfiou a mão no bolso lentamente e tirou a sua varinha. Então a apontou para o trouxa, que observava aquilo com uma fascinação mórbida.

"É melhor você atirar. Se você não me matar, eu te mato"

Em seguida, o trouxa puxou o gatilho. Malfoy caiu com a força do estampido e o trouxa saiu correndo. Malfoy ficou imóvel.

A rua estava cheia de corpos. O ministério deveria estar ali a qualquer segundo agora.

"Idiota", disse ele, estirado no chão, e tossiu um pouco. "Mirasse na cabeça! Trouxa estúpido."

Alguns gemidos. A ultima coisa que Malfoy viu foi o céu sem estrelas e grossas gotas de chuva caírem nele.


"Em um subúrbio de Londres quatro pessoas morreram em um confronto no Motel Stern's, do Brooklin. As autoridades disseram que as mortes foram causadas por envenenamento, mas há testemunhas que disseram ver um homem utilizando uma arma que disparava raios mortais..."

O carro vermelho virou mais uma esquina e foi desacelerando lentamente.

"Longbottom...", disse Malfoy no banco de trás do carro, "Ouviu isso, Longbottom? É a história da minha luta... Longbottom..."

Neville desceu do carro e abriu a porta de trás. Malfoy estava pálido, extremamente branco, com os lábios rachados e olheiras fundas debaixo dos olhos caídos.

"Chegamos, Malfoy! Você vai ficar bem, aguente mais um pouco"

Malfoy virou um pouco o rosto para ele.

"Estamos em King Cross?"

Neville exibiu um olhar confuso, mas logo se afastou. Malfoy já ia chama-lo de volta quando outro rosto entrou em foco a sua frente. Era Harry Potter.

"Olá, Potter", ele disse.

Harry olhou duramente para ele e pediu que Neville o ajudasse a carrega-lo. Não podiam cuidar dele ali sem os devidos instrumentos.


Minutos depois...

Estavam em um quarto. Somente o abajur estava ligado, e Harry e Neville estavam inclinados sobre a cama, onde Malfoy estava deitado, sem camisa, com ataduras nas costelas e no braço.

"Fiz todo o tratamento de emergência que pude", disse Harry, olhando ansioso para o rosto pálido de Draco. "Mais eu não posso fazer, não sou médico. Temos que ir a um hospital"

"Não...", disse Malfoy com dificuldade. "Eu já sei... seria inútil..."

Tossiu mais um pouco.

"Gina... Onde Gina está?".

Harry inclinou mais sobre ele, dizendo atropelado, "O que aconteceu com Gina?".

"Ela não veio aqui...?", perguntou Malfoy. Sua voz não era mais que um sussurro rouco. Harry e Neville ficaram o olhando. Ele começou a rir.

"Do que está rindo, idiota?", vociferou Neville, "Fique quieto! Você vai perder mais sangue assim".

"Não posso", disse Malfoy puxando o ar e logo em seguida levantou o braço e agarrou as vestes de Harry, trazendo-o mais para perto. "Ouça-me, Potter. Não sei por onde começar... Eu descobri... tantas coisas...".

Harry encarou o rosto fantasmagórico com atenção. Eles estavam próximos o suficiente para seus narizes se roçarem, mas mesmo assim a voz de Malfoy ainda era difícil de entender.

"A experiência dos Comensais da Morte ainda prossegue... Entende o que eu quero dizer?".

Neville se assustou com a expressão de Harry. Ele parecia à beira de um ataque de nervos.

"O demônio... o demônio que eles criaram fez um discípulo...", Malfoy tossiu ainda mais e Neville teve que ajuda-lo. Harry encarava o nada com uma expressão de horror. Malfoy pareceu ganhar algum fôlego.

"Aquele homem... pretendem criar um ditador... um novo Lord das Trevas..."

"Aquele homem?", perguntou Harry.

"O homem de óculos... O ultimo Comensal da Morte livre...", disse Malfoy, respirando como um velho asmático, "Ernest... Hughes".

"Ernest Hughes...", repetiu Harry lentamente.

"Aquele homem está tentando controlar o demônio, mas... o demônio... é bem mais terrível... muito mais...", disse Malfoy, "Hotel Charing Cross... quarto 606...é onde o discípulo do demônio está... Você não deve encarar o demônio...".

"Malfoy", disse Neville, olhando horrorizado para ele. Malfoy tinha os olhos arregalados no mais absoluto terror.

"Você não deve fazer parte dos planos do demônio... porque ninguém... quer morrer...", ele interrompeu com um grito terrível de dor.

"Malfoy!", exclamou Neville, olhando desamparado para Harry.

Malfoy inspirou e expirou, e cada movimento parecia uma terrível tortura para ele. Depois de alguns segundos ele acalmou, baixando o peito e fechando os olhos. Nem Harry nem Neville falaram nada.

Pouco depois, abrindo os olhos, o cinza incomum já sem aquele brilho característico de pessoas vivas e saudáveis, ele disse, "Eu tenho... tanta sorte... Não tenho mais que olhar para o demônio... Gina... Gina está... em King Cross..."

Malfoy teve que parar para recuperar o folego e nenhum dos outros dois proferiu um som.

"Tenho certeza que ela comprou dois bilhetes para nós...", continuou sofregamente. "Assim poderemos ir o quão longe pudermos... O quão longe pudermos..."

"Gina está te esperando?", perguntou Potter depois que Malfoy ficou quieto.

"Por favor", continuou Malfoy, "Proteja Gina por mim... Proteja Gina..."

Harry ficou o olhando, sem saber o que dizer. Malfoy inspirou outra vez e lentamente, como uma criança, fechou os olhos e sua expressão relaxou. A mão que agarrava as vestes de Potter bateu contra o colchão. Aquilo fez Harry se tocar.

"Não morra", ele disse, passando a mão pela testa de Malfoy para afastar o cabelo grudado com o suor. Malfoy não se moveu.

"Você tem que ir à estação, certo?", continuou Potter. Malfoy continuou imóvel.

Harry ficou olhando para o rosto dele em silêncio, muito quieto, esperando. Então, uma mão pegou suavemente em seu ombro e o puxou para trás. Harry resistiu, inclinando-se sobre seu antigo arqui-inimigo.

"Não morra...", disse, agarrando a mão inerte de Malfoy e pousando a cabeça no colchão.

"Não morra!"


N/A:

Obrigada a Jacih e a fermalaquias pelas reviews queridas (: