OS MEDALHÕES DE ZETA

por Nina Neviani

Capítulo II – Alberich, o rei de Arkor

Depois de deixar seu pai sozinho para resolver os assuntos do reino, Hilda encaminhou-se para o seu quarto. Enquanto cruzava os longos e bem decorados corredores do castelo, a princesa ainda pensava na conversa que tivera com seu pai. E não podia deixar de imaginar. "E se ocorresse uma guerra entre os dois reinos?" Era uma perspectiva horrível, mas não era impossível de ocorrer. Ainda mais com a mudança de rei.

Mesmo nunca tendo ocorrido um desentendimento mais sério, nenhum dos dois reinos deixava de estar sempre preparado para uma possível guerra. Tanto que Hilda teve ensinamentos de táticas de guerra desde os doze anos. Ela, segundo os padrões mizarianos, por ser mulher jamais iria para o campo de batalha, mas como filha mais velha do rei – este sim estaria na frente de batalha -, ela tivera que aprender a comandar o exército do reino de dentro da segurança de seu palácio.

Em se tratando de luta propriamente dita, Hilda não sabia muita coisa. Sempre preferira os livros às aulas de esgrima e arco e flecha, modalidades que eram consideradas "defesa pessoal". Hilda sabia apenas o básico de luta, em compensação era uma ótima amazona.

Entrou no seu quarto e logo percebeu que não estava sozinha no amplo cômodo: sua irmã Freya também estava lá. E virou-se para Hilda como se tivesse sido pega fazendo algo ilegal.

– Nossa, Hilda! Que bom que você chegou, eu estava preocupada com a sua demora. Estava aqui vendo se via você chegar, mas você não veio por esse caminho.

– Mas é claro que eu não viria por esse caminho – falou calmamente. – Já que os jardins, que é onde eu vou passar todas as tardes, ficam ao sul do palácio e o meu quarto, onde nós estamos, fica na ala leste do palácio – vendo a irmã corar, acrescentou. – No pátio da ala leste é onde fica a maior parte dos guardas-reais – agora Hilda caminhava para onde a irmã estava. – Aliás, é aqui que normalmente fica o chefe da Guarda real, o Hagen.

A princesa mais velha afastou a luxuosa cortina e apontou para um belo guarda loiro e disse:

– Olhe, ele está bem ali.

– Hilda! – Freya a repreendeu, completamente corada, baixou o dedo da irmã e fechou a cortina.

Hilda sentou-se na cama e começou a rir. Freya sentou-se ao lado dela, porém não ria, ao contrário, parecia estar braba e magoada, o que era muito raro de acontecer.

As duas irmãs não se pareciam muito. Enquanto Hilda era muito parecida com o rei César, Freya tinha os traços, os cabelos e os olhos da rainha Ana, que era loira e tinha olhos verdes.

Hilda tocou levemente o braço daquela que era a pessoa mais importante da sua vida e perguntou:

– Você gosta dele, não é?

Freya levantou-se muito rápido e novamente corada, explicou:

– Claro. Como você deveria gostar também! Esqueceu que ele salvou a vida do nosso pai?

Não, ela não esquecia. Três anos antes, quando Hagen tinha apenas dezessete anos, o jovem membro da Guarda Real fazia parte de um pequeno grupo que escoltava o rei de Mizar até um vilarejo próximo. No caminho de volta, a comitiva foi assaltada e um dos ladrões, que depois foi se saber que era um arkoriano renegado, atirou uma flecha envenenada na direção do rei. A flecha provavelmente teria matado o rei César se Hagen não tivesse usado seu próprio corpo como escudo. O jovem Hagen ficou muito ferido, e alguns dias depois quando já estava consciente, acordou, já em seu reino, e, quando já estava totalmente recuperado, foi nomeado pelo rei como Chefe da Guarda Real. Por quinze anos o rei não encontrava um soldado que estivesse a altura do cargo.

Nos três anos que já estava a frente da Guarda Real, Hagen estava desempenhando um trabalho exemplar. Sempre muito justo e dedicado, fez com que o exército se encontrasse mais organizado e unido do que nunca.

– É claro que eu não me esqueci. Aliás, sou muito grata a ele. Contudo, não acho que esse seja um motivo para me apaixonar por ele. – Hilda declarou calmamente.

– Mas eu também não estou apaixonada por ele.

– Não?

A princesa mais nova desistiu de mentir para a irmã. Sentou-se na cama ao lado dela e deixou-se ser abraçada.

– Faz tempo que você gosta dele?

– Não sei exatamente. Desde que ele salvou o papai, eu o achei... interessante. Mas era só um deslumbramento. Também naquela ocasião, eu só tinha 14 anos. Mas de uns meses pra cá, eu venho pensando bastante nele. Na sua dedicação, e tudo que ele vem fazendo por Mizar...

Freya saiu do abraço e novamente levantou-se da cama.

– Mas é uma bobagem minha – soltou um suspiro desanimado. ­– Ele nunca vai olhar para mim.

Hilda franziu a testa ao ouvir o que Freya disse, a princesa mais jovem continuou:

– É verdade. Olhe para ele – e apontou para onde ele estava. – Ele é bonito, inteligente, respeitado... Jamais vai olhar para mim.

– Certo. Agora olhe para você. – Hilda também estava em pé e segurava delicadamente o rosto da irmã. – Você é linda, inteligente, meiga, querida por todos do reino, uma verdadeira princesa – um sorriso tímido surgiu nos lábios de Freya, e Hilda continuou – Ele seria cego ou bobo para não "te enxergar". E, levando em conta como ele te olha, ele não me parece ser nenhuma das duas coisas.

Freya teve uma pontinha de esperança, mas logo voltou a não acreditar na possibilidade de um futuro juntos para ela e o soldado. Balançou a cabeça e disse:

– Você só está falando isso para me agradar.

– Eu alguma vez já menti para você?

– Não...

– Então. Só que eu acho que é melhor dar tempo ao tempo. Você ainda é muito jovem...

– Hilda! Você só é um ano mais velha do que eu!

– Só que eu não estou apaixonada.

– Não?

– Não. – A voz de Hilda, assim como ela, estava calma e sem nenhum sinal de hesitação.

– Você nunca se apaixonou?

– Não. – pensou melhor e disse – Bom, quando eu era pequena eu conheci um menino. Eu só o vi uma vez, e nem fiquei apaixonada, pois só tinha sete anos. Só foi, como você mesma disse, um deslumbramento.

Freya estava surpresa.

– Eu nunca soube disso! Ele era daqui?

– Não foi nada importante – pela primeira vez mentia para a irmã, resolveu voltar a ser sincera. – E não, ele não era de Mizar.

Foram interrompidas por uma criada que bateu na porta, abriu-a e disse:

– Princesa Hilda – fez uma mesura. – Princesa Freya – fez outra mesura. – Vim avisá-las que o jantar será servido em uma hora.

Pediu licença e deixou o quarto.

As irmãs se separaram para se arrumar para o jantar.


Uma semana depois...

O sol estava se pondo lentamente. E lentamente também ia diminuindo a tristeza do povo arkoriano por causa da morte de Isaac Megrez.

Siegfried estava sentado no gramado da casa que havia sido dos seus pais. Parecia que todos os que ele amava o deixavam. Seus pais morreram quando ele tinha três anos. No dia anterior seu tio fora enterrado. Siegfried apoiou a cabeça no tronco de uma árvore. Sentia-se perdido. Ainda não conseguia acreditar que seu tio, o seu único ponto de apoio, não estava mais vivo. E por causa de Alberich. Não sabia que era maior: a tristeza por causa da morte do tio ou o ódio que estava sentindo pelo primo assassino.

Todos os arkorianos estaviveram presentes no enterro do seu rei. O caixão foi levado por Siegfried e Alberich, que não trocaram um palavra sequer. Contudo, ninguém percebeu o clima pesado entre os primos.

Siegfried sentia as costas doerem, desde que aquele mesmo sol estava nascendo ele estava sentado ali. Quisera pensar sobre sua vida, e ali parecera o lugar ideal. No entanto, várias horas já haviam se passado e ele continuava na mesma indecisão. A vontade que tinha era de sumir de Arkor. Queria ir para um lugar bem longínquo, onde ninguém o conhecesse. Mas não podia. Tinha compromissos em Arkor, e também não podia dar as costas para o reino que o acolhera.

Levantou-se e decidiu que ficaria em Arkor até quando o reino precisasse dele, ou até quando agüentasse conviver com Alberich.

O sol já havia desaparecido por completo quando chegou em Arkor. Na grande área descampada na frente da casa da família real, mesas estavam postas, um grande fogueira estava começando a ser acesa e alguns músicos começavam a tocar. Só então o guerreiro lembrou que dia era aquele: o sétimo dia da morte do antigo rei. O dia da coroação do novo rei. Se tivesse lembrado antes esperaria mais um dia para voltar para Arkor.

Pensou em ir embora quando viu uma bela garota, de olhos claros e cabelos ruivos que quase chegavam na cintura, caminhar em sua direção. Lorina. A mulher com quem se casaria.

– Siegfried! Estava preocupada com sua demora. Vá se aprontar, a festa logo começará. Deixe que eu cuido do seu cavalo, você já está atrasado

Ele concordou e entrou em casa. Agora não pensava mais na morte do tio, ou em como não tinha muita sorte em sua vida. Pensava no sentia por Lorina. Ou melhor, no que deveria sentir por Lorina e não sentia. Quase todos os homens do reino dariam tudo para ser o futuro marido dela. Mas ele que seria o felizardo não via o destino com muita empolgação.

Ela era bela, uma ótima guerreira, carinhosa... Enfim, não tinha, aparentemente, nenhum defeito.

Lembrava-se perfeitamente do dia em que a conhecera. Ele estava com dezesseis anos e já era considerado o melhor guerreiro do reino. Por causa disso, muitos garotos sempre o desafiavam para qualquer tipo de competição. Cada um acalentava o sonho de vencê-lo, e assim poder dizer que derrotara Siegfried Dubhe.

E era justamente isso que ocorria naquele dia: uma competição de arco e flecha. E como era de se esperar, nenhum outro garoto era melhor do que Siegfried. Então, uma garota magra e de cabelos vermelhos o desafiara. Muitos garotos riram da ousadia dela. Siegfried, no entanto, olhava-a intrigado e resolveu entregar o arco para aquela menina que escutava as provocações com o queixo erguido e com um brilho de determinação no olhar. Ela silenciou os presentes com um lançamento perfeito. Exatamente no alvo. Como somente Siegfried fizera até então. Ela devolveu o arco para ele, o desafiando a fazer um lançamento tão perfeito como aquele. E foi o que Siegfried fez. E ficaram naquela disputa por mais dois lançamentos de cada. Todos perfeitos. Até que ela disse:

Você sabe, tanto quanto eu, que nenhum de nós vai errar tão cedo. Sugiro uma outra forma de desempate.

Os garotos ainda estavam abismados com a ousadia dela, desta vez, porém, nada disseram.

O que você sugere? – Siegfried perguntou calmamente.

Corrida de cavalos.

Certo.

A corrida foi realizada, e Siegfried a venceu com uma vantagem muito pequena. Quando chegaram no local estabelecido como fim, notaram que o rei de Arkor observava a disputa. Silêncio. Isaac Megrez parabenizou o sobrinho pela ótima corrido e pelos lançamentos perfeitos. E dirigiu-se à menina, sorriu quando ela ergueu a cabeça num gesto altivo antes de abaixá-la para reverenciá-lo. O rei ajudou-a a descer do cavalo e perguntou.

Qual é o seu nome?

Lorina.

É uma excelente amazona, Lorina. E tem uma ótima mira também. Fico feliz em saber que Arkor, daqui alguns anos, terá guerreiros do seu nível. Gostaria de falar com seus pais qualquer dia desses.

E poucos dias depois, era anunciado que Lorina e Siegfried estavam prometidos. Seu tio lhe dissera:

Ela dará uma boa esposa, e se seus filhos forem guerreiros como vocês dois, nenhum exército será páreo para o exército arkoriano. E creia-me, filho: com o tempo você aprenderá a amá-la.

No entanto, cinco anos já haviam se passado e Siegfried ainda não tinha aprendido a amar a bela guerreira. Não como deveria amar aquela que seria sua esposa. Amava-a como uma amiga.

Quando Siegfried voltou para onde a festa ocorreria, a música alegre já podia ser escutada em quase todas as partes do reino. Adultos e crianças festejavam o novo rei. Siegfried logo viu Alberich. O novo rei estava conversando com dois respeitados guerreiros e estava cercado por duas garotas que, ao contrário dos homens, não tinha uma reputação muito boa.

A seguiu conforme o esperado por Siegfried. A coroação de Alberich não o comoveu nenhum pouco. Mais tarde, o guerreiro dançou algumas músicas com Lorina, Alberich também o fez. Para o melhor guerreiro do reino era óbvio que o atual rei sentia algo mais forte do que admiração por Lorina. Ou, não. Alberich sempre invejara tudo o que era de Siegfried. Por que com a prometida seria diferente?

Lorina estava do seu lado e disse:

– O rei Alberich quer falar com você.

– Comigo? – Siegfried estranhou, desde o dia em que conversaram na Floresta dos Espíritos os primos não tinham conversado mais. Se é que o que tiveram aquele dia poderia ser considerado conversa.

– Sim. Com você e com os principais guerreiros do reino.

Ele entendeu o começou a caminhar, quando percebeu que Lorina não o seguia.

– Você não vai?

Ela balançou a cabeça negativamente antes de explicar:

– Ele quer falar apenas com os guerreiros homens.

Siegfried nada disse e voltou a caminhar. Alberich já começava a dar mostrar do quanto aquela administração seria diferente da anterior, pois Isaac Megrez jamais distinguira seus guerreiros por eles serem homens ou mulheres.

Suspirou e caminhou até a casa da família real de Arkor e lá rumou para a sala de reuniões. O cômodo estava quase cheio, pelo visto só esperavam por ele. E não havia, como Lorina havia dito, nenhuma mulher. Não que houvesse muitas guerreiras no reino, não mais do que quinze, mas ainda assim, Siegfried não via motivo para discriminação, nas lutas que participaram elas mostraram ser tão fortes e valentes como os homens.

Alberich começou a falar quando percebeu que seu primo já estava presente.

– Primeiro, queria agradecer a presença de vocês, meus valentes guerreiros.

– Por que as guerreiras não estão aqui? – Siegfried não se conteve. Afinal, não havia prometido a si mesmo que ajudaria Arkor no que fosse preciso? Por isso não deixaria que o reino perdesse guerreiras importantes só porque Alberich era preconceituoso.

O rei provavelmente não gostara nada daquela interrupção em seu discurso, no entanto nada disse a esse respeito. E com uma falsa calma explicou:

– Porque estou aqui para falar de uma missão. A primeira missão como rei de Arkor. E está tarefa se passará em Mizar. – disse com desprezo na voz, no entanto Siegfried não se preocupou com o modo que o primo falava do outro reino, mas na loucura que ele parecia estar prestes a fazer. Ao que parecia, pelo espanto estampado no rosto de alguns guerreiros, eles compartilhavam o pensamento de Siegfried.

Alberich continuou:

– E como acredito que todos saibam, lá não existem guerreiras mulheres. De forma que um guerreiro homem até poderia passar despercebido, mas uma mulher não.

– O que você pretende fazer, Alberich? – Siegfried estava ansioso para saber o que se passava na mente insana do primo.

– Muito simples, eu o rei Alberich tive uma idéia muito simples para reverter, ao menos em parte, a nossa situação não muito confortável. – E olhando para o primo o rei disse – Daqui a dois dias nós seqüestraremos a princesa Hilda.

Continua...


N/A: O que acharam do segundo capítulo? Aguardo as opiniões nas reviews!

Falando em reviews agradeço as do capítulo passado! Muito obrigada!

Sem muito o que falar... Até o próximo capítulo!

Próximo capítulo: O seqüestro de Hilda.

Abraço!

Nina Neviani