OS MEDALHÕES DE ZETA

por Nina Neviani

Capítulo IV - Destino

A viagem de Mizar até a casa dos Duhbe foi terrível tanto para Siegfried quanto para Hilda. Para ele, porque estava próximo demais de uma garota que sempre o fascinara e não podia fazer nada. Nada, além de segurá-la firme para que não caísse do cavalo. Mesmo sabendo - pelas suas secretas observações – que a princesa era uma ótima amazona, não queria correr o risco de que ela se machucasse. Já Hilda percebia o quando fora tola. Céus! Uma dia seria a rainha de Mizar! E praticamente jogara-se nos braços do seqüestrador. Era triste acreditar que aquele menino bondoso que a ajudara era agora o seu seqüestrador. E ainda fora baixo o bastante para usar o medalhão para raptá-la. Bem, o que mais se podia esperar de um arkoriano! A princesa se deu conta da maldade do seu pensamento e recriminou-se. Orgulhava-se de poder dizer que nunca fora preconceituosa com os arkorianos. E mesmo que estivesse passando por uma situação difícil por causa de um deles, não mudaria sua forma de pensar. Os arkorianos não eram perfeitos, assim como os mizarianos também não eram, ou qualquer outra pessoa do mundo era.

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Horas depois chegaram a uma casa enorme. Era incrível que ela pudesse estar tão bem escondida pela vegetação local. A residência era térrea, e pelas estimativas de Hilda deveria ter quase metade do tamanho do palácio de Mizar, e mesmo sendo uma casa antiga deveria ter um valor elevado. O que mostrava o quanto o seu seqüestrador era ambicioso. Pois mesmo tendo uma ótima casa, fora em busca de mais dinheiro. Ou será que se tratava da questão política Mizar x Arkor? Era possível.

No entanto, Hilda, mesmo nunca tendo estado no reino rival, desconfiava que não estava em Arkor. Pelos relatos que lia e ouvia, o reino parecia ser muito pobre e jamais teria uma construção como aquela. Mas se não estavam em Arkor, e nem em Mizar... Onde estavam?

– Desça.

A voz, para irritação da princesa, era grave e bela e mesmo dando uma ordem estava longe de ser rude. Parecia mais um pedido do que uma ordem. Ela obedeceu, afinal o que mais poderia fazer? Seguir montanha abaixo com o cavalo do seu raptor? Era uma hipótese. Pouco inteligente, porém, já que o cavalo parecia ser extremamente fiel ao seu dono.

No chão, sem a proteção dos braços fortes, Hilda sentiu frio. Ele pareceu perceber, pois disse:

– Vamos entrar. Lá dentro está mais quente.

– E o seu cavalo? Não vai prendê-lo? – Por que perguntara, afinal! Se o cavalo fugisse o problema era dele e não dela.

– Não costumo prendê-lo. Ele é muito obediente, não fará nada sem o meu comando.

A casa, no interior, era bonita e elegante, combinado simplicidade com riqueza. Conforme ele ia acendendo as luzes, Hilda percebia que não havia muitos móveis ou enfeites, mas os que existiam era de muito bom gosto. Quando o cômodo em que estavam já se encontrava totalmente iluminado, ela pôde ver o seu seqüestrador.

Agora tinha certeza de que ele era o mesmo garoto que salvara o seu coelho Grin. O menino bonito se transformara em um lindo homem. Era alto, forte, tinha olhos azuis e os cabelos loiros chegavam aos ombros. Hilda decidiu parar de analisar a beleza física do seu seqüestrador, o melhor a fazer era se interar da situação. Por isso, perguntou:

– Quanto você vai pedir pelo resgate? – Tratou-o de maneira informal, pois ele parecia ser jovem também.

– O quê?

– Que quantia você vai pedir ao meu pai pelo meu resgate? – Falou mais devagar, para amenizar o sotaque mizariano.

– Você acha que isso é um seqüestro?

– E não é? Se eu não fosse a princesa de Mizar, eu estaria aqui?

– Não estaria. No entanto, deixe-me esclarecer alguns pontos, princesa. A sua saída de Mizar foi para o seu próprio bem. Porque, caso continuasse lá, a princesa seria realmente seqüestrada.

– Como?

Siegfried respirou forte antes de começar a explicar.

– Alberich, o novo rei de Arkor, estava pensando em seqüestrá-la amanhã e assim conseguir benefícios com Mizar.

Hilda ainda não acreditava e desconfiada, perguntou:

– Supondo ser verdade, como você sabe disso?

– Eu sou um dos guerreiros de Arkor e Alberich nos revelou seu plano ontem.

Que ele era um guerreiro, era óbvio com aquele físico. Mas algumas coisas, para Hilda, ainda não faziam sentido.

– Quem é você? Digo, poderia me dizer o seu nome?

– Sou Siegfried Duhbe.

Nenhuma outra coisa que ele tivesse falada a teria chocado tanto. Quando recuperou a fala, perguntou:

– Você é... Siegfried? Siegfried, o guerreiro mais forte que já existiu?

Com toda a certeza, todos os mizarianos já ouviram falar de Siegfried, mas poucos já o tinham visto. Então, apenas imaginavam como ele seria. Hilda, por exemplo, o imaginara quase como um gigante, bem mais velho e desprovido de beleza. Exceto pela estatura elevada, ela imaginara completamente o oposto. Siegfried era um dos homens mais belos que ela já vira.

– Sim, acredito que seja – ele a trouxe de volta à realidade.

Após um período de silêncio, ela perguntou:

– Por quê?

Siegfried suspirou. Sabia que ela se referia ao seqüestro.

– Eu jamais poderia ver alguém sofrer para que Arkor comece a progredir.

– Um arkoriano prejudicando Arkor pelo bem de Mizar?

O argumento dela estava certíssimo e Siegfried decidiu ser sincero. Qualquer mizariano preferiria morrer a prejudicar Arkor em favor de Mizar.

– E eu não poderia ajudar um dos meus reinos prejudicando outro.

A princesa demorou algum tempo para entender.

– Você é um meio mizariano?

– Sim.

Era difícil de acreditar.Siegfried, o grande guerreiro, também era mizariano. Ele era um mestiço! E isso era raro. Aliás, não conhecia nenhum outro mestiço. Então, lembrou-se que ele era membro da família real de Arkor.

– A sua mãe, a princesa de Arkor, teve um filho com um mizariano?

– A minha mãe se casou com um mizariano, e teve um filho com ele. E moravam nessa casa.

– Onde estamos?

– Não se preocupe, não estamos em arkor. Nem em Mizar. Essas terras são igualmente afastadas dos dois reinos.

Ela assentiu, orgulhando-se de sua intuição quando deduziu que não estavam em Arkor. Então deixou a curiosidade falar mais alto e perguntou:

– Como aconteceu? Digo... seu pai sendo mizariano e a sua mãe arkoriana...

– Não sei. Ele morreram, ou melhor, foram mortos, quando eu ainda era muito novo para fazer perguntas como essa.

– Eles foram mortos? – vendo ele assentir, continuou – Por quem?

– Por um mizariano.

Notou o olhar surpreso e assustado dela e acrescentou:

– É uma longa história.

– Pelo que parece tenho tempo para ouvi-la – disse enquanto sentava-se em uma poltrona.

Siegfried permaneceu em pé.

– Meu tio, Isaac Megrez, me contou que o meu pai, Ian Duhbe, antes de se casar com a minha mãe, estava prometido com uma nobre mizariana, filha de um dos membros da Guarda Real de Mizar. O pai dela não aceitou que a filha fosse trocada pro uma arkoriano e quando eu tinha aproximadamente três anos, eles descobriram a localização da nossa casa.

– A minha mãe era uma excelente guerreira e meu tio disse que meu pai também era. E para Isaac Megrez admitir que um mizariano guerreava bem, imagino que o meu pai era excelente.

– Se eles eram tão bons... – Hilda interrompeu seu discurso ­– Desculpe-me, Siegfried. Eu não...

Porém, Siegfried entendera o que ela quisera dizer e ironicamente explicou:

– Só que os meus pais ainda não sabiam lutar dormindo.

– Seus pais estavam...

Ele confirmou com um gesto. Ficaram em silêncio por um bom tempo, até Siegfried falar.

– A princesa deve estar cansada. O último quarto do corredor está arrumado.

Ela assentiu, mas não seguiu imediatamente para lá, antes perguntou:

– O que você pretende fazer?

– Passaremos hoje e amanhã aqui, na manhã seguinte, partiremos para Mizar.

Ela concordou.

– Obrigada. – E virou sem esperar por resposta.

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Era incrível como o destino gostava de pregar peças nos mortais! Hilda pensava. Jamais imaginaria que aquele menino que a ajudara em um momento difícil, há mais de uma década, se transformaria no famoso Siegfried Duhbe. E a princesa jamais imaginaria também que ele desafiaria o seu próprio rei para salvá-la.

Outro capricho do destino: O maior guerreiro da região era uma mestiço. Um mestiço!

"O que será que papai achará disso?"

Então a princesa pensou na preocupação que seu pai poderia ter em algumas horas quando ela não aparecesse para o café da manhã.

Hilda levantou-se e foi até a janela, que estava convenientemente trancada com um cadeado. Se bem que mesmo que ela estive escancarada ela não sairia. Agora que entendia que não estava sendo seqüestrada e que sabia que estava ali para o seu próprio bem faria tudo o que Siegfried mandasse. Não queria que ele se prejudicasse por estar ajudando Mizar.

Olhou novamente o cômodo que ocupava. O quarto era confortável, tinha uma cama de casal, mas algo dizia que aquele não era o quarto principal. Até porque era pouco provável que o guerreiro a colocasse no quarto em que ocorrera o assassinato.

Hilda ainda estava chocada com a situação. Provavelmente seu pai sabia do ocorrido. Afinal, o assassino era um membro da Guarda Real de Mizar. Quando voltasse ao reino ela conversaria com seu pai e caso o assassino não tivesse sido punido, ela faria questão que fosse. Ponderou o quanto Siegfried era bondoso. Ele desafiava o seu próprio primo para que a princesa do reino do assassino dos seus pais não fosse seqüestrada. Ela sabia que estava em dívida com ele. E pagaria essa dívida ou não chamava Hilda Polaris.

Sentiu os olhos pesarem. Fazia quase vinte e quatro horas que não dormia. Por ora dormiria, mais tarde pensaria em uma maneira de recompensar Siegfried.

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O que estava feito, estava feito! Siegfried não queria pensar que tinha traído o reino que o acolhera. Era melhor pensar que uma inocente não pagaria pelas insanidades de seu primo.

Siegfried não entendia a estranha necessidade que ele próprio sentia de proteger Hilda. Nem a conhecia direito! A única vez que tinha se falado, com exceção da conversa que tinham tido há pouco, foi quando eram crianças, mas mesmo assim era como se conhecesse a princesa mais velho de Mizar durante toda a vida. Era certo que sempre que ele podia observava Hilda descansar nos jardins, mas não era nem um contato.

Agora, ela era uma das poucas pessoas que ele era um mestiço. O fato fora mantido em absoluto segredo. Somente seu tio e Alberich sabiam. E agora, Hilda.

Ficaria acordado vigiando a casa, mesmo tendo sido muito cuidadoso ao sair de Mizar. Não se importava de ter que ficar muito tempo sem dormir, já que por ser guerreiro estava acostumado. O pior, conseguir tirar Hilda do palácio sem alarmar os guardas, já tinha sido feito.

Siegfried assim pensava. Mas não sabia que o pior ainda estava por vir.

Continua...

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N/A: Mais um capítulo! A princípio, o título desse capítulo, seria o título da fic.

O meu muitíssimo "Obrigado" aos que comentaram no capítulo passado.

Obrigada mesmo.

O quarto capítulo está aí. E eu adoraria saber o que vocês acharam.

Ah, o próximo capítulo só sai se eu achar que o número de reviews foi adequado. Detalhe: o capítulo cinco já está escrito! Agora só depende de vocês!

Beijos e até o próximo capítulo (se ele sair!)!

Nina Neviani.